sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Se for crime, puna!

Editorial do jornal Brasil de Fato

Há poucos meses ficou provado que o tabloide News of the World, de propriedade do australiano Rupert Murdoch, um magnata das comunicações, há anos promovia escutas telefônicas ilegais de pessoas influentes na política britânica. Por causa da prática criminosa o seu proprietário teve que fechar o tabloide, prestar esclarecimentos no parlamento e viu alguns diretores e jornalistas da empresa serem presos. O pedido de desculpas do magnata e todo seu poderio econômico e político foram insuficientes para evitar sua condenação na opinião pública. O escândalo, com repercussão mundial, fez com que a população continuasse exigindo a punição dos responsáveis pelo crime e que o país promova um reexame amplo do papel e da regulamentação da mídia no Reino Unido.

Nessa semana, aqui no Brasil, a revista Veja, da Editora Abril, está nas bancas com uma matéria de capa acusando o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, como sendo o poderoso chefão, dentro do PT e que conspira no governo Dilma. O conteúdo da reportagem não vai além do estilo panfletário e completamente dissociado da verdade, como costumeiramente a Veja trata todas as organizações que divergem da concepção político-ideológico da família Civita, proprietária da revista. A reportagem não tem um fiapo de informação, é só opinião, como afirma o jornalista Paulo Henrique Amorim. Não merece credibilidade uma vez que, como é sabido, a Veja mente.

Mas a forma como a reportagem foi construída merece sim a atenção da opinião pública brasileira. Como está registrado em Boletim de Ocorrência (BO) numa delegacia de polícia da Capital Federal, o repórter da revista tentou invadir o quarto do hotel onde Dirceu se hospeda.

Talvez agora a Veja saiba a diferença entre as ações de invadir e de ocupar. Tudo indica, ainda em investigações preliminares, que para ilustrar o que chama de reportagem, o jornalista instalou ilegalmente uma câmera para obter imagens dos hospedes e freqüentadores do hotel. Não há limites ao escárnio com que a semanal dos Civita trata o Estado de Direito. O sentimento de completa impunidade lhe permite praticar um jornalismo que confabula com a ilegalidade.

A mídia em geral, em colusão com a prática criminosa da revista, não dedicou uma linha para informar a opinião pública do fato ocorrido. Uma abismal diferença de quando houve a quebra do sigilo da declaração de imposto de renda de um político tucano. Essa é a liberdade de imprensa defendida pelos proprietários dos meios de comunicação. Liberdade para filtrar os acontecimentos, amplificando ou escondendo os fatos, de acordo com seus interesses próprios.

A ficha corrida da Veja é tão extensa quanto de longa data. Um grupo empresarial que cresceu sob a sombra protetora da ditadura militar, tanto aqui quanto na Argentina. Que não hesita em atacar a honra das pessoas, da forma mais vil, para atingir seus objetivos, como fez com o delegado da Policia Federal Paulo Lacerda, responsabilizado, nas páginas da revista, por ter grampeado os celulares do então presidente do STF Gilmar Mendes, e alguns parlamentares. Em momento algum apareceu o áudio dessa gravação ou qualquer outra prova de que havia ocorrido o grampo. Lacerda perdeu seu cargo na Policia Federal, a revista e seus capangas– usando palavras de um inflamado discurso do Ministro do STF Barbosa – da mentira montada permanecem completamente impunes.

O próprio presidente Lula foi vítima do exercício da mentira nas páginas da publicação do Grupo Abril. Hora o acusaram de ter vínculos econômicos com as Farcs, grupo revolucionário da Colômbia, hora de ter contas secretas em paraísos fiscais. Novamente, nada foi provado e repetiu-se a impunidade.

Até quando a população brasileira vai ser desrespeitada por essa forma de fazer jornalismo da família Civita? Quantas vezes ainda veremos essa revista abrir sua caixa de maldades, durante um processo eleitoral, às sextas-feiras, para abastecer o Jornal Nacional da Rede Globo e tentar influir determinantemente no resultado eleitoral, sem que as autoridades tomem quaisquer providências? A palavra está com quem tem o dever de apurar e, se comprovado, punir as práticas criminosas, inclusive as da mídia.

Bom seria se, seguindo o exemplo vindo do Reino Unido, o país aproveitasse para reexaminar o papel e regulamentação da mídia, visando fortalecer nossa democracia. Daquele país, em artigo de Martin Wolf publicado no Financial Times, vêm indicativos da necessidade de rever as leis de privacidade e difamação; regulamentação da imprensa; concentração da propriedade por veículos e sobre diferentes mídias; papel da mídia pública; financiamento público da mídia em geral e da produção de notícias em particular. Já seria um começo a ser seguido pelo nosso país. Se a distância ou a língua britânica servem de empecilho junto às autoridades, por que não seguir o exemplo da vizinha Argentina com sua Ley de Medios? Com a palavra o Ministro das Comunicações. Mas antes, com palavra o Ministro da Justiça, no caso da tentativa de invasão de um quarto de hotel na Capital Federal.

Informação e guerra: novo totalitarismo

Por Leonardo Severo:

“É como viver sob um exército de ocupação que se apoderou dos meios de comunicação” - Kurt Vonnegut, escritor estadunidense.

Terminei de ler “A ocupação – Informação e guerra, um novo totalitarismo mundial”, do jornalista e professor universitário argentino Osvaldo Tcherkaski. Publicado em 2003, o livro parece ter sido escrito nestes dias em que, sob a alegação da “ajuda humanitária”, a OTAN transforma a Líbia num inferno para impor seus mercenários como governo, saquear o petróleo do país norte-africano e minorar a violência da crise em que se vêem mergulhados os EUA e a Europa.

Com a “militarização da política e da economia”, a mídia entra em “sincronia com as mentiras do poder”, “colocando o cinismo como virtude”, adverte o autor, na ânsia de manter inalterada a “globalização financeira, a forma mais destrutiva e bárbara do capital”. Lógica que transforma em doutrina estratégica a ação militar “prioritária e preventiva” das grandes potências, já julgada e condenada pelo tribunal da história: “crime de guerra”, como apontaram os juízos de Nuremberg sobre o comportamento nazi-fascista.

Por isso, precisam praticar o “linchamento intelectual” dos que se opõem ao “sistema de extermínio à escala mundial”, aos seus desígnios de “banalização da violência, como espetáculo ou videojogo”.
Pelos filtros e manipulações as agências noticiosas “falam a língua das bombas” e trabalham com “freqüência tóxica” “inoculando informação” – “alugada ou vendida” - em função dos interesses do capital, tentando comercializar “o modelo exemplar do FMI, campeão das privatizações e da alienação das empresas nacionais como porta de entrada ao primeiro mundo”.

Como aponta Osvaldo Tcherkaski, tais meios foram conduzidos e reduzidos à mera arma de propaganda e alienação às ordens dos “serviços de inteligência, os maiores provedores de ficção”.

Tentando “naturalizar o horror”, a mídia internacional substituiu a confiança nela anteriormente depositada por uma “produção criminosa”, com notícias que nascem natimortas, de única direção e sentido: o respaldo às ações do governo dos EUA em sua tentativa de “sair da crise pela via da guerra permanente”.

É claro que da mesma forma como hoje demonizam Muamar Kadafi e inventaram “sangrentos confrontos” que só existiram nas “notícias” veiculadas pela rede Al-Jazeera - ligada ao governo do Catar - como bem denunciou o representante brasileiro em Trípoli, para justificar a intervenção, trabalharam com afinco em tom monocórdico para colar no presidente iraquiano Saddam Hussein a fabricação de “armas químicas” e nos palestinos a alcunha de “terroristas” por quererem libertar a sua pátria da colonização israelense.

Com o mundo em perigo, nada mais justo, portanto, que os xerifes do planeta entrassem em ação, como fizeram nas cidades líbias de Sirte e Trípoli, onde despejaram toneladas de bombas sobre escolas, creches e hospitais em nome da democracia e dos bons costumes.

Tal “modo de informar”, esclarece o autor, tem por objetivo “ajudarnos a esquecer, a relegar o mais rapidamente possível no passado as experiências históricas recentes”. Ao mesmo tempo, buscam dissimular a gravidade, a perversão e a irracionalidade da crise do sistema capitalista com apontamentos sobre “indícios de uma recuperação”, que nunca vem, convertendo “fatos em interrogação”.

Tamanha manipulação em função dos interesses belicistas do complexo militar-industrial, “com a venda da guerra” - como na agressão contra o Iraque -, adverte Osvaldo Tcherkask, pôs “em crise o caráter de bem social da informação”, com os meios de comunicação reduzidos a “ocultar, manipular ou inventar”. O livro escancara como um ex-diretor da CIA, James Woolsey, explicou na primeira página do The Washington Post, seis meses antes da invasão do Iraque, “o clima pré-carnavalesco”, “o entusiasmo que gerava nas companhias norte-americanas a decisão da ir à guerra”.

Qualquer semelhança com a alegria gerada pela reunião organizada pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, com os países do chamado Grupo de Contato – os que patrocinaram o bombardeio e o assalto da Líbia - que vai discutir por estes dias a pilhagem do país africano, não é mera coincidência.
Nos meses que antecederam a guerra do Iraque, recorda o autor, empresas como a norte-americana Kellog Brow & Root – subsidária da Halliburton Co – presidida pelo vice de Bush, Dick Cheney, entre 1995 e o ano 2000, ajudaram o Pentágono a preparar o assalto, desenhando o mapa da invasão para resguardar os campos petrolíferos. Entre os interessados, a secretária de Estado de Bush, Condoleeza Rice, diretora executiva da petroleira Chevron.

Um informe publicado posteriormente pelo norte-americano Instituto de Estudos do Sul, assinalou que “foram gastos bilhões de dólares em peças essenciais das plantas de infraestrutura elétrica do Iraque, de centrais telefônicas e sistemas de esgoto e saneamento, mas estes não foram consertados, ou foram tão mal-ajambrados que sequer chegam a funcionar”. E então os lucros destas empresas dispararam.

Como no país norte-africano, o petróleo foi o motor do genocídio praticado contra mais de um milhão de iraquianos. As razões são apontadas pelo livro A Ocupação: “com 5% da população mundial, os EUA só possuía 3% das reservas mundiais conhecidas de petróleo e consumia 19 milhões de barris por dia, quase um quarto do consumo mundial total, estimado ao redor de 76 milhões de barris diários”.

É claro que para encobrir tamanha infâmia e covardia, a mídia pró-império precisa apelar à falsificação e, para ludibriar incautos – e outros nem tanto – no caso da guerra do Iraque, conta Tchernaski, até mesmo a sala de imprensa foi montada por um desenhista dos estúdios de Walt Disney e da Metro Goldwin Mayer – a um custo de US$ 250 mil (duzentos e cinquenta mil dólares!).

Nos preparativos da operação “Tormenta no Deserto”, da primeira guerra do Iraque, em 1991, ganhou destaque o testemunho de uma jovem “banhada em lágrimas”, que relatou como havia visto as tropas iraquianas entrarem nos hospitais kuwaitianos “para tirar os bebês que se encontravam nas incubadoras e jogá-los nas ruas, onde a soldadesca invasora os triturava sob suas botas”.

“A história aterrorizou os leitores dos grandes diários norte-americanos e estremeceu a milhões de telespectadores, para quem o rosto da inconsolável mulher se transformou num símbolo e prova da crueldade satânica de Saddam Hussein. A jovem de 15 anos era na verdade a filha mais velha do embaixador do Kuwait em Washington e a cena foi inventada e organizada por uma firma de relações públicas contrata pelo governo do kuwait”.

Da mesma forma, esclarece o autor, o jornalista Robert Fisk, do diário britânico The Independent, testemunhou ante a Associação Mundial de Jornais que a fotografia que havia recorrido o mundo com a imagem de iraquianos ao redor da estátua de Saddam “tinha apagadas as cordas com as quais os tanques norte-americanos realizaram a derrubada”.

E a farsa se repete neste final de agosto de 2011. Os mercenários do auto-intitulado Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia, admitiram ter falsificado imagens da detenção do filho do presidente Muamar Kadafi, Seif el Islam, bem como da tomada da capital, Trípoli, para facilitar o “reconhecimento” dos agentes do imperialismo como “representantes legítimos da Líbia”. Conforme explicou Mahmoud Jibril, do CNT, a armação teve o papel chave de acelerar a capitulação diplomática, pois desde a veiculação da dita “informação”, 11 países avalizaram a “legitimidade” do Conselho de entreguistas.

“Eles precisavam mostrar as massas de ‘rebeldes’. Para isso construíram cenários no Catar duas semanas antes. Tínhamos esta informação, sabíamos que haviam construído cenários da Praça Verde em Trípoli. Contrataram atores profissionais. Omar Jali interpretou incrivelmente bem o papel do filho de Kadafi, Seif el Islam. Todo o mundo viu como detinham o filho do coronel”, conta Marat Musin, membro do Comitê de Solidariedade com os povos da Síria e da Líbia. Pondo por terra a versão prontamente reproduzida pelas “agências”, Seif apareceu são e salvo diante dos jornalistas estrangeiros para desmentir a “informação” e conclamar os líbios a resistirem à OTAN.

E volto ao livro de Tcherkaski e uma citação sobre a triste, trágica e célebre prisão de Auschwits, para demonstrar que “quando o público não pode ser mantido devidamente desinformado pela omissão” e “os estragos sociais e humanos não podem ser retirados totalmente de vista, são exibidos como espetáculo”.

“Em seu testemunho sobre este campo de extermínio, Primo Levi reproduz o relato de um prisioneiro que se dá conta de uma partida de futebol entre as SS e membros da esquadra de prisioneiros encarregada de atender o funcionamento das câmaras de gás e os crematórios, que os nazis chamavam Sonderkommando.

Giorgio Agambem recupera esta citação: Ao encontro assistem outros soldados das SS e o restante da esquadra; mostram suas preferências, apostam, aplaudem, animam os jogadores como se, em lugar das portas do inferno, a partida estivesse ocorrendo em um campo de várzea.
E diz que esta partida não acabou nunca, se reatualiza sempre, como se ainda durasse, sem haver sido interrompida”.

Até quando?

O mico de Álvaro Dias no Senado

Do blog Os amigos do presidente Lula:

Foi desastrosa a participação do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) na audiência pública do Senado Federal, realizada nesta terça-feira, 31, para ouvir o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, sobre o Plano Nacional de Banda Larga.

Disposto a confrontar Bernardo sobre o uso do avião “King Air” de propriedade da Sanches Tripoloni, empreiteira que executa o Contorno Norte de Maringá (PR), Álvaro Dias perguntou se no dia 10 de fevereiro de 2011 o ministro teria usado a aeronave para ir a Feira Agropecuária de Cascavel.

— Não, senador Álvaro, não estive na Feira de Cascavel neste ano, até me convidaram, lamentei muito não ter condições de ir — disse Bernardo, acrescentando que esteve lá no ano anterior.

— É isso, 2010, tentou emendar Álvaro Dias, mas Bernardo o interrompeu de novo:

— Em 2010, senador, eu estive lá em um avião da FAB, Força Aérea Brasileira, disse o ministro.

Visivelmente desapontado, o tucano afirmou que considera seu “direito fazer ilações, em seu papel de Oposição. O ministro retrucou: reconhece o papel da Oposição, mas não acha correto que se faça ilações para atacar a honra alheia.

"As pessoas tem de se ater aos fatos, falar a verdade”, disse Bernardo. Ele bateu duro naqueles que plantam notas anônimas nos jornais, valendo-se do chamado "off". Álvaro Dias apressou-se a dizer que não era o autor das notas passadas aos jornalistas, mesmo sem ter sido acusado disso.

O que mais surpreendeu os presentes, contudo, foi o fato de o tucano retirar-se antes de ouvir mais uma resposta do ministro à uma questão que ele havia formulado. Em gesto de má educação, o senador levantou-se e deixou a reunião sem sequer se despedir do ministro.

O “mico” sobre o uso do avião foi o segundo momento de constrangimento do senador. Antes, Bernardo havia mostrado cópia da emenda da bancada paranaense solicitando ao Poder Executivo a realização do Contorno da Rodovia de Maringá. O primeiro signatário da emenda, ou seja, o autor da proposta, é o senador Álvaro Dias.

Antes que a emenda, de 2007, fosse do conhecimento público, o senador tentava atribuir interesse na empreitada apenas a Bernardo para fazer ilações sobre sua honra. Bernardo era ministro do Planejamento quando os recursos orçamentários foram liberados e a rodovia foi incluída no PAC. Acontece que isso só ocorreu porque toda a bancada do Paraná pressionou o governo.

Álvaro Dias saiu desmoralizado da audiência. Bernardo o silenciou com a verdade. E a mídia que serviu de mensageira das falsas notícias? Será que os jornalistas que publicaram inverdades em “off” não deveriam perguntar a si mesmos se as baixas vendas de jornais não estarão relacionadas a essa persistente subserviência aos que usam o anonimato para sabotar os fatos? Afinal, das duas, uma: ou se está a serviço dos velhacos ou ao serviço dos leitores.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Mínimo de R$ 619,21 é a boa nova do orçamento para 2012

O valor do salário mínimo terá um reajuste gordo, de 13,62%, a partir de janeiro de 2012, atingindo R$ 619,21. Esta é a proposta que o governo incluiu no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) que acaba de enviar ao Congresso Nacional.


A correção obedece aos critérios da política acordada entre as centrais sindicais e o governo Lula. Combina a variação da inflação e do PIB. Desta forma, soma o crescimento de 7,49% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2010 à estimativa de que a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), índice aplicado nas negociações salariais dos sindicatos, fechará o ano em 5,7%.
Vitória dos trabalhadores


O governo avalia que cada R$ 1 de avanço no mínimo gera despesas de R$ 306 milhões ao governo. Assim, o salário mínimo de R$ 619,21 causará um impacto de R$ 22,6 bilhões nos gastos do governo. O mínimo corrige dois terços dos benefícios previdenciários.

A valorização do salário mínimo é o ponto mais positivo do orçamento para a classe trabalhadora. Beneficia não só os milhões de trabalhadores e trabalhadoras que recebem o piso como também os assalariados com remuneração superior, que conseguem arrancar reajustes salariais mais generosos com base na correção do piso.

O novo valor anunciado pelo governo também constitui uma vitória contra o pensamento conservador e de direita, que não se cansa de apontar os supostos riscos do aumento do salário para as contas públicas e a inflação, ao mesmo tempo em que silencia sobre as consequências perversas dos juros altos, cujo pagamento consome mais de 5% do PIB.

Milagre

Dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) indicam que mais de 16 milhões de domicílios brasileiros é habitado por famílias que conseguem o milagre de sobreviver com renda per capita situada na faixa compreendida entre meio a um salário mínimo.

Afinal, embora em crescimento, o valor real do salário mínimo, expresso através do seu poder aquisitivo, é baixo, inferior ao verificado antes da ditadura militar (que o arrochou) e claramente insuficiente em relação aos objetivos estabelecidos na Constituição. Esta determina que o "salário mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado, [deve ser] capaz de atender às suas necessidades vitais básicas [do trabalhador] e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, reajustado periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo" (Constituição da República Federativa do Brasil, capítulo II, Dos Direitos Sociais, artigo 7º, inciso IV).

Constituição


Para cumprir o preceito constitucional, segundo cálculo do Dieese, o salário mínimo necessário seria de R$ 2.293,31 em junho deste ano, montante que corresponde a 4,20 vezes o salário mínimo em vigor, de R$ 545,00 (o órgão considera o maior valor da ração essencial das localidades pesquisadas e uma família de quatro membros, dois adultos e duas crianças, sendo que estas consomem o equivalente a um adulto. Ponderando-se o gasto familiar, chega-se ao salário mínimo necessário).

A política de valorização do mínimo iniciada no governo Lula e mantida por Dilma busca aproximar o salário mínimo real do necessário, ou seja, do valor que corresponde ao preceito constitucional. É uma aproximação da lei e, antes de tudo, uma questão de justiça para com a classe trabalhadora.

Impactos na economia


Todavia, ao contrário do que apregoa o pensamento conservador, os impactos dos aumentos reais do salário mínimo (que já elevaram em quase dois terços o poder aquisitivo dos trabalhadores mais pobres) sobre a economia nacional são amplamente positivos. Foram apontados com razão como a principal causa do fortalecimento do mercado interno, que em muito contribuiu para amenizar os efeitos da crise mundial do capitalismo.

Entre os beneficiários da nova política inaugurada por Lula destacam-se os aposentados, que em sua maioria (cerca de 80%) sobrevivem à base do salário mínimo e alimentam a economia de milhares de pequenos municípios no interior do vasto território brasileiro. A experiência mostra que a valorização do trabalho é o melhor caminho para a efetivação de um novo projeto nacional de desenvolvimento fundado na soberania e na distribuição mais justa da renda.

Da Redação do Vermelho, com agências

EUA mantêm mil bases no exterior

Por Durval de Noronha Goyos, no sítio Pátria Latina:

Ao mesmo tempo em que sua dívida atingiu um montante equivalente ao PIB (Produto Interno Bruto), de US$ 14 trilhões, os EUA (Estados Unidos da América) mantêm nada menos do que mil bases militares no exterior, incluindo 268 na Alemanha e 124 no Japão, após 66 anos do término da 2ª Guerra Mundial.

Outros países recipientes da infame e devastadora presença norte-americana são Cuba, Paraguai, Colômbia, Iraque (mais de 100), Afeganistão (cerca de 80), Coreia do Sul, Austrália, Egito, Bahrain, Grécia e Romênia, dentre cerca de 70 Estados.

O custo militar dos EUA para o ano 2010 foi de cerca de US$ 800 bilhões, acrescidos de despesas extraordinárias colocadas no orçamento daquele mesmo ano pelo presidente Barack Obama no valor de US$ 1 trilhão, o que, no total, equivale a aproximadamente 13% do PIB do país!

Os gastos militares dos EUA representaram cerca de 45% dos gastos globais em 2010. Seus aliados despenderam aproximadamente 28% dos aportes em defesa no mesmo ano. Assim, os EUA e aliados, que são normalmente Estados clientes, hoje igualmente em situação de insolvência, responderam por 73% dos dispêndios militares globais em 2010.

No final de 2008, os EUA mantinham aproximadamente 550 mil soldados no exterior, excluídos os serviços dos mercenários utilizados em alguns países como no Iraque. Esse número é 10% superior ao de 1985, no auge da chamada Guerra Fria, o que demonstra que o complexo industrial-militar norte-americano encontrou justificativas para a manutenção e mesmo expansão do poderio bélico do país, ainda que em fase de distensão do quadro político internacional.

Hoje, a organização de comando das Forças Armadas dos EUA contempla o PACOM (Comando do Pacífico), que é utilizado para ameaçar a China; o EUCOM (Comando da Europa), que é estruturado para ameaçar a Rússia e a África; o CENTCOM (Comando Central), que é usado para ameaçar e intervir no Oriente Médio; o SOUTHCOM (Comando do Sul), criado em julho de 2008, logo após o anúncio das grandes descobertas do pré-sal no Brasil, para nos ameaçar no Brasil e bem assim aos povos pacíficos da América do Sul e Central.

O historiador inglês Paul Kennedy, no livro The Rise and Fall of the Great Powers, escrito em 1986, afirmou que o grande teste da longevidade do poderio hegemônico no mundo seria no futuro igualmente aplicável aos EUA. Esse teste consiste em saber, de um lado, se o país em questão consegue manter um equilíbrio razoável entre suas necessidades percebidas e os meios dos quais dispõe para custeá-las. De outro lado, o teste é relacionado com a capacidade de preservação das bases tecnológicas e econômicas de seu poderio.

Parece claro que em 2011, os EUA não conseguem passar pelos dois quesitos do teste. De fato, com a capacidade de endividamento esgotada e constrangido a emitir moeda para comprar os títulos de sua própria emissão, os EUA hoje dependem financeiramente de países como a China, o Brasil e a Rússia, que não seus aliados. Até quando tais países aceitarão financiar a manutenção de um complexo militar que os ameaça?

Ao comentar a queda do império romano, o grande Edward Gibbon, em seu clássico The decline and Fall of the Roman Empire, observou, em tradução deste articulista, que “o declínio de Roma foi o efeito inevitável de grandiosidade imoderada.

A prosperidade amadureceu o princípio da decadência; as causas da destruição foram multiplicadas pela extensão da conquista; e assim que o tempo ou os acidentes removeram os sustentáculos artificiais, o tecido estupendo cedeu ao seu próprio peso”.

As observações de Gibbon ajustam-se como uma luva à situação em que presentemente se encontram os EUA.

Congresso convoca Otavinho, da Folha

Do blog Desculpe a Nossa Falha:

Foi aprovado por unanimidade na Comissão de Legislação Participativa a realização de Audiência Pública na Câmara dos Deputados sobre a censura da Folha contra o blog Falha de S.Paulo. Nenhum deputado federal se manifestou contra a iniciativa. O requerimento do deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) prevê convites para representantes da Falha e da Folha falarem.

Da Falha, Pimenta vai convidar os irmãos-criadores do blog (Mário e Lino Ito Bocchini) e, da parte do jornal serão chamados para explicar publicamente no Congresso Nacional a censura Otavio Frias Filho (vulgo Otavinho, dono do jornal), Sérgio Dávila (editor-executivo), Taís Gasparian (advogada-censora da Folha) e Vinícius Mota (secretário de Redação).

“Vamos também convidar a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) e outras entidades para participarem dessa audiência”, discursou Pimenta agora há pouco. “É grave, além da censura o jornal pede dinheiro aos irmãos”, completou.

O deputado Edivaldo Holanda Jr. (PTC-MA), que presidia a sessão, parabenizou o deputado pela iniciativa, e sugeriu: “Vamos convocar a CNJ [Conselho Nacional de Justiça] para participar também, já que esse é um assunto que está nos tribunais”.

O deputado federal Fernando Ferro (PT-PE) também discursou na aprovação. “Esse processo de censura revela a intolerância da Folha e como eles dizem defender a liberdade de expressão mas, quando chega na hora deles, não resistem ao desejo de censurar. E olha que o humor, a paródia, até tornam a política até mais suportável”.

Nos próximos dias será marcada a data da audiência, que vai acontecer no Congresso Nacional. E, claro, fica a dúvida: quase um ano após cometer um ato inédito de censura no Brasil – que pode abrir uma jurisprudência terrível para toda a internet brasileira –, será que a Folha pela primeira vez terá coragem de colocar uma pessoa para defender sua posição abertamente?

De nossa parte estaremos lá, como sempre mostrando a cara, defendendo a mesma posição que defendemos desde o primeiro dia, e prontos pra debater seja com dono do jornal ou com quem for.

Um banqueiro vai mandar na Veja

Por Altamiro Borges

Na semana passada, a Abril anunciou o seu novo presidente executivo – que tomará posse em 26 de setembro. Fábio Barbosa, que presidia o conselho do Banco Santander, terá enorme poder. Além de comandar a “reestruturação financeira” da empresa – que registrou em 2010 uma receita líquida de R$ 3,028 bilhões –, ele cuidará dos negócios da famiglia Civita nos setores de mídia, gráfica e distribuição. Também integrará o conselho editorial das publicações do Grupo Abril, entre elas, da criminosa revista Veja.

Fábio Barbosa gosta de trabalhos “pesados”. Em 2007, ele comandou a fusão do Real com o Santander, assumindo a presidência do banco espanhol no Brasil. Neste processo traumático, milhares de bancários foram demitidos. Como lembra Paulo Salvador, diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo e da Rede Brasil Atual, o novo executivo do Grupo Abril é bom de conversa:

“Sorriso de banqueiro”

“Muito além do sorriso de banqueiro feliz com a vida, Fábio Barbosa esforçava-se para pregar ética no meio dos banqueiros... [Na sua gestão no Santander] os espanhóis se aproveitaram da liquidez na economia brasileira para remeter alguns bilhões de euros para a matriz”. As credenciais de executivo “hábil e eficiente” foram citadas por Roberto Civita como motivos para a sua contratação.

Na verdade, ambos já se conheciam há muito tempo. Barbosa integrou o conselho de administração do Grupo Abril entre março de 2004 e fevereiro de 2007. Como ex-agente do sistema financeiro, ele é um especialista em mercado de ações e a famiglia Civita tem um projeto antigo de ofertar ações. Em 2006, ela entrou com pedido de abertura de capital, mas o processo foi interrompido com a venda de 30% das ações para a Nasper, grupo de mídia da África do Sul conhecido por seu histórico racista.

O espectro da “profissionalização”

Ainda não dá para saber quais serão os principais impactos da contratação do banqueiro para o comando do Grupo Abril. O dono da empresa, Roberto Civita, afirma que o objetivo é puramente gerencial. “A sua vinda fortalecerá a Abril em todos os sentidos, marca um passo importante na profissionalização do grupo e assegura a manutenção dos nossos valores”. No mesmo rumo, o jornal Valor, após citar várias alterações gerenciais na empresa, garante que “a mudança visa a profissionalização”.

Com base na experiência de Fábio Barbosa na direção do Santander, é bom os trabalhadores do Grupo Abril ficarem espertos. Já no que se refere à linha editorial das publicações da famiglia Civita, só a vida vai provar se o tal discurso “ético” do ex-banqueiro servirá para alguma coisa. Afinal, a revista Veja abandonou totalmente esse objetivo e está mais suja do que pau de galinheiro.

“Por que não nos indignamos?”

No seu último artigo como colunista da Folha, Barbosa deixou implícito que é adepto da partidarização da mídia. Após criticar a corrupção no Brasil, ele repetiu o recente bordão de setores da direita: “Por que não nos indignamos?”. Para o novo integrante do covil do conselho editorial da Veja, “a imprensa e a opinião púbica têm importante papel nessa jornada, mantendo a chama acesa e apontando novos caminhos”. Além dos trabalhadores da empresa, a sociedade também deve ficar esperta!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Murdoch em Oslo

Entre as explicações para a grande tragédia de Oslo –  anúncio sangrento de que o nazismo, com outros nomes, está de volta –, uma não mereceu maior atenção dos analistas: a influência dos grandes meios de comunicação, como os controlados por Rupert Murdoch, xenófobos, anti-islâmicos, defensores de uma “Europa limpa e pura”.

Não é difícil associar o processo de homogeneização dos meios de comunicação do mundo inteiro – na defesa de ideias como as de que há uma guerra de civilizações, entre o Islã e o Ocidente Cristão – e o crescimento global de organizações de extrema direita. Melanie Phillips, no Daily Mail, resumiu a situação: “Brejvik talvez seja um psicopata desequilibrado, mas o que emerge agora de seu ato atroz é o delírio de uma cultura ocidental que perdeu sua razão”.

Por mais voltas que dermos à inteligência, na busca de profundas e complexas interpretações para essa tendência ao suicídio da civilização contemporânea, sempre chegaremos à ideia mais simples: o capitalismo apodreceu o que restava de solidariedade no processo de civilização ocidental ao universalizar o american dream, fundado na competição e no êxito individual, de qualquer forma. Quando um líder chinês, Deng Xiaoping, proclama que é bom enriquecer, o calvinismo se une ao taoísmo para sepultar Mao Tsé-tung e execrar Marx.

O grande perigo da infecção que, sob a Alemanha de Hitler, se identificou no nazismo é a combinação do instinto das feras – que lutam pela supremacia em seu espaço de caça – com a aparente lógica científica. O racismo é o mais perfeito “apodrecimento da razão”, conforme a definição de Lukács. Investigações recentes sobre a inteligência revelam que não há a menor diferença da capacidade mental entre todas as etnias do mundo: um negro africano tem, em média, o mesmo QI de qualquer nórdico. O que pode diferenciá-los, como indivíduos, e não como grupos étnicos, é a educação, isto é, o treinamento intelectual.

Desde que as sociedades políticas se organizaram, a linguagem passou a servir como instrumento de convencimento a favor do poder e como arma na resistência contra os opressores. A retórica está a serviço do poder, legítimo ou não; a crítica serve à resistência libertária. Como em tudo o mais, o melhor exemplo é grego: os oradores se dividiam, na praça pública, em defesa dos governantes ou contra eles. E os outros meios de comunicação – textos literários, ensaios filosóficos e, sobretudo, o teatro – iam mais além, na crítica ou no elogio ao sistema político de então.

As coisas não mudaram muito em sua essência, mas a tecnologia ampliou a força da palavra – e da imagem. A maioria dos mais poderosos veículos é controlada pelo poder financeiro, e tem servido para submeter governantes aos seus interesses. A técnica é impor o pensamento único e exacerbar a violência, a fim de manter os povos submissos, reduzir os homens à condição de trabalhadores dóceis e consumidores vorazes.
Murdoch é hoje o símbolo da manipulação da verdade e das ideias, a serviço do fundamentalismo mercantil.

A crise política de 1929 fez com que o capitalismo alemão financiasse Hitler e seus criminosos. E mediante o controle dos meios de comunicação o nazismo envenenou parte do povo alemão com o mito da superioridade racial. A crise atual do capitalismo neoliberal financiou Murdoch e seus 200 jornais no mundo – mas ele não está só.

O ódio ao imigrante, um dos produtos desse jornalismo sórdido, deu origem a Brejvik, e alimenta a direita, da Alemanha à Inglaterra, dos Estados Unidos a São Paulo e ao Rio Grande do Sul. Os muçulmanos são os novos judeus da Europa, enquanto, para a extrema direita nacional, os negros, nordestinos e mestiços são os odiados “muçulmanos” do Brasil.

Fonte: Mauro Santayana - Revista do Brasil

A era do preconceito

Nesta era da internet a informação é instantânea. A desinformação também. A notícia sobre os trágicos atentados de Oslo chegou-me enquanto eu navegava pelos sites que costumo frequentar para me atualizar sobre o que ocorre no mundo. Pus-me imediatamente em busca dos detalhes. Abri a página de uma respeitada revista internacional.

Além de alguns pormenores, obtive também a primeira explicação, que veria em seguida nas versões eletrônicas dos jornais brasileiros, segundo a qual o perpetrador dos atos terríveis era alguém a serviço de um movimento fundamentalista islâmico. Dois dias depois do acontecido, quando ficou claro que, na verdade, se tratava de um extremista de direita que pertenceu a movimentos neonazistas, ainda é possível encontrar, mesmo com ressalvas (porque a internet comete essas “traições”), a mesma interpretação apressada, baseada no preconceito contra muçulmanos.

No caso da revista internacional, a interpretação não se limitou a essa caracterização genérica. Deu “nome e endereço” do facínora, que seria um iraquiano curdo ligado a sunitas fanáticos, vivendo no exílio desde 1991. O articulista foi mais longe. Apontou as possíveis motivações do crime hediondo, que estariam relacionadas com a presença de tropas norueguesas no Afeganistão e com a percepção, por parte dos tais fundamentalistas, da cumplicidade da imprensa norueguesa com caricaturas ofensivas ao Profeta.

Evidentemente, tudo isso era muito plausível, à luz do ocorrido no 11 de Setembro, descartando-se as hipóteses conspiratórias sobre aquele trágico episódio. Mas era igualmente plausível a hipótese, que acabou confirmada, de que se tratasse de outro tipo de fundamentalista, do gênero “supremacista branco”. O alvo do ataque era um governo da esquerda moderada, visto como tolerante em relação a imigrantes e aberto ao diálogo com as mais diversas facções em situações conflituosas, inclusive no Oriente Médio. Para sublinhar a natureza ideológico-religiosa do ato de violência, o terrorista visou também a juventude do partido, pacificamente acampada em uma ilha.

Algo semelhante havia ocorrido seis anos antes do atentado contra as Torres Gêmeas, quando outro fanático havia feito explodir um prédio público na cidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. Daquela feita, o Estado – e tudo o que ele simboliza como limitação ao indivíduo, percebido como independente e antagônico em relação à sociedade – foi o objeto da ira destruidora. Também naquela época, quando a Al-Qaeda ainda não havia ganhado notoriedade, as primeiras análises apontaram para os movimentos islâmicos.

Não ponhamos, porém, a culpa na internet. Ela apenas faz com que visões baseadas em preconceitos, que não deixam de refletir certo tipo de fundamentalismo, se espalhem mais rapidamente, com o risco de gerarem “represálias” contra o suposto inimigo. Felizmente, neste caso, a eficiente ação da polícia norueguesa impediu que isso ocorresse. Mas o risco existe de que, em outras situações, as tragédias se multipliquem, por vezes com o apoio de movimentos marginais inconsequentes, que buscam tirar partido dos eventos, assumindo responsabilidade por algo que não fizeram.

Não é possível ignorar que, no caso da invasão do Iraque, o preconceito, e não apenas a manipulação deliberada (que também existiu), estava por trás de vinculações absurdas, usadas para justificar decisões que causaram centenas de milhares de vítimas (há quem fale em 1 milhão). O suposto elo entre Saddam Hussein e o terrorismo nunca se comprovou, da mesma forma que eram falsas as alegações quanto à posse por Bagdá de armas de destruição em massa. Num primeiro momento, contudo, essas justificativas foram aceitas pela maioria da população norte-americana.

Não sejamos inocentes. Interesses econômicos e políticos, e não apenas preconceitos, motivaram a decisão de atacar o Iraque. Mas o pano de fundo de uma visão particularista do mundo, em que “diferente” se torna sinônimo de “inimigo”, ajuda a criar o caldo de cultura de que se valem os líderes para obter, das populações que governam, o indispensável apoio às suas custosas aventuras bélicas.

A Noruega não corre esse risco. Como disse o primeiro-ministro Stoltenberg, o terrorismo insano não destruirá a democracia do país nórdico, que, ademais, se tem notabilizado por importantes iniciativas em favor da paz. Aliás, é o ódio às pessoas que promovem a paz e o entendimento, além da intolerância e do fanatismo, que está na raiz desse bárbaro atentado. Infelizmente, não só o orgulho, como queria a romancista inglesa, mas também o ódio costuma ser um companheiro inseparável do preconceito.

Flores e política: Marcha das Margaridas prova ser a maior mobilização de mulheres do Brasil e da América Latina

Por Letícia Verdi (Caros Amigos)

marchamargaridas1“Enquanto persistir o modelo de desenvolvimento dominante, focado no agronegócio, não haverá desenvolvimento sustentável, justiça, autonomia, igualdade e liberdade neste país”. Com essa convicção, as Margaridas floriram Brasília nos dias 16 e 17 de agosto. Elas são dezenas de milhares de trabalhadoras do campo e da floresta, organizadas em sindicatos, que pela quarta vez, desde 2000, marcharam em Brasília para reivindicar políticas públicas por melhores condições de vida na área rural. A estimativa da organização era reunir 100 mil mulheres. O número que saiu na imprensa foi 70 mil, a polícia militar contou 45 mil. Seja qual for a contagem real, trata-se da maior mobilização de mulheres do Brasil e da América Latina.

Desde a base, nas federações e sindicatos de trabalhadoras e trabalhadores rurais, até a cabeça do movimento, em Brasília, o esforço coletivo garantiu a ida dessas mulheres à capital federal. O que as move é real: as demandas das Margaridas são baseadas na experiência. Elas sabem do que estão falando, viram e vêem as terras sendo tomadas pela soja e pelo gado, as matas derrubadas, rios poluídos, meninas caindo na prostituição, mulheres sendo vítimas de violências, crianças ficando doentes e sem acesso a serviços de saúde.

“O modelo atual de desenvolvimento expande as monoculturas, destrói a biodiversidade e o meio ambiente, compromete a agricultura familiar, reproduz a violência, gera empobrecimento e miséria no país”. A frase está na carta-aberta da Marcha das Margaridas à sociedade. Mas o objetivo principal das Margaridas é sensibilizar o Governo para a implementação de políticas públicas específicas para as mulheres rurais. No dia 13 de julho, em comitiva, elas foram ao Palácio do Planalto entregar uma pauta de reivindicações com 158 pontos, distribuídos em sete eixos - biodiversidade e democratização dos recursos naturais; terra, água e agroecologia; soberania e segurança alimentar e nutricional; autonomia econômica, trabalho e renda; educação não sexista, sexualidade e violência; saúde e direitos reprodutivos; democracia, poder e participação política.

As Margaridas são articuladas, organizadas, conscientes. Conseguiram um espaço de diálogo com o governo, que resultou na ida da presidenta Dilma Rousseff à Cidade das Margaridas (montada no Parque da Cidade, em Brasília), e a atenção da mídia durante os dias de mobilização. Coisa surpreendente foi a simpatia que conquistaram junto à população da cidade. Apesar do transtorno gerado no trânsito em horário de pico, os cidadãos da capital federal demonstraram apoio e compreensão com a causa das mulheres do campo e da floresta – tão distantes e tão próximas naqueles dias.

No encerramento da Marcha, dia 17, a presidenta Dilma entregou à Coordenadora Nacional da Marcha e Secretária de Mulheres da Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura (Contag), Carmenmarchamargaridas2 Foro, um caderno de respostas. Em sua fala, anunciou medidas importantes: mutirões de três barcos para tirar documentos das ribeirinhas; 16 unidades fluviais de saúde; escritura conjunta do casal para imóveis rurais obtidos por meio do Programa Nacional de Crédito Fundiário; funcionamento, até 2012, de 10 unidades móveis de atendimento às mulheres em situação de violência na área rural; ações para a redução da mortalidade materna e infantil para as mulheres rurais; campanha contra o câncer de colo de útero e de mama para as mulheres do campo e da floresta; realização do Mapa da Saúde para aspopulações rurais; trinta por cento da merenda escolar a ser adquirido da agricultura familiar; acesso ao Crédito de Apoio à Mulher, no valor de R$ 3mil, em uma parcela.

Apesar de ser um dos pontos estruturantes da pauta das Margaridas, reforma agrária não foi sequer citada nas palavras de Dilma. “Compreendemos que isso é um processo, não poderíamos entender que tudo seria resolvido apenas nessa Marcha. Abrimos um caminho de negociação com o governo”, ponderou Carmen Foro, afirmando que a resposta da presidenta não corresponde ao tamanho da mobilização.

Na carta-aberta, o movimento deixou claro: “A Marcha das Margaridas 2011 reafirma a necessária realização de uma Reforma Agrária ampla e massiva como condição primeira para vencer a miséria, transformar efetivamente a realidade econômica e social e construir um país justo, soberano, democrático e sustentável. Essa necessidade é imperiosa para as mulheres, que representam, segundo o IBGE, 47,9% da população do campo e da floresta, dentre as quais predomina a pobreza e a permanência em acampamentos espalhados por todo o país”.

Mesmo assim, motivo não falta para comemorar. “A Marcha em si já é vitoriosa por ter mobilizado tantas mulheres”, lembrou Carmen.
Por que Margaridas?
marchamargaridas3A Marcha das Margaridas tem esse nome em homenagem à dirigente sindical Margarida Alves (1943-1983), grande símbolo da luta das mulheres por terra, trabalho, igualdade, justiça e dignidade. Rompeu com padrões tradicionais de gênero ao ocupar por 12 anos a presidência do sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba. Sua trajetória sindical foi marcada pela luta contra a exploração, pelos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, contra o analfabetismo e pela reforma agrária. Margarida Alves foi brutalmente assassinada com um tiro no rosto pelos usineiros da Paraíba em 12 de agosto de 1983.

Libia, quarto país vítima de agressão militar dos EUA

Por Georges Pezmatzoglu
 
A iminente derrubada do regime de Kadafi na Líbia como resultado de uma guerra de quase seis meses que travam os EUA e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) traz novamente em foco um tema colossal, cuja seriedade o mundo não conscientizou-se ainda.
Independente de se alguém simpatiza ou antipatiza com Muamar Kadafi, o fato indiscutível é que a Líbia se constitui o quarto - em sequência - país que desaba vítima de ataque militar dos EUA e de seus aliados na primeira década do século XXI, os últimos 12 anos para sermos exatos.

A começar de março de 1999, quando o presidente democrata Bill Clinton desfechou uma guerra contra a então "pequena" Iugoslávia, que era constituída pela Sérvia e por Montenegro, com resultado de despedaçar a Iugoslávia e amputar a Sérvia, arrancando-lhe Kosovo e derrubando Slobodan Milocevitz, o qual, em seguida, foi executado "por processo médico", dentro de sua cela em Haya.

Observa-se que está sendo repetido gradualmente e, em caráter permanente, o seguinte fenômeno: quando os EUA sentem antipatia por um líder ou um regime, atacam cruamente, fazem guerra contra o país, derrubam seu líder e o regime e instalam em seus lugares os espantalhos de Washington.

Começaram com a Sérvia e Milocevitz. Continuaram com o Afeganistão e o Talibã, que em três meses completam uma década inteira de ocupação do país e massacre de sua população desarmada.

Em seguida, foi a vez do Iraque e de Saddam Hussein, onde já foram completados oito anos de ocupação norte-americana, destruição e pilhagem desde o petróleo até o Museu Histórico deste outrora orgulhoso país árabe.

Agora chegou a vez da Líbia e, naturalmente, não é necessário alguém ser adivinho para prever o triste destino deste país que sucumbe ao agressivo poderio bélico norte-americano.

Sem protestos

Estes fatos são horripilantes e, o pior é que os povos da Europa acostumam-se cada vez mais com estas guerras de conquista dos EUA e da Otan e as consideram quase fenômenos fisiológicos, assim como, gradualmente, têm deixado de expressar o seu mesmo inconsequente protesto. Ninguém, mesmo, emocionou-se e posicionou-se contra a guerra dos EUA e da Otan contra a Líbia.

Se alguém pensar sobre isto: seis meses EUA e Otan bombardeando impiedosamente dia e noite o país e matando os líbios para arrancar-lhes seu petróleo, enquanto todos os europeus e norte-americanos permaneceram indiferentes sobre os crimes de guerra cometidos pelos EUA e Otan a tal ponto que haviam quase esquecido esta guerra, até que de repente foram informados que o regime de Muamar Kadafi está desabando.

O mundo enfrenta intervenções militares cruas de forças imperialistas do tipo mais clássico. Os pretextos, como "caráter humanitário" ou "ajuda para as forças opositoras", não conseguem encobrir as guerras de conquista. São as guerras de conquista que caracterizam a nova época neste mundo do século XXI.

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Fonte:
Monitor Mercantil

De céticos a cínicos


Por Emir sader, em seu Blog

O ceticismo parece um bom refúgio em tempos em que já se decretou o fim das utopias, o fim do socialismo, até mesmo o fim da história. É mais cômodo dizer que não se acredita em nada, que tudo é igual, que nada vale a pena. O socialismo teria dado em tiranias, a política em corrupção, os ideais em interesses. A natureza humana seria essencialmente ruim: egoísta, violenta, propensa à corrupção.

Nesse cenário, só restaria não acreditar em nada, para o que é indispensável desqualificar tudo, aderir ao cambalache: nada é melhor, tudo é igual. Exercer o ceticismo significa tratar de afirmar que nenhuma alternativa é possível, nenhuma tem credibilidade. Umas são péssimas, outras impossíveis. Alguns órgãos, como já foi dito, são máquinas de destruir reputações. Porque se alguém é respeitável, se alguma alternativa demonstra que pode conquistar apoios e protagonizar processos de melhoria efetiva da realidade, o ceticismo não se justificaria.

Na realidade o ceticismo se revela, rapidamente, na realidade, ser um cinismo, em que tanto faz como tanto fez, uma justificativa para a inércia, para deixar que tudo continue como está. Ainda mais que o ceticismo-cinismo está a serviço dos poderes dominantes, que costumam empregar esses otavinhos, dando-lhes espaço e emprego.

Seu discurso é que o mundo está cada vez pior , à beira da catástrofe ecológica, tudo desmorona e outros cataclismos. Concitam a essa visão pessimista, ao ceticismo e a somar-se à inercia, que permite que os poderosos sigam dominando, os exploradores sigam explorando, os enganadores – como eles – sigam enganando.

Por mais que digam que tudo está pior, que o século passado foi um horror – como se o mundo estivesse melhor no século XIX -, que nada vale a pena, não podem analisar a realidade em concreto. Para não ir mais longe, basta tomar a América Latina – tema sobre o qual a ignorância dessa gente é especialmente acentuada. Impossível não considerar que o século XX foi o mais importante da sua história, o primeira em que a região começou a ser protagonista da sua historia. De economias agro exportadoras, se avançou para economias industrializadas em vários países, para a urbanização , para a construção de sistemas públicos de educação e de saúde, para o desenvolvimento do movimento operário e dos direitos dos trabalhadores.

Mas bastaria concentrar-nos no período recente, no mundo atual, para nos darmos conta de que as sociedades latino-americanas – o continente mais desigual do mundo – ou pelo menos a maioria delas, avançaram muito na superação das desigualdades e da miséria. Ainda mais em contraste com os países do centro do capitalismo, referência central para os cético-cínicos, que giram em falso em torno de políticas que a América Latina já superou.

As populações da Venezuela, da Bolívia, do Equador, estão vivendo muito melhor do que antes dos governos de Hugo Chavez, de Evo Morales e de Rafael Correa. A Argentina dos Kirdhcner esta’ muito melhor do que com Menem. O Brasil de Lula e de Dilma esta’ muito melhor do que com FHC.

Mas o ceticismo-cinismo desconhece a realidade concreta, não conhece a história. É pura ideologia, estado de ânimo, que dá cobertura aos poderosos, lado que escolheram, ao optar por deixar o mundo como ele está. Trata de passar sentimentos de angustia diante dos problemas do mundo, mas é apenas uma isca para fazer passar melhor seu compromisso com que o mundo não mude, continue igual. Até porque a vida está bem boa para eles que comem da mão dos ricos e poderosos.

Ser otimista não é desconsiderar os graves problemas de toda ordem que o mundo vive, não porque a natureza humana seja ruim por essência, mas porque vivemos em um sistema centrado no lucro e não nas necessidades humanas – o capitalismo, na sua era neoliberal. Desconhecer as raízes históricas dos problemas, não compreender que é um sistema construído historicamente e que, portanto, pode ser desconstruído, que teve começo, tem meio e pode ter fim. Que a história humana é sempre um processo aberto de alternativas e que triunfam as alternativas que conseguem superar esse ceticismo-cinismo que joga água no moinho de deixar tudo como está, pela ação consciente, organizada, solidária dos homens e mulheres concretamente existentes.

As patologias do capital

Brasil, China e turbulências mundiais

Por Wladimir Pomar, no sítio Correio da Cidadania:

Parece haver certo consenso de que o mundo está entrando numa era de turbulências agudas em todos os terrenos. Isto é, na volatilidade das finanças, nas taxas de câmbio e de juros, nos índices de emprego e de padrão de vida, nas insatisfações sociais e nacionais, nas tendências e nas alianças políticas e nas apreciações ideológicas sobre esse conjunto de situações e sobre cada uma delas.


É verdade que, como mostrou a crise de 2008, essas turbulências não ocorrem na mesma extensão e gravidade em todos os países e regiões. Em 2008 concentraram-se principalmente nos Estados Unidos e, agora, concentram-se na Europa, a partir dos países de economias mais fracas. Mas não há qualquer dúvida de que elas causam instabilidades globais que rebatem, de forma mais ou menos intensa, e mais ou menos graves, em todos os demais países.

Também é verdade que é impossível fazer previsões de curto prazo sobre como, e com que rapidez, tais turbulências evoluirão, não apenas nos países centrais, mas no resto do mundo. Em tais condições, basta isso para gerar uma série de ações desencontradas, em cada um dos países ou regiões. Alguns destes tendem a adotar medidas protecionistas, enquanto outros pensam tirar proveito máximo da crise dos outros. No entanto, nada garante que a situação crítica dos Estados Unidos e da Europa possa levar algum benefício a quem quer que seja, em especial no caso de se firmar a tendência de ascensão das correntes políticas de direita e para-fascistas.

No caso do Brasil, o quadro recomenda uma avaliação estratégica mais consistente das relações do país, tanto com as regiões em crise quanto com os BRICS, com a América Latina e com as regiões que ainda estão relativamente a salvo. Talvez seja mais conveniente ao Brasil se preparar para o pior e tratar mais seriamente tal possibilidade.

Nesse sentido, é necessário tratar com especial atenção nossas relações com a China. No momento, parece predominar não só em certos setores empresariais, mas também em diversos setores governamentais e acadêmicos, uma visão negativa sobre tais relações, como se os chineses fossem única e exclusivamente uma ameaça.

Num quadro geral de crise, o predomínio dessa visão não só impedirá o Brasil de aproveitar as oportunidades oferecidas pelo desenvolvimento chinês, como também pode tornar o Brasil o único prejudicado, já que a China é um dos poucos países do mundo que possui um mercado doméstico suficientemente grande para suportar, em certa medida, uma crise realmente global.

Segundo dados conhecidos, a corrente de comércio bilateral Brasil-China saltou de 760 milhões de dólares, em 1989, para 56,8 bilhões de dólares, em 2010. Em outras palavras, a corrente de comércio do Brasil com o país asiático saltou de 1,5% para 15%. Esse aumento do comércio com a China contribuiu não só para reduzir os déficits das contas correntes brasileiras, mas também para manter a inflação brasileira sob controle, tendo em conta os custos mais baixos dos bens importados daquele país.

Além disso, enquanto os investimentos diretos (IED) realizados pela China no Brasil somaram 250 milhões de dólares, entre 1990 e 2009, essa soma se elevou a 13,7 bilhões de dólares em 2010. Ou seja, 28% de todos os investimentos estrangeiros no Brasil. As estimativas são de que, nos próximos anos, esses investimentos oriundos da China se elevem ainda mais, embora muitos temam que eles se dirijam unicamente à fabricação de produtos básicos exportáveis.

A maioria dos analistas considera que esse é o lado aparentemente bom das relações com a China. Mas essa maioria também considera que tal lado bom é apenas um canto de sereia, ou a reedição do infausto acordo Inglaterra-Portugal, como escreveu Luis Nassif em seu blog. Para demonstrar essa tese, apontam vários aspectos preocupantes do comércio externo brasileiro e das relações com a China.

Os produtos básicos e semi-manufaturados, que antes constituíam 43,5% das exportações brasileiras, saltaram para 58,6% em 2010. Em contrapartida, as exportações de manufaturados caíram de 54,3%, em 2006, para 39,4% em 2010. Para tornar ainda mais sombria essa situação do Brasil, estima-se que 71,5% dos investimentos previstos entre 2011/2014 (não só chineses) estarão voltados para commodities, como petróleo, gás e mineração, enquanto os investimentos destinados aos setores de manufaturas exportáveis, como veículos, papel e celulose e têxteis e confecções, cairão para 11,9%.

A participação da indústria no valor total da economia brasileira caiu de 19,2%, em 2004, para 14,8% em 2009. Teria ocorrido, portanto, uma desindustrialização. Os analistas supõem que essa situação é ainda mais grave porque tal desindustrialização não teria sido acompanhada do surgimento de um setor de serviços dinâmico e sofisticado, como ocorreu nos Estados Unidos e em vários países da Europa. Só esquecem de dizer que isso não teria sido vantagem alguma, já que serviços dinâmicos e sofisticados não salvaram os Estados Unidos e a Europa da crise, colocando em xeque as vantagens da pretensa modernidade pós-industrial.

A partir desses dados, e do fato de o comércio realizado entre as diversas indústrias brasileiras, destinado a fortalecer suas cadeias produtivas, ter caído de 57% para 50%, entre 2006 e meados de 2011, a maior parte dos analistas conclui que a China estaria contribuindo para agravar essa situação. Afinal, 83,6% das exportações brasileiras para ela são de produtos básicos, contra apenas 4,5% de produtos manufaturados. Em contrapartida, 85% das importações brasileiras da China são de produtos industriais e de altos componentes tecnológicos.

Esses críticos das relações atuais do Brasil com a China reconhecem que o país asiático se tornou importante fonte de crédito externo para o Brasil. Mas não concordam que tais créditos estejam, em geral, vinculados a projetos de produção, logística ou comercialização de produtos brasileiros. E citam como exemplo o empréstimo de 10 bilhões de dólares, concedido em 2009, pelo China Development Bank (CDB) à Petrobrás, em troca da exportação de 200 mil barris de petróleo/dia, durante 10 anos.

Isso comprovaria que as relações econômicas e comerciais com a China, incluindo os investimentos e os créditos, teriam contribuído para estimular a produção e a exportação de produtos básicos e fazer regredir a produção industrial. Por outro lado, os ínfimos 85,3 milhões de dólares (outros falam em 150 milhões de dólares) investidos pelo Brasil na China demonstrariam a existência de barreiras aos investimentos brasileiros naquele país.

Numa análise superficial, os números apresentados podem levar à conclusão de que tais assertivas sobre as relações Brasil-China estão corretas e que a China não passa mesmo de uma das sereias que tentou levar o grego Ulisses ao naufrágio, após a guerra de Tróia. No entanto, uma análise mais acurada, inclusive partindo da experiência industrial da China, pode indicar que tais analistas estão construindo mitos, que pouco têm a ver com a realidade de ambos os países, e que pouco ajudarão a construir uma estratégia de parceria e benefício mútuo de longo prazo. Mas isso é assunto para a próxima semana.

Sete pontos acerca da Líbia

Gaddafi
Rebeldes rumam a Sirte, cidade natal de Gaddafi, com o apoio dos jatos da Otan

Doravante mesmo os cegos podem ver e compreender o que está em curso na Líbia:

1. O que se passa é uma guerra promovida e desencadeada pela OTAN. Esta verdade acaba por se revelar até mesmo nos órgãos de “informação” burgueses. No La Stampa de 25 de Agosto, Lucia Annunziata escreve: é uma guerra “inteiramente externa, ou seja, feita pelas forças da OTAN”; foi “o sistema ocidental que promoveu a guerra contra Gaddafi”. Uma peça do International Herald Tribune de 24 de Agosto mostra-nos “rebeldes” que se regozijam, mas eles estão comodamente instalados num avião que traz o emblema da OTAN.

2. Trata-se de uma guerra preparada desde há muito tempo. O Sunday Mirror de 20 de Março revelou que “três semanas” antes da resolução da ONU já estavam em ação na Líbia “centenas” de soldados britânicos, enquadrados num dos corpos militares mais refinados e mais temidos do mundo (SAS). Revelações ou admissões análogas podem ser lidas no International Herald Tribune de 31 de Março, a propósito da presença de “pequenos grupos da CIA” e de uma “ampla força ocidental a atuar na sombra”, sempre “antes do desencadeamento das hostilidades a 19 de Março”.

3. Esta guerra nada tem a ver com a proteção dos direitos humanos. No artigo já citado, Lucia Annunziata observa com angústia: “A OTAN que alcançou a vitória não é a mesma entidade que lançou a guerra”. Nesse intervalo de tempo, o Ocidente enfraqueceu-se gravemente com a crise econômica; conseguirá ele manter o controle de um continente que, cada vez mais frequentemente, percebe o apelo das “nações não ocidentais” e em particular da China? Igualmente, este mesmo diário que apresenta o artigo de Annunziata, La Stampa, em 26 de Agosto publica uma manchete a toda a largura da página: “Nova Líbia, desafio Itália-França”. Para aqueles que ainda não tivessem compreendido de que tipo de desafio se trata, o editorial de Paolo Paroni (Duelo finalmente de negócios) esclarece: depois do início da operação bélica, caracterizada pelo frenético ativismo de Sarkozy, “compreendeu-se subitamente que a guerra contra o coronel ia transformar-se num conflito de outro tipo:   guerra econômica, com um novo adversário: a Itália obviamente”.

4. Desejada por motivos abjetos, a guerra é conduzida de modo criminoso. Limito-me apenas a alguns pormenores tomados de um diário acima de qualquer suspeita. O International Herald Tribune de 26 de Agosto, num artigo de K. Fahim e R. Gladstone, relata: “Num acampamento no centro de Tripoli foram encontrados os corpos crivados de balas de mais de 30 combatente pró Gaddafi. Pelo menos dois deles estavam atados com algemas de plástico e isto permite pensar que sofreram uma execução. Dentre estes mortos, cinco foram encontrados num hospital de campo; um estava numa ambulância, estendido numa maca e amarrado por um cinturão e tendo ainda uma transfusão intravenosa no braço”.

5. Bárbara como todas as guerras coloniais, a guerra atual contra a Líbia demonstra como o imperialismo se torna cada vez mais bárbaro. No passado, foram inumeráveis as tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro, mas estas tentativas eram efetuadas em segredo, com um sentimento de que se não é por vergonha é pelo menos de temer possíveis reações da opinião pública internacional. Hoje, em contrapartida, assassinar Gaddafi ou outros chefes de Estado não apreciados no Ocidente é um direito abertamente proclamado. O Corriere della Sera de 26 de Agosto de 2011 titula triunfalmente: “Caça a Gaddafi e seus filhos, casa por casa”. Enquanto escrevo, os Tornado britânicos, aproveitando também a colaboração e informações fornecidas pela França, são utilizados para bombardear Syrte e exterminar toda a família de Gaddafi.

6. Não menos bárbara do que a guerra foi a campanha de desinformação. Sem o menor sentimento de pudor, a OTAN martelou sistematicamente a mentira segundo a qual suas operações guerreiras não visavam senão a proteção dos civis! E a imprensa, a “livre” imprensa ocidental? Ela, em certo momento, publicou com ostentação a “notícia” segundo a qual Gaddafi enchia seus soldados de viagra de modo a que eles pudessem mais facilmente cometer violações em massa. Como esta “notícia” caiu rapidamente no ridículo, surge então uma outra “nova” segundo a qual os soldados líbios atiram sobre as crianças. Nenhuma prova é fornecida, não se encontra nenhuma referência a datas e lugares determinados, nenhuma remessa a tal ou tal fonte: o importante é criminalizar o inimigo a liquidar.

7. Mussolini, no seu tempo, apresentava a agressão fascista contra a Etiópia como uma campanha para libertar este país da chaga da escravidão; hoje a OTAN apresenta a sua agressão contra a Líbia como uma campanha para a difusão da democracia. No seu tempo Mussolini não cessava de trovejar contra o imperador etíope Hailé Sélassié chamando-o “Negus dos negreiros”; hoje a OTAN exprime seu desprezo por Gaddafi chamando-o “ditador”. Assim como a natureza belicista do imperialismo não muda, também as suas técnicas de manipulação revelam elementos significativos de continuidade. Para clarificar quem hoje realmente exerce a ditadura a nível planetário, ao invés de citar Marx ou Lénine quero citar Emmanuel Kant. Num texto de 1798 (O conflito das faculdades), ele escreve: “O que é um monarca absoluto? Aquele que, quando comanda: ‘a guerra deve fazer-se’, a guerra seguia-se efetivamente”. Argumentando deste modo, Kant tomava como alvo em particular a Inglaterra do seu tempo, sem se deixar enganar pela forma “liberal” daquele país. É uma lição de que devemos tirar proveito: os “monarcas absolutos” da nossa época, os tiranos e ditadores planetários da nossa época têm assento em Washington, em Bruxelas e nas mais importantes capitais ocidentais.

Por Domenico Losurdo - Correio do Brasil

O original encontra-se em http://domenicolosurdo.blogspot.com/; com a versão em francês em http://www.legrandsoir.info/sept-points-sur-la-libye.html. Também foi reproduzido no portal http://resistir.info/.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Manuela d'Ávila: O mundo está ao contrário e ninguém reparou?

Carros incendiados na Inglaterra. As ruas de Israel tomadas pela juventude. Jovens, um milhão deles, nas ruas do Chile. Mulheres com rostos cobertos questionando governos no mundo árabe. A marcha das vadias que começa em um continente e acaba por ocupar diversos pontos do mundo. A marcha da maconha que se transforma na marcha das liberdades.

Por Manuela d'Ávila*


O mundo todo tem presenciado, visto e vivido muitas manifestações. Algumas delas carregam grandes causas, de uma nação. Outras têm bandeiras individuais (o que não diminui seu valor e importância). Algumas têm atuação organizada e têm como objetivo claro a disputa pelo poder político. Outras carregam a revolta não traduzida em ação coerente.

Apesar de diferenças múltiplas, todos esses movimentos indicam um caminho, indicam que há algo de diferente no ar. Esse “diferente”, talvez seja o que nos faz ter acesso a tantos acontecimentos. Pode ser, também, uma das explicações para que essas manifestações tenham apoio de povos tão distantes.

O diferente, aqui, é a tecnologia e, mais precisamente, a internet. É assim por ajudar no processo de mobilização com as tão divulgadas redes sociais? Também. Mas, fundamentalmente, porque auxilia no processo de construção de um novo cidadão, no fortalecimento da nova sociedade, ou sociedade digital.

O cidadão digital é, sim, mais informado. Mas acima disso, tem outra visão sobre a importância e o significado da participação, sobre o significado de liderança. Esse talvez seja um dos grandes aprendizados pelos quais todos estamos passando.

O que, de fato, mudou? Além dos hábitos do uso, claro, a rede construiu novos valores na sociedade. Hoje, podemos dizer que existem dois mundos: um analógico, outro digital. E esses dois mundos são constituídos por cidadãos diferentes.

Para o cidadão analógico, o líder ainda é aquele que concentra a informação. Para o cidadão digital, o líder é aquele que sabe compartilhar a informação. O líder analógico sabe tudo e constrói sua ação “encastelado”. Enquanto isso, o líder digital reconhece seus limites e atua de maneira colaborativa, fortalecendo a ideia, o objetivo. O analógico é mecânico. O digital é orgânico. Há, portanto, um antagonismo entre essas realidades.

Talvez a ilustração do impacto gerado pelas diferenças de realidades possa ser expressada através da contraposição de computadores pessoais fixos e tablets, de orelhões e pequenos celulares multifuncionais. Não se trata, é importante destacar, de uma questão geracional, como alguns afirmam. Seria até mesmo ingênuo transformar a idade no fator central de mudanças tão profundas. Não é difícil encontrarmos jovens analógicos e senhores digitais!

O fato é que nossa sociedade e nossas instituições passam por transformações permanentemente. E isso faz com que coexistam cidadãos analógicos e digitais. Uns complementamos outros (afinal, não há rede social se não houver pessoas envolvidas). E uns também questionam aos outros. Nosso dilema – de nós, que optamos pela vida pública – é garantir que nossas instituições estejam atentas a essas transformações para manterem representatividade real, para consolidarmos a democracia. Afinal, o parlamento é a maior expressão da democracia.

O Estado, portanto, precisa se adaptar, precisar conciliar esses diferentes cidadãos. Se vivemos novos tempos, o Estado precisa responder a isso. Vivemos na era tecnológica, porém com um Estado analógico. O resultado desse abismo é a ampliação da distância entre o cidadão e o poder público. É preciso que haja uma mudança para que o Estado seja, de fato, o órgão representativo do seu povo.

* É deputada federal pelo PCdoB do Rio Grande do Sul; preside a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e é vice-líder do governo no Congresso Nacional.

Fonte: Congresso em Foco

Charge de Carlos Latuff

Partidos novatos não devem participar das eleições 2012

Das 20 legendas embrionárias que tentam obter registro para disputar as eleições no ano que vem, poucas devem conseguir. Entre as exigências está a coleta de 482 mil assinaturas
Se um eleitor de boa-fé ou mesmo um político calejado tentasse listar os partidos políticos do Brasil passaria aperto: são 27. Saber de cabeça o nome das legendas existentes e ainda das 20 que tentam a regularização é tarefa quase impossível. São cristãos, ecológicos, funcionários públicos, mulheres, humanistas, defensores da pátria livre, da educação e cidadania, além de outros temas para todos os credos e tendências.

Entretanto, a maior parte dos novatos não participará das eleições do ano que vem, pois não conseguirá completar uma série de etapas exigidas para isso, que inclui em montagem de diretórios em pelo menos nove estados e coleta de 482.894 assinaturas, o que corresponde a 0,5% dos votos dados para deputados federais na última eleição.

O mais famoso é o Partido Social Democrata (PSD), capitaneado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (ex-DEM), que já coletou as assinaturas, criou os diretórios e pediu o registro. Porém, nem todos contam com a mesma estrutura e agilidade.

O Partido Mulher Brasileira (PMB), por exemplo, não deverá conseguir o registro, pois, segundo a presidente Suede Haidar, tem apenas 380 mil assinaturas certificadas. “Se não der para essa eleição dará para as próximas”, vislumbra Suede.

Questionada sobre a ideologia do partido, Suede explica se tratar de “inserir a mulher na política partidária com mais respeito”. Entretanto, das assinaturas coletadas até agora, segundo cálcudos dela, mais de 90% são de homens. “O homem quando casa não muda de nome.

Já a mulher muda o nome e não tem o hábito de trocar no cartório eleitoral o nome de solteira para casada”, justifica a presidente. Isso explicaria o fato de 70% das assinaturas de mulheres não terem sido validadas. As assinaturas não implicam filiação, mas sem elas a legenda não pode existir.

O Partido da Transformação Social (PTS) também não participará do pleito do ano que vem. O presidente da legenda, Ronaldo Gualberto, reclama da quantidade de assinaturas exigida, o que na visão dele é uma forma de manter o poder nas mãos das mesmas pessoas.

Gualberto é diretor da União Geral dos Trabalhadores (UGT) e presidente do Sindicato dos Comerciários de Contagem. Mas a grande maioria do partido, segundo ele, é oriunda do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8), organização que empreendeu a luta armada contra o regime militar.

“Somos oriundos da esquerda, mas não somos doentes”, relativiza Gualberto. Ele explica que já coletou 200 mil assinaturas. Para definir melhor os rumos do partido, ele quer agregar intelectuais que estão desanimados e construir um programa de fato.

“Não adianta pensar no Brasil somente para a Copa do Mundo”, critica o presidente do PTS. Gualberto também ataca a maioria dos partidos, que, na análise dele, são legendas de aluguel e “distantes das bases”.

O Partido Cristão (PC) conseguiu cerca de 300 mil assinaturas e, de acordo com o presidente, Ronaldo Moreno, não é possível saber se haverá tempo de cumprir todos os preceitos até o prazo. Moreno destaca que apesar de ser um partido cristão, a legenda defende o estado laico.

“Não fazemos a defesa de nenhuma instituição religiosa”, ressalta. De acordo com Moreno, o PC vai exigir a ficha limpa antes de a pessoa se filiar. “Não temos nenhum malandro dentro do partido”, garantiu o presidente.
Verdes


Já o Partido Ecológico Nacional (PEN) acerta os últimos detalhes para pedir o registro a tempo das próximas eleições. De acordo com o presidente Adilson Barroso, o processo está em fase final e faltam apenas 30 mil assinaturas certificadas, já que as articulações começaram em 2007.

A causa do PEN, de acordo com Barroso, é defender o crescimento sustentável. Ele destaca que é muito difícil montar um partido e entende que todos as legendas, até as que já são oficiais, deveriam passar pelo mesmo processo de criação, com a coleta de assinaturas. “Sobrariam só alguns”, avalia Barroso.

Outra legenda que também usa a defesa ecológica como mote, o Partido do Meio Ambiente (PMA) não participará das próximas eleições. “Temos 282 mil assinaturas e não vai dar tempo”, admite seu presidente, Jurandir Silvério. A ideologia principal é a defesa do meio ambiente, explica Silvério. Tem algo diferente dos outros? “Nada. Vamos trabalhar a política da maneira que ela deve ser trabalhada”, resume Silvério.

Salada partidária
OS PRETENDENTES

Partido Social Democrata (PSD)

Partido da Pátria Livre (PPL)

Partido Novo (PN)

Partido Ecológico Nacional (PEN)

Partido da Educação e Cidadania (PEC)

Partido Democrático dos Servidores Públicos (PDSP)

Partido Geral do Trabalho (PGT)

Partido Federalista (PF)

Partido Humanista do Brasil (PMH)

Partido Liberal Democrata (PLD)

Partido Cristão Nacional (PCN)

Partido da Transformação Social (PTS)

Partido do Meio Ambiente (PMA)

Partido Cristão (PC)

Partido Social (PS)

Partido dos Servidores Públicos e da Iniciativa Privada do Brasil (PSPB)

Partido Mulher Brasileira (PMB)

Partido da Justiça Social (PSJ)

Partido Republicano da Ordem Social (PRSB)

Partido Carismático Social (PCS)
OS ATUAIS

Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) 1981

Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) 1981

Partido Democrático Trabalhista (PDT) 1981

Partido dos Trabalhadores (PT) 1982

Democratas (DEM) 1986

Partido Comunista do Brasil (PCdoB) 1988

Partido Socialista Brasileiro (PSB) 1988

Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) 1989

Partido Trabalhista Cristão (PTC) 1990

Partido Social Cristão (PSC) 1990

Partido da Mobilização Nacional (PMN ) 1990

Partido Republicano Progressista (PRP) 1991

Partido Popular Socialista (PPS) 1992

Partido Verde (PV) 1993

Partido Trabalhista do Brasil (PTB) 1994

Partido Progressista (PP) 1995

Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) 1995

Partido Comunista Brasileiro (PCB) 1996

Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB) 1995

Partido Humanista da Solidariedade (PHS) 1997

Partido Social Democrata Cristão (PSDC) 1997

Partido da Causa Operária (PCO) 1997

Partido Trabalhista Nacional (PTN) 1997

Partido Social Liberal (PSL) 1998

Partido da República (PR) 2006

Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) 2005

Partido Republicano Brasileiro (PRB) 2005

Fonte: Estado de Minas



Veja é o Murdoch brasileiro

Por Charles Carmo, no blog Viomundo:

A revista Veja entrou no centro de um dos maiores escândalos da imprensa nacional após a divulgação da suposta tentativa de invasão do apartamento em que o ex-ministro José Dirceu estava hospedado, no Hotel Naoum, em Brasília. O repórter Gustavo Nogueira Ribeiro está sendo acusado de tentar convencer a camareira a deixá-lo entrar no quarto de José Dirceu, fingindo se passar por um colega do ex-ministro que estaria hospedado no mesmo apartamento.

A denúncia partiu da camareira e do chefe de segurança do hotel, e foi registrada num boletim de ocorrência do 5º distrito policial de Brasília.

Para o deputado Emiliano José (PT/BA) “a Veja está assumindo a sua face mais clara de banditismo. Dentro dos padrões éticos do jornalismo e da convivência democrática não há justificativa possível para este tipo de comportamento, salvo se ela estiver seguindo as trilhas do Murdoch. Para tentar obter um fato, não importa qual fato seja, a revista cometeu um crime ao tentar invadir um apartamento. Não importa de quem é o apartamento e qual o fato que ela supostamente queria investigar”, afirmou o parlamentar.

Emiliano José afirma que o caso é extremamente grave e a sociedade brasileira deve reagir ao escândalo com a mesma indignação que os ingleses reagiram aos escândalos dos grampos do jornal News of the World, pertencente ao grupo do bilionário Rupert Murdoch, e que resultou na prisão dos responsáveis, além do fechamento do jornal, maculado de maneira irremediável pelo escândalo dos grampos que foram descobertos e atingiram desde políticos até vítimas de seqüestro. O chamado “Caso Murdoch” abalou a Inglaterra e trouxe à baila a discussão sobre os limites da imprensa na democracia.

“É preciso envolver os setores democráticos brasileiros para que não se configure uma prática nitidamente arbitrária, ilegal e golpista como esta. A Veja é o Murdoch brasileiro, só que com características do golpismo político. Ela é uma usina golpista da direita brasileira e latino-americana. A sociedade brasileira precisa reagir a isto que está ocorrendo. Temos que tomar uma providência diante dos crimes da Veja. Não se trata de um fato com um companheiro do partido, que fique bem claro, mas de uma agressão à vida democrática brasileira. A Veja foi pega com a mão na botija e isto é contra a democracia”, concluiu o deputado que também é jornalista e professor da Universidade Federal da Bahia.

E qual seria a motivação para a matéria da Veja? Emiliano José tem uma opinião. Para ele “a revista Veja quer forçar a condenação prévia de um cidadão, ela faz lobby para forçar a condenação de Dirceu. Ela está tolhendo Zé Dirceu do seu direito de ir e vir, de sua privacidade, e está devassando a sua vida privada de maneira caluniosa e ilegal. É o caso Murdoch novamente, só que com motivação política”, afirmou o deputado.