terça-feira, 14 de junho de 2011

Bahia: Petistas rebatem declarações de Alice

As polêmicas declarações da deputada federal, pré-candidata do PCdoB à prefeitura de Salvador, Alice Portugal, concedidas a Tribuna ontem confirmaram o clima de divergência, existente entre o partido e o PT, em relação à estratégia eleitoral para vitória da base na corrida municipal de 2012, na capital.
Petistas baianos com representação estadual e federal minimizaram o impacto das palavras da comunista, porém discordaram de forma enfática de seu posicionamento. Em entrevista, a deputada não só reafirmou a postulação da legenda, como também mandou recado ao dizer que “o PT precisa entender que os aliados existem”.

Nos bastidores, há quem registre sinais de desentendimento dentro da base. O presidente do PT, Jonas Paulo, rebateu o questionamento da deputada ao dizer que: “Se o PT não entendesse seus aliados não estaria tendo reunião com os partidos, como a que teve hoje (ontem). Se estou fazendo esse movimento é porque estamos fazendo parceria com os aliados, mas queremos ressaltar que o projeto deve estar em primeiro lugar”, enfatizou.
 
O deputado federal Nelson Pelegrino, mais cotado para se firmar como pré-
candidato do PT na sucessão ao Palácio Thomé de Souza, considerou a legitimidade do PCdoB, mas deixou claro que a posição do aliado histórico não corresponde à expectativa do governador Jaques Wagner, que deve ser o grande condutor do processo eleitoral.

“É um direito do PCdoB, mas eu sou da tese do governador, que prega a união em torno do lançamento de uma só candidatura. Temos que deixar as portas abertas”, avisou.

Segundo Pelegrino, a tendência do PT é a de trabalhar na perspectiva de construção da aliança não apenas em Salvador, como em todo o estado. “Inclusive em outros lugares que o PCdoB tem pré-candidato”, disse numa alusão aos municípios em que os comunistas já teriam postulantes, a exemplo de Vitória da Conquista.
Questionado sobre a oposição que pode se unir em torno de uma única candidatura, prejudicando a tática, Pelegrino afirmou: “Se a oposição se unir é natural que a base também se una”.

Forte aliada de Pelegrino, a deputada estadual Maria Del Carmem (PT) comungou de seu pensamento. “É legítimo que Alice lance pelo seu nome, sua história de atuação na vida política, mas nós temos um projeto em comum encabeçado pelo governador Jaques Wagner”.  (Romulo Faro -TB)

Bahia: Democratas anuncia que terá candidato à prefeitura de Salvador

O discurso de que a oposição baiana, leia-se PSDB, DEM, PMDB e PPS, se uniria em prol de uma única candidatura para a disputada vaga no Palácio Thomé de Souza não deve se confirmar. Além do PSDB, ontem foi a vez do DEM oficializar que terá candidato próprio para o embate.

Na tarde de ontem, em encontro na sede do partido, os líderes democratas, inclusive, bateram o martelo em torno dos nomes do presidente José Carlos Aleluia e do deputado federal ACM Neto.
“Nos comprometemos a trabalharmos juntos e mais para frente decidiremos em torno de um nome. Ficou acertado também que continuaremos dialogando com os outros partidos de oposição com o objetivo de forjar uma chapa bastante competitiva”, afirmou Aleluia.
Há menos de uma semana, o PSDB também anunciou que terá candidatura própria a prefeito e a vice nas grandes e médias cidades baianas em 2012 e a capital baiana, sem dúvida, não ficará de fora. Em entrevista à Tribuna, o presidente estadual da sigla, Sérgio Passos, afirmou em “alto e bom som” que um partido com forte representatividade nacional, sendo o adversário mais forte em âmbito federal, não pode ficar à margem do processo eleitoral.

“Portanto, vamos trabalhar para lançarmos candidatos na capital e nas grandes cidades do interior e nas pequenas de porte o máximo possível.

Onde não lançarmos na cabeça de chapa queremos ter participação”, avisou. Perguntado sobre se isso não seria contraditório com o objetivo de unificação das oposições, Passos disse que: “Na política, todos colocam suas posições para depois, através das convergências, se buscarem a formação daquilo que se deseja”, disse.

O próximo a divulgar essa possibilidade tende a ser o PMDB, liderado pelo deputado federal Lúcio Vieira Lima. A opinião de Lúcio é de que a eleição em dois turnos abre caminho para esse movimento.

“Na verdade, a base aliada vai ter vários candidatos. É como tem que ser. No segundo turno, os partidos próximos ideologicamente conversam em termos de projeto”. No PMDB, os nomes mais cotados são o do ex-ministro Geddel Vieira Lima, o do ex-deputado federal  Marcelinho Guimarães e o ex-secretário Fábio Mota. (fernanda Chagas - TB)

Renan apresenta voto contra fim da reeleição


Relator na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) apresentou voto contrário às propostas que mudam a Constituição para acabar com a possibilidade de reeleição de presidente da República, governadores e prefeitos e para instituir mandato de cinco anos.
Os integrantes da comissão vão decidir amanhã (15) se seguem o relator ou se aprovam os textos originais, apresentados pela Comissão da Reforma Política do Senado.
Ao se posicionar a favor da reeleição no Executivo, Renan relembrou argumentos que levaram à aprovação da Emenda Constitucional 16, como o tempo insuficiente do mandato de quatro anos para os desafios dos cargos. Para ele, a reeleição permite aos eleitores “premiar os bons governantes com um mandato adicional e punir os maus governantes com a recusa desse mandato”.
Ao rejeitar o mandato de cinco anos, o peemedebista disse ser esta proposta “uma espécie de contrapartida” pelo fim da reeleição no Executivo.

Contra o aumento do mandato, o relator argumenta que a mudança resultaria na não coincidência entre o mandato do presidente da República e o dos parlamentares, “fator que dificulta a governabilidade e facilita a ocorrência de crises institucionais”. Para ele, a mesma duração de mandatos do Executivo e do Legislativo favorece a sintonia de agenda dos dois Poderes. (TB)

PT questiona limites

O PT ajuizou no Supremo Tribunal Federal (STF) uma Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade) questionando os limites geográficos do município de Barra do Mendes (a 406 km de Salvador).
Na ação, o partido afirma que em 2001 um deputado estadual apresentou à Assembleia Legislativa do estado um projeto que corrigia “os limites do município de Barra do Mendes, restaurado em 1958, através da Lei 1.034, desmembrado do município de Brotas de Macaúbas”.

Segundo o PT, a lei não seguiu o que determina a Constituição. A legenda alega que a população dos municípios envolvidos não foi ouvida na época e diz que a lei estadual “afronta norma constitucional asseguradora do direito do município e da população de preservar a integridade e unidade de seu território”.
O partido sustenta que a mudança nos limites de Barra do Mendes desmembrou parte do território do município vizinho de Brotas de Macaúbas, atingindo mais de 680 pessoas, além de outras localidades. (TB)

Ideli diz que será 'afável' na abordagem com Congresso

A nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, afirmou que será "firme nos princípios e afável na abordagem" com os parlamentares no cumprimento de sua nova missão. A catarinense que tem fama de "pavio curto" ponderou em seu discurso de posse no cargo que seus oito anos de mandato como senadora renderam-lhe "cicatrizes" e conferiram-lhe "coragem" para enfrentar os desafios do Congresso de "peito aberto".


Foto: AE
A nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, na cerimônia de posse

Ao tomar posse no cargo em solenidade realizada hoje no Palácio do Planalto, a nova ministra afirmou que manter uma relação de "respeito" com todos os partidos que compõem a base aliada será a "tarefa central" de sua gestão à frente da nova pasta. Ela ressaltou que, paralelamente, estabelecerá um "debate respeitoso e republicano com a oposição".

Numa alusão indireta à utilização de cargos e nomeações no governo como ferramentas de trabalho da articulação política do Planalto, a nova ministra frisou que a "argumentação" será a arma que utilizará no cotidiano aos que desejarem discutir com ela e com o governo "os grandes temas nacionais". Ideli enfatizou que seu trabalho será "conversar, conversar, conversar e negociar" com os líderes da base e da oposição no Congresso.

Apesar do discurso de respeito com os aliados e a oposição, Ideli lembrou que será firme e saberá dizer "não" quando for preciso. "Quando necessário vou dizer não, mas com amabilidade". Ao final, ela ressaltou que caberá a ela apenas "coordenar" a articulação política do governo, porque esta é uma tarefa que compete a todos que participam da gestão da presidente Dilma Rousseff. (AE)

Crise deixa Dilma mais dependente do PMDB, diz Serra

"São quatro consequências de efeitos incertos, mas dificilmente positivos para os rumos do seu mandato", escreveu em seu blog

O ex-governador de São Paulo José Serra, presidente do Conselho Político do PSDB, afirmou hoje, em seu blog, que as trocas ministeriais do governo dificilmente vão causar um efeito positivo para a presidente Dilma Rousseff.


Foto: Divulgação Ampliar
Serra: Governo "não sabe a que veio"
"Nesse processo, a presidente desgrudou-se precocemente do seu antecessor, arranhou a bancada do seu partido na Câmara dos Deputados, tornou-se mais dependente do seu aliado principal, o PMDB, e trouxe para suas mãos a tarefa de negociar projetos e nomeações com o Congresso Nacional e os partidos, com vistas a revitalizar o processo de loteamento político herdado do governo anterior", escreveu. "São quatro consequências de efeitos incertos, mas dificilmente positivos para os rumos do seu mandato."

Serra avaliou que até agora o atual governo federal não mostrou capacidade para estabelecer objetivos e se antecipar aos problemas. O tucano afirmou que a fraqueza maior da atual gestão é "não saber bem a que veio" e disse ver "tropeços" na infraestrutura e "frustrações" nas áreas de saúde, saneamento e educação. "Coisas como 'Brasil sem Miséria' e 'Programa de Vigilância de Fronteiras' ou algo assim, por exemplo, são puros factoides destinados a ganhar um passageiro espaço gratuito nos jornais de TV", criticou.

Na semana passada, o ex-governador avaliou, também em seu blog, que o ex-ministro-chefe da Casa Civil Antonio Palocci era o personagem forte de um "governo hesitante" e "fraco do ponto de vista político e administrativo". "O PT não dispõe de ninguém para substituir Palocci nas funções que exercia. A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), certamente, não terá essa pretensão", afirmou. (AE)

Sarney defende sigilo eterno de documentos

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), defendeu hoje a manutenção do sigilo eterno sobre documentos considerados ultrassecretos. A nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, afirmou que o governo vai defender o sigilo eterno para atender ao desejo de ex-presidentes, como Sarney e Fernando Collor (PTB-AL), hoje senadores e integrantes da base aliada.
Na visão de Sarney, a abertura de documentos históricos pode "abrir feridas" do passado. "Os documentos históricos que fazem parte da nossa história diplomática, do Brasil, e que tenham articulações, como o Rio Branco teve que fazer muitas vezes, não podemos revelar esses documentos, senão vamos abrir feridas". Ele afirmou que é preciso manter o segredo para "preservar" o Brasil.

"Eu tenho muita preocupação que hoje nós tenhamos a oportunidade de abrir questões históricas que devem ser encerradas para frente no interesse nacional. Nós devemos olhar o Brasil. Ultimamente, todos nós nos acostumamos a bater um pouco no nosso País. Vamos amar o nosso país e preservar o que ele tem", disse.
Sarney nega, porém, que sua defesa do sigilo eterno tenha como objetivo ocultar ações suas quando presidiu o País. Ele afirmou que é preciso divulgar tudo que for relativo ao "passado recente". "Sou um homem que nada tenho a esconder".

Segundo a ministra de Relações Institucionais, o governo vai apoiar alterações no texto que tramita no Senado sobre a lei de acesso a informações. A proposta aprovada na Câmara prevê um limite de 50 anos para a manutenção do sigilo de documentos ultrassecretos. Ideli afirma que a intenção do governo é retornar ao projeto original enviado ainda pelo presidente Lula, no qual não havia limite para a renovação do prazo de sigilo dos documentos. (AE)

MP no Senado expõe constrangimento entre Gleisi e Jucá

Impasse sobre tramitação ameaça "acordo de cavalheiros" e recoloca em lados opostos ministra da Casa Civil e líder do governo


Um desentendimento entre a ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), deve trazer à tona esta semana o primeiro constrangimento para a nova composição da articulação política do Executivo no Congresso. O motivo é o impasse sobre um “acordo de cavalheiros”, firmado há oito anos entre os líderes partidários, que trata da tramitação de Medidas Provisórias (MPs) na Casa.

Uma semana antes de assumir a chefia da Casa Civil, a então senadora Gleisi criticou publicamente o líder governista, após sessão tumultuada no plenário que resultou na derrubada de duas MPs. Na ocasião, ela classificou de “condução errada” a decisão de Jucá de manter acordo com a oposição que estabelece um prazo mínimo de tempo para o plenário avaliar as MPs.

 
O tema volta à baila esta terça-feira, quando à meia-noite caduca a MP 525, que permite a contratação de professores substitutos por universidades. Pelo acordo, no entanto, a sessão de hoje seria apenas a primeira de três pela qual a MP teria que passar antes de ir à votação.

Assim como Gleisi, senadores petistas da atual legislatura defendem o fim do entendimento – costurado de maneira informal no início do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Eles defendem que o governo exerça a força da maioria para garantir a aprovação das MPs, cujos conteúdos são considerados prioritários pelo governo.

“É uma das coisas que quero fazer, colocar o acordo em rediscussão”, afirma ao iG o líder do PT, senador Humberto Costa (PE). “Não somos obrigados a cumprir um acordo feito em outro momento, em que a correlação de forças era diferente. Não podemos ficar subordinados a ele. A configuração do Senado mudou, é outro desenho”.

Ironicamente, o acordo mantido por Jucá, que não tem previsão no Regimento Interno da Casa, foi acertado em abril de 2003 por um petista, o ministro Aloizio Mercadante (Ciência e Tecnologia), que na época era líder do governo no Senado.

Na época, a avaliação era que, sem a confortável maioria que o governo goza hoje no plenário, o Planalto dependia da oposição para aprovar as MPs. O acordo era também uma forma de aumentar o prazo de discussão das medidas provisórias, que costumavam chegar da Câmara dos Deputados faltando poucos dias para expirar.

Mérito

A MP 525 é a primeira editada pela presidenta Dilma Rousseff que chega ao Senado – as anteriores foram editadas no governo Lula ou deixaram de ser apreciadas pela Câmara dos Deputados. Procurado, Jucá não retornou as ligações até o fechamento da reportagem. Para Humberto Costa, o mérito da MP 525 "não deve sofrer questionamento". “O que deve gerar polêmica é o fato de que ela chega aqui no dia em que expira sua validade”, assinala.

Segundo o líder do PSDB, senador Alvaro Dias (PR), o posicionamento da bancada em relação à MP 525 será definido em reunião, na tarde de hoje. Porém, o tucano diz que defende a manutenção do acordo. “O mínimo que se possa exigir é tempo para o parlamentar olhar o projeto”, argumenta o tucano. “Essas medidas que derrubamos há duas semanas foram editadas pelo Lula. Não são três dias de tramitação, são meses. O que o governo quer é uma aprovação no escuro, que ninguém saiba o que se está aprovando”. (Fred raposo - iG)

Na posse de ministros, Dilma descarta separação entre técnicos e políticos

Na posse de ministros, Dilma descarta separação entre técnicos e políticos
Dilma Rousseff dá posse a novos ministros da equipe de governo (Foto: Roberto Stuckert Filho/PR)

São Paulo – Durante a cerimônia de posse dos ministros Ideli Salvatti e Luiz Sérgio, respectivamente na Secretaria de Relações Institucionais e na Pesca e Aquicultura, a presidenta Dilma Rousseff deixou claro que gestão eficiente e decisões políticas caminham juntas. Com a declaração nesta segunda-feira (13), em Brasília, ela tenta afastar a ideia de que a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, terá apenas funções de coordenação, sem atribuições de articulação política.

"Do meu ponto de vista, não existe dicotomia entre governo técnico e político", avisou. "Valorizo muito a capacidade técnica e a gestão eficiente (...). Simultaneamente, tenho a convicção que as decisões políticas constituem a base das decisões governamentais", afirmou Dilma. A presidenta acredita que, para alcançar um padrão de desenvolvimento elevado, é necessário uma administração eficiente pelo governo, com "absorção das técnicas mais avançadas disponíveis".

Dilma prosseguiu: "A importância que meu governo atribui à atividade política se reflete na compreensão de que a continuidade das grandes transformações necessárias ao desenvolvimento econômico e social do Brasil só podem nascer da negociação, da articulação de interesses e da nossa capacidade de identificar afinidades e convergências onde à primeira vista parece existir só conflito e diferença".

Gleisi assumiu a vaga ocupada por Antonio Palocci, demissionário por causa do desgaste político provocado pela revelação de que seu patrimônio cresceu 20 vezes nos últimos 20 anos. Por ter uma formação ligada à gestão pública e trajetória política mais breve e até levando em conta o tom de seu discurso de posse, a avaliação de analistas políticos foi de que a articulação ficaria mais a cargo de Ideli ou da própria Dilma.

Além da avaliação sobre o papel da Casa Civil, há ainda queixas relacionadas à distância mantida por outros ministérios e pela própria Presidência da República em relação aos parlamentares.

Conciliadora

Dilma Rousseff adotou um tom de aproximação com os partidos que compõem a coalisão de governo. Dilma convocou os partidos da base para "trabalharem juntos".

"Para trilhar esses caminhos (do desenvolvimento) e fazer o que o país espera de nós precisamos trabalhar todos juntos. O governo não é só o Poder Executivo, mas a ampla coalisão que soubemos pactuar e que representa, antes de mais nada, o povo que nos elegeu", disse a presidenta 
Política fiscal compatível

Dilma ainda afirmou que a política fiscal e monetária do país é compatível com o crescimento e a geração de empregos. Segundo a presidenta, o governo atua desde o início do ano de forma determinada a manter a estabilidade econômica do país, controlar a inflação e garantir superávit primário.

"Ao mesmo tempo, essa política monetária e fiscal foi e é compatível com a garantia do crescimento e da geração de empregos", afirmou. (Anselmo Massad - RBA)

Ideli quer ajuda da oposição na relação com Legislativo

Ideli quer ajuda da oposição na relação com Legislativo
Para Ideli, o diálogo entre o governo e a oposição iria contribuir para aprimorar a relação entre Legislativo e Executivo (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

São Paulo – Ao tomar posse como ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Ideli Salvatti declarou que tanto governo como oposição precisam contribuir para aprimorar a relação entre Executivo e Legislativo. Prometendo muito diálogo, a nova ministra afirmou que será "firme nos princípios e afável na abordagem".

"Sempre ganhei mais batalhas conciliando do que divergindo", afirmou. "Não sou pessoa de duas palavras. Acordos serão cumpridos, mas, se modificados, comunicados e negociados", comprometeu-se.
O trabalho na secretaria "será o de conversar, conversar, conversar e negociar", resumiu Ideli. "Governo e oposição podem e devem contribuir para a boa relação entre Legislativo e Executivo", sugeriu. "Contem comigo, conversem comigo, divirjam e convirjam comigo."

Ideli ocupava o ministério da Pesca e Aquicultura e trocou de posição com Luiz Sérgio. As dificuldades nas relações entre governo e Congresso Nacional foram decisivas para a mudança, a segunda no primeiro escalão do governo da presidenta Dilma Rousseff em menos de uma semana. Antes, Antonio Palocci deixou a chefia da Casa Civil para a senadora Gleisi Hoffmann.

A nova ministra terá, ainda nesta semana, um primeiro desafio, o de negociar a inclusão do regime diferenciado de contratações (RDC) em uma das Medidas Provisórias em pauta na Câmara dos Deputados. O modelo altera licitações para projetos relacionados à Copa do Mundo de 2014.

Pesca


Luiz Sérgio, por sua vez, disse que se sentia "apenas mudando de trincheira". Ele deixou a pasta em meio a críticas de que não estaria sendo eficiente no diálogo do governo com Congresso. O ministro afirmou, no entanto, que cumpriu sua tarefa, buscando mais ouvir que falar na relação com deputados, senadores, governadores e prefeitos.

Ao tomar posse hoje na pasta da Pesca, Luiz Sérgio considerou que o governo colecionou vitórias no Congresso durante sua gestão e lembrou a aprovação de cinco medidas provisórias, além do reajuste do salário mínimo.

Luiz Sérgio disse que sua intimidade com a questão da pesca vem da infância em Angra do Reis (RJ). Como deputado, ele participou de mobilizações para a criação da pasta durante o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Vamos arregaçar as mangas, jogar as redes e pescar", anunciou o ministro. Ideli, ao assumir, desejou sorte ao sucessor, e pediu ainda que ele "cuide bem dos peixinhos". (RBA)

Sem tirar Penna do comando, Marina deve produzir dissidência no PV

Sem tirar Penna do comando, Marina deve produzir dissidência no PV
A ex-senadora Marina Silva pode fundar nova legenda (Foto: Talita Oliveira/Flickr)

São Paulo – A ex-senadora Marina Silva (PV-AC) está prestes a sair do partido. Dois meses depois de atritos relacionados à sucessão da executiva nacional da legenda, os entraves não parecem ter sido superados e a candidata terceira colocada na eleição à Presidência da República em 2010 estaria disposta a criar um novo partido, também ligado à questão ambiental.

Segundo jornais da velha mídia, lideranças ligadas a Marina estariam em debate nesse sentido. Entre os nomes citados a figuras que migraram para o PV em 2009, como João Paulo Capobianco, secretário executivo do ministério do Meio Ambiente, e Guilherme Leal, candidato a vice na chapa à Presidência. Outras figuras estão no partido há mais tempo, como Fabio Feldman, que disputou o governo paulista no ano passado. O deputado Alfredo Sirkis (RJ) também manifestou insatisfação.
 
A articulação de uma legenda nova ou uma nova migração poderia ser definida depois da eleição municipal de 2012, o que liberaria Marina para apoiar figuras de diferentes colorações partidárias. Segundo a jornalista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, o nome provisório é algo próximo de "Partido da Causa Ecológica".

Marina foi para o PV em agosto de 2009, deixando o PT após 28 anos. Em março deste ano, diante de medidas que postergaram a sucessão interna no PV, Marina encabeçou o movimento "Transição Democrática", que almejava ser uma corrente dentro da legenda. Entre as demandas estavam questões como transparência e maior democracia nas relações intrapartidárias.

As mudanças no funcionamento do PV estavam pactuadas desde a filiação de Marina, mas vinham sendo adiadas. No fim de abril, ela descartou ocupar a presidência, há 14 anos nas mãos do deputado federal José Luiz de França Penna (SP). Sete dos 14 deputados federais do PV estariam entre os descontentes.

A manobra de Penna sugere que há setores dentro do PV insatisfeitos com a possibilidade de conceder mais influência aos novos membros. Lideranças próximas ao presidente, vistos como mais pragmáticos, consideram que Marina representou menos avanços do que o esperado.

Marina teve papel de destaque nas negociações que tentavam conter o avanço dos ruralistas no debate do Código Florestal, em maio. Como líder do PV e com autoridade de ter recebido 19,6 milhões de votos no primeiro turno de 2010, ela atraiu atenção da mídia para a possibilidade de anistia a desmatadores e garantiu interlocução com o governo de Dilma Rousseff – também contrário à medida. (Anselmo Massad - RBA)

Ainda se homenageia Hitler na Áustria e a Ditadura Militar em SP

O inestimável Carlos Lungarzo, da Anistia Internacional, foi o sexto signatário da petição Pela supressão dos elogios ao golpismo, à ditadura e ao terrorismo de Estado na página virtual da Rota.

Logo na abertura do seu comentário, tão relevante que vale a pena o reproduzirmos na íntegra, fez uma comparação com o que, para ele, seria o absurdo dos absurdos:

"Vocês já imaginaram caminhar por uma rua de Berlim e, de repente, encontrar uma estátua de Adolf Hitler??? Ou, então, consideram seriamente se seria possível existirem na prefeitura de Roma documentos oficiais elogiando Mussolini??? E lembrem que o prefeito de Roma é neofascista. Mas mesmo assim ele não teria coragem, nem permitiriam que fizesse isso.

O Estado de São Paulo está na cabeça do mundo dos que louvam tiranos, torturadores, genocidas e terroristas de Estado. Vejam quantas ruas, pontes, praças, têm nomes dos assassinos da ditadura. Uma rua da cidade onde foi prefeito o atual governador tem o nome do psicopata que inventou o Opus Dei, aquela seita dos que se cortam a carne com correntes farpadas. Vivemos numa sociedade patológica, mas isso não é pretexto válido para a falta de ação do Judiciário e de outras autoridades. Tirem de uma vez esse site!!!"
Não existe estátua de Hitler em rua nenhuma de Berlim, mas o execrável tirano continua sendo até hoje cidadão de honra da cidade austríaca de Amstetten.

Certo, não se trata de nenhuma metrópole. Com 52 km2 de área e 22,6 mil habitantes, Amstetten só teve sua existência notada fora da Áustria em outro contexto igualmente deplorável, como lar de Josef Fritzl, que escravizou e violou sua filha durante 24 anos.

Reverenciar a memória de um dos piores genocidas de todos os países e todos os tempos é pior ainda.

Segundo um vereador do partido verde, Raphael Lueger, autoridades municipais de Amstetten estão inteiradas da homenagem a Hitler mas nunca quiseram fazer nada para sua cassação.

"Sempre disseram que a situação se subentende e que não é preciso uma revogação separadamente. Mas eu me pergunto: por que simplesmente não se revoga?", disse Lueger à imprensa.

Agora, sob vara dos ecologistas e da mídia, o prefeito local promete tornar nula e sem efeito a homenagem conferida em 1939 ao grande ditador.

Enquanto isto, em São Paulo, permanece intocada a homenagem que uma corporação paga com o dinheiro dos contribuintes presta a uma ignóbil ditadura no próprio portal do (dito democrático) Governo estadual.

Não são só umas poucas frases soltas e esquecidas, mas sim uma afirmação de princípios, que tem tudo a ver com as bárbaras agressões a manifestantes e jornalistas no sábado passado.

A Rota sempre foi a unidade mais identificada com a ditadura militar, dentre todas da corporação. E é nesses deploráveis exemplos que se espelham os policiais militares quando agem exatamente como era regra nos anos de chumbo, cerceando a liberdade de expressão, massacrando cidadãos e vandalizando a cidade.

Os que conspiram para a fascistização da sociedade têm na Rota -- que no passado ajudou a derrubar um presidente da República e a esmagar a resistência à tirania, e no presente se vangloria impunemente dessas proezas -- uma permanente fonte de inspiração

Amstetten, pelo menos, promete cassar a homenagem a Hitler.

Já o Governo Alckmin permanece de braços cruzados face à homenagem aos sucedâneos brasileiros de Hitler.

A PETIÇÃO

Eis a íntegra da
petição que ainda está recebendo assinaturas ( http://www.peticaopublica.com/?pi=P2011N10044 ) e será depois encaminhada à Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo:

"Já se passaram 25 anos desde que a ditadura militar foi para a lixeira da História, mas nada mudou na página virtual do 1º Batalhão de Polícia de Choque - Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota).

Tal batalhão orgulha-se de haver outrora ajudado a massacrar os paupérrimos revoltosos de Canudos e a reprimir o heróico levante do Forte de Copacabana.

Pior ainda, faz questão de destacar que esteve presente na "Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, apoiando a sociedade e as Forças Armadas, dando início ao regime militar com o Presidente Castelo Branco".

E, como se ainda vivêssemos no Brasil de Médici, enxerga sua atuação nos anos de chumbo a partir de um aberrante viés totalitário:

"Sufocado o foco da guerrilha rural no Vale do Ribeira, com a participação ativa do então denominado Primeiro Batalhão Policial Militar 'TOBIAS DE AGUIAR', os remanescentes e seguidores, desde 1969, de 'Lamarca' e 'Mariguela' continuam a implantar o pânico, a intranqüilidade e a insegurança na Capital e Grande São Paulo. Ataques a quartéis e sentinelas, assassinatos de civis e militares, seqüestros, roubos a bancos e ações terroristas. Estava implantado o terror".

"Mais uma vez dentro da história, o Primeiro Batalhão Policial Militar “TOBIAS DE AGUIAR', sob o comando do Ten Cel SALVADOR D’AQUINO, é chamado a dar seqüência no seu passado heróico, desta vez no combate à Guerrilha Urbana que atormentava o povo paulista".

Nós, democratas de São Paulo e do Brasil, repudiamos a utilização do portal do governo paulista para manter vivo o culto ao golpismo, ao arbítrio, ao obscurantismo e à barbárie.

Não aceitamos que, tanto tempo depois da volta do País à civilização, ainda continuem no ar esses infames elogios à derrubada de um presidente legítimo e às ações repressivas executadas durante a vigência do terrorismo de estado, marcada por atrocidades, execuções covardes, estupro de prisioneiras, ocultação de cadáveres e o sem-número de outros crimes com que os déspotas intimidavam nosso povo, para mantê-lo subjugado.

Exigimos a imediata reciclagem da página da Rota, suprimindo-se os conceitos, valores e juízos incompatíveis com o estado de direito.

Repudiamos veementemente a omissão dos ex-governadores José Serra e Alberto Goldman, que nada fizeram para sanar tais aberrações, embora seus governos houvessem sido delas alertados. A falta de comprometimento com a democracia e a liberdade é ainda mais grave por terem sido ambos perseguidos pela ditadura militar. Não só faltaram com seu dever de democratas, como deixaram de honrar o próprio passado.

E conclamamos o governador Geraldo Alckmin a dar um fim, de uma vez por todas, a tal entulho autoritário, que emascula seu governo e envergonha o povo paulista".

Fonte: Celso Lungaretti - Jornal O Rebate

China-Rússia contra a geopolítica dos EUA para a Eurásia

As apostas não poderiam ser mais altas. Perdida, sem rumo, Washington assiste à integração regional liderada por Rússia e China.
 
Dia 15/6 próximo, aconteça o que acontecer, não se pode tirar os olhos nem por um instante de Astana, capital do Cazaquistão: Astana, naquele dia, talvez seja cenário de mudanças dramáticas, com choque de placas tectônicas geopolíticas, no Novo Grande Jogo na Eurásia.

No dia 15/6, 4ª-feira, começa em Astana o encontro anual da Organização de Cooperação de Xangai [ing. Shanghai Cooperation Organisation (SCO)] – constituída de China, Rússia e quatro ‘-stãos’ da Ásia Central, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão.

Mais importante que isso, a Organização de Cooperação de Xangai está a um passo de admitir Índia e Paquistão como membros plenos, e o Afeganistão como observador.

Tradução simultânea: Rússia/China jogam para aplicar um cheque-mate geopolítico no mundo pós-EUA. A mensagem, em síntese: “Cara Washington: Esqueça para sempre a ideia de ‘incrustar-se’ na Ásia.” Reação: As elites em Washington batendo cabeça, em frenesi, sem saber o que fazer. Imperdível!

O frenesi com que Washington vem mexendo nas peças do tabuleiro foi interpretado por seletos círculos em Moscou e Pequim como ‘desatino preventivo’. Dentre aqueles movimentos, por exemplo:

• A intervenção “humanitária” sancionada pela ONU, por soldados do EUA-Africom e OTAN na Líbia.
• A ameaça de intervenção “humanitária” na Síria.
• Novo despertar da obsessão que nasceu no governo Bush, de instalar um sistema norte-americano de defesa antimísseis na Europa Oriental
• A expansão sem qualquer limite, da OTAN, do Norte da África para a Ásia Central (ampliando o famoso, como diz o Pentágono, “arco de instabilidade”).
E isso ainda sem falar das invasões à moda de serial-killers – atos de guerra com aviões-robôs tripulados à distância (drones) ou com assassinatos de alvos predeterminados [orig. targeted assassination] – contra o território e a soberania do Paquistão.

Reset com a Rússia (remixed)

Por mais que Washington muito fale sobre um reset das relações EUA/Rússia, Moscou interpretou todos aqueles movimentos, seja na periferia seja no coração da Eurásia – como um torpedeamento considerado indispensável contra o papel da Rússia como grande exportador global de energia.

A estratégia de Moscou é usar a Organização de Cooperação de Xangai como forte contragolpe não só contra a OTAN mas também contra os objetivos dos EUA que envolvam as fontes de energia da Ásia Central.

Moscou e Pequim veem a OTAN pelo que a OTAN de fato é – o braço europeu armado do Pentágono. A política oficial de Pequim é uma espécie de “contenção reversa soft”, para conter o ímpeto dos EUA na Eurásia – e usando o Paquistão, “aliado de sempre” dos EUA, como peão-chave.

De seu lado, Washington vê a Índia como, essencialmente, agente chave no Pacífico Asiático, numa estratégia para conter os chineses.

Para Moscou, assim como para Pequim, uma Ásia Central protegida contra os ventos de mudança da Grande Revolta Árabe de 2011 inclui necessariamente um Paquistão política e economicamente estável – embora Moscou ainda mantenha parceria estratégica “privilegiada” com Nova Delhi.

É onde entra uma viagem crucial que o presidente do Paquistão Asif Ali Zardari fez à Rússia em meados de maio.

Zardari discutiu não só terrorismo e contrabando de drogas com o presidente russo Dmitry Medvedev, mas também o possível envolvimento da empresa russa Gazprom num capítulo crucial da história do oleo-gasodutostão, o eternamente adiado oleoduto TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia) – o qual, vale a pena repetir sempre, é questão crucial ativa no Afeganistão desde meados dos anos 1990s.

Além do mais, sim, há projetos bilaterais Rússia-Paquistão que são muitíssimo mais ambiciosos que os projetos EUA-Paquistão.

Também foi crucialmente importante uma viagem de trabalho pré-reunião da Organização de Cooperação de Xangai que fez a Pequim, mês passado, o ministro de Relações Exteriores do Afeganistão Zalmay Rasoul – desafiando abertamente um ‘bloqueio’ declarado pelos EUA. A Índia investiu mais de $1,5 milhão no Afeganistão. Mas a China investiu mais de $3 bilhões – incluído o gigantesco projeto Aynak Minas de Cobre.

Em recente palestra na Universidade de Defesa Nacional do Paquistão, Husain Haqqani, embaixador nos EUA, perguntou aos presentes qual seria a mais grave ameaça que o país enfrenta: ameaça interna, a Índia ou os EUA. Os EUA ‘venceram’ por grande maioria.

Compare-se tudo isso com a ideia dos neoconservadores nos EUA – que é também a visão do Pentágono – para os quais, para alcançar alguma “vitória” contra os Talibã no Afeganistão, a OTAN deve varrer mover guerra aérea sem tréguas também contra o Paquistão.

Quando Islamabad considera a ofensiva de sedução sino-russa e compara-a com o relacionamento ultra fraturado com Washington, não surpreende que o que mais se destaca é o medo, essencialmente punjabi, do que possa haver numa agenda oculta dos EUA: a decisão de balcanizar o Paquistão.

Além do próprio Paquistão, outra vítima dessa agenda oculta, nesse cenário, seria a China – porque estaria definitivamente morto o oleoduto Irã-Paquistão que deve levar o petróleo até o importante porto de Gwadar construído pelos chineses no Mar da Arábia.

Para a Organização de Cooperação de Xangai , uma possível balcanização do Paquistão – onde se entrecruzam o sudoeste da Eurásia, a Ásia Central e o Sul da Ásia (Irã, Afeganistão, Paquistão, Índia e China Ocidental) – é o pior dos pesadelos.

Agora, somos todos afegãos

Claro que há uma muralha de desconfiança entre New Delhi e Pequim – que se pode suavizar ao longo do tempo mediante contatos mais próximos dentro do grupo das potências emergentes BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Mas o problema não é só a elite política russa: a elite política indiana ainda não desenvolveu uma visão estratégica do papel dos BRICS no mundo pós-EUA.

E, isso, enquanto uma Washington imperial – com o ocasional auxílio da Grã-Bretanha sitiada de David Cameron e apesar do que invente o neonapoleônico Sarkozy da França – parece já não ser capaz de produzir ideias para enfrentar competidores estratégicos de peso como Rússia e China.

Considerados os fatos em campo, Moscou e Pequim alarmaram-se muito com a guerra da OTAN contra a Líbia, com a ameaça de intervenção na Síria, com o livre passe para a mais brutal repressão no Bahrain e com a obsessão de Washington, que insiste em permanecer no Iraque a qualquer custo.

Mas em vez de focar-se no mundo árabe, Moscou e Pequim preferiram focar o quadro mais próximo de casa, na Eurásia (...). E é aí que se encaixa a ideia da Organização de Cooperação de Xangai, para um Afeganistão estável.

O plano de longo prazo da Organização de Cooperação de Xangai é ampliar a autonomia estratégica de Islamabad, de modo a que se torne imune às pressões-bullying de Washington, humilhações e violações de soberania. E incluir o Paquistão como membro da Organização de Cooperação de Xangai é instrumento valioso para que Moscou e Pequim ‘forcem’ Islamabad a afinar sua posição sobre o Afeganistão.

Ambas, Moscou e Pequim também querem que o Afeganistão – como o Paquistão – torne-se um entroncamento de estradas de ferro, rodovias e gás-oleodutos para todo o Oceano Índico e a Eurásia. Isso explica que Pequim esteja usando o eixo privilegiado China-Paquistão para ‘seduzir’ Cabul e, dentro da Organização de Cooperação de Xangai, unir-se em parcerias estratégicas “para todas as horas” que ultrapassem o quadro hoje vigente.

Moscou também descobriu que a Organização de Cooperação de Xangai pode ser imensamente útil. O que Washington realmente queria da Ásia Central era que o gás virtualmente ilimitado do Turcomenistão fluísse para a Europa Ocidental – via a eternamente amaldiçoado oleoduto Nabucco –, com o que cortaria o controle que a Gazprom exerce sobre a energia da Europa.

Com o TAPI tornado viável com a ajuda da Gazprom russa, Moscou poderá ‘recompensar’ o Paquistão com direitos de trânsito; e a Índia, com o gás de que tanto precisa. E, acima de tudo, o gás turcomano não competirá com o gás russo no mercado europeu.

O campo de gás Yolotan Sul, no Turcomenistão – com 3.500 quilômetros quadrados – é o segundo maior do mundo. Significa gás, gás, gás até o século 23 para China, Índia e Paquistão. E o Turcomenistão ainda poderá exportar o que sobrar.

Portanto, bem-vindos ao superexclusivo “Clube da energia da Organização de Cooperação de Xangai”. E o vencedor é, mais uma vez, o ex-presidente Vladimir Putin da Rússia, primeiro a sugerir a ideia nos idos de 2005.

Se a Organização de Cooperação de Xangai é instrumento necessário para pôr em andamento todo esse projeto – e ainda há um grande “se” a pairar sobre tudo – ela é também fato-monstro em terra, no que tenha a ver com a Grade de Segurança Energética da Eurásia, um conceito de integração pan-asiática do qual muitos especialistas em energia falam-me, desde o início dos anos 2000s.

Todos a bordo, pela nova rota da seda

Pequim claramente classificou a guerra Afeganistão-Paquistão – depois que Obama autorizou a extensão – como guerra regional perigosa. Pequim teve de agir também fora da arena geopolítica, porque também a economia chinesa está sendo ameaçada.

Um eixo China-Paquistão que se aproxime do Afeganistão, indica que se pode estar iniciando um capítulo crucial do renascimento da Rota da Seda – com massivo investimento chinês numa rede de estradas, gás-oleodutos e grades de eletricidade.

Quem viaje pela região maravilha-se com o corredor Wakhan que liga o nordeste do Afeganistão à China Ocidental. A conhecida Kashgar está a poucas horas de distância de Wakhan.

Apesar do tratamento usual sempre deplorável dispensado aos uigures, Pequim está investindo dezenas de bilhões de dólares para implantar uma Zona Especial de Comércio [ing. special economic zone (SEZ)] no extremo oeste do país, orientada na direção do sul e do centro da Ásia. Kashgar está sendo reformatada para reviver seus tempos de glória da Rota da Seda, como cruzamento chave para o Paquistão (via a Rodovia Karakoram), para o Afeganistão e para a Ásia Central.

Não há meio pelo qual a guerra ao terror do Pentágono, baseada na doutrina da Dominação de Pleno Espectro, consiga competir com essa visão integrada.

Eis o que a Organização de Cooperação de Xangai conclui ao analisar o tabuleiro de xadrez: Washington não estabilizará o Afeganistão; a Organização de Cooperação de Xangai tem melhores chances. Nenhum ator regional deseja que a presença dos EUA se eternize, nas bases militares no Afeganistão – como o Pentágono, nos termos da Dominação de Pleno Espectro, sim, deseja ardentemente.

Moscou não duvida de que nada deterá Washington na tentativa de seduzir os ‘-stãos’ da Ásia Central na direção de evitar a rede de dutos russos.

E, sem grande demora, a OTAN pode ser monopolizada para “dar segurança” a gasodutos e oleodutos que contornem território russo (o que sempre foi sonho erótico do governo Bush).

Yan Xuetong, diretor do Instituto de Estudos Internacionais da Universidade Tsinghua, não poderia ter sido mais claro: “Criamos a SCO com o objetivo de resistir à intenção estratégica dos EUA de estender seu controle militar até a Ásia Central”.

Através da Organização de Cooperação de Xangai, Pequim e Moscou estão agora prestes a desmascarar o mito (1) da OTAN como guarda-chuva de segurança na Eurásia. E ao mesmo tempo, a China harmoniza-se com a Índia, no desejo de estabilizar o Afeganistão e o Paquistão, e assim esvaziar completamente a estratégia dos EUA para a “Grande Ásia Central” construída sobre o mito (2) da guerra ao terror.

A bola – bolaço – atravessou o Potomac.

Fonte: Pepe Escobar - Al-Jazeera

Qual agronegócio afinal?

Na semana passada tive a oportunidade de participar de um seminário na Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA-USP), no qual foi lançada a RedeAgro - Rede de Conhecimento do Agro Brasileiro, criada pelo Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), com apoio do grupo Pensa/FEA-USP, com a finalidade de debater os grandes temas ligados ao setor agropecuário brasileiro que, diga-se de passagem, não são poucos e muito menos simples.
 
Dentre os diversos temas apresentados, o mais consensual é o que diz respeito ao potencial de crescimento da produção e exportações agropecuárias esperado para os próximos anos. Não é difícil reunir dados e argumentos que permitam descortinar um futuro extremamente promissor para a atividade. De fato, dentre toda a matriz produtiva brasileira, o agronegócio é hoje a classe de atividade que reúne o maior conjunto de segmentos dotados de um tipo de competitividade que se pode efetivamente adjetivar como estrutural. Essa competitividade estrutural decorre não somente da extensa base de recursos naturais com que o país é dotado mas também da competente base tecnológica que se construiu nas últimas décadas e ainda da robusta base empresarial que se consolidou nos últimos anos. Olhando em perspectiva, há uma convergência de fatores positivos que surgem, pelo lado da oferta, das oportunidades tecnológicas associadas ao dinamismo científico de campos de conhecimento como a genética e a bioquímica e, pelo lado da demanda, da velocidade da expansão esperada para a demanda mundial de produtos da agroindústria, seja para alimentos, seja para energia, que, conjugados, propiciarão ao agro brasileiro uma posição extremamente favorável no cenário internacional nos próximos anos ou mesmo décadas.

O problema aqui é a forte heterogeneidade estrutural que sempre marcou e ainda marca a atividade agropecuária
Quando o tema do debate volta-se para quais os impactos macroeconômicos que essa exuberância exportadora poderá vir a provocar no futuro alguma controvérsia começa surgir. Alguns analistas mostram preocupação com a possibilidade de que a enxurrada de divisas advinda das exportações de commodities agropecuárias possa implicar doença holandesa (ou agravá-la, para aqueles que entendem que o fenômeno já se encontra em curso). Doença holandesa corresponde a uma situação na qual os setores não exportadores perdem competitividade internacional em consequência da apreciação cambial trazida pelos saldos comerciais gerados pelos setores exportadores, levando o país a um indesejado processo de desindustrialização. Outros entendem que o atual ciclo de valorização do real não reflete posições superavitárias da balança comercial e sim os efeitos da volumosa entrada de capitais no país, descartando a ocorrência de doença holandesa no Brasil, ao menos por enquanto. Com relação a esse debate, as evidências disponíveis são mais favoráveis à tese de que o Brasil enfrenta uma doença de custos, cujos efeitos sobre a inflação são mitigados pela apreciação cambial, pois essa é uma das essências do modelo de estabilização baseado em taxas estratosféricas de juros adotado pelo país.

Nesse caso, não seria a realocação de fatores de produção em direção às atividades exportadoras de commodities que promoveria a apreciação cambial, como deveria ocorrer de acordo com o mecanismo básico da doença holandesa, e sim exatamente o contrário: seria a apreciação cambial que conferiria condições de sobrevivência apenas aos setores altamente competitivos da estrutura produtiva nacional, razão pela qual as exportações do agronegócio ganhariam peso na pauta de comércio.

Finalmente, quando o tema em debate se transfere para qual o resultado do balanço sócio-econômico e ambiental do atual agronegócio brasileiro, a controvérsia torna-se a tônica. Certamente, não é o caso de proceder a esse balanço no pequeno espaço desta coluna mas tampouco se pode deixar de registrar o ponto central: afinal, de qual agronegócio está se falando? O problema aqui é a forte heterogeneidade estrutural que sempre marcou e ainda marca a atividade agropecuária brasileira. Além de um agronegócio exportador estruturalmente competitivo em virtude de capacitação tecnológica e empresarial acumulada nos anos recentes, coexistem no país outros diferentes modelos de organização da atividade. Estão aí incluídos tanto uma agricultura familiar (ou de pequena escala) moderna, que é ainda uma fração pequena demais da atividade, como um modelo de exploração predatória que, mais do que terra, desperdiça natureza, e que ainda constitui uma fração grande demais da agropecuária brasileira.

Em que medida a pujança esperada para o agronegócio será capaz de contribuir efetivamente para o desenvolvimento econômico nacional depende visceralmente de que o padrão de expansão vitorioso contemple a ampliação da presença do primeiro modelo e a supressão do segundo. É nessa perspectiva que se perfilam as novas questões ligadas à sustentabilidade da expansão da atividade que, justificadamente, vem dominando as acaloradas discussões em torno do novo código florestal. Afinal, de certo modo, os problemas da agropecuária brasileira são os de sempre e estão ligados à capacidade do setor crescer promovendo ou não as necessárias melhorias na distribuição pessoal e regional da renda direta e indireta gerada pela atividade.

Fonte: David Kupfer -
Valor Econômico

Quando a China superará os EUA?

A China encaminha-se para superar os Estados Unidos e tornar-se a maior economia do mundo? O Fundo Monetário Internacional (FMI) previu recentemente que o tamanho da economia da China superará o dos EUA, em paridade do poder de compra (PPP), até 2016.
 
Recente estudo com coautoria de Robert Feenstra, economista da University of California, no campus de Davis, mostra que a liderança econômica mundial passaria à China em 2014. De forma ainda mais radical, Arvind Subramanian, do Peterson Institute of International Economics, argumenta que, na verdade, a China passou os EUA em PPP no ano passado.

A paridade do poder de compra calcula a renda de um país por meio de um conjunto de preços internacionais aplicado a todas as economias. Os preços nos países em desenvolvimento normalmente são mais baixos do que em países desenvolvidos. Portanto, sua renda pode acabar subestimada, se calculada apenas de acordo com a taxa de câmbio. Calcular a renda pela PPP evita esse problema.

Por sua vez, estimar a renda em PPP traz seus próprios problemas. Um deles consiste no fato de que cada país tem uma cesta de consumo diferente, com a maior disparidade sendo entre os países em desenvolvimento e os desenvolvidos. Por exemplo, alimentos normalmente representam 40% ou mais dos gastos familiares em um país em desenvolvimento típico, enquanto na maioria dos países desenvolvidos a porcentagem é inferior a 20%.

O objetivo da comparação pela PPP é medir a real qualidade de vida de um país. No caso, pode ser vista como uma comparação entre o produto agregado de cada país, composto pela cesta de consumo de cada país. Os componentes desse produto agregado, entretanto, variam de país a país. Ou seja, os cálculos pela PPP, de fato, comparam maçãs com laranjas.

O argumento pode soar técnico, mas tem implicações profundas nas comparações da qualidade de vida entre países. Vamos presumir que comparamos dois países. Um deles tem a economia baseada na agricultura e as pessoas compram apenas alimentos, enquanto o outro é industrial e as pessoas, além de comida, compram roupas. A divisão dos gastos do segundo país nesses dois itens é de 20 e 80%, respectivamente.

Quantas mercadorias um chinês pode comprar nos EUA com a renda que ganha na China? É preciso recorrer à renda nominal para responder a questão. Valorização de 10% do yuan eleva o poder de compra nos EUA em exatos 10%, embora sua qualidade de vida não mude em termos de PPP.
Presumamos, ainda, que a renda nominal per capita pelas taxas de câmbio do mercado no segundo país é quatro vezes maior do que no primeiro. Os preços dos alimentos são os mesmos nos dois países, enquanto, no segundo país, o preço das roupas é cinco vezes maior do que o dos alimentos.

No exemplo, o preço do produto agregado no segundo país é 4,2 vezes o preço do produto agregado do primeiro. Prosseguindo os cálculos, vemos que, em PPP, as pessoas do segundo país são apenas 5% mais pobres do que as do primeiro país!

Esse resultado absurdo é possível apenas porque a PPP compara duas cestas de consumo diferentes. A cesta de consumo do chinês médio é amplamente diferente da cesta do americano médio, portanto, as comparações pela PPP entre China e EUA podem ser enganosas.

A PPP responde à seguinte questão: quanto um chinês precisa ganhar para manter a qualidade de vida que tem na China caso se mude para os EUA?

Essa pergunta, no entanto, não é intuitiva nem realista. No que se refere à comparação do poder de compra no mercado internacional, uma questão mais apropriada seria: Quantas mercadorias um chinês pode comprar nos EUA com a renda que ganha na China? É preciso recorrer à renda nominal para responder a questão. Uma valorização de 10% do yuan eleva o poder de compra de um chinês nos EUA em exatos 10%, embora sua qualidade de vida não mude em termos de PPP.

Porém, mesmo em termos nominais, a economia da China ultrapassará a dos EUA em um período relativamente curto. Presumindo que as economias da China e EUA, respectivamente, cresçam, 8% e 3% em termos reais, com inflações de 3,6% e 2% (as médias dos últimos dez anos) e uma valorização do yuan em relação ao dólar de 3% ao ano (média dos últimos seis anos), a China se tornará a maior economia mundial em 2021. Até lá, o Produto Interno Bruto (PIB) de cada um dos dois países estará em torno a US$ 24 trilhões, talvez o triplo do tamanho da terceira maior economia, seja o Japão ou Alemanha.

Supor expansão de 8% para China pode ou não ser uma aposta segura. Caso a China cresça entre 9% e 10% nos próximos cinco anos e entre 6% e 7% nos cinco anos seguintes, a meta de crescimento médio de 8% até 2021 seria atingida.

O mundo já começou a defender que a China assuma maior responsabilidade pela saúde da economia mundial. À medida que a economia da China continuar em crescimento e acabar se equiparando ao PIB dos EUA, essa demanda ganhará mais força. Por qualquer uma das estimativas mais recentes, a China tem pouco tempo para se preparar.

Por Yao Yang - FMG

Os evangélicos e a ditadura

Documentos inéditos do projeto Brasil: Nunca Mais - até agora guardados no Exterior - chegam ao País e podem jogar luz sobre o comportamento dos evangélicos nos anos de chumbo

No primeiro dia foram oito horas de torturas patrocinadas por sete militares. Pau de arara, choque elétrico, cadeira do dragão e insultos, na tentativa de lhe quebrar a resistência física e moral. “Eu tinha muito medo do que ia sentir na pele, mas principalmente de não suportar e falar. Queriam que eu desse o nome de todos os meus amigos, endereços... Eu dizia: ‘Não posso fazer isso.’ Como eu poderia trazê-los para passar pelo que eu estava passando?” Foram mais de 20 dias de torturas a partir de 28 de fevereiro de 1970, nos porões do Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo.

O estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP) Anivaldo Pereira Padilha, da Igreja Metodista do bairro da Luz, tinha 29 anos quando foi preso pelo temido órgão do Exército. Lá chegou a pensar em suicídio, com medo de trair os companheiros de igreja que comungavam de sua sede por justiça social. Mas o mineiro acredita piamente que conseguiu manter o silêncio, apesar das atrocidades que sofreu no corpo franzino, por causa da fé.

A mesma crença que o manteve calado e o conduziu, depois de dez meses preso, para um exílio de 13 anos em países como Uruguai, Suíça e Estados Unidos levou vários evangélicos a colaborar com a máquina repressora da ditadura. Delatando irmãos de igreja, promovendo eventos em favor dos militares e até torturando. Os primeiros eram ecumênicos e promoviam ações sociais e os segundos eram herméticos e lutavam contra a ameaça comunista. Padilha foi um entre muitos que tombaram pelas mãos de religiosos protestantes.

O metodista só descobriu quem foram seus delatores há cinco anos, quando teve acesso a documentos do antigo Sistema Nacional de Informações: os irmãos José Sucasas Jr. e Isaías Fernandes Sucasas, pastor e bispo da Igreja Metodista, já falecidos, aos quais era subordinado em São Paulo. “Eu acreditava ser impossível que alguém que se dedica a ser padre ou pastor, cuja função é proteger suas ovelhas, pudesse dedurar alguém”, diz Padilha, que não chegou a se surpreender com a descoberta. “Seis meses antes de ser preso, achei na mesa do pastor José Sucasas uma carteirinha de informante do Dops”, afirma o altivo senhor de 71 anos, quatro filhos, entre eles Alexandre, atual ministro da Saúde da Presidência de Dilma Rousseff, que ele só conheceu aos 8 anos de idade.

Padilha teve de deixar o País quando sua então mulher estava grávida do ministro. Grande parte dessa história será revolvida a partir da terça-feira 14, quando, na Procuradoria Regional da República, em São Paulo, acontecerá a repatriação das cópias do material do projeto Brasil: Nunca Mais. Maior registro histórico sobre a repressão e a tortura na ditadura militar, o material, nos anos 80, foi enviado para o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), organização ecumênica com sede em Genebra, na Suíça, e para o Center for Research Libraries, em Chicago (EUA), como precaução, caso os documentos que serviam de base do trabalho realizado no Brasil caíssem nas mãos dos militares.

De Chicago, virá um milhão de páginas microfilmadas referentes a depoimentos de presos nas auditorias militares, nomes de torturadores e tipos de tortura. A cereja do bolo, porém, chegará de Genebra – um material inédito composto por dez mil páginas com troca de correspondências entre o reverendo presbiteriano Jaime Wright (1927 – 1999) e o cardeal-arcebispo emérito de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, que estavam à frente do Brasil: Nunca Mais, e as conversas que eles mantinham com o CMI.

Somente em 1968, quatro anos após a ascensão dos militares ao poder, o catolicismo começou a se distanciar daquele papel que tradicionalmente lhe cabia na legitimação da ordem político-econômica estabelecida. Foi aí, quando no Brasil religiosos dominicanos como Frei Betto passaram a ser perseguidos, que a Igreja assumiu posturas contrárias às ditaduras na maioria dos países latino-americanos. Os protestantes, por sua vez, antes mesmo de 1964, viveram uma espécie de golpe endógeno em suas denominações, perseguindo a juventude que caminhava na contramão da ortodoxia teológica.

Em novembro de 1963, quatro meses antes de o marechal Humberto Castelo Branco assumir a Presidência, o líder batista carismático Enéas Tognini convocou milhares de evangélicos para um dia nacional de oração e jejum, para que Deus salvasse o País do perigo comunista. Aos 97 anos, o pastor Tognini segue acreditando que Deus, além de brasileiro, se tornou um anticomunista simpático ao movimento militar golpista. “Não me arrependo (de ter se alinhado ao discurso dos militares). Eles fizeram um bom trabalho, salvaram a Pátria do comunismo”, diz.

Assim, foi no exercício de sua fé que os evangélicos – que colaboraram ou foram perseguidos pelo regime – entraram na alça de mira dos militares. Enquanto líderes conservadores propagavam o discurso da Guerra Fria em torno do medo do comunismo nos templos e recrutavam formadores de opinião, jovens batistas, metodistas e presbiterianos, principalmente, com ideias liberais eram interrogados, presos, torturados e mortos. “Fui expulso, com mais oito colegas, do Seminário Presbiteriano de Campinas, em 1962, porque o nosso discurso teológico de salvação das almas passava pela ética e a preocupação social”, diz o mineiro Zwinglio Mota Dias, 70 anos, pastor emérito da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil, da Penha, no Rio de Janeiro.

Antigo membro do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), que promovia reuniões para, entre outras ações, trocar informações sobre os companheiros que estavam sendo perseguidos, ele passou quase um mês preso no Doi-Codi carioca, em 1971. “Levei um pescoção, me ameaçavam mostrando gente torturada e davam choques em pessoas na minha frente”, conta o irmão do também presbiteriano Ivan Mota, preso e desaparecido desde 1971. Hoje professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Dias lembra que, enquanto estava no Doi-Codi, militares enviaram observadores para a sua igreja, para analisar o comportamento dos fiéis.

Segundo Rubem Cesar Fernandes, 68 anos, antropólogo de origem presbiteriana, preso em 1962, antes do golpe, por participar de movimentos estudantis, os evangélicos carregam uma mancha em sua história por convidar a repressão a entrar na Igreja e perseguir os fiéis. “Os católicos não fizeram isso. Não é justificável usar o poder militar para prender irmãos”, diz ele, considerado “elemento perigoso” no templo que frequentava em Niterói (RJ). “Pastores fizeram uma lista com 40 nomes e entregaram aos militares. Um almirante que vivia na igreja achava que tinha o dever de me prender. Não me encontrou porque eu estava escondido e, depois, fui para o exílio”, conta o hoje diretor da ONG Viva Rio.

O protestantismo histórico no Brasil também registra um alto grau de envolvimento de suas lideranças com a repressão. Em sua tese de pós-graduação, defendida na Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), Daniel Augusto Schmidt teve acesso ao diário do irmão de José, um dos delatores de Anivaldo Padilha, o bispo Isaías. Na folha relativa a 25 de março de 1969, o líder metodista escreveu: “Eu e o reverendo Sucasas fomos até o quartel do Dops. Conseguimos o que queríamos, de maneira que recebemos o documento que nos habilita aos serviços secretos dessa organização nacional da alta polícia do Brasil.”

Dono de uma empresa de consultoria em Porto Alegre, Isaías Sucasas Jr., 69 anos, desconhecia a história da prisão de Padilha e não acredita que seu pai fora informante do Dops. “Como o papai iria mentir se o cara fosse comunista? Isso não é delatar, mas uma resposta correta a uma pergunta feita a ele por autoridades”, diz. “Nunca o papai iria dedar um membro da igreja, se soubesse que havia essas coisas (torturas).” Em 28 de agosto de 1969, um exemplar da primeira edição do jornal “Unidade III”, editado pelo pai do ministro da Saúde, foi encaminhado ao Dops.

Na primeira página, há uma anotação: “É preciso ‘apertar’ os jovens que respondem por este jornal e exigir a documentação de seu registro porque é de âmbito nacional e subversivo.” Sobrinho do pastor José, o advogado José Sucasas Hubaix, que mora em Além Paraíba (MG), conta que defendeu muitos perseguidos políticos durante a ditadura e não sabia que o tio havia delatado um metodista. “Estou decepcionado. Sabia que alguns evangélicos não faziam oposição aos militares, mas daí a entregar um irmão de fé é uma grande diferença.”

Nenhum religioso, porém, parece superar a obediência canina ao regime militar do pastor batista Roberto Pontuschka, capelão do Exército que à noite torturava os presos e de dia visitava celas distribuindo o “Novo Testamento”. O teólogo Leonildo Silveira Campos, que era seminarista na Igreja Presbiteriana Independente e ficou dez dias encarcerado nas dependências da Operação Bandeirante (Oban), em São Paulo, em 1969, não esquece o modus operandi de Pontuschka. “Um dia bateram na cela: ‘Quem é o seminarista que está aqui?’”, conta ele, 21 anos à época. “De terno e gravata, ele se apresentou como capelão e disse que trazia uma “Bíblia” para eu ler para os comunistas f.d.p. e tentar converter alguém.”

O capelão chegou a ser questionado por um encarcerado se não tinha vergonha de torturar e tentar evangelizar. Como resposta, o pastor batista afirmou, apontando para uma pistola debaixo do paletó: “Para os que desejam se converter, eu tenho a palavra de Deus. Para quem não quiser, há outras alternativas.” Segundo o professor Maurício Nacib Pontuschka, da Pontifícia Universidade Católica (PUC), de São Paulo, seu tio, o pastor-torturador, está vivo, mas os dois não têm contato. O sobrinho também não tinha conhecimento das histórias escabrosas do parente. “É assustador. Abomino tortura, vai contra tudo o que ensino no dia a dia”, afirma. “É triste ficar sabendo que um familiar fez coisas horríveis como essa.”

Professor de sociologia da religião na Umesp, Campos, 64 anos, tem uma marca de queimadura no polegar e no indicador da mão esquerda produzida por descargas elétricas. “Enrolavam fios na nossa mão e descarregavam eletricidade”, conta. Uma carta escrita por ele a um amigo, na qual relata a sua participação em movimentos estudantis, o levou à prisão. “Fui acordado à 1h por uma metralhadora encostada na barriga.”

Solto por falta de provas, foi tachado de subversivo e perdeu o emprego em um banco. A assistente social e professora aposentada Tomiko Born, 79 anos, ligada a movimentos estudantis cristãos, também acredita que pode ter sido demitida por conta de sua ideologia. Em meados dos anos 60, Tomiko, que pertencia à Igreja Evangélica Holiness do Brasil, fundada pelo pai dela e outros imigrantes japoneses, participou de algumas reuniões ecumênicas no Exterior. Em 1970, de volta ao Brasil, foi acusada de pertencer a movimentos subversivos internacionais pelo presidente da Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, onde trabalhava. Não foi presa, mas conviveu com o fantasma do aparelho repressor. “Meu pesadelo era que o meu nome estivesse no caderninho de endereço de alguma pessoa presa”, conta.

Parte da história desses cristãos aterrissará no Brasil na terça-feira 14, emaranhada no mais de um milhão de páginas do Projeto Brasil: Nunca Mais repatriadas pelo Conselho Mundial de Igrejas. Não que algum deles tenha conseguido esquecer, durante um dia sequer, aqueles anos tão intensos, de picos de utopia e desespero, sustentados pela fé que muitos ainda nutrem.

Para seguir em frente, Anivaldo Padilha trilhou o caminho do perdão – tanto dos delatores quanto dos torturadores. Em 1983, ele encontrou um de seus torturadores em um baile de Carnaval. “Você quis me matar, seu f.d.p., mas eu estou vivo aqui”, pensou, antes de virar as costas. Enquanto o mineiro, que colabora com uma entidade ecumênica focada na defesa de direitos, cutuca suas memórias, uma lágrima desce do lado direito de seu rosto e, depois de enxuta, dá vez para outra, no esquerdo. Um choro tão contido e vívido quanto suas lembranças e sua dor.

Fonte: Rodrigo cardoso -
IstoÉ

Paz ou guerra em setembro de 2011?


O presidente Barack Obama, antecipando as movimentações para o período eleitoral de 2012, iniciou uma mudança radical em sua equipe de segurança nacional que pode ter graves repercussões no Oriente Médio. Para Israel e os EUA, recorrer à ONU e não acreditar em Netanyahu e Obama passou a ser denominado de unilateralismo e ameaça à Paz! No momento em que cresce o apoio da comunidade internacional para o reconhecimento diplomático de um Estado Palestino na Assembléia Geral da ONU, em setembro, aumentam também as possibilidades de um ato tresloucado da direita israelense com o apoio do democrata Obama. O artigo é de Reginaldo Nasser.

No dia 23 de maio o presidente Barack Obama proferiu um discurso sobre a política externa dos EUA para o Oriente Médio no Departamento de Estado, declarando seu apoio à primavera árabe e reiterando sua crença a solução de dois Estados é a melhor maneira de resolver o conflito israel-palestino. No dia seguinte, foi a vez do primeiro ministro israelense, Netanyahu, dar seu recado. Em seu discurso no congresso rejeitou várias afirmações de Obama, sendo efusivamente aplaudido pelos congressistas (29 aclamações). Atribuiu a responsabilidade do conflito aos palestinos devido à não aceitação da existência do Estado de Israel: “eles simplesmente não querem acabar com o conflito. Eles continuam educando suas crianças para o ódio. Eles continuam com a fantasia de que Israel será um dia inundada pelos palestinos refugiados”. Assim, a proposta do governo israelense foi clara: só poderá existir um estado Palestino desmilitarizado e dentro de fronteiras diferentes daquelas acordadas em 1967 na Resolução 242 da ONU. Consequentemente, não aceitar essa proposta, é, para Netanyahu, sinal de que os palestinos não desejam a paz.

Equanto isso em Jerusalém, o ex-chefe da Mossad, Meir Dagan, que dirigiu a organização entre 2002-2010, criticou, publicamente, o governo israelense por “falta de discernimento e flexibilidade”, chamando-o de "imprudente e irresponsável" no tratamento da política de segurança de Israel. Dagan considera uma ameaça maior o isolamento de Israel por um grande segmento da comunidade internacional como provável resultado do esforço da Palestina em obter o reconhecimento de seu Estado. Ele alerta que diante da pressão internacional, Israel poderá trazer à tona o velho argumento de responder aos pequenos incidentes forçando uma solução militar.

Dagan não é nenhum pacifista utópico. Quando foi escolhido para ser chefe da Mossad, Sharon disse que ele queria uma Mossad com "uma faca entre os dentes." Nos últimos meses, o chefe militar, Gabi Ashkenazi, e o diretor da agência de segurança Shin Bet, Yuval Diskin, também renunciaram. Portanto, além de indicar a existência de fissuras dentro do establishment de segurança nacional de Israel, a saída desse triunvirato, de acordo com o próprio Dagan, demonstra que Netanyahu está removendo aqueles que até então resistiam à sua estratégia de atacar o Irã.

Dagan não acredita em uma paz com a Síria, se opõe fortemente à criação de um Estado Palestino nas fronteiras de 1967 ou a qualquer compromisso sobre os refugiados, mas acha que Israel, por seu próprio bem, deve tomar a iniciativa no processo de paz. Principalmente nesse momento em que ocorrem mudanças regionais, ele está preocupado, em primeiro lugar pelo que está acontecendo no Egito.

Ao mesmo tempo, o presidente Obama, antecipando as movimentações para o período eleitoral de 2012, iniciou uma mudança radical em sua equipe de segurança nacional que pode ter graves repercussões no Oriente Médio. O presidente nomeou o diretor da CIA, Leon Panetta, para assumir o posto de secretário de Defesa, escolheu o comandante da guerra do Afeganistão, general David Petraeus, para substituir Panetta na agência de inteligência e indicou o General Martin Dempsey para chefe do Estado-Maior das forças armadas dos EUA. A nomeação desse último foi feita no 'Memorial Day', o feriado anual que recorda os americanos mortos em combate, e ocorre em um momento crítico de reorganização do aparato de defesa e segurança dos Estados Unidos.

Nas últimas duas décadas, Dempsey passou a maior parte do seu tempo dedicado ao Oriente Médio: oficial de operações com o corpo de blindados na Guerra do Golfo(1991); chefe da delegação americana que treinou a guarda nacional saudita; comandante de uma divisão de blindados no Iraque em 2003; oficial responsável pela formação do novo exército iraquiano, e finalmente chefiando o Comando Central, que abrange o Irã, Egito, Síria e a Jordânia. Além disso, Dempsey é bastante familiarizado com as Forças de Defesa de Israel por meio de intercâmbio de informações e de opiniões entre as forças de ambos os exércitos nos últimos anos. É um estudioso e admirador das ações de Israel na Guerra de 1973, Guerra do Líbano (2006) e das ações contra o terrorismo nos territórios ocupados.

Portanto, como bem observou Amir Oren (Obama's new security staff may approve attack on Iran Haaretz 01/06/2011) as mudanças na equipe de segurança nacional dos EUA são não apenas um assunto norteamericano. Apesar de o próprio Oren reconhecer ser difícil, Dempsey, no início do seu mandato, convencer Obama a atacar o Irã, ou mesmo permitir Israel fazê-lo, não se pode negligenciar seus estreitos laços com o pessoal da forças de Defesa israelenses e a confiança do Congresso norte-americano nos planos de Netanyahu.

Para Israel e os EUA, recorrer à ONU e não acreditar em Netanyahu e Obama passou a ser denominado de unilateralismo e ameaça à Paz! No momento em que cresce o apoio da comunidade internacional para o reconhecimento diplomático de um Estado Palestino na Assembléia Geral da ONU, em setembro, aumentam também as possibilidades de um ato tresloucado da direita israelense com o apoio do democrata Obama. (Reginaldo Nasser - CM)

Sustentabilidade: adjetivo ou substantivo?

As empresas, em sua grande maioria, só assumem a responsabilidade socioambiental na medida em que os ganhos não sejam prejudicados e a competição não seja ameaçada. Chegamos a um ponto em que não temos outra saída senão fazer uma revolução paradigmática, senão seremos vítimas da lógica férrea do Capital que poderá nos levar a um impasse civilizatório.

É de bom tom hoje falar de sustentabilidade. Ela serve de etiqueta de garantia de que a empresa, ao produzir, está respeitando o meio ambiente. Atrás desta palavra se escondem algumas verdades mas também muitos engodos. De modo geral, ela é usada como adjetivo e não como substantivo.

Explico-me: como adjetivo é agregada a qualquer coisa sem mudar a natureza da coisa. Exemplo: posso diminuir a poluição química de uma fábrica, colocando filtros melhores em suas chaminés que vomitam gases. Mas a maneira com que a empresa se relaciona com a natureza donde tira os materiais para a produção, não muda; ela continua devastando; a preocupação não é com o meio ambiente mas com o lucro e com a competição que tem que ser garantida. Portanto, a sustentabilidade é apenas de acomodação e não de mudança; é adjetiva, não substantiva.

Sustentabilidade, como substantivo, exige uma mudança de relação para com a natureza, a vida e a Terra. A primeira mudança começa com outra visão da realidade. A Terra está viva e nós somos sua porção consciente e inteligente. Não estamos fora e acima dela como quem domina, mas dentro como quem cuida, aproveitando de seus bens mas respeitando seus limites. Há interação entre ser humano e natureza. Se poluo o ar, acabo adoecendo e reforço o efeito estufa donde se deriva o aquecimento global. Se recupero a mata ciliar do rio, preservo as águas, aumento seu volume e melhoro minha qualidade de vida, dos pássaros e dos insetos que polinizam as árvores frutíferas e as flores do jardim.

Sustentabilidade, como substantivo, acontece quando nos fazemos responsáveis pela preservação da vitalidade e da integridade dos ecossistemas. Devido à abusiva exploração de seus bens e serviços, tocamos nos limites da Terra. Ela não consegue, na ordem de 30%, recompor o que lhe foi tirado e roubado. A Terra está ficando, cada vez mais pobre: de florestas, de águas, de solos férteis, de ar limpo e de biodiversidade. E o que é mais grave: mais empobrecida de gente com solidariedade, com compaixão, com respeito, com cuidado e com amor para com os diferentes. Quando isso vai parar?

A sustentabilidade, como substantivo, é alcançada no dia em que mudarmos nossa maneira de habitar a Terra, nossa Grande Mãe, de produzir, de distribuir, de consumir e de tratar os dejetos. Nosso sistema de vida está morrendo, sem capacidade de resolver os problemas que criou. Pior, ele nos está matando e ameaçando todo o sistema de vida.

Temos que reinventar um novo modo de estar no mundo com os outros, com a natureza, com a Terra e com a Última Realidade. Aprender a ser mais com menos e a satisfazer nossas necessidades com sentido de solidariedade para com os milhões que passam fome e com o futuro de nossos filhos e netos. Ou mudamos, ou vamos ao encontro de previsíveis tragédias ecológicas e humanitárias.

Quando aqueles que controlam as finanças e os destinos dos povos se reúnem, nunca é para discutir o futuro da vida humana e a preservação da Terra. Eles se encontram para tratar de dinheiros, de como salvar o sistema financeiro e especulativo, de como garantir as taxas de juros e os lucros dos bancos. Se falam de aquecimento global e de mudanças climáticas é quase sempre nesta ótica: quanto posso perder com estes fenômenos? Ou então, como posso ganhar comprando ou vendendo bônus de carbono (compro de outros países licença para continuar a poluir)? A sustentabilidade de que falam não é nem adjetiva, nem substantiva. É pura retórica. Esquecem que a Terra pode viver sem nós, como viveu por bilhões de anos. Nós não podemos viver sem ela.

Não nos iludamos: as empresas, em sua grande maioria, só assumem a responsabilidade socioambiental na medida em que os ganhos não sejam prejudicados e a competição não seja ameaçada. Portanto, nada de mudanças de rumo, de relação diferente para com a natureza, nada de valores éticos e espirituais. Como disse muito bem o ecólogo social uruguaio E. Gudynas: "a tarefa não é pensar em desenvolvimento alternativo, mas em alternativas de desenvolvimento”.

Chegamos a um ponto em que não temos outra saída senão fazer uma revolução paradigmática, senão seremos vítimas da lógica férrea do Capital que nos poderá levar a um fenomenal impasse civilizatório. (Leonardo Boff - CM)