segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Dilma não é Cardoso

O Pensamento Jornalístico Único é pouco objetivo ao conceder tanta transcendência à foto de Dilma com Fernando Henrique Cardoso que, aos 80 anos, deixou de ser um personagem determinante do cenário brasileiro. Houve temas de igual ou maior importância, merecedores de um lugar mais destacado nas capas, mas que não tiveram esse destaque.

A propósito do Pensamento Jornalístico Único. Em bloco, os três maiores jornais brasileiros ilustraram suas capas de sexta-feira com fotos da presidenta Dilma Rousseff, pertencente ao Partido dos Trabalhadores (PT), de esquerda ou centro-esquerda, junto ao ex-mandatário Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Socialdemocracia Brasileira (PSDB), nascido na centro-esquerda, tornado centrista ou direitista.

Para o Pensamento Jornalístico Único abraçado com maior ou menor ortodoxia pelos jornais Folha, Estadão e O Globo, Cardoso é uma esfinge: sólido intelectual, símbolo e sempre defensor das privatizações dos anos 90, confiável tanto para Washington como para os banqueiros e
consequente antagonista de Luiz Inácio Lula da Silva e do “lulismo”.

Mas se ponderamos a atualidade com mais rigor que ideologia veremos que o referido Pensamento Jornalístico Único é pouco objetivo ao conceder tanta transcendência à foto de Dilma com Cardoso que, aos 80 anos, deixou de ser um personagem determinante do cenário brasileiro. Houve temas de igual ou maior importância, merecedores de um lugar mais destacado nas capas, mas que não tiveram esse destaque.

Por exemplo, no mesmo dia em que se encontrou com Cardoso, Dilma entregou 1.900 casas a famílias pobres de São Paulo, sob a promessa de construir mais dois milhões de casas como forma de enfrentar a crise, mediante uma fórmula distinta da “insensatez” dos Estados Unidos que, conforme disse, insiste em subsidiar os bancos. E declarou que a prioridade de seu governo é o social, muito mais do que “limpeza ética” que causou a renúncia de quatro ministros, a remoção de um quinto que agora comanda uma secretaria sem peso, e tem outros dois sob observação, os de Turismo e Cidades, segundo se informou neste final de semana.

O certo é que esses assuntos significativos, como o Programa Brasil Sem Miséria ou a recente cúpula da Unasul em Lima, passam quase em branco nas manchetes, pois o Pensamento Jornalístico Único (o chamaremos de PJU), antes de responder a critérios noticiosos, responde a um programa de ação política, dado que a imprensa desempenha o papel de principal força opositora, enquanto se reconstrói o Partido da Socialdemocracia, reduzido a escombros após ser derrotados nas eleições do ano passado pelo PT de Rousseff e Lula.

A cruzada de Dilma contra os funcionários desonestos tem a já mencionada aprovação do partido midiático, do líder socialdemocrata Cardoso e da opinião publica, que a premiou com 70% segundo uma pesquisa da semana passada. Em troca, Lula, seu conselheiro e criador político, sugeriu a Rousseff evitar a tentação ética.

Animal político de fino instinto, Lula percebe que o aplauso da imprensa às medidas moralizantes pode ser uma armadilha para que Rousseff acabe abraçando uma agenda exageradamente moralizante, mais própria dos conservadores do que de um governo de esquerda. Ao ex-sindicalista e presidente de honra do PT preocupa que sua companheira descuide o lado social, ainda mais quando começam a se ouvir algumas vozes descontentes.

A Central Única dos Trabalhadores desaprovou algumas reformas anunciadas pelo governo (como a desoneração da folha salarial para os empresários), assim como a vigência das taxas de juro mais altas do mundo que enchem de felicidade e lucro os especuladores. Os camponeses sem terra tampouco aprovam as medidas de austeridade previstas pelo governo para atacar a crise e anunciaram uma marcha de protesto esta semana em Brasília.

Os últimos dias possivelmente deixaram ensinamentos a Dilma, que começa a perceber que sua governabilidade é mais frágil do que supunha, pois depende de uma coalizão de partidos de duvidosa lealdade e de que o impacto da crise, até o momento sob controle, não atinja o apoio popular.
Rousseff sabe que o mapa político brasileiro, para além das instituições formais, está dominando por duas grandes correntes: o lulismo, que ultrapassa o PT e arrasta o espectro progressista, e o Partido do Pensamento Jornalístico Único, em torno do qual orbitam diferentes expressões mais ou menos conservadoras.

Tradução: Katarina Peixoto

Cantanhêde e o "patinhos" do PSDB

Por Fernando Brito, no blog Tijolaço:

Hoje, na Folha, antes de dar a maravilhosa notícia de que vai tirar férias até 13 de setembro, a inefável Eliane Cantanhêde nos brinda com uma mensagem que, certamente, poderia receber a assinatura de José Serra, ou mesmo de Nélson Jobim, de quem ela é a mais autorizada psicógrafa.

O título é ótimo e resume toda a essência da visão serro-jobinista da situação: “Tucanos caem como patinhos”.

E aí, com a mesquinhez eleitoreira que marca o pensamento do xiismo tucano, ela discorre sobre o que seria uma maquiavélica manobra da presidenta para, na visão dela, virar “estrela de uma frente pluripartidária contra a corrupção e contra a miséria”.

A Cantanhêde acha – qualquer um pode achar qualquer coisa na democracia – que a presidenta está se pendurando, como papagaio de pirata, na foto com Fernando Henrique, o Amado e Inesquecível, e os campeões de simpatia Geraldo Alckmin e Antonio Anastasia.

“O aparato marqueteiro que Dilma herdou de Lula não dá ponto sem nó: a solenidade do Brasil sem Miséria com o tucanato foi justamente em São Paulo, coração do PSDB e do seu eleitorado.”

Claro, se Dilma não se reúne com o governo paulista e mineiro, é partidária, se o faz, é oportunista. E o que dizer de aparecer na foto com FHC? Com o prestígio transbordante do ex-presidente, uma foto com ele quase chega a ser um problema.

Mas ela lança o alerta dos bolsões serristas: “assim ela vence resistências entre os 40 milhões que votaram na oposição, contra Lula e o lulismo. Por trás do discurso de que o Brasil sai ganhando, a oposição não lucra nada, Dilma fica com tudo”.

Como qualquer pessoa que encare o exercício do poder de forma mesquinha, sem se dar conta que o Presidente ou a Presidenta é chefe de toda a Nação, inclusive daqueles 40 milhões que votaram no “coiso”, esquece daquele papo “republicano” que gostam de invocar quando é para criticar.

Mas Cantanhêde e os espíritos desencarnados que inspiraram seu raciocínio acerta numa coisa, na frase final, definitiva:

“Dilma é Lula”.

É essa a verdade e é isso que tem de ficar claro para a população, em meio a todos estes rapapés da turma que perdeu o único discurso que tinha – o (falso) moralismo – e das fotografias com o Brasil que já era.

Que os tucanos caiam como patinhos, problema deles. Mas não deixemos o povo brasileiro pensar que é verdade algo diferente do que é verdade: “Dilma é Lula”.

FHC e Dilma, Lula e Serra


Por Eduardo Guimarães, no Blog da Cidadania:

Minha avozinha diria que “o mundo está de cabeça para baixo”. Era o que dizia, em seus últimos anos, enquanto via seu mundo mudar – nem sempre para melhor. Certamente é o que diria vendo Fernando Henrique Cardoso defendendo que seu partido apóie o governo Dilma e manifestando preocupação com a queda contínua de seus ministros.

A aproximação de políticos como Dilma, FHC e Geraldo Alckmin no âmbito de algum tipo de mutirão suprapartidário contra a pobreza e a miséria, porém, é ruim para dois políticos que têm muito pouco em comum: Lula e José Serra, que vêm mantendo o tom beligerante contra seus adversários.

Tanto o ex-presidente quanto o ex-governador de São Paulo continuam batendo nos adversários – o petista bate na mídia e na oposição e o tucano na herança lulista e na “corrupção e falta de rumo deste governo”. E parecem pouco dispostos a contemporizar.

Nos respectivos partidos de Lula e Serra, a situação é parecida. PT e PSDB abrigam setores inconformados com a aproximação entre petistas e tucanos, mesmo que tal aproximação venha se resumindo ao “namoro” entre Dilma, FHC e, agora, Alckmin.

É difícil dizer, ainda, quais facções são majoritárias dentro desses partidos. No PSDB, parece haver um interesse maior pela aproximação. Talvez até por falta de opções – Serra estaria isolado dentro de seu partido devido à sua pregação a favor da beligerância contra o governo Dilma e a herança de Lula. Já no PT, ainda não está claro qual é a corrente majoritária.

Quem conhece algum petista de relevância sabe quanta preocupação há devido à “faxina ética” de Dilma – que, nos últimos dias, ela passou a negar – e ao discurso tucano-midiático sobre “herança maldita” – que vem recebendo, da presidente, um silêncio ensurdecedor. Esse setor do PT julga que tanto a “faxina” quanto a “herança maldita” depõem contra a liderança maior do partido.

São justas as preocupações desses setores do PT. Durante seu período na Presidência e mesmo antes dele, Lula foi sempre maior do que o partido. Elegeu milhares de petistas e aliados pelo Brasil afora e, sem seu apoio, todos teriam sucumbido durante a artilharia midiática da década passada contra o governo do país, seu partido e aqueles aliados.

Dilma passou a negar a “faxina” e a contrapor feitos do governo anterior à tal “herança maldita”, mas a mídia insiste. Setores restritos do PT reclamam da falta de empenho de quem tem a caneta presidencial em combater teses da oposição midiática que se teme que afetem a imagem daquele que é o maior ativo eleitoral petista.

Enquanto Dilma e FHC não saem da mídia com as palavras melosas que vêm dedicando um ao outro em encontros freqüentes, Serra passou a ser ignorado e Lula, metralhado.

Por outro lado, é prematuro dizer que a mídia aderiu a FHC e isolou Serra. Não se pode esquecer de que o ministro demissionário Wagner Rossi atribuiu ao ex-governador a autoria das acusações que culminaram a com a sua saída do governo. Seria verdadeiro, assim, esse “isolamento” de Serra? Como pode estar isolado quem continua puxando os cordões da mídia?

Sem dúvida, a política sofisticou-se no Brasil. As estratégias são muito menos evidentes, chegando ao ponto de fazerem crer, a muitos, que não são estratégias. Há quem acredite, por exemplo, que PT e PSDB se uniriam contra a miséria. Estariam superando as divergências por causa nobilíssima, acreditam.

A divisão de lucros e prejuízos, por incrível que possa parecer, tem sido pior para os petistas e aliados apesar de terem começado o ano por cima da carne seca. O governo Dilma aparece prejudicado nas pesquisas e a mídia – sempre um braço da direita – ganha credibilidade com a concordância desse governo às suas denúncias.

De qualquer forma, a prevalência de Dilma e FHC sobre Lula e Serra é clara ao menos no noticiário. Só não se sabe se os líderes petistas e tucanos não engendraram uma estratégia do tipo “tira bom, tira mau”, imortalizada por Hollywood em filmes em que um policial bonzinho e outro malvado interrogam um preso.

Vale a pena deixar a imagem de Lula se deteriorar para obter um pacto de convivência com a mídia? O que será do PT sem um Lula forte e influente, capaz de transferir a outros a popularidade que transferiu a Dilma no ano passado? E para o PSDB, vale condescender com um governo contra o qual fez tantas acusações?

Por enquanto, só quem vem ganhando com o novo quadro político, é a mídia. Como tem lado, no entanto, os tucanos acabarão sendo beneficiados. Ano que vem, durante as eleições municipais, a tal “corrupção” herdada de Lula pode diminuir o poder dele de transferir votos. E a mídia ganhou credibilidade para indicar os “melhores” candidatos.

Os riscos da "faxina" de Dilma

Wilson Dias/ABr
Por Maurício Caleiro, no blog Cinema & Outras Artes:

No Brasil, o moralismo foi sempre a principal – quando não a única – arma dos setores conservadores contra os governos progressistas. Está fresca na memória de todos a estratégia do demotucanato, em conluio com a mídia, durante os oito anos em que Lula ocupou a Presidência: um jogo de derruba-presidente alimentado por denúncias semanais de corrupção.


A prática é antiga, e, em maior ou menor grau, tanto o Getúlio Vargas eleito quanto Juscelino Kubitschek e João Goulart foram alvos de tais táticas - o primeiro tendo toda a imprensa contra si, à exceção da Última Hora de Wainer; JK atacado incessantemente por O Cruzeiro, David Nasser à frente, para quem Brasília era uma mera desculpa para engrossar a corrupção; e quanto a Goulart, basta lembrar que o combate à corrupção foi inúmeras vezes elencado por fontes militares e editoriais jornalísticos como uma das motivações centrais do golpe que o derrubara.

Denuncismo vazio

Não interessa, nesses denuncismo que ora tem no governo Dilma o seu alvo, se as denúncias procedem ou não. O objetivo não é a moralização do Estado ou de coisa alguma, como fica evidente pelo fato de que tanto a mídia quanto os partidos patrocinadores das denúncias se desinteressam pelos desdobramentos das investigações tão logo o personagem acusado deixa o governo.

Os objetivos - cujo fim último é, como os casos de Goulart e de Getúlio evidenciam, o golpe contra o presidente -, são outros:

1) Manter a opinião pública permanentemente indignada, com a certeza de que vive no mais corrupto dos países, e ora administrado pelo partido mais vil e pelos mais degenerados dos políticos.

2) Impor sucessivos cortes à equipe governista, estreitando sua margem de quadros e de manobras e, ao mesmo tempo, minando suas relações com os partidos da base, que não gostam de ter seus indicados forçados a deixar os cargos.

Dilma na mira

Filiam-se à mesma estratégia golpista acima descrita as denúncias de corrupção contra o governo Dilma, ininterruptas desde fevereiro e que já custaram o cargo de quatro ministros. A diferença, agora, é a postura da presidente. Ao invés de denunciar a estratégia midiática, como Lula fazia, ela não só tem se deixado pautar pela mídia mas, ultimamente, vem aceitando o apoio de cardeais tucanos para a sua “faxina”.

Ora, é preciso uma enorme dose de ingenuidade para não se aperceber dos riscos que tal estratégia traz consigo. Em primeiro lugar, não é preciso nenhuma expertise para se dar conta de que uma matéria com FHC e Dilma na foto, o primeiro saudando o combate o combate à corrupção promovido pela presidente, leva diretamente ao legado de outro ex-presidente, ausente na foto: se há corrupção a ser combatida e este combate é apoiado até por FHC é porque Lula a deixou.

Além disso, a mídia demotucana já se deu conta - graças, entre outros fatores, à repercussão do desempenho da Polícia Federal no governo Lula - de que a opinião pública não tende a associar o aumento de investigações sobre corrupção ao combate desta - pelo contrário. O mito acachapante de que durante a ditadura militar praticamente não havia corrupção alimenta-se precisamente desse paradoxo: como não se podia noticiar a corrupção é como se ela não existisse. De forma inversa, a impressão, amplamente difundida em certos estratos, de que os governos Lula e Dilma são extremamente corruptos viria justamente da profusão de denúncias e anúncios de investigações em curso.

Refém em potencial

Por fim, parece evidente que esse apoio público de setores conservadores à “faxina” promovida por Dilma vai retroalimentar e hiperdimensionar o tal combate à corrupção, e que a mídia, a cargo de pautar e ditar o ritmo de ação da “limpeza” pode levar o governo a uma situação vulnerável, tendo de cortar na carne seus quadros no Executivo, gerando atritos cada vez maiores com a base aliada e tornando mais vulnerável a própria autoridade presidencial.

É urgente, portanto, que Dilma Rousseff repense os termos de sua relação com a mídia e com a oposição, de modo a abrir mão do populismo neoudenista implícito no conceito de “faxina” contra a corrupção (sem abrir mão do combate a esta) e sem se deixar pautar. Do contrário, a possibilidade de se tornar refém da agenda tucano-midiática é real.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PCdoB de Feira de Santana se organiza para 2012

Representantes de vários sindicatos militantes do PCdoB de Feira de Santana reuniram-se no último dia 11 de agosto para construírem estratégias de organização do Partido, bem como pensar o processo eleitoral de 2012. A reunião aconteceu na sede local da FETAG-BA e contou com a participação de Aurino Pedreira, Secretário Sindical Estadual do PCdoB, Florisvaldo Campos e Rozete Evangelista, ambos do Diretório Municipal do Partido. Presentes na reunião estavam representantes do SINTRACON, SINDIMED, SINDIBORRACHA, SINDILADRILHOS, FETAG-BA, SINDIBEB, SINPOSBA, SINDISAÚDE, além do Núcleo de Oposição dos metalúrgicos.

Genaldo de Melo

Moção de Repúdio

O Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Governador Mangabeira tem desenvolvido nos últimos anos um trabalho de destaque em defesa dos interesses do povo do município.  Esse trabalho tem sido reconhecido tanto pelo povo como pelas instituições sérias que também trabalham em nosso município.
Porém nas últimas semanas a entidade tem sido atacada de forma leviana e covarde por um radialista em Cruz das Almas, que não conhece e nem sequer respeita os sócios do Sindicato. Esse ato irresponsável, vil, traiçoeiro e covarde deve servir para algum político oportunista, que provavelmente está por trás de tudo.
A Diretoria do Sindicato convida todos os trabalhadores e trabalhadoras rurais a repudiarem esse ato covarde, e participarem ainda mais das atividades da nossa Entidade. Pois com isso, além de demonstrarmos que juntos somos fortes, temos sempre Deus ao nosso lado.
O Sindicato é do povo de Governador Mangabeira e presta serviços sérios e de qualidade, enquanto que um programinha de rádio de invejosos serve apenas para agredir as famílias de bem, o Sindicato e sua Diretoria, que tem o respeito do povo. Abaixo a calúnia, a difamação e a covardia!

Fonte: Diretoria Executiva/STTR de Gov. Mangabeira

Líder do governo no Senado cobra lealdade do PMDB para evitar CPI dos Transportes

Jucá lembrou que descontentamentos na base aliada do governo são naturais, mas disse que não justificam as assinaturas para a CPI. “Reivindicações fazem parte do dia a dia e nós estamos trabalhando para atendê-las...

Brasília - O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), cobrou hoje (11) dos senadores do PMDB que não assinem o requerimento para criação da comissão parlamentar de inquérito (CPI) para investigar as denúncias de corrupção no Ministério dos Transportes.

Jucá lembrou que descontentamentos na base aliada do governo são naturais, mas disse que não justificam as assinaturas para a CPI. “Reivindicações fazem parte do dia a dia e nós estamos trabalhando para atendê-las, mas uma coisa é reivindicar, outra é assinar”.

Por fim, Jucá pediu aos colegas de partido que não ofereçam armas à oposição contra o governo. “O PMDB tem dado algumas assinaturas de senadores que efetivamente têm uma posição divergente, mas nós temos pregado à base que não é interessante, salutar ou construtivo dar à oposição um instrumento para fustigar o governo”.

O líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (AL), defendeu o partido. Segundo ele, os peemedebistas estão “frustrados” pela baixa participação nas decisões de governo, mas negou que o sentimento tenha a ver com cargos no governo ou liberação de emendas.

“São dificuldades pontuais que precisam ser superadas, muitas pelo desejo frustrado de participar da formulação, da decisão. Temos internamente conversado muito sobre isso, dissemos isso à ministra [da Secretaria de Relações Institucionais] Ideli [Salvatti]. Efetivamente essas diferenças não têm nada a ver com liberação de recursos, com ocupação de espaço na administração. São diferenças pontuais”, disse Calheiros.

Apesar da insatisfação, o líder do PMDB garantiu que os parlamentares do partido saberão “preservar os interesses do país” e separar a crise política da econômica. “Nós precisamos integrar mais a bancada, o partido, nesse momento não dá para conjugar o estresse econômico mundial com uma crise política interna. Seria uma coisa dificílima na administração”. (VoteBrasil)

Às suas ordens, dotô Mercado!

O mercado “pensa”, o mercado “avalia”, o mercado “propõe”, o mercado “desconfia”, o mercado “sugere”, o mercado “reage”. E aí sim, de vez em quando, o tom de voz sobe e o mercado “exige”!! E, aos poucos, o que era antes um sujeito, o indivíduo “mercado” também vai ganhando ares de divindade.

Uma das inúmeras lições que a atual crise econômica tem a nos oferecer é a possibilidade de compreender um pouco melhor os mecanismos de funcionamento da economia capitalista em sua fase de tão ampla e profunda internacionalização financeira. Depois de baixada a poeira e dado o devido distanciamento temporal, imagino a quantidade de teses que serão desenvolvidas para tentar entender e explicar aquilo que estamos vivendo a quente pelos quatro cantos do planeta.

As alternativas de enfoque são muitas. A relação conflituosa entre os interesses do capital produtivo e os do capital financeiro stricto sensu. A autonomia – na verdade, uma quase independência – do circuito monetário em relação ao chamado lado “real” da economia. A contradição entre o discurso liberal ortodoxo patrocinado pelos dirigentes dos países mais ricos até anteontem e a prática atual de medidas protecionistas de seus próprios interesses nacionais. A postura inequívoca e amplamente expandida de defesa das vontades das grandes instituições financeiras em primeiro lugar, sempre às custas de cortes nos gastos orçamentários na área social voltados à maioria da população de seus países. A dita solidez das estruturas do mercado financeiro, agora tão confiável quanto a de um castelo de cartas. A perda completa de credibilidade das instituições financeiras, a exemplo das chamadas agência de rating, que passam a escancarar a sua relação incestuosa com setores econômicos. O fim do mito da chamada “independência” dos Bancos Centrais, cujas políticas monetárias estariam sendo implementadas de forma neutra e isenta, uma vez que baseadas em critérios técnicos e científicos (sic...) do conhecimento econômico acumulado. A falência das correntes que se apegavam às teorias chamadas da “racionalidade dos agentes” para buscar assegurar que não haveria o que temer com o funcionamento das livres forças de mercado, pois o equilíbrio entre oferta e demanda sempre apontaria a solução mais racional possível. E por aí vai. A lista é quase infindável.

Mas um elemento, em especial, chama a atenção em meio a essa enormidade de aspectos. E trata-se de algo importante, pois diz respeito à tentativa de legitimação de toda e qualquer ação dos poderes públicos na busca da saída para a crise econômica. Com isso procura-se fugir da conseqüência mais próxima em caso de fracasso: colocar em risco a sua própria legitimidade política. Ainda que nos momentos de maior tensão seja perceptível uma contradição entre os desejos dos representantes do capital financeiro e as possibilidades oferecidas pelos agentes do governo, no final quase tudo acaba se resolvendo no conluio entre o público e o privado. Nos bastidores do poder, a ação do Estado é ditada, via de regra, pelos interesses do capital.

Mas nas conjunturas de crise profunda, como a atual, passa a operar também a chamada opinião pública. Os temas de economia e de finanças, antes restrito às páginas dos jornais especializados, ganham as manchetes de capa e se convertem em preocupação de amplos setores da sociedade. A população se assusta, exige mais explicações, quer entender melhor! Porém, não se consegue tornar tão claros os mecanismos de funcionamento da dinâmica econômica em tão pouco tempo e em tão poucas linhas. E nesse momento ganham importância os interlocutores chamados a explicar: os economistas dos grandes bancos, os analistas das instituições financeiras, os responsáveis pelas empresas de consultoria, enfim os chamados “especialistas”. Cabe a eles a tarefa de convencimento do grande público de que a crise é causada por este ou aquele fator, ou então de que as medidas anunciadas há pouco por um determinado Ministro da Economia são ou não adequadas para resolver os problemas a que se propõem.

E aqui entra em campo um elemento essencial na dinâmica do discurso. Uma entidade que passa a ser reverenciada em ampla escala, coisa que era antes reduzida a uma platéia restrita. Trata-se do famoso “mercado” – muito prazer!. Um dos grandes enigmas da história da humanidade, tanto estudado e ainda tão pouco desvendado em seus aspectos essenciais, passa a ser tratado como um ser humanizado, um quase indivíduo. Isso porque para justificar a necessidade das decisões duras e difíceis a serem tomadas - sempre às custas de muitos e para favorecer uns bem poucos – recorre-se às opiniões de “alguém” que conheça, que assegure que não há realmente outra solução. Tem-se a impressão de que o mercado vira gente, um dos nossos!

As matérias dos grandes jornais, as páginas das revistas de maior circulação, os sítios da internet, os programas na televisão e no rádio, enfim, por todos os meios de comunicação passamos a conhecer aquilo que nos é vendido como sendo a opinião dessa entidade, dessa quase pessoa. As frases e os estilos podem variar, mas no fundo, lá no fundo, tudo é sempre mais do mesmo. Recorrer a um mecanismo que beira a abstração para justificar as medidas mais do que concretas. Fazer um chamamento a uma entidade externa, com ares de messianismo e divindade, para convencer de que as proposições - expostas numa linguagem e numa lógica incompreensíveis para a maioria - são realmente necessárias. Sim, sim, é preciso também ter fé! Pois em caso contrário, aquilo que nos espera é ainda pior do que o péssimo do vivido agora. Será o caos!

É o que tem acontecido na atual crise da dívida norte-americana ou na seqüência dos diversos capítulos da crise dos países da União Européia. O mercado “pensa”, o mercado “avalia”, o mercado “propõe”, o mercado “desconfia”, o mercado “sugere”, o mercado “reage”. E aí sim, de vez em quando, o tom de voz sobe e o mercado “exige”!! E depois o mercado “ameaça”. O mercado “cai”, o mercado “sobe”, o mercado “se recompõe”. O mercado “se sente inseguro”, o mercado “fica satisfeito”, o mercado “comemora”. O mercado “não aceita” tal medida, o mercado “se rebela” contra tal decisão.

E assim, à força de repetir à exaustão essa fórmula aparentemente tão simples, o que se busca, na verdade, é fazer um movimento de aproximação. Tornar a convivência com um ser que conhece de forma tão profunda a dinâmica da economia um ato quase amical e familiar para cada um de nós. Mas o “mercado” - sujeito de tantos verbos de ação e de percepção - não tem nome! Ele não pode ser achado, pois o mercado não tem endereço. Ele não pode ser entrevistado, pois o mercado nunca comparece fisicamente nos compromissos. Ele tampouco pode ser fotografado, pois o mercado não tem rosto. O que há, de fato, são uns poucos indivíduos que fazem a transmissão de suas idéias, de seus pensamentos, de seus sentimentos. São verdadeiros profetas, que têm o poder de fazer a interlocução entre o “mercado” e o povo. Pois, não obstante a tentativa de torná-la íntima de todos nós, essa entidade não se revela para qualquer um.

Ele escolhe uns poucos iluminados para representá-lo aqui entre nós. Como se, estes sim, tivessem a procuração sagrada para falar em seu nome e representar aqui seus interesses. E aos poucos o que era antes um sujeito, o indivíduo “mercado” também vai ganhando ares de divindade. Tudo se passa como ele se manifestasse exclusivamente por meio de seus oráculos, os únicos capazes de captar e interpretar o desejo do deus mercado. Pois ele pensa, fala, acha, opina, mas não se apresenta para um aperto de mão, ou mesmo para uma prosinha que seja, para confirmar o que andam falando e fazendo em seu nome aqui pelos nossos lados.

Mas, apesar de toda evidente fragilidade da cena construída, não há como contestá-la. O mercado é legitimado por quem tem poder de legitimar. O discurso dos que não acreditam e dos que desconfiam não chega à maioria. Sim, pois aqui tampouco pode haver espaço para a dúvida. Nenhuma chance para o ato irresponsável que seria dar o espaço para o contraditório. A única certeza é de que o mercado sempre tem razão. E ponto final. Assim, todos passam horas na angústia e na agonia para saber como o mercado “reagirá” na abertura das bolsas de valores na manhã seguinte ou para tentar antecipar como o mercado “avaliará” hipotéticas medidas anunciadas para as transações de câmbio na noite da véspera.

O resultado de toda essa construção simbólica pode ser sintetizado na tentativa do convencimento político e ideológico dos caminhos escolhidos para a solução da crise. O mercado “alertou”, o mercado “ponderou”, o mercado “pressionou”, o mercado “exigiu”. E, finalmente, o mercado “conseguiu”. Por todo e qualquer lado que se procure, tentam nos convencer que não havia realmente outra forma possível de evitar o pior dos mundos. Como somos todos mesmo ignorantes em matéria de funcionamento dessa coisa tão complexa como a economia, somos chamados a delegar também as formas de solução para a crise. E, como sempre acontece em nossa tradição, estamos às suas ordens, Dotô Mercado...

Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Três dias que abalaram o mundo

Do sítio Carta Maior:

Domingo, 6 de agosto, Tel Aviv: 350 mil israelenses protestam nas ruas do país por melhores condições de vida. Segunda- feira, 7 de agosto, Londres: distúrbios sociais iniciados nos subúrbios pobres transformam-se em explosão viral que envolve milhares de jovens em diferentes pontos do país. Terça-feira, 8 de agosto, Santiago: 150 mil estudantes vão às ruas em defesa de uma reforma educacional que universalize o ensino público, gratuito, de qualidade.

O que interliga esses levantes quase sincronizados em lugares tão díspares, antecedidos de rebeliões massivas que irromperam como que abruptamente das areias dos países árabes e da modorra social em outras partes do mundo? A mera coincidência do calendário?

Certamente não. A resposta mais próxima talvez tenha que ser buscada na percepção difusa mas crescente, enraivecida em alguns casos, consciente em outros, da brutal desigualdade herdada do ciclo de supremacia das finanças desreguladas - o ciclo dos bancos, dos endinheirados, das corporações invisíveis e ubíquas ao mesmo tempo.

Sejam quais forem as denominações sedimentadas no discernimento popular elas guardam aderência consistente com a abrangência intolerável de uma espiral do privilégio que consolidou duas humanidades socialmente imiscíveis nas últimas décadas. Em quase todos os países, e na maioria das grandes cidades, de um lado, derrama-se a riqueza num grau de ostentação jamais registrado na história; de outro, o bem-estar social e sua contrapartida em subjetividade, dissolvem-se em sucessivas ondas de saque, desregulamentação e delinqüência institucional contra o patrimônio público, os direitos e valores que enlaçam a convivência compartilhada.

No crepúsculo turbulento do ciclo, a ganância em fuga ameaça agora esfarelar os últimos centímetros de chão firme de vidas expostas às intempéries de toda sorte. E a tal ponto encurraladas por dentro e por fora em sua precariedade estrutural que só lhes resta uma fresta: as ruas.

Patrões derrotam Convenção 158 da OIT

Por Marcos Verlaine, no sítio do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap):

Depois de quatro horas de "debate", a maioria da Comissão de Trabalho da Câmara rejeitou a Convenção 158, da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que protege o trabalhador contra a demissão imotivada, com a aprovação do parecer contrário do relator, deputado Sabino Castelo Branco (PTB-PE). Sob a batuta da CNI (Confederação Nacional da Indústria), o relatório contra a Mensagem Presidencial 59/08 foi aprovado por 17 votos favoráveis e oito contrários.

O relator, que em 2010 havia apresentado parecer favorável à mensagem presidencial, mudou completamente o voto e não justificou oralmente as razões da mudança repentina e radical.

Minoritária na Comissão, a bancada sindical fez de tudo para evitar a aprovação do parecer, que está em franco desacordo com a agenda unitária dos trabalhadores. Contraditoriamente, talvez por não ser defensável o parecer, nenhum deputado da bancada empresarial falou a favor do texto de Sabino, embora concordasse com ele.

Nem o relator defendeu ou explicou seu voto, já que mudou radicalmente de posição num espaço curto de tempo. Ele também não se pronunciou sobre o conteúdo da matéria.

Ao debater a questão da regulamentação da Convenção 158, o deputado Vicentinho (PT-SP) indagou ao relator se o empregador não deve explicações ao trabalhador no momento da dispensa. E questionou também o fato de ter havido 15 milhões de contratações e 14 milhões de demissões nos últimos anos. O que demonstra uma precária relação de trabalho, que impede o assalariado de, por exemplo, se qualificar melhor.

Não se assuste

O resultado não foi novidade. Com escore semelhante, a Comissão aprovou por 17 a 7, em junho, o PL 4.330/04, do deputado Sandro Mabel (PR-GO), que regulamenta a terceirização na perspectiva empresarial. A novidade é o ritmo imposto contra a agenda dos trabalhadores.

Mas isto não deve assustar quem acompanha a política e o Congresso, pois os empresários anunciaram em março de 2010 o que pretendiam para as eleições que se avizinhavam - ampliar a representação no Congresso. Tanto os empresários das cidades, quanto os do campo.

Mais que comparecer

A pressão dos sindicalistas que compareceram à sessão desta quarta-feira, aliada à articulação que foi construída pela bancada sindical, que usou todos os recursos regimentais possíveis, surtiram certo efeito, mas foram insuficientes para aprovar a Convenção 158.

Destaque-se que a vitória patronal expõe um método antidemocrático da bancada empresarial - sem debate e por meio de "rolo compressor".

Comparecer já foi importante, já que em outras votações os empresários tiveram e têm tido certa folga para aprovar as matérias de interesse do segmento no Congresso. É preciso também procurar os deputados e dialogar com eles sobre a agenda que interessa aos trabalhadores.

Sabino Castelo Branco disse que não foi procurado por ninguém. "Os deputados contrários ao meu parecer não me procuraram para conversar", comentou sem entrar no mérito do relatório que apresentou.

Este argumento do relator não corresponde à realidade, pois Sabino apresentou seu novo parecer no dia 11 de julho, às vésperas do recesso parlamentar. Portanto, não houve tempo de se construir uma mediação de quem discordava do parecer, outrora favorável.

Choque de agendas

Uma por uma, a Comissão de Trabalho da Câmara com maioria conservadora, como disse o deputado Vicentinho, vai derrubando a "pauta trabalhista", aprovada pelas centrais em 2008, em reunião na Liderança do PDT.

Primeiro aprovou a terceirização sem mediar com os trabalhadores. O PL 4.330 representa tão somente a visão empresarial-patronal sobre o tema. Agora, derrotou a Convenção 158, antes de dialogar com as centrais; numa ação ostensiva das confederações patronais na Comissão.

Para a próxima quarta-feira (17), já está pautado para votação na Comissão de Trabalho o PL 1.992/07, do Executivo, que institui a previdência complementar do servidor, matéria que não interessa ao funcionalismo, pois na prática privatiza o instituto previdenciário dos trabalhadores públicos. Ao mesmo tempo em que quer rejeitar o PLP 8/03, do deputado Maurício Rands (PT-PE), que regulamenta a demissão imotivada.

Para completar, o presidente do colegiado, deputado Silvio Costa (PTB-PE) apresentou projeto de lei (PL 1.463/11), que cria o Código de Trabalho e flexibiliza os direitos trabalhistas. Com este projeto Silvio Costa, que é empresário da educação, quer resgatar relações trabalhistas baseadas "no negociado sobre o legislado".

Tramitação

A mensagem presidencial que regulamenta a Convenção 158 no Brasil já foi derrotada nas comissões de Relações Exteriores e Defesa Nacional; e de Trabalho, Administração e Serviço Público. Agora, a matéria vai ser examinada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, antes de ir ao plenário, que dará a posição final sobre o tema.

Veja como votaram os membros da Comissão:

Votos contrários ao parecer de Sabino (8)

Eudes Xavier (PT-CE)

Policarpo (PT-DF)

Vicentinho (PT-SP)

Daniel Almeida (PCdoB-BA)

Paulo Pereira da Silva (PDT-SP)

Assis Melo (PCdoB-RS)

André Figueiredo (PDT-CE)**

Roberto Santiago (PV-SP)**

Votos favoráveis (17), portanto contra a Convenção 158

Gorete Pereira (PR-CE)

Sabino Castelo Branco (PTB-AM)

Andreia Zito (PSDB-RJ)

Eros Biondini (PTB-MG)

Ronaldo Nogueira (PTB-RS)

Augusto Coutinho (DEM -PE)

Laércio Oliveira (PR-SE)

Luciano Castro (PR-RR)

Walney Rocha (PTB-RJ)

Silvio Costa (PTB-PE)*

Erivelton Santana (PSC-BA)

Sandro Mabel (PR-GO)

Darcísio Perondi (PMDB-RS)**

Jutahy Junior (PSDB-BA)**

Alex Canziani (PTB-PR)**

Efraim Filho (DEM-PB)**

Henrique Oliveira (PR-AM)**

Heleno Silva (PRB-SE)**

(*) Não computa o voto do presidente do colegiado. Votaria no caso de empate da votação.

(**) Suplentes na Comissão.

Decisão parlamentar sobre Convenção 158 prejudica trabalhadores

Editorial do Vermelho

A rejeição, pela Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados, da ratificação da Convenção 158 da OIT, que coíbe as demissões imotivadas, por 17 votos contra oito, levanta a suspeita de que, sob este aspecto, aquela comissão é, na verdade, uma Comissão dos Interesses Patronais.

A Convenção 158 é importante para a defesa dos interesses dos trabalhadores por dois aspectos fundamentais – ela acena com a estabilidade no emprego e torna ilegal a prática comumente empregada pelos patrões para burlar as negociações salariais e reduzir o ganho dos trabalhadores através da demissão para contratar novos empregados por salários mais baixos.

Este truque é antigo nas empresas brasileiras e, como mostram estudos do Ministério do Trabalho e do Emprego, usado principalmente por grandes indústrias de transformação.

É a rotatividade da mão de obra, vivida pelos trabalhadores no chão de fábrica como o famigerado “facão”, que ocorre usualmente nos meses que antecedem as negociações salariais, ou naqueles imediatamente posteriores a ela. E que continua a ser usado para corroer as vitórias alcançadas nas negociações coletivas dos últimos anos, nas quais as correções salariais têm incorporado ganhos reais acima da inflação, dentro da política de valorização dos salários acertada entre as centrais sindicais e o governo federal.

As taxas de rotatividade da mão de obra são escandalosas e, historicamente, têm superado o patamar de 40% dos trabalhadores contratados, mostrando – como constatou o ministro do Trabalho e do Emprego, Carlos Alberto Lupi – que demitir, no Brasil, é fácil e barato para as empresas. Em 2009, por exemplo, dos 61 milhões de contratos de trabalho existentes, apenas 41 milhões continuaram ativos até o final do ano, significando que 20 milhões de trabalhadores perderam seus empregos e tiveram que encontrar outros com salários menores. É um dado assustador, reconheceu o ministro, constatando também a extrema flexibilidade (contra os trabalhadores) da legislação trabalhista.

A resistência da bancada do PCdoB contra a decisão negativa da Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados foi intensa. O deputado Assis Melo (PCdoB-RS) defendeu a proteção ao emprego contra os abusos patronais; Daniel Almeida (PCdoB-BA) chegou a denunciar o reaparecimento do direitista “centrão”, que tantos malefícios causou à democracia e aos trabalhadores na Assembleia Constituinte de 1987/1988; Alice Portugal (PCdoB-BA), também alertou para a necessidade de mais pressão contra a posição retrógada da Comissão do Trabalho.

A posição da maioria dos deputados daquela Comissão é inaceitável e confirma a determinação de agir contra os interesses dos trabalhadores já demonstrada na votação da proposta do deputado Sandro Mabel (PR-GO), que facilita e amplia a possibilidade de terceirização nas empresas, em benefício dos patrões e seus lucros, e contrariando frontalmente os interesses dos trabalhadores.

A decisão da Comissão de Trabalho da Câmara, entretanto, não significa o fim da luta pela ratificação da Convenção 158 da OIT, mas apenas um obstáculo a mais que precisará ser vencido pelos trabalhadores e pelas centrais sindicais. Agora, ela depende do apoio de dez por cento dos deputados para poder ser votada pelo Plenário da Câmara. Caso, contrário, será arquivada. Isto significa que os trabalhadores e suas lideranças precisam ficar atentos e dirigir suas pressões agora sobre aqueles a quem caberá primeiro apoiar a votação em Plenário e, depois, conquistar ainda mais votos para que ela seja aprovada

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Dilma acredita que mercado interno vai proteger Brasil de crise internacional

São Paulo – A presidenta da República, Dilma Rousseff, afirmou nesta quarta-feira (10) que o mercado interno será o caminho para que o Brasil não sofra os efeitos da crise financeira internacional. Ela reiterou a leitura de que o país está bem preparado para enfrentar instabilidades e garantiu que a economia não entrará em recessão.

“Temos um pensamento. Vamos preservar nossas forças produtivas, nossos empregos e a renda de nossa população. Temos certeza que ao fazer isso vamos fazer o combate mais eficaz da crise”, defendeu Dilma durante a abertura do Encontro Nacional da Indústria da Construção, em São Paulo. Foi o ponto mais enfático do discurso da presidenta, em parte respondendo a preocupações manifestadas por empresários ao longo da cerimônia.

A presidenta deixou claro que tem mais convergências com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação à economia do que desejariam alguns setores da sociedade e da imprensa. À época da crise anterior, em 2008, à frente da Casa Civil, Dilma foi uma das defensoras da linha econômica que via na força dos consumidores brasileiros a resposta a um cenário internacional afetado pela perda de poder de compra das nações mais ricas e pelo dólar desvalorizado. Políticas anticíclicas apresentadas na ocasião pelo Ministério da Fazenda foram reconhecidas mais tarde como o principal fator para que o país não sofresse tanto quanto o problema iniciado nos Estados Unidos. Nesta quarta, a presidenta lamentou que muitas nações tenham utilizado seus recursos para saldar a dívida de bancos em vez de favorecer a população, um ponto que também era enfatizado com frequência por Lula, em uma referência voltada especialmente à atuação da Casa Branca.

Nas últimas semanas, tem aumentado a apreensão de que os Estados Unidos mergulhem em nova recessão. O grande endividamento público e a incerteza sobre as medidas que serão acordadas entre republicanos e democratas têm se refletido no desempenho dos mercados financeiros, com oscilações que repetem os episódios de 2008. Enquanto isso, a Europa demonstra também estar mais enfraquecida, adotando cortes drásticos no orçamento, o que vem se refletindo em distúrbios sociais. 

Para a presidenta, a falta de comando político e de respostas claras por parte das nações do Norte faz com que a saída da crise seja mais longa que o imaginado – o ministro da Fazenda, Guido Mantega, estima que a recessão possa durar até três anos. Por isso, embora os motivos de fundo sejam basicamente os mesmos, Dilma vê um panorama menos animador atualmente.

Por outro lado, a análise no Palácio do Planalto é de que a situação é mais cômoda agora por conta dos indicadores econômicos brasileiros, mais sólidos que há três anos. “Por que? Temos mais força porque demonstramos para nós mesmos quando fomos o primeiro país a sair da crise. O último a entrar e o primeiro a sair. Também porque hoje temos mais experiências e mais instrumentos.”

No discurso, Dilma pontuou várias vezes que o Brasil deve saber transformar o risco representado pela crise em uma oportunidade. Ela considera que é preciso avançar na proteção da indústria e garantir a continuidade dos programas sociais, agora sintetizados no programa Brasil sem Miséria. “Muitos olharam incrédulos para nós, mas esse país é integrado por brasileiros e brasileiras que sabem afirmar que quando queremos somos capazes de resistir e enfrentar as maiores dificuldades.”

‘Não é crise. É que não te quero mais’

Manuel Castells
Sociólogo catalão
Adital
 
Quando milhares de [jovens] indignados, [que ocuparam as praças da Espanha], tiram de foco a "crise” e atacam diretamente o sistema que produz tantos desarranjos, estão sustentando algo importante. Querem dizer que é preciso ir à raiz dos problemas; olhar para suas causas. Porque se elas persistirem, continuarão produzindo as mesmas consequências.

Mas de que sistema falamos? Muitos diriam capitalismo, mais é algo pouco útil: há muitos capitalismos. Precisamos analisar o que vivemos como crise para entender que não se trata de uma patologia do sistema, mas do resultado deste capitalismo. Além disso, a crítica se estende à gestão política. E surge no contexto de uma Europa desequilibrada por um sistema financeiro destrutivo que provoca a crise do euro e suscita a desunião europeia.

Nas últimas décadas, constituiu-se um capitalismo global, dominado por instituições financeiras (os bancos são apenas uma parte) que vivem de produzir dívida e ganhar com ela. Para aumentar seus lucros, as instituições financeiras criam capital virtual por meio dos chamados "derivativos” [ou, basicamente, apostas na evolução futura de todo tipo de preço].

Emprestam umas às outras, aumentando o capital circulante e, portanto, os juros [e comissões] a receber. Em média, os bancos dispõem, nos Estados Unidos ou na Europa, de apenas 3% do capital que devem ao público. Se este percentual chega a 5%, são considerados solventes, [em boa saúde financeira]. Enquanto isso, 95% [do dinheiro dos depositantes] não está disponível: alimenta incessantemente operações que envolvem múltiplos credores e devedores, que estabelecem relações num mercado volátil, em grande parte desregulado.

Diz-se que umas transações compensam umas às outras e o risco se dilui. Para cobrir os riscos, há os seguros – mas as seguradoras também emprestam o capital que deveriam reservar para fazer frente a sinistros. Ainda assim, permanecem tranquilos, porque supõem que, em ultima instância, o Estado (ou seja, nós) vai salvá-los das dívidas – desde que sejam grandes o suficiente [para ameaçar toda a economia]… O efeito perverso deste sistema, operado por redes de computadores mediadas por modelos matemáticos sofisticados, é: quanto menos garantias tiverem, mais rentáveis (para as instituições financeiras e seus dirigentes) as operações serão. E aqui entra outro fator: o modelo consumista que busca o sentido da vida comprando-a em prestações...

Como o maior investimento das pessoas são suas próprias casas, o mercado hipotecário (alimentado por juros reais negativos) criou um paraíso artificial. Estimulou uma indústria imobiliária especulativa e desmesurada, predadora do meio ambiente, que se alimenta de trabalhadores imigrantes e dinheiro emprestado a baixo custo. Diante de tal facilidade, poucos empreendedores apostaram em inovações. Mesmo empresas de desenvolvimento tecnológico, grandes ou pequenas, passaram a buscar a autovalorização no mercado financeiro, ao invés de inovar.

O que importava não eram as habilidades e virtudes da empresa, mas seu valor no mercado de capitais. O que muitos "inovadores” desejavam, na verdade, é que sua empresa fosse comprada por uma maior. A chave desta pirâmide especulativa era o entrelaçamento de toda essa divida: os passivos se convertiam em ativos para garantir outros empréstimos. Quando os empréstimos não puderam mais ser pagos, começou a insolvência de empresas e pessoas. As quebras propagaram-se em cadeia, até chegar ao coração do sistema: as grandes seguradoras.

Diante do perigo do colapso de todo o sistema, os governos salvaram bancos e demais instituições financeiras.
Quando secou o credito às empresas, a crise financeira converteu-se em crise industrial e de emprego. Os governos assumiram o custo de evitar o desemprego em massa e tentar reanimar a economia moribunda. Como pagar a conta?

Aumentar os impostos não dá votos. Por isso, recorreram aos próprios mercados financeiros, aumentando sua já elevada dívida pública. Quanto mais especulativas eram as economias (Grécia, Irlanda, Portugal, Itália, Espanha) e quanto mais os governos pensavam apenas no curto prazo, maior eram o gasto público e o aumento da dívida. Como ela estava lastreada por uma moeda forte –o euro–, os mercados continuaram emprestando. Contavam com a força e o crédito da União Europeia. O resultado foi uma crise financeira de vários Estados, ameaçados de falência. Esta crise fiscal converteu-se, em seguida, numa nova crise financeira: porque colocou em perigo o euro e aumentou o risco de países suspeitos de futura insolvência.

Mas quem quebraria -se fossem à falência os países em condições financeiras mais precárias- seriam os bancos alemães e franceses. Para salvar tais bancos, seria preciso resgatar os países devedores. A condição foi impor cortes nos gastos dos Estados e a redução de empregos em empresas e no setor público. Muitos países –incluindo a Espanha– perderam sua soberania econômica. Assim, chegaram as ondas de demissões, o aumento do desemprego, a redução de salários e os cortes nos serviços sociais. Coexistem com lucros recordes para o setor financeiro.

Claro que alguns bancos perderam muito, e terão de sofrer intervenção do Estado – para serem, em seguida, reprivatizados. Por isso, os "indignados” afirmam que o sistema não está em crise. O capital financeiro continua ganhado, e transfere os prejuízos à sociedade e aos Estados. Assim se disciplinam os sindicatos e os cidadãos. Assim, a crise das finanças torna-se crise política.

Porque a outra característica-chave do sistema não é econômica, mas política. Trata-se da ruptura do vínculo entre cidadão e governantes. "Não nos representam”, dizem muitos. Os partidos vivem entre si e para si. A classe política tornou-se uma casta que compartilha o interesse comum de manter o poder dividido entre si mesma, através de um mercado político-midiático que se renova a cada quatro anos. Auto-absolvendo-se da corrupção e dos abusos, já que tem o poder de designar a cúpula do Poder Judiciário.

Protegido desta forma, o poder Político, pactua com os outros dois poderes: o Financeiro e o Midiático, que estão profundamente imbricados. Enquanto a dívida econômica puder ser rolada, e a comunicação controlada, as pessoas tocarão suas vidas passivamente. Esse é o sistema. Por isso, acreditavam-se invencíveis.

Até que a surgiu a comunicação autônoma e as pessoas, juntas, perderam o medo e se indignaram. Aonde vão? Cada um tem sua ideia, mas há temas em comuns. Que os bancos paguem a crise. Controle sobre os políticos. Internet livre. Uma economia da criatividade e um modo de vida sustentável. E, sobretudo, reinventar a democracia, a partir de valores como participação, transparência e prestação de contas aos cidadãos. Porque como dizia um cartaz dos indignados: "No es crisis, es que ya no te quiero”.

[Fonte: Publicado em espanhol em La Vanguardía. Tradução: Cauê Seigner Ameni. Publicado em Outras Palavras].

Bahia: Dilma anuncia na terça duas novas universidades no estado

A presidente Dilma Rousseff anunciará, na próxima terça-feira (16), a expansão da Rede Federal de Educação Superior e Profissional e Tecnológica. Segundo o senador Walter Pinheiro (PT), a Bahia será contemplada com duas novas universidades, a Federal do Oeste (UFOBA) e a Federal do Sul da Bahia (UFESBA). Os líderes baianos não escondem a satisfação. 

De acordo com o senador Walter Pinheiro (PT), o programa vai contemplar 32 novos campi de federais em todo o Brasil, além de 120 novas escolas técnicas. O Ministério da Educação (MEC) ainda está finalizando a proposta, com detalhamento do valor global do investimento e da localização das instituições.

Segundo Pinheiro, a expansão segue o projeto iniciado no governo Lula, que criou 14 universidades federais em todo o Brasil. Além de Porto Seguro, os municípios de Itabuna e Teixeira de Freitas também serão contemplados. O deputado federal, José Rocha (PR), por sua vez, disse que a Bahia, especialmente a bancada federal, alcançou uma grande vitória ontem.

A Universidade do Oeste terá sede em Barreiras e campi em Bom Jesus da Lapa, Luiz Eduardo Magalhães e Barra. José Rocha solicitou ao MEC que o município de Santa Maria da Vitória também seja incluído. A Universidade do Sul, com sede em Itabuna, terá campi em Porto Seguro e Teixeira de Freitas. Rocha e os demais deputados foram unânimes ao reivindicar que o município de Vitória da Conquista também seja atendido com uma universidade federal.

Fonte: Tribuna da Bahia

Pirotecnia da PF é questionada

Por Lílian Machado - Tribuna da Bahia

Após o meio político ter sido surpreendido com a prisão pela Polícia Federal, do ex-deputado e secretário-executivo do Ministério do Turismo, Colbert Martins, suspeito de envolvimento em desvios na pasta, muitas autoridades questionaram ontem a “espetacularização” e o uso de algemas nas prisões preventivas. Eles lembraram uma decisão do Supremo, que tenta refrear o abuso, quando ainda não há comprovação do crime. 

Na Assembleia Legislativa, os deputados assinaram uma nota de desagravo pela prisão do ex-parlamentar, que exerceu mandatos no legislativo estadual e na Câmara Federal. Segundo os deputados, “a ação investigatória atropelou as garantias e direitos assegurados pela Constituição da República”. A contestação também foi manifestada no alto escalão do governo federal.

O juiz federal titular da 1ª Vara da Seção Judiciária do Estado do Amapá, Anselmo Gonçalves da Silva, que determinou a prisão de Colbert e das outras 34 pessoas deixou o caso ontem. Na sessão de ontem na Assembleia, a indignação com a forma com que Colbert foi preso deu à tônica dos discursos.

O líder do bloco independente, Targino Machado (PSC) ocupou o grande expediente para falar “de forma emocionada” sobre o assunto. Conforme o deputado, a Polícia Federal descumpriu a súmula vinculante número 11 do STF ao algemar o político.

“Só é lícito o uso de algemas em caso de resistência, e de fundado receio de fuga, de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de terceiros, justificada a excepcional idade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar civil e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere, sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado. Esse não foi o caso de Colbert”, afirmou.

O pronunciamento que silenciou o plenário da Casa foi acrescentado com os apartes de outros deputados que frisaram o mesmo questionamento.  O deputado Capitão Tadeu (PSB) reforçou que houve abuso nas recentes operações da Polícia Federal.

“Porque ela foi com o intuito de humilhá-lo. Já que ela usa as algemas então que ela apresente as provas na hora da prisão e nenhuma polícia está acima da lei”, enfatizou. O deputado Adolfo Menezes (PRB) foi mais além e disse que “a decisão da corte do Supremo está sendo desmoralizada”. “Ninguém é favorável à corrupção, mas essas prisões estão sendo feitas de forma arbitrária”, frisou.

Terrorismo dos EUA ameaça a humanidade

Por Miguel Urbano Rodrigues:

A humanidade enfrenta a mais grave crise de civilização da sua história. Ela difere de outras, anteriores, por ser global, afetando a totalidade do planeta. É uma crise política, social, militar, financeira, econômica energética, ambiental, cultural.

O homem realizou nos últimos dois séculos conquistas prodigiosas. Se fossem colocadas a serviço da humanidade, permitiriam erradicar da Terra a fome, o analfabetismo, as guerras, abrindo portas a uma era de paz e prosperidade.

Mas não é o que acontece. Uma minoria insignificante controla e consome os recursos naturais existentes e a esmagadora maioria vive na pobreza ou na miséria.

O fim da bipolar idade, após a desagregação da URSS, permitiu aos Estados Unidos adquirir uma superioridade militar, politica e econômica enorme que passou a usar como instrumento de um projeto de dominação universal. As principais potências da União Europeia, nomeadamente o Reino Unido, a Alemanha e a França tornaram-se cúmplices dessa perigosa politica.

O sistema de poder que tem o seu pólo em Washington, incapaz de encontrar solução para a crise do seu modelo, inseparável da desigualdade social, da sobre-exploraçao do trabalho e do esgotamento gradual dos mecanismos de acumulação, concebeu e aplica uma estratégia imperial de agressão a povos do chamado Terceiro Mundo.

Em guerras ditas de baixa intensidade, promovidas pelos EUA e seus aliados, morreram nos últimos sessenta anos mais de trinta milhões de pessoas. Algumas particularmente brutais, definidas como "preventivas", visaram o saque dos recursos naturais dos povos agredidos.

Reagan criou a expressão "o império do mal" para designar a URSS no final da guerra-fria. George Bush pai vulgarizou o conceito de "estados canalhas" para satanizar países cujos governos não se submetiam às exigências imperiais. Entre eles incluiu o Irã, a Coréia Popular, a Líbia e Cuba.

Em setembro de 2001, após ao atentados que destruíram o World Trade Center e demoliram uma ala do Pentágono, George W. Bush (o filho) utilizou o choque emocional provocado por esse trágico acontecimento para desenvolver uma estratégia que fez da "luta contra o terrorismo" a primeira prioridade da politica estadounidense.

Uma gigantesca campanha midiática foi desencadeada, com o apoio do Congresso, para criar condições favoráveis à implantação da política defendida pela extrema-direita. Segundo Bush e os neocon, "a segurança dos EUA" exigia medidas excepcionais na política internacional e na interna.

Os grandes jornais, as cadeias de televisão, as rádios, explorando a indignação popular e o medo, apoiaram iniciativas como o Patriot Act que suspendeu direitos e garantias constitucionais, legalizando a prática de crimes e arbitrariedades. A irracionalidade contaminou o mundo intelectual e até em universidades tradicionais professores progressistas foram despedidos e houve proibição de livros de autores celebres.

A campanha adquiriu rapidamente um carácter de caça às bruxas, com perseguições maciças a muçulmanos. Uma vaga de anti-islamismo varreu os EUA, com a cumplicidade da grande mídia. O Congresso legalizou a tortura.

No terreno internacional, o povo do Afeganistão foi a primeira vítima da "cruzada contra o terrorismo". Os EUA, a pretexto de que o governo do mullah Omar não lhe entregava Bin Laden - declarado inimigo número um de Washington - invadiu, bombardeou e ocupou aquele país.

Seguiu-se o Iraque após uma campanha de desinformação de âmbito mundial. O Governo de Bagdá foi acusado de acumular armas de extermínio massivo e de ameaçar portanto a segurança dos EUA e da Humanidade. A acusação era falsa, como se provou mais tarde, e os EUA não conseguiram obter o apoio do Conselho de Segurança. Mas, ignorando a posição da ONU, invadiram, vandalizaram e ocuparam o país. Inicialmente contaram somente com o apoio do Reino Unido.

Crimes monstruosos foram cometidos no Afeganistão e no Iraque pelas forças de ocupação. A tortura de prisioneiros no presídio de Abu Ghrabi assumiu proporções de escândalo mundial. Ficou provado que o alto comando do exército e o próprio secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, tinham autorizado esses atos de barbárie. Mas a Justiça norte-americana limitou-se a punir com penas leves meia dúzia de torcionários.

Simultaneamente, milhares de civis, acusados de "terroristas" - muitos nunca tinham sequer pegado numa arma - foram levados para a base de Guantánamo, em Cuba, e para cárceres da CIA instalados em países da Europa do Leste.

As Nações Unidas não somente ignoraram essas atrocidades como acabaram dando o seu aval à instalação de governos títeres em Kabul e Bagdá e ao envio para ali de tropas de muitos países. No caso do Afeganistão, a NATO, violando o seu próprio estatuto, participa ativamente, com 40.000 soldados, da agressão às populações. Dezenas de milhares de mercenários estão envolvidas nessas guerras.

Em ambos os casos, Washington sustenta que essas guerras preventivas representam uma contribuição dos EUA para a defesa da liberdade, da democracia, dos direitos humanos e da paz e foram inspiradas por princípios e valores éticos universais. O presidente Barack Obama, ao receber o Premio Nobel da Paz em Oslo, defendeu ambas, num discurso farisaico, como serviço prestado à humanidade. Isso no momento em que decidira enviar mais 30.000 soldados para a fogueira afegã.

Os fatos são esses. Apresentando-se como líder da luta mundial contra o terrorismo, o sistema de Poder dos EUA faz hoje do terrorismo de Estado um pilar da sua estratégia de dominação.

A criação de um exército permanente em África - o Africom –, os bombardeamentos da Somália e do Iémen, a participação na agressão ao povo da Líbia inserem-se nessa politica criminosa de desrespeito pela Carta da ONU.

Mas a ambição de poder absoluto de Washington é insaciável.

O Irã, por não capitular perante as exigências do sistema de Poder hegemonizado pelos EUA, é há anos alvo permanente da hostilidade dos EUA. Washington tem saudades do governo vassalo do Xá Pahlevi e cobiça as enormes reservas de gás e petróleo iranianas.

A campanha de calúnias, apoiada pela mídia, repete incansavelmente que o Irã enriquece urânio para produzir armas atômicas. A acusação é gratuita. A Agência Internacional de Segurança Atômica não conseguiu encontrar qualquer indício de que o país esteja a utilizar as suas instalações nucleares com fins militares. O presidente Ahmanidejah, alias, de acordo com o Brasil e a Turquia, numa demonstração de boa fé, propôs-se a enriquecer o urânio no exterior. Mas essa proposta logo foi recusada por Washington e pelos aliados europeus.

Sobre as armas nucleares de Israel, obviamente, nem uma palavra. Para os EUA, o Estado sionista e neo fascista, responsável por monstruosos crimes contra os povos do Líbano e da Palestina, é uma democracia exemplar e o seu melhor aliado no Médio Oriente.

O agravamento das sanções que visam estrangular economicamente o Irã é acompanhado de declarações provocatórias do presidente Obama e da secretaria de Estado Clinton, segundo as quais "todas as opções continuam em aberto", incluindo a militar. Periodicamente jornais influentes divulgam planos de hipotéticos bombardeamentos do Irão, ou pelos EUA ou por Israel, sem excluir o recurso a armas nucleares táticas. O objectivo é manter a tensão na guerra não declarada contra um país soberano.

Lamentavelmente, uma parcela importante do povo dos EUA assimila as calunia anti iranianas como verdades. A maioria dos estadunidenses desconhece a gravidade e complexidade da crise interna. A recente elevação do teto da dívida pública de mais de 14 trilhões de dólares para 16 trilhões - total superior ao PIB do pais – é, porém, reveladora da fragilidade do gigante que impõe ao mundo uma política de terrorismo de estado.

Entretanto, o discurso oficial, invocando os "pais da Pátria", insiste em apresentar os EUA como o grande defensor da democracia e das liberdades, vocacionado para salvar a humanidade

Sem o controle pelo grande capital da esmagadora maioria dos meios de comunicação social e dos áudio visuais pelo sistema de poder imperial, a manipulação da informação e a falsificação da História não seriam possíveis. Um instrumento importante nessa politica é a exportação da contra-cultura dos EUA, país - registe-se - onde coexiste com a cultura autêntica.

A televisão, o cinema, a imprensa escrita e, hoje, sobretudo a Internet cumprem um papel fundamental como difusores dessa contra cultura que nos países industrializados do Ocidente alterou profundamente nos últimos anos a vida cotidiana dos povos e a sua atitude perante a existência.

A construção do homem formatado principia na infância e exige uma ruptura com a utilização tradicional dos tempos livres. O convívio familiar e com os amigos é substituído por ocupações lúdicas frente à TV e ao computador, com prioridade para jogos violentos e filmes que difundem a contra cultura com prioridade para os que fazem a apologia das Forças Armadas dos EUA.

A contra cultura atua intensamente no terreno da música, da canção, das artes plásticas, da sexualidade. A contra música que empolga hoje multidões juvenis é a de estranhas personagens que gritam e gesticulam, exibindo roupas exóticas, berrantes em gigantescos palcos luminosos, numa atmosfera ensurdecedora, em rebeldia abstrata contra o vácuo.

O jornalismo degradou-se. Transmite a imagem de uma falsa objetividade para ocultar que a mídia a serviço da engrenagem do poder insiste, com poucas excepções, em justificar as guerras americanas como "cruzada anti-terrorista" em defesa da humanidade porque os EUA, nação predestinada, batalhariam por um mundo de justiça e paz.

É de justiça assinalar que um número crescente de cidadãos americanos denunciam essa estratégia de Poder, exigem o fim das guerras na Ásia e lutam em condições muito difíceis contra a estratégia criminosa do sistema de poder.

Nestes dias em que se multiplicam as ameaças ao Irã, é minha convicção de que a solidariedade atuante com o seu povo se tornou um dever humanista para os intelectuais progressistas.

Visitei o Irã há cinco anos. Percorri o pais de Chiraz ao Mar Cáspio. Escrevi sobre o que vi e senti. Tive a oportunidade de verificar que é falsa e caluniosa a imagem que os governos ocidentais difundem do país e da sua gente. Independentemente da minha discordância de aspectos da politica interna iraniana - nomeadamente os referentes à situação da mulher - encontrei um povo educado, hospitaleiro, generoso, amante da paz, orgulhoso de uma cultura e uma civilização milenares que contribuíram decisivamente para o progresso da humanidade.

Para mim o Irã encarna muito mais valores eternos da condição humana do que a sociedade norte- americana, cada vez mais robotizada.

Porto, Portugal, 10 de Agosto de 2011

* Escritor e jornalista português. Foi docente de Historia Contemporânea, deputado à Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa e membro do Parlamento Português.

A crise mundial do capitalismo e o Brasil

Editorial do jornal Brasil de Fato:

As informações que chegam todos os dias do hemisfério norte revelam que a crise do capitalismo que emergiu em 2008 não só não se debelou como continua se agravando cada vez mais. Ao contrário do que os jornalistas burgueses pregaram nos últimos dois anos, que o capital daria a volta por cima. Esses jornalistas são bem pagos para mentir e fazer análises sem nenhuma base com a realidade. Mas não têm o direito nem o mérito de fazer a economia de fato funcionar, mesmo como querem os capitalistas.

Os EUA enfrentam a pior crise desde 1930. Um déficit comercial de 500 bilhões de dólares por ano, um déficit de orçamento público federal de 700 bilhões de dólares. Todo esse buraco é bancado pela emissão de dólares, já que eles podem emitir a moeda como querem, sem nenhum controle internacional. A princípio, os governos dos Estados Unidos (Bush, Clinton e Obama) tentaram sair da crise com a fórmula clássica: produzir guerras contra outros povos e assim incentivar a indústria bélica e reativar a economia estadunidense.

Estão há dez anos em guerra com o Afeganistão, Iraque, Irã... Criaram e mataram o Bin Laden. Transformaram os árabes e o islamismo em inimigos da humanidade. Mataram mais de 600 mil civis, perderam milhares de seus soldados. Mas politicamente já perderam a guerra, pois a invasão não se sustenta e terão que sair de cabeça baixa. Tiveram um custo, nesses dez anos, de 3 a 5 trilhões de dólares. Que todos os povos do mundo pagaram, ao usar dólares em seus intercâmbios comerciais.
Mesmo assim, as contradições estão se agravando e a emissão irresponsável bateu no teto de 13 trilhões de dólares, sem equivalência em produção.

Na Europa, o crescimento econômico está parado desde 2008; as taxas de desemprego atingem 20% na média. E vários países já têm suas economias tecnicamente falidas, como a Grécia, Polônia, Portugal... e agora é a vez da Itália e Espanha. E a juventude começa a mexer-se, ainda que tarde.

Portanto, a crise do capitalismo no centro da hegemonia do capital financeiro e oligopolizado tente a se agravar. E, naturalmente, vai despejar parte de seus custos também para as economias periféricas e dependentes como a brasileira.

O caso brasileiro

A economia brasileira está crescendo. Porém em níveis medíocres de 3 a 4% ao ano. Isso é apenas suficiente para manter a economia ativa e gerar parte dos empregos necessários para os 2,5 milhões de jovens que entram no mercado de trabalho a cada ano.

A estrutura econômica como um todo vem sendo afetada pela crise capitalista há muito tempo. E talvez sua natureza e efeitos perversos estejam sendo mascarados pela continuidade do crescimento.

Os efeitos da crise aparecem agora, na pauta de exportações. Em 1990, cerca de 60% das exportações eram produtos manufaturados. Hoje, quase 80% das exportações são matérias primas agrícolas e minerais, sem nenhum valor agregado de mão-de-obra de nosso povo. Voltamos a ser uma economia primaria-exportadora. E nenhum país se desenvolveu, cresceu, resolveu os problemas econômicos de seu povo exportando matérias primas naturais. Nem mesmo os petroleiros.

Desindustrialização

Em 1980, a industria pesava 33% do PIB nacional, no ano passado caiu para apenas 16%. Nossa mão-de-obra em sua maioria se dedica a atividades de serviços, trabalhos informais, que não geram riqueza, apenas se apropriam de parte da mais-valia gerada por um grupo cada vez menor de trabalhadores.

Taxa de câmbio

Em todas as grandes economias, os governos tem controle absoluto da taxa de câmbio. E não o mercado. Só no Brasil é apenas o mercado que decide. E todos os especialistas denunciam que o câmbio está defasado entre 30 a 100%. Ou seja, os preços médios dos bens da economia brasileira comparados com os preços da economia americana, deveriam ter uma paridade de um dólar valendo no mínimo 2, 50 a 3 reais. Mas ele é pressionado para baixo artificialmente pela grande entrada de capitais financeiros que entram no Brasil para especular e para se proteger da crise.

Taxa de juros

O centro de acumulação capitalista agora é o capital financeiro, que acumula e se reproduz através das taxas de juros. E eles pressionam os governos para lhes garantir altas taxas de juros. O Brasil é a economia que mais paga juros. O governo garante o mínimo de 14% por ano, de juros da taxa Selic, a qualquer capitalista, enquanto o governo estadunidense garante apenas 0,2% ao ano.

E no comércio e indústria, os bancos chegam a cobrar, em média, 56% para empréstimos da produção e até 140% ao ano, nos empréstimos pessoais de cartão de credito. Isto não tem paralelo.

Plano Brasil Maior

O governo anunciou o Plano Brasil Maior. Ora, é apenas um plano político, para dar resposta para a oposição parlamentar e para a burguesia brasileira de que o governo está preocupado. Mas suas medidas são pífias. Porque apenas desoneraram os capitalistas de pagarem o INSS da folha, que representam ao redor de 8% dos custos. Ou seja, o Estado deixa de recolher para que os capitalistas aumentem suas taxas de lucros. E possam competir com os capitalistas da China. Mas isso não resolve o problema da estrutura de produção, de emprego e da indústria.

A única medida importante é o anúncio de que o governo fará esforços para que o BNDES aplique 500 bilhões de reais até 2014, em investimentos produtivos. Isso pode gerar mais emprego e crescimento econômico.

O governo não vai proteger a economia brasileira da crise internacional, nem vai resolver os problemas da dependência e da estrutura de produção negativa, se não mexer na taxa de câmbio e na taxa de juros. Será que as autoridades entenderão isso, antes que os trabalhadores tenham que pagar mais caro, por sua falta de coragem?

TEM UM CHIP DO TEA PARTY NA CABEÇA DE CADA DIRIGENTE EUROPEU NESSE MOMENTO

Em uma 4º feira de novas quedas nas bolsas da Europa e dos EUA, dirigentes europeus tentam acalmar os mercados bovinamente com promessas de novas rodadas de arrocho fiscal, que só farão aprofundar a crise e a recessão. Berlusconi promete antecipar cortes de isenções fiscais, escalpelar aposentadorias e liberar privatizações em massa até dia 18. Na Espanha, viúvas já perderam bonificação anual em algumas províncias. O preço do transporte sofreu uma alta de 50% , as pesquisas indicam vitória da direita na sucessão de Zapatero e o premiê continua a falar em ‘ajuste'. Acossado por dúvidas sobre a saúde de bancos franceses, com carteiras atreladas a títulos públicos, Sarkozy equilibra-se na ponta dos pés, empina o nariz gaulês e bate forte no peito: cortar, cortar, cortar.  Espanha e Itália tem que colocar algo como  US$ 375 bilhões em títulos públicos até dezembro junto a investidores ariscos.  Fundos de investimento ferozes e capitais deliquentes, desses que saem quebrando tudo pela frente --famílias, países, nações-- querem 'garantias' de austeridade que se traduzam em juros maiores. A esses Cameron não ameaça com cacete & canhão de água.  Infectados por um vírus que os impede de contrastar a lógica financista, os dirigentes europeus cumprem sem ganir, nem mugir, o roteiro do matadouro. E empurram o mundo para o abismo da recessão. O Tea Party está inscrustrado como um chip na cabeça de cada um deles nesse momento.  Nouriel Roubini já havia antecipado: deixada à própria lógica, essa crise se desdobra em outra. Começou como crise imobiliária nos EUA; virou uma crise financeira; atingiu sua fase fiscal com Estados que se arrebentaram no socorro trilionário a bancos e especuladores. Agora vive o cume político que paralisa países e incendeia populações acuadas. A solução é renegociar a digestão do imenso débito egresso da desregulação do sistema financeiro. Dilatar prazos e reduzir  juros para sobrar espaço ao crescimento, sem o qual não há saída. A persistir a lógica atual , as chamas de Londres serão lembradas como a faísca de um incêndio maior. (Leia mais sobre Londres nesta pág).
(Carta Maior; 5º feira, 11/08/ 2011)

Ousadia no enfrentamento da crise

Editorial do Vermelho

O pessimismo que domina os mercados de capitais nestes dias, derretendo o valor das ações e semeando instabilidade – motivado pelos dados desanimadores da economia estadunidense e o agravamento da crise da dívida na Europa e também nos EUA –, indica que a economia mundial está a caminho de uma nova recessão. O Brasil, como se pode notar pelo comportamento da Bovespa, que acumula perdas de 15,1% no ano até esta quarta (10), não está imune, ao contrário do que imaginam alguns analistas.

A situação é “delicada”, conforme admitiu a presidente Dilma durante reunião do Conselho Político. Resta saber o que se pretende fazer para prevenir e neutralizar os prováveis impactos das turbulências que emanam da maior economia capitalista do planeta, cujos desequilíbrios são a grande fonte da crise. As coisas não estão claras neste sentido, as pressões são contraditórias e as autoridades não parecem estar falando a mesma língua.

A presidente incitou a população a continuar consumindo, repetindo o apelo de Lula em 2008 e dando a entender que a equação do problema passa pelo fortalecimento do mercado interno. Dilma reitera que não quer sacrificar o crescimento da economia e da oferta de emprego. Já a oposição neoliberal, com o respaldo da mídia capitalista, levanta a bandeira do ajuste fiscal, clamando por mais cortes nas despesas públicas.

Membros proeminentes da equipe econômica, apegados a uma orientação conservadora de viés neoliberal, criticam os aumentos salariais obtidos com muita luta pelos trabalhadores e bradam contra projetos que elevam as despesas públicas, quando estes contemplam os interesses dos assalariados. Ao mesmo tempo, apoiam projetos polêmicos de renúncia fiscal em benefício de alguns ramos da indústria, inclusive as multinacionais do automóvel.

Falar mal dos sindicatos, responsabilizando os salários pela instabilidade monetária, e persistir na linha do arrocho fiscal são coisas que nada têm a ver com a necessidade de fortalecimento do mercado interno ressaltada por Dilma. As iniciativas até agora anunciadas pela equipe econômica, como o Plano Brasil Maior (PBM), a elevação do teto do Simples e as medidas implementadas para conter a valorização do real, são tímidas e insuficientes. Além disto, o PBM contém uma ameaça ao financiamento da Previdência Social que os trabalhadores consideram simplesmente inaceitável.

Prevalece a impressão de que o governo evita colocar o dedo na ferida ou, em outras palavras, carece de ousadia para mexer no dogmático tripé da política macroeconômica: os juros altos, o câmbio flutuante e o superávit primário, que conspiram contra o crescimento, obstruindo a expansão dos investimentos internos, e provocam a chamada desindustrialização.

É difícil, senão impossível, prever todos os desdobramentos da crise, mas o cenário que se projeta no horizonte dos próximos anos é pintado com as cores da instabilidade, acirramento da competição e do protecionismo, consumo deprimido, baixo crescimento e provavelmente recessão nos Estados Unidos e na Europa. A promessa do Federal Reserve de manter a taxa básica de juros negativa (entre 0 a 0,25% a.a.) até 2013 é sintomática.

O momento exige ousadia, conforme observou o líder do PCdoB na Câmara dos Deputados, Osmar Júnior. Ousadia para reduzir significativamente a taxa de juros; mudar a política cambial, acabando com o câmbio flutuante e administrando as cotações, em vez de criticar a justa política adotada pela China neste sentido; controlar o fluxo de capitais, freando a especulação; taxar fortemente a remessa de lucros das transnacionais, principal causa do déficit em conta corrente, e reduzir o superávit primário, utilizando a economia hoje destinada ao pagamento de juros para a ampliação dos investimentos públicos.

Se o governo caminhar nesta direção, certamente enfrentará a oposição da oligarquia financeira e das viúvas do neoliberalismo. Mas contará com o apoio do povo, dos movimentos sociais e dos partidos e organizações progressistas. Pesquisa recente feita pelo Ibope mostra que 63% dos brasileiros se opõem à política monetária conduzida pelo Banco Central, que há anos mantém o Brasil na vergonhosa e injustificável posição de campeão mundial dos juros altos. Um claro sinal de que a maioria da sociedade anseia por mudanças na orientação macroeconômica.

A caça às bruxas na Rede Globo

Por Marco Aurélio Mello, em blog DoLaDoDeLá:

Uma fonte na TV Globo conta que desde sexta-feira começou uma caça às bruxas na emissora. Eles querem saber quem foi que vazou para o Rodrigo Vianna o plano de desqualificar o novo ministro da defesa, Celso Amorim. Como era sigiloso e envolveu não mais do que 20 profissionais de três capitais, eles consideram que fazer o mapeamento e achar o "traidor" é questão de tempo.

Só que eles ignoram que este tipo de segredo é de polichinelo, não dá para ser guardado numa redação. Por uma razão simples: um editor tem sempre outro editor com quem troca confidências. Repórteres, mesmo que tenham sido poucos e confiáveis os acionados, sempre comentam com os cinegrafistas - afinal têm uma amizade muito longa. E, não raro, há alguém que ouve, um auxiliar, um motorista... Portanto, esqueçam, será impossível descobrir de onde partiu a notícia que caiu como uma bomba no colo dos gestores.

Dizem até que o Código de Princípios que estava planejado para ser divulgado depois de um Seminário, com pompa e circunstância, foi antecipado. Os principais apresentadores do Jornal Nacional, Wiliam Bonner e Fátima Bernardes teriam sido convocados para trabalhar no fim de semana, fato raríssimo. Tudo para tentar apagar o incêndio de proporções desastrosas.

Sinal de que há sim um grupo lá dentro muito insatisfeito com o comando do jornalismo. Na Avenida Chucri Zaidan, por exemplo, onde fica a sede da emissora em São Paulo, o clima é de tensão e medo. O vazamento é tratado como crime e ao traidor está reservada a forca, o esfolamento - como na pintura de Michelângelo na Capela Sistina - com consequente exibição de vísceras em praça pública. Ninguém mandou tratar jornalismo como se fosse mercadoria. Jornalismo é informação, sem viés ideológico, sem interesse econômico e político. Simples assim!