quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Estado italiano perde o controle do país

Mercados esfolaram a Itália até o osso nesta 4ª feira, num misto de pânico e oportunismo com o vazio político criado pela demissão branca de Berlusconi, imposta pelo poder financeiro. Il Cavalieri tornou-se disfuncional para a banca credora do país que tem a 3ª maior dívida do mundo, depois do Japão e dos EUA.

E isso diz algo sobre a natureza excludente da lógica que originou a crise mundial e comanda a sua 'convalescença'. Até mesmo um neoliberal populista como o vulgar premiê, outrora adulado pela plutocracia global, passou a ter dificuldade política para implantar todo o arrocho requerido pelo BCE , o FMI e os credores.

Em troca da solvência de uma economia que precisa rolar 300 bi de euros em 2012, os ajustes cobrados de Roma incluem a elevação da idade de aposentadoria para as mulheres; cortes de gastos com a infância e a velhice; novos impostos e privatizações em massa.

O pânico decorre do fato matemático de que a dívida italiana --da ordem de 2 trilhões de euros--é quase seis vezes maior que a da Grécia, por exemplo. Significa que a Itália é irresgatável pelos mecanismos à disposição das lideranças do euro (um fundo de 400 bi de euros, cuja expansão para 1 trilhão depende da adesão chinesa...).

É isso que permite aos credores fazer gato e sapato de Berlusconi e do Estado italiano cobrando juros equivalentes aos que levaram Portugal, Grécia e Irlanda à falência. Só uma guinada histórica daria um cala-boca nos mercados.

Seria preciso o BCE abandonar a ortodoxia e intervir pesado, comprando títulos. Ou seja, assumir um papel regulador das finanças para disciplinar os ganhos e impor perdas aos rentistas com o manejo de uma dupla ferramenta: mais liquidez e menos juros. Mas isso, os 'mercados auto-reguláveis-- vocalizados por Angela Merkel-- esconjuram.

É forçoso fazer justiça.O verdadeiro nome da crise européia não é 'Berlusconi', nem 'Papandreou' ou 'Zapatero', mas, sim, supremacia das finanças desreguladas. Ou, rapto da democracia pelo dinheiro.
Fonte: Carta Maior

Como se consolida um partido político?

Por Luciano Siqueira - Vermelho



Este é um tema de certo modo frequente na mídia e em círculos acadêmicos: o dos partidos políticos no Brasil, submetidos a variáveis históricas e atuais que, no todo, têm contribuído para que, aqui, diferentemente de outros países, inclusive nossos vizinhos argentinos e uruguaios, mas sobretudo na Europa, predomine a instabilidade e a tênue vinculação com compromissos programáticos.

Há que se considerar como pano de fundo do fenômeno, no caso do Brasil, a sinuosa a acidentada construção da República, que em pouco mais de cem anos sofreu o agravo restritivo de nada menos que dezoito intervenções militares – sempre na contramão da democracia. A prática democrática continuada é condição sine qua non de experiências partidárias longevas e consistentes, "em tempo de paz", à margem de epsiódios revolucionários.

Mas há uma variávels que pesam decisivamente, situadas nos próprios partidos, em grande medida independentemente de circunstâncias conjunturais: a base teórica e ideológica, os compromissos de classe, a capacidade de construir um pensamento político próprio e de se manter atado à sua base social – mesmo nos mais duros períodos de interdição legal e perseguição policial.

O PCdoB é o exemplo mais marcante, nesse sentido, na história institucional brasileira. Às vésperas de completar noventa anos de existência ininterrupta, amplia e diversifica sua inserção nas mais diversas instâncias e frentes de combate na sociedade – nas esferas institucional, social, teórica e científica – e avança na fortificação de sua matriz teórico-ideológica e política. Nesse intuito, uma iniciativa inédita acaba de ser lançada, a publicação “Estudos Estratégicos”, no dizer do secretário nacional de Organização do Partido, Walter Sorrentino, “uma verdadeira injeção na veia dos quadros”.


Isto porque, segundo Sorrentino, esta é uma necessidade decorrente das “responsabilidades ampliadas do PCdoB perante a nação, e a extensão de suas fileiras militantes bem como da estrutura de quadros, a complexidade crescente da construção partidária, (que) demandam instrumentos que possibilitem organizar a ingente luta pela ampliação e aprofundamento de conhecimentos e pensamento crítico”.

O foco são os quadros de responsabilidades nacionais, instados a estudarem em profundidade temas relacionados com os desafios do desenvolvimento do Brasil, à luz do Programa Socialista, e questões teóricas de fronteira, que dizem respeito ao próprio evolver da teoria marxista-leninista.

Vale anotar que tal iniciativa, apesar da sua ousada dimensão e do seu ineditismo, se insere tão natural quanto o nascer de um novo dia numa gama de realizações cotidianas deste partido que se renova aos noventa anos, capaz de arrostar os mais desmedidos desafios – a exemplo da contraofensiva que ora enceta contra a campanha difamatória que lhe move a grande mídia reacionária – e de avançar sempre.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Maria Inês Nassif: O poder permanente de derrubar governos

A corrupção do sistema político merece uma reflexão para além das manchetes dos jornais tradicionais. Em especial neste momento que o país vive, quando a nova democracia completou 26 anos e a política, que é a sua base de representação, se desgasta perante a opinião pública.


 Este é o exato momento em que os valores democráticos devem prevalecer sobre todas as discordâncias partidárias, pois chegou no limite de uma escolha: ou diagnostica e aperfeiçoa o sistema político, ou verá sucumbi-lo perante o descrédito dos cidadãos.

Por Maria Inês Nassif (*)

O país pós-redemocratização passou por um governo que foi um fracasso no combate à inflação, um primeiro presidente eleito pelo voto direto pós-ditadura apeado do poder por denúncias de corrupção, dois governos tucanos que, com uma política anti-inflacionária exitosa, conseguiram colocar o país no trilho do neoliberalismo que já havia grassado o mundo, e por fim dois governos do PT, um partido de difícil assimilação por parcela da população. Nesse período, a mídia incorporou como poder próprio o julgamento e o sentenciamento moral, numa magnitude tal que vai contra qualquer bom senso.

Este é um assunto difícil porque pode ser facilmente interpretado como uma defesa da corrupção, e não é. Ou como questionamento à liberdade de imprensa, e está longe disso. O que se deve colocar na mesa, para discussão, é até onde vai a legitimidade da mídia tradicional brasileira para exercer uma função fiscalizadora que invade áreas que não lhes são próprias. Existe um limite tênue entre o exercício da liberdade de imprensa na fiscalização da política e a usurpação do poder de outras instituições da República.

Outra questão que preocupa muito é que a discussão emocional, fulanizada, mantida pelos jornais e revistas também como um recurso de marketing, têm como maior saldo manter o sistema político tal como é. É impossível uma discussão mais profunda nesses termos: a escandalização da política e a demonização de políticos trata-os como intrinsecamente corruptos, como pessoas de baixa moral que procuram na atividade política uma forma de enriquecimento privado. Ninguém se pergunta como os partidos sobrevivem mantidos por dinheiro privado e que tipo de concessão têm que fazer ao sistema.

Desde Antonio Gramsci, o pensador comunista italiano que morreu na masmorra de Mussolini, a expressão “nenhuma informação é inocente” tem pontuado os estudos sobre o papel da imprensa na formulação de sensos comuns que ganham a hegemonia na sociedade. Gramsci já usava o termo “jornalismo marrom” para designar os surtos de pânico promovidos pela mídia, de forma a ganhar a guerra da opinião pública pelo medo.

No Brasil atual, duas grandes crises de pânico foram alimentadas pela mídia tradicional brasileira no passado recente. Em 2002, nas eleições em que o PT seria vitorioso contra o candidato do governo FHC, a mídia claramente mediou a pressão dos mercados financeiros contra o candidato favorito, Luiz Inácio Lula da Silva. Tratava-se, no início, de fixar como senso comum a referência “ou José Serra [o candidato tucano] ou o caos”.

Depois, a meta era obrigar Lula e o PT ao recuo programático, garantindo assim a abertura do mercado financeiro, recém-completada, para os capitais internacionais. Em 2005, na época do chamado “mensalão”, o discurso do caos foi redirecionado para a corrupção. Politicamente, era uma chance fantástica para a oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva: a única alternativa para se contrapor a um líder carismático em popularidade crescente era tirar de seu partido, o PT, a bandeira da moralidade. A ofensiva da imprensa, nesse caso, não foi apenas mediadora de interesses. A mídia não apenas mediava, mas pautava a oposição e era pautada por ela, num processo de retroalimentação em que ela própria [a mídia] passou a suprir a fragilidade dos partidos oposicionistas. Ao longo desse período, tornou-se uma referência de poder político, paralelo ao instituído pelo voto.

Eleita Dilma Rousseff, a oposição institucional declinou mais ainda, num país que historicamente voto e poder caminham juntos, e ao que tudo indica a mídia assumiu com mais vigor não apenas o papel de poder político, mas de bancada paralela. Dilma está se tornando uma máquina de demitir ministros. Nas primeiras demissões, a ofensiva da mídia deu a ela um pretexto para se livrar de aliados incômodos, nas complicadas negociações a que o Poder Executivo se vê obrigado em governos de coalizão num sistema partidário como o brasileiro. Caiu, todavia, numa armadilha: ao ceder ministros, está reforçando o poder paralelo da mídia; em vez de virar refém de partidos políticos que, de fato, têm deficiências orgânicas sérias, tornou-se refém da própria mídia.

As ondas de pânico criadas em torno de casos de corrupção, desde Collor, têm servido mais a desqualificar a política do que propriamente moralizar a nossa democracia. Mais uma vez, volto à frase de Gramsci: não existe notícia inocente. O Brasil saído da ditadura já trazia, como herança, um sistema político com problemas que remontam à Colônia. O compadrio, o mandonismo e o coronelismo são a expressão clássica do que hoje se conhece por nepotismo, privatização da máquina pública e falha separação entre o público e o privado. A política tem sido constituída sobre essas bases e, depois de cada momento autoritário e a cada período de redemocratização no país, seus problemas se desnudam, soluções paliativas são dadas e a cultura fica. Por que fica? Porque é a fonte de poderes – poderes privados que podem se sobrepor ao poder público legitimamente constituído.

O sistema político é mantido por interesses privados, e é de interesse de gregos e troianos que assim permaneça. Segundo levantamento feito pela Comissão Especial da Câmara que analisa a reforma política, cerca de 360 deputados, em 513, foram eleitos porque fizeram as mais caras campanhas eleitorais de seus estados. Com dinheiro privado. Em sã consciência, com quem eles têm compromissos? Eles apenas tiveram acesso aos instrumentos midiáticos e de marketing político cada vez mais sofisticados porque foram financiados pelo poder econômico. É o interesse privado quem define se o dinheiro doado aos candidatos e partidos é lícito ou ilícito.

O dinheiro do caixa dois passou a fazer parte desse sistema. Não existe nenhum partido, hoje, que consiga se financiar privadamente – como define a legislação brasileira – sem se envolver com o dinheiro das empresas; e são remotíssimas as chances de um político financiado pelo poder privado escapar de um caixa dois, porque normalmente é o caixa dois das empresas que está disponível. Num sistema eleitoral onde o dinheiro privado, lícito e ilícito, é o principal financiador das eleições, ocorre a primeira captura do sistema político pelo poder privado. E isso não acaba mais.

Esse é o âmago de nosso sistema político. A democratização trouxe coisas fantásticas para a política brasileira, como o voto do analfabeto, a ampla liberdade de organização partidária e a garantia do voto. Mas falhou no aperfeiçoamento de um sistema que obrigatoriamente teria de ser revisto, no momento em que o poder do voto foi restabelecido pela Constituição de 1988.

Num sistema como esse, por qualquer lado que se mexa é possível desenrolar histórias da promiscuidade entre o poder público e o dinheiro privado. Por que isso não entra, pelo menos, em discussão? Acredito que a situação permaneça porque, ao fim e ao cabo, ela mantém o poder político sob o permanente poder de chantagem privado. De um lado, os financiadores de campanhas se apoderam de parcela de poder. De outro, um sistema imperfeito torna facilmente capturável o poder do voto também por aparelhos privados de ideologia, como a mídia. Como nenhuma notícia é inocente, a própria pauta leva a relações particulares entre políticos e o poder econômico, ou entre a máquina pública e o partido político. A guerra permanente entre um governo eleito que tem a oposição de uma mídia dominante é alimentada pelo sistema.

O apoderamento da imprensa é ainda maior. Se, de um lado, a pauta expressa seu imenso poder sobre a política brasileira, ela não cumpre o papel de apontar soluções para o problema. Não existe intenção de melhorá-lo, de atacar as verdadeiras causas da corrupção. Apesar da imensa caça às bruxas movida pela mídia contra os governos, em nenhum momento essa sucessão de escândalos, reais ou não, incluíram seriamente a opinião pública num debate sobre a razão pela qual um sistema inteiro é apropriado pelo poder privado, inclusive e principalmente porque não se questiona o direito de apropriação do poder público pelo poder privado. A mídia tradicional não fez um debate sério sobre financiamento de campanha; não dá a importância devida à lei do colarinho branco; colocou a CPMF, que poderia ser um importante instrumento contra o dinheiro ilícito que inclusive financia campanhas eleitorais, no rol da campanha contra uma pretensa carga insuportável de impostos que o brasileiro paga.

Pode fazer isso por superficialidade no trato das informações, por falta de entendimento das causas da corrupção – mas qualquer boa intenção que porventura exista é anulada pelo fato de que é este o sistema que permite à imprensa capturar, para ela, parte do poder de instituições democráticas devidamente constituídas para isso.

(*) Texto apresentado no Seminário Internacional sobre a Corrupção, dia 7 de novembro de 2011, em Porto Alegre.

Fonte: Carta Maior

Depois de um trilhão de dólares

Por Delfim Netto

A crise que o mundo está vivendo tem aspectos paradoxais. Presta-se a múltiplas interpretações, cada uma delas colocando, segundo o viés ideológico do analista, seu foco sobre os diferentes aspectos em que ela se revela. Os economistas do “mainstream” estão na defensiva por terem demonstrado “matematicamente” (e até conseguido prêmios Nobel) que os mercados (em particular o financeiro) eram eficientes e autoadministráveis. Dispensavam, portanto, a “mão visível” do governo.

Os economistas com viés marxista não deram um passo além da constatação do velho Karl: os mercados financeiros são essencialmente instáveis. Pela centésima vez proclamam o rápido fim do capitalismo, como se ele fosse uma coisa e não um processo histórico com as “contradições” que o dinamizam e o civilizam lentamente pelo sufrágio universal.

Os economistas com viés keynesiano hidráulico (incorporado ao “mainstream“) assistiram ao irremediável fracasso dos seus “multiplicadores”. Mecanizaram as sofisticadas considerações psicológicas do papel das expectativas e a inevitabilidade da incerteza sobre o futuro opaco. Essas continuaram a ser cultivadas apenas por um pequeno grupo, expulso da profissão como “heterodoxo”.

Os economistas do “mainstream” foram, no máximo, apenas coadjuvantes da crise. Quatro anos depois de instalada, é evidente que sua “causa eficiente” foi a rendição dos governos à pressão econômica do único poder universal emergente: os mercados financeiros! Apenas teorizaram “a posteriori” a luta entre o poder incumbente e o mercado financeiro, que queria livrar-se do controle que lhe fora imposto nos anos 30 do século passado (exatamente por ter causado a crise de 1929).

Deram-lhe um suposto apoio científico. Papel coadjuvante, mas importante para a aceitação, pela sociedade desprevenida, da ideologia (vendida como ciência) que a desabrida liberdade das “inovações” do mercado financeiro e sua internacionalização eram fatores decisivos para o aumento da produtividade da economia real e para o desenvolvimento econômico dos países.

Hoje, os americanos parecem ter clara consciência de quem é a “culpa” pela tragédia que estão vivendo. Um levantamento do Gallup (15/16 outubro) mostrou que 2/3 das pessoas consultadas a atribuem ao governo federal e 1/3 às instituições financeiras. Mas o fato ainda mais grave (e que coloca em risco a reeleição do presidente Obama) é que a “qualidade” do programa posto em prática pelo governo de Washington para enfrentar a crise é considerada lamentável: mais de um US$ 1 trilhão de estímulos e quase quatro anos depois, o crescimento é pífio e o desemprego altíssimo. O verdadeiro conhecimento empírico e teórico da economia poderia ter sido melhor utilizado na formulação do programa, como mostraram em interessante artigo J.F.Cogan e J.B.Taylor (“Where Did the Stimulus Go?”).

O US$ 1 trilhão de estímulo foi dividido em três programas de inspiração keynesiana-hidráulica: 1) colocar dinheiro diretamente nas mãos dos cidadãos (cheques do Tesouro) para que eles o gastassem em consumo (US$ 152 bilhões); 2) disponibilizar recursos para compras governamentais e infraestrutura (US$ 862 bilhões); e 3) transferir verba para Estados e governos locais, na esperança que ampliassem seus gastos com bens e serviços (US$ 173 bilhões).

Como se deveria esperar, em razão de experiências anteriores e desenvolvimentos teóricos, eles não produziram qualquer efeito “multiplicativo” importante, ao contrário do que haviam previsto os assessores econômicos de Bush e Obama.

A ineficiência do primeiro estímulo é consequência das pesquisas de Milton Friedman e Franco Modigliani, que mostraram que o consumo está ligado à renda “permanente” e não a um estímulo ocasional, frequentemente utilizado para “diminuir as dívidas” dos agentes, que foi o que aconteceu.

Quanto ao segundo, devido às dificuldades operacionais que sempre acompanham aumentos inusitados de disponibilidade de recursos no serviço público (a falta de bons projetos e a indisposição da burocracia, elementos amplamente conhecidos e empiricamente constatados), não se gastou até o terceiro trimestre de 2010 mais do que 5% do estimado!

Quanto aos estímulos transferidos para Estados e governos locais, eles tiveram o mesmo destino dos enviados diretamente aos consumidores: foram basicamente utilizados na redução de dívidas. De fato, dos US$ 173 bilhões transferidos, 4/5 foram utilizados no pagamento de dívidas acumuladas, o que praticamente anulou o efeito físico do “multiplicador”. Aqui, também, já havia evidência empírica (Ned Gramlich, 1979) mostrando a ineficiência desse tipo de programa.

Esses fatos mostram o quanto de “ilusão” estatística está envolvida no cálculo descuidado e ingênuo dos “multiplicadores” ditos “keynesianos”, quando se esquece o próprio Keynes. Se na prevenção da crise e na sua construção podemos criticar o “mainstream“, parece que lhe devemos um crédito na crítica do horrível projeto de recuperação de inspiração do “keynesianismo-hidráulico” que desperdiçou US$ 1 trilhão…

* Delfim Netto é economista, formado pela USP (Universidade de São Paulo) e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.


Fonte: Opera Mundi
*Publicado originalmente no site EcoD.

O rapto da democracia

A Europa assiste nesse momento, com anuência catatônica dos partidos e da mídia, à ação desmedida e auto-atribuída dos mercados financeiros de nomear e demitir governos, impondo-lhes metas e políticas que reduzem o Estado, a economia e a sociedade a meros dentes da engrenagem reprodutora do capital a juro.

No Brasil, como demonstra a editora de Política de Carta Maior, Maria Inês Nassif, em análise nesta pág., é a mídia que se arroga, de forma mais ostensiva, o papel desse poder paralelo, avocando-se a prerrogativa de inocentar e condenar ministros de Estado, a ponto de tornar o governo Dilma, perigosamente, refém de seus interesses e interditos.

Na Europa, de forma desconcertante, as causas da crise são omitidas na dissecação de um colapso cuja origem e manutenção remete ao poder desmedido das finanças desreguladas. Sua supremacia monopolizou a tal ponto a agenda política que hoje encara-se como inevitável responder ao colapso neoliberal com doses adicionais de seu veneno.

A mesma lógica auto-propelida alimenta a eterna pauta da corrupção política no Brasil. A ausência de uma presença estatal forte no financiamento das campanhas eleitorais torna partidos, eleitores e eleitos reféns do dinheiro privado. A mesma mídia que usurpa espaços e prerrogativas das instituições democráticas, permite-se, porém, rebaixar a discussão das alternativas a essa distorção para reiterar seu papel auto-atribuído de juiz e jurado das escolhas da sociedade.

Nos dois casos um poder coercitivo ilegítimo submete a cidadania a desígnios sedimentados à margem do discernimento social. Em nome da eficiência, na Europa, e da transparência, no Brasil, comete-se o rapto da democracia para instituir uma chantagem permanente e ardilosa contra a sociedade. A lição européia é clara: todos os governantes que cederam a essa lógica foram engolidos por ela.

Fonte: Carta Maior

Comissões do Senado aprovam texto-base do novo Código Florestal

A Comissão de Ciência e Tecnologia e a de Agricultura do Senado aprovaram, nesta terça-feira (08), o texto-base do projeto de lei que altera o Código Florestal Brasileiro. Por falta de consenso entre os senadores, o presidente da comissão de Ciência e Tecnologia, Eduardo Braga (PMDB-AM), transferiu para quarta-feira (09) a votação das emendas ao parecer do relator Luiz Henrique (PMDB-SC). O objetivo é ter mais tempo para negociar as propostas de alterações apresentadas e chegar a um consenso.

A proposta do relator Luiz Henrique da Silveira (PMDB-SC) mantém os 30 metros de áreas de preservação permanentes (APPs) para os cursos de água de menos de 10 metros de largura, as chamadas matas ciliares. Além disso, o parecer isenta de multas o proprietário rural que derrubou vegetação nativa, antes de 20 de julho de 2008, "ou em casos de baixo impacto ambiental".

A redução de APP, de 30 para 15 metros, será permitida em torno dos reservatórios artificiais situados em áreas rurais, com até 20 hectares. Luiz Henrique estabelece em seu parecer larguras variáveis, de 30 a 500 metros, para a preservação de APPs em cursos de água de rios que variam de 10 a 600 metros de largura.

Entretanto, o texto faculta a criação de gado e a infraestrutura física associada ao desenvolvimento dessas atividades em APPs consolidadas em região de chapadas, topos de morros, montes, montanhas e serras, com altura mínima de 100 metros e inclinação média maior que 25º, e em altitudes superiores a 1,8 mil metros, qualquer que seja a vegetação.

Uma vez aprovada, a matéria seguirá à apreciação da comissão de Meio Ambiente antes de ser apreciada em plenário. Lá, o relator é o senador Jorge Viana (PT-AC).

Luiz Henrique deixou claro que o seu parecer "guarda a essência do projeto da Câmara", relatado pelo deputado e hoje ministro do Esporte, Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

O senador destacou, ainda, que sua proposta aprimora "mais amplamente" o projeto da Câmara quando estabelece a separação entre medidas permanentes – que valerão para o futuro – e as medidas transitórias, que tratam do chamado passivo ambiental anterior a 20 de julho de 2008.

Uma novidade no texto do Senado é a proposta de criação de um programa de incentivo à preservação e recuperação do meio ambiente. O relator optou, nesse caso, em regulamentar a matéria por projeto de lei do Executivo. "Optamos por deferir à presidente Dilma [Rousseff] o envio de projeto de lei, no prazo de 180 dias, contados da publicação da lei."

O parlamentar ressaltou que, como envolve desembolso de recursos do Tesouro [Nacional], a regulamentação é de competência privativa do Executivo. "Não poderíamos defini-las já, neste projeto", completou o Luiz Henrique.

A proposta do relator prevê ainda que a derrubada de vegetação nativa em APP em casos especiais. Entre eles, em locais onde a função ecológica do manguezal esteja comprometida. Nesse caso, o texto faculta a possibilidade de a área ser usada para a execução de obras habitacionais e de urbanização, "inseridas em projetos de regularização fundiária de interesse sociais, em áreas urbanas consolidadas por população de baixa renda".

Confronto

Estudantes da Universidade de Brasília (UnB) que protestavam contra a aprovação do relatório do novo Código Florestal, proposto pelo senador Luiz Henrique (PMDB-SC), em duas comissões no Senado, entraram em confronto há pouco no corredor das comissões com policiais legislativos da Casa.

Um estudante de Geologia da UnB, chamado Rafael, foi arrastado por 4 policiais por cerca de 20 metros, e ao tentar reagir, levou um tiro de phaser (arma paralisante). Ele foi conduzido para a delegacia da polícia legislativa, onde presta depoimento neste momento. Ele é acompanhado da senadora Marinor Brito (PSOL-PA), membro da Comissão de Agricultura.

A Comissão de Ciência e Tecnologia e a de Agricultura aprovaram mais cedo o texto-base do projeto do novo Código Florestal. Durante toda a sessão, os estudantes da UnB usavam narizes de palhaço e gritavam palavras de ordem.

Fonte: Brasil de Fato

Berlusconi caiu. A direita chora!

Por Altamiro Borges

Em entrevista nesta terça-feira (8), o presidente italiano Giorgio Napolitano informou que o premiê Silvio Berlusconi renunciará já na próxima semana, após a votação final do “pacote de austeridade” do seu governo ultraconservador. O anúncio foi feito logo após o bravateiro fascistóide perder a maioria numa importante votação do parlamento da Itália.


A queda de Berlusconi representa um duro golpe na direita italiana e pode ter reflexos na Europa. Juntamente com Angela Merkel (Alemanha) e Nicolas Sarkozy (França), o primeiro-ministro italiano liderou a guinada neoliberal no velho continente, acelerando o desmonte do estado de bem-estar social e reforçando os laços de servilismo com os EUA nas suas políticas imperialistas.

Expressão grotesca do poder midiático

Silvio Berlusconi é a expressão grotesca do poder midiático na atualidade. Dono de um império de comunicação, ele foi eleito três vezes primeiro-ministro da Itália (1994-1995, 2001-2006, 2008-2011). Durante este longo período, ele sofreu 17 processos na Justiça por desvio de recursos públicos, fraude fiscal, suborno, evasão de divisas e escândalos sexuais – inclusive pedofilia.

A blindagem da mídia, tão seletiva na Itália como no Brasil, garantiu a sobrevivência política e as vitórias eleitorais de Berlusconi. O patético ricaço – a revista Forbes o classificou como a segunda pessoa mais rica da Itália e o 74º homem mais rico da Europa, com fortuna estimada em US$ 9 bilhões – sempre foi funcional para a avarenta burguesia italiana. Por isso, ele durou tanto tempo.

Crise econômica e auditoria do FMI

A grave crise que atinge a Itália, porém, precipitou seu fim. Na semana passada, durante a reunião do G20, a Itália anunciou que submeterá suas contas à auditoria do Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão, que confirma o caos econômico do país, apavorou os banqueiros. Há forte risco de calote da dívida italiana, o que pode afundar de vez a combalida Europa.

O agravamento da crise minou a base de apoio de Berlusconi. Na votação do seu “plano de austeridade”, ele perdeu a maioria dos 316 deputados. Seu principal aliado, o líder fascista Umberto Bossi, pediu sua renúncia, seguido por deputados do seu próprio partido, Povo da Liberdade (PL). Berlusconi rotulou os dissidentes de “traidores”, mas ficou sem condições para permanecer no cargo.

Queda de popularidade e protestos de rua

Fora dos círculos do poder, o premiê estava ainda mais desgastado. Pesquisa da semana passada confirma que a popularidade de Berlusconi caiu a seu nível histórico mais baixo, de 22%. Em janeiro, metade dos italianos já defendia sua imediata renúncia. Greves gerais e protestos de rua exigem a sua queda desde o final do ano passado.

Os escândalos sexuais de Berlusconi, de 75 anos, só aumentaram o seu desgaste. Em outubro, um extrato bancário provou que ele gastou 2,7 milhões de euros (R$ 6,5 milhões) com presentes para garotas de programa. A marroquina Karima el-Mahroug, conhecida como Ruby Rubacuore (“rouba corações”), confessou que participou de festas na mansão do ricaço quando menor de idade e que recebeu 7 mil euros. Em maio, ela foi presa por roubo e foi imediatamente libertada após uma ligação do “amigo” poderoso.

“Vou embora deste país de merda”

Berlusconi já sabia que estava com os dias contados. Só durou mais algum tempo para fazer o último trabalho sujo da asquerosa burguesia italiana, com a aprovação do “plano de austeridade”. Em setembro, numa gravação telefônica que vazou, o arrogante premiê afirmou: “Em alguns meses me vou. Vou embora deste país de merda, do qual estou nauseado”.

Se houvesse justiça, ele deveria ir era para a cadeia. Alguns “calunistas” da mídia brasileira, que tanto o bajularam o líder direitista, poderiam lhe fazer visitas. Diogo Mainardi até mora na Itália!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O Partido do atraso

Por Genaldo de Melo

Estamos presenciando uma fase histórica bastante perigosa para a democracia brasileira, totalmente diferente de outros momentos em que as instituições naturalmente organizavam e formulavam os fatos políticos e sociais vigentes. Politicamente falando estamos vivendo num momento em que existem de fato em funcionamento forças paralelas ao Poder do Estado e aos Aparelhos Privados de Hegemonia, que querem a todo custo darem as cartas do jogo político no Brasil.

Essas forças perderam a capacidade de convencer politicamente as massas populares de que seu projeto é o melhor para a nação brasileira. Já que não convencem com propostas diáfanas o conjunto da sociedade brasileira, bem como não conseguem mais imprimir a marca de seus partidos políticos conservadores, estão atuando politicamente através do Partido da Imprensa golpista (PIG).

Como não vão conseguir mesmo derrubar a Presidente da República, que tem sem sombra de dúvida reputação ilibada, partem para apartes escabrosos contra os membros de seu Governo. Assim, vão derrubando ministro após ministro, somente pelo fato de derrubá-los para desgastá-la junto à opinião pública e ao senso comum. Não sei se vão conseguir tal feito demoníaco, porque a história é a prova dos nove e quem pensa demais acaba morrendo de idiotice.

O mais interessante desse novo partido sem personalidade jurídica é que na sua mais descarada atuação não estão preocupados com a apuração dos fatos, mais pura e simplesmente praticar o denuncismo, porque não tem de fato nada para oferecer a sociedade brasileira. Pois quem coordena esse novo aparelho político já está mais do que desgastado, tanto dentro da classe média como nos rincões aonde vivem a grande parcela da população mais pobre desse país, que naturalmente são maioria absoluta a deixaram de serem os escravos ideológicos da minoria conservadora, que se acham os novos arianos do pedaço.

É bastante triste e digno mesmo de pena ver uma minoria fraca e sem direção insistir num erro que nunca vai dá certo, porque quem coordena o Governo é Dilma! Parece que são cegos mesmo, pois ainda não passaram um olhar, pelo menos de vergonha na cara, para ver o que acontecendo no Brasil, bem como no mundo. Agora é a vez da mulher na política, porque ela pode e a história deve isso a ela. Estão totalmente perdidos...

Agora já tem outro membro do Governo na mira do novo partido sem personalidade jurídica. A limitação dessa turma de fracos é achar que derrubar um ministro é eliminar um projeto político que vem dando certo e consolidando o Brasil como uma potência mundial, e ainda convencer o povo brasileiro.  Acho que ele deveria não seguir o exemplo do jornalismo da obediência argentino. Lá a mulher esmagou politicamente a mentira e apaixonou as multidões.

Trabalho neles, Dilma!

Iraque: amargo regresso dos EUA

Wallerstein analisa nova derrota internacional de Washington. E antevê um avanço dos xiitas que, paradoxalmente, pode não interessar ao Irã.

Por Immanuel Wallerstein - Revista Fórum

 Tradução de Daniela Frabasile para o Outras Palavras.

Agora é oficial. Todas as tropas norte-americanas — com uniforme dos Estados Unidos — serão retiradas do Iraque em 31 de dezembro de 2011. Podemos interpretar essa decisão de duas maneiras. Uma delas segue a visão do presidente Barack Obama: é o cumprimento de uma promessa eleitoral feita em 2008. A segunda é a interpretação dos candidatos republicanos à presidência. Eles condenaram Obama por não ter feito o que dizem que o exército dos Estados Unidos queria, que é manter alguns soldados depois de 31 de dezembro para treinar o exército iraquiano. De acordo com Mitt Romney, a decisão de Obama é “o resultado de um cálculo político ou simplesmente inaptidão nas negociações com o governo iraquiano”.

As duas explicações não têm sentido, e são meras justificativas para os eleitores. Obama tentou ao máximo — e em total conjunção com os comandantes do exército e com o Pentágono — manter as tropas norte-americanas depois de 31 de dezembro. Mas falhou, não pela inaptidão, mas porque os líderes políticos do Iraque forçaram os Estados Unidos a sair. A retirada marca o final da derrota americana, que pode ser comparada à derrota dos Estados Unidos no Vietnã.

O que realmente aconteceu? Nos últimos dezoito meses, as autoridades de Washington realmente tentaram negociar um acordo com os iraquianos. Esse acordo iria se sobrepor ao termo assinado pelo presidente George W. Bush, que se comprometia com a retirada total das tropas em 31 de dezembro de 2011. Eles falharam — e não é que não tenham se esforçado.

No Iraque, os grupos mais favoráveis aos Estados Unidos são os grupos sunitas liderados por Ayad Allawi, um homem com relações notoriamente próximas à CIA, e o partido de Jalal Talebani, o presidente curdo do Iraque. Os dois homens disseram — relutantes, sem dúvida — que seria melhor as tropas americanas deixarem o país.

O líder iraquiano que se trabalhou duro para chegar a um acordo que mantivesse as tropas norte-americanas foi o primeiro-ministro Nouri al-Malaki. Obviamente, ele acreditava que a pouca habilidade do exército iraquiano em manter a ordem levaria o país a novas eleições, nas quais sua posição política estaria muito enfraquecida e ele, provavelmente, colheria maus resultados nas urnas. Enfim, deixaria de ser primeiro-ministro.

Os Estados Unidos fizeram concessão atrás de concessão, reduzindo constantemente o número de soldados que manteriam no Iraque. No fim das contas, o ponto de atrito foi a insistência do Pentágono em garantir a imunidade jurídica dos soldados americanos (e dos mercenários), liberando-os da acusação de qualquer crime que cometessem no país. Maliki estava pronto para concordar com isso, mas ninguém mais estava. Os sadristas chegaram a dizer que iriam retirar seu apoio ao governo, se Maliki aceitasse as condições de Washington. Sem os votos dos sadristas, Maliki não obteve a maioria necessária no parlamento.

Então, quem ganhou? A retirada foi a vitória do nacionalismo iraquiano. E a pessoa que veio para encarnar o nacionalismo iraquiano é Muqtada al-Sadr. É verdade que al-Sadr lidera um movimento xiita que sempre foi violentamente contrário ao partido de Saddam Hussein, o Baath — o que, para seus seguidores, costuma significar ser contra muçulmanos sunitas. Mas al-Sadr afastou-se de sua posição inicial, para converter a si próprio e a seu movimento nos grandes defensores da retirada dos Estados Unidos. Ele estendeu uma mão para líderes sunitas e líderes curdos na esperança de criar uma frente nacionalista pan-iraquiana, centrada na restauração total da autonomia do Iraque. Foi ele quem ganhou.

É certo que al-Sadr — assim como Maliki e outros políticos xiitas — passou uma grande parte de sua vida exilado no Irã. Sua vitória seria o triunfo do Irã? Sem dúvida, Teerã ampliou sua credibilidade no Iraque. Mas seria um erro analítico enorme acreditar que o Irã substituiu o domínio dos Estados Unidos sobre o cenário político iraquiano.

Existem tensões fundamentais entre os xiitas iranianos e os xiitas iraquianos. Por um lado, os iraquianos sempre consideraram o Iraque — e não o Irã — como centro espiritual do mundo xiita. É verdade que, nos últimos 50 anos, as transformações no cenário geopolítico permitiram que os aiatolás do Irã parecessem dominar o universo do xiísmo. Mas isso é parecido com o que aconteceu na relação entre os Estados Unidos e a Europa Ocidental depois de 1945. A força geopolítica dos Estados Unidos provocou um deslocamento na relação cultural entre dois lados do Atlântico. A Europa Ocidental teve que aceitar o novo domínio dos Estados Unidos — mas nunca gostou disso. E agora tenta retomar a hegemonia cultural. O mesmo acontece com o Irã e o Iraque. Nos últimos 50 anos, os xiitas iraquianos tiveram que aceitar o domínio cultural do vizinho, mas nunca gostaram disso. E agora irão trabalhar para retomar o predomínio cultural.

Apesar das declarações públicas, tanto Barack Obama quanto os republicanos sabem que os Estados Unidos foram derrotados. Os únicos norte-americanos que não acreditam nisso encontram-se entre o pequeno grupo marginal de esquerda que de algum modo não pode aceitar que os Estados Unidos não são capazes de ganhar sempre, em todos os lugares. Esse pequeno grupo, atualmente em declínio, está tão obcecado em denunciar os Estados Unidos que não tolera o fato de que o país está em sério declínio.

Para esse grupo marginal, nada mudou. Agora, o representante dos interesses dos Estados Unidos no Iraque não é mais o Pentágono, e sim o Departamento de Estado, que está fazendo duas coisas: deslocando mais fuzileiros para providenciar segurança à Embaixada dos Estados Unidos e contratando especialistas para treinar as forças policiais iraquianas. Mas levar mais soldados é um sinal de fraqueza, não de força.

Significa que até mesmo a bem guardada embaixada norte-americana não está suficientemente segura dos ataques. Pela mesmíssima razão, os Estados Unidos cancelaram os planos de abrir mais consulados no país.

Quanto aos especialistas, estamos falando em aproximadamente 115 conselheiros policiais que precisam ser “protegidos” por milhares de seguranças privados. Eu garantiria que os conselheiros policiais serão muito cautelosos ao sair do território da embaixada — e que isso irá dificultar a contratação de seguranças privados em número suficiente, dado que não terão mais imunidade jurídica.

Ninguém deve se surpreender se, depois das próximas eleições no Iraque, o primeiro ministro for Muqtada al-Sadr. Nem os Estados Unidos nem o Irã vão gostar.

O capital está acuado

O concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, portanto unidade da diversidade” (Karl Marx – Grundrisse)
Por Ari de Oliveira Zenha - Caros amigos
O capitalismo encontra-se em um impasse gigantesco diante da crise profunda, estrutural, que vive desde a eclosão em 2008. É a maior e mais aguda crise desde a de 1929, que acabou desembocando na segunda guerra mundial. Hoje, uma saída deste teor levaria à destruição do planeta.

Não devemos menosprezar a capacidade do capital de “superar” – a um custo elevadíssimo para a população mundial – os prováveis “transformismos” que o capitalismo como sistema hegemônico tem realizado há pelo menos dois séculos, impondo ao mundo sua dominação, sua influência e seu controle opressor soberano sobre o planeta.

Estão surgindo em praticamente todo o mundo movimentos populares que atuam no sentido – de questionar o próprio sistema capitalista em sua totalidade. A ocupação de Wall Street, centro nevrálgico financeiro do mundo e do capital hegemônico mundial – os Estados Unidos da América – com cartazes e palavras de ordem que colocam em xeque o capital com toda a sua superestrutura e estrutura de dominação, exploração e reprodução política- econômico- social. A Europa convulsionada.

No Oriente Médio também está sob fogo cerrado o domínio do capital. Querem democracia, querem direitos fundamentais, querem participação, querem liberdade, querem justiça social. Ditaduras com décadas de dominação estão caindo ou seus detentores estão entregando os anéis para se salvar da avalanche popular. Enfim o céu não é de brigadeiro para o capitalismo, mas sim um imenso nevoeiro que paira sobre seu domínio há bem pouco tempo inimaginável, há uma hemorragia, um esgotamento que atinge as vísceras do capital.

Os organismos internacionais, como o FMI, estão sendo questionados, e, indo mais além, o próprio sistema está sendo discutido, posto em dúvida sua validade como sistema produtivo-social-político. Não devemos esquecer que no capitalismo as contradições e suas repercussões no mundo se dão de forma desigual, porém combinada, ou seja, todos pagarão, uns mais, outros menos, mas todos hão de pagar a conta da degradação e da barbárie que o capitalismo se apresenta neste início de século que promete ser o século das grandes transformações sociais, das grandes transformações de caráter estruturais e porque não revolucionárias!

O momento atual nos impele a ousar, esta é a palavra ou expressão mais válida para o momento histórico que vivemos. Ousar, ir além dos limites impostos pela dominação do capital, pressionar, romper os limites da exploração do capital e trazer o ser humano para o seu devido lugar, no seio, no âmago da existência digna em que o homem possa se tornar dono do seu próprio destino, destruindo qualquer tipo de opressão e exploração, onde ele se torna senhor de sua própria existência, o verdadeiro reino da liberdade, da confraternização internacional dos povos, da conformidade em ser para si, estabelecendo no mundo uma sociedade harmônica, humana e fraterna.

Ari de Oliveira Zenha é economista.

Crack é problema em 90,7% dos municípios brasileiros

Pesquisa com 4.430 municípios brasileiros mostra ainda que em 81% deles não há CAPS, que é a porta de entrada para o tratamento da dependência pelo SUS
 
Segundo o relatório, o consumo de entorpecentes é uma questão social que invade outras áreas, como saúde, segurança pública e educação (Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)
São Paulo – Nesta segunda-feira (7), a Confederação Nacional de Municípios (CNM) divulgou os dados da segunda pesquisa sobre a presença do crack nas cidades brasileiras. Dos 4.430 municípios que responderam os questionários, 84,4% afirmaram enfrentar problemas com a circulação de drogas. Transtornos devido à circulação do crack são comuns em 93,9% e para 90,7%, esse tipo de droga representa o principal problema para a prefeitura.

Segundo o relatório com os dados da pesquisa, o consumo de entorpecentes é uma questão social que invade outras áreas, como saúde, segurança pública e educação. Conforme as prefeituras, aumento de furtos e roubos, da violência doméstica no campo e nas cidades estão relacionadas ao crack, que está substituindo o álcool entre os trabalhadores rurais em muitas localidades.

O relatório da CNM aponta ainda a carência de equipamentos de apoio em muitas cidades, como Conselhos Municipais Antidrogas (Comad), Centro de Referência de Assistência Social (Cras), Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), Centro de Atenção Psicossocial (Caps), Núcleo de Apoio à Saúde (Nasf) e Conselho tutelar.

São Paulo
Das 556 prefeituras paulistas que responderam à pesquisa, 510 afirmam enfrentar problemas com a circulação de drogas. Em 143 dos municípios não há CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), em 142 deles não existe CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistência Social), unidade que oferece serviços especializados e continuados a famílias e indivídiuos em situação de ameaça ou violação de direitos. Em 154 faltam Núcleos de Apoio à Saúde Familiar (NASF). E entre 455 cidades paulistas ainda não foi constituído o Conselho Municipal Antidrogas.

Tambores de guerra contra o Irã

Editorial do Vermelho

A aliança entre o imperialismo dos EUA e o sionismo que governa Israel é a grande ameaça contra a paz no mundo, evidência que se reforçou desde a semana passada quando os tambores da guerra voltaram a soar em Tel Aviv e Washington anunciando um provável ataque militar contra instalações nucleares no Irã.

O roteiro que levou à agressão contra o Iraque, em 2003 e contra a Líbia, neste ano, é reencenado nas chancelarias do imperialismo. Acusa-se o Irã de desenvolver um programa nuclear para finalidades militares (construir uma bomba atômica), alegação tão improvável e hipócrita quanto a mentira de dez anos atrás, que acusava o Iraque de produzir armas químicas, alegação que nunca foi comprovada – ao contrário, foi cabalmente desmentida.

As ameaças podem ser explicadas por vários pretextos. A correlação de forças no Oriente Médio tem mudado. Malgrado as agressões a povos e países soberanos, como na Líbia, o ambiente político não é tão favorável à execução dos planos imperialistas. Castelos de carta cuidadosamente construídos por uma diplomacia mentirosa e belicosa, que enfatizava a ameaça contra a segurança de Israel, ruíram fragorosamente e o realinhamento de forças na região aprofundou o isolamento de Israel e o descrédito da diplomacia hoje comandada por Hillary Clinton. A catástrofe provocada no Iraque levou ao efeito, indesejado e imprevisto pela diplomacia dos EUA, de alçar o Irã a uma potência regional que precisa ser levada em conta. Por outro lado, o levante de populações árabes fez Turquia e Egito deslizarem para posições hoje consideradas inseguras, para Israel. E a ameaça de repetir, na Síria, agressão semelhante à ocorrida contra Líbia parece encontrar obstáculos não calculados pelo imperialismo. Seus planos não prosperam, embora os cães de guarda rosnem com vigor contra o governo de Damasco.

Esta é uma parte do quadro. A outra, que os analistas militares (entre eles alguns oficiais graduados inclusive de Israel) levam em conta, é o inegável crescimento da capacidade militar e logística do Irã, dotado hoje de meios (mísseis) capazes de atingir Israel e mesmo algumas capitais europeias. Configura-se uma capacidade de reação grande, inaceitável para o imperialismo, mesmo que aqueles mísseis transportem armas convencionais e não a alegada bomba atômica que acusam o Irã de pretender construir. Além disso, outro fator inesperado e desestabilizador, para Israel e para o imperialismo, é a capacidade de mobilidade alcançada pela marinha iraniana depois da liberação, pelos novos governantes egípcios, da passagem de seus navios pelo canal de Suez, dando-lhes acesso ao Mediterrâneo e, em consequência, ao litoral de Israel.

Na semana passada, os rumores crescentes de uma preparação militar israelense para atacar o Irã, com apoio dos EUA, provocaram resposta iraniana imediata. Serão recebidos a bala – este foi o tom dessa resposta.

O apoio para uma aventura irresponsável e criminosa como essa tem sido vacilante. Os falcões de Tel Aviv e de Washington puseram os dentes de fora. O governo britânico declarou-se pronto a acompanhar a agressão contra o Irã; o “moderado” presidente de Israel, Shimon Peres, defendeu a ação militar; uma pesquisa mostrou uma população israelense dividida (41% a favor, 39% contra o ataque, e 20% sem opinião); e um general dos EUA, Jack Keane, defendeu, na Câmara dos Deputados de lá, o assassinato puro e simples de chefes militares iranianos.

A tensão vai crescer depois que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) divulgar seu relatório (previsto para esta terça feira, dia 8) com “demonstrações” contra o programa nuclear iraniano. Mas já não é o mesmo xadrez enfrentado pelos belicistas de Washington quando tramaram, há uma década, e com apoio de Tel Aviv, a agressão contra o Iraque. Os EUA já não são a alegada única superpotência e sua capacidade financeira e sua credibilidade estão abaixo da crítica neste mundo multipolar onde o declínio relativo do imperialismo estadunidense é nítido.

Manifestações contrárias à aventura militar no Irã começam a aparecer. Rússia e França, por exemplo, alertaram para o agravamento da instabilidade regional que viria na esteira desse ataque. Os russos foram específicos e falaram que seria um “erro muito grave de consequências imprevisíveis”, alertou o chanceler Sergei Lavrov. E mesmo graduados militares de Israel, como dois generais que já foram chefes do Mossad (o serviço secreto local) condenaram a hipótese; um deles disse que seria “uma estupidez”. Ou “um suicídio”, como disse a emissora PressTV, lembrando o conjunto de mísseis desenvolvidos pelo Irã, com capacidade para atingir todo o território israelense.

A reação iraniana reforça estes temores. O imperialismo e os sionistas “sofrerão perdas enormes”, disse um general. Terão uma “resposta arrasadora”, disse outro, lembrando a capacidade iraniana de atingir os navios e bases militares dos EUA no Golfo Pérsico, além de deterem o controle do Estreito de Ormuz, por onde circula 40% do petróleo consumido no mundo. Este seria o preço alto a ser pago por uma agressão militar que, muitos pensam, poderia não chegar aos resultados esperados pois o projeto nuclear iraniano é disperso e algumas instalações ficam em casamatas subterrâneas praticamente inatingíveis.

O mundo mudou num ritmo acelerado e desfavorável ao imperialismo e ao sionismo. É difícil prever o desdobramento das ameaças que se acentuaram desde o início de novembro, da mesma forma como é difícil prever as consequências de um ataque aventureiro e irresponsável contra o Irã. Nestes dias, só há uma certeza: a de que a ameaça real e concreta contra a paz e contra os povos está sediada não em alguma capital árabe mas nos salões das principais capitais do imperialismo, como Londres e Washington, coadjuvada com o ladrar dos cães de guarda de Tel Aviv.

Augusto Buonicore: Marx e a modernidade capitalista - Parte 5

Na seção anterior vimos que, na obra de Berman, destinada a analisar a chamada “modernidade”, não existia nenhuma proposta para a construção de uma nova modernidade que fosse alternativa e oposta à modernidade destrutiva do capitalismo na sua fase imperialista. No fundo existia um temor conservador sobre o futuro constituído por uma revolução.

Por Augusto Buonicore*


O pessimismo e o conservadorismo de Berman ficam também claros na seguinte passagem do texto:

“Por fim, nossas dúvidas e ceticismo quanto às promessas dos agentes promotores (de revoluções) devem conduzir-nos a questionar uma das promessas fundamentais de Marx: a promessa de que o comunismo, ao preservar e, na verdade, aprofundar as liberdades trazidas pelo capitalismo, nos libertará dos horrores do niilismo burguês (...). É fácil imaginar como uma sociedade empenhada no livre desenvolvimento de cada um e de todos pode muito bem desenvolver suas próprias e peculiares formas de niilismo. De fato, um niilismo comunista pode vir a ser bem mais explosivo e desintegrador que seu antecedente burguês (...), pois, enquanto o capitalismo reduz as infinitas possibilidades da vida moderna a limites preestabelecidos, o comunismo de Marx pode lançar o ego liberado na direção de imensos espaços humanos desconhecidos, sem qualquer limite” (Berman, 1987: 11).

Perry Anderson, respondendo a Berman afirmou:

“A coesão e a estabilidade, que Berman se pergunta se o comunismo seria capaz de encontrar algum dia, reside para Marx na própria natureza humana que o comunismo finalmente viria a emancipar ― uma natureza muito distante de uma mera catarata de desejos sem forma. Apesar de toda a sua exuberância, a versão que Berman dá de Marx, enfatizando de modo virtualmente exclusivo a liberação do eu, acaba por aproximar-se desconfortavelmente (...) das suposições da cultura do narcisismo” (Anderson, 1986: 14).

Para Berman, a proposta de constituição de uma comunidade dos produtores associados não seria mais do que uma quimera utópica que, se pudesse ser realizada, necessariamente seria varrida pelas ondas avassaladoras e a-históricas (ou supra-históricas) da modernidade. A constituição de um movimento de trabalhadores estável, assentado na solidariedade de classe, que brotasse das condições comuns de exploração e de opressão, pareceu-lhe possível apenas provisoriamente. Berman, assim, chegou a conclusões antiassociativas.

Escreveu ele:

“Mas, caso seja verdadeira essa visão abrangente da modernidade, por que razão as formas comunitárias produzidas pela indústria capitalista seriam mais sólidas que qualquer outro produto capitalista? Não seria o caso dessas coletividades se revelarem, como tudo o mais, apenas temporárias, provisórias, condenadas à obsolescência? Marx, em 1856, se referirá aos operários da indústria como “homens-frutos de uma moda passageira (...), nada mais que uma invenção dos tempos modernos, como o próprio maquinário”. Se isso é correto, sua solidariedade (...) poderá mostrar-se tão transitória quanto as máquinas que eles operam ou os produtos que daí resultam (...). Como poderão eventuais vínculos humanos crescer e frutificar num solo assim precário e movente?” (Berman, 1987: 102)

O proletariado perderia as condições históricas e sociais de se constituir enquanto agente de transformação social, pois a modernidade dissolveria permanentemente os laços de solidariedade produzidos pelas posições que aquele assumiria no mundo da produção e na própria vida social. A modernidade capitalista não produziria mais os seus próprios coveiros, mas apenas operários-para-o-capital.
* Augusto Buonicore é historiador e secretário geral da Fundação Maurício Grabois

A esquerda e a necessária repolitização do discurso contra a corrupção

Por Newton de Menezes Albuquerque
 
O tema da corrupção tem se constituído na bandeira central da direita brasileira na atualidade, em uma grande “Santa Aliança” que agrega liberais, neoliberais, reacionários fascistas, anticomunistas et caterva. O que não é propriamente nenhuma novidade, pois em vários momentos de nossa história a direita sempre recorreu ao moralismo como principal emblema de seu combate a esquerda e as forças populares. Foi assim com o governo Vargas denominado pela mesma como “mar de lama”, como também no Golpe de 64 quando as vivandeiras civis e empresariais em nome dos “bons costumes” e dos sacrossantos “valores cristãos e ocidentais” destituíram o governo legítimo de João Goulart.

Estratégia moralista da direita que teve lá seus êxitos práticos, ao galvanizar apoios de certos segmentos da classe média para seus empreendimentos e objetivos de conquista do poder. Êxito este que em grande medida se deve – nos últimos anos - a ampla associação entre a ação da direita e setores expressivos e majoritários da imprensa, unidos na defesa dos fundamentos neoliberais do mercado. Mesmo discurso, aliás, adotado pela direita pelos nazistas contra a “República de Weimar” na Alemanha nos anos 20, por Franco contra os republicanos na Espanha nos anos 30 ou por Pinochet e seus gorilas amestrados contra o governo legítimo e popular de Salvador Allende nos anos 70 e assim por diante.

Na verdade a retórica do moralismo abstrato esgrimido pela direita tem um intuito claro e insofismável, o de buscar afastar a dinâmica da política de seu campo específico, o enfrentamento dos diversos interesses que conformam o horizonte concreto das sociedades de classe capitalistas, conduzindo-a ao terreno da ideologia “universalista” da ética, dos princípios metafísicos da liberdade e da igualdade formais gerados no interior da ordem burguesa. Pois é com base em uma leitura formalista da igualdade e da liberdade e de sua “natural” projeção na propriedade privada enquanto espaço de objetivação da personalidade individual que se estrutura o discurso hegemônico da ética, da moral e do direito da modernidade burguesa. Nesse sentido o modelo ético promovido pelo liberalismo ou pelas correntes autoritaristas da política, não obstante suas diferenças internas apontam para um ponto comum, a dissolução da política na pré-compreensão individualista das relações humanas, inclusive do dever-ser ético. A conduta ética é compreendida como algo que decorre das “boas intenções”, da natureza intrínseca de cada pessoa, e não das relações sociais dominantes ou das estruturas de poder institucionalizadas. Ser corrupto ou afastar-se da ética para os defensores da cosmovisão burguesa de mundo significa postular qualquer conduta distinta da tábua de valores privatista que a cinzela. Não à toa que diante das lutas sociais, dos processos mobilizatórios “dos de baixo” ou de qualquer demanda coletiva, o sistema reage atribuindo-lhes um caráter subversivo, lesivo a ordem e aos valores da ética e da “civilização”.

Na concepção liberal a corrupção decorre da presença artificial da política na vida social em substituição a “naturalidade” do mercado e da presumida espontaneidade de suas demandas e interesses. O Estado deve se restringir a atuar quando chamado buscando satisfazer os direitos individuais em caso de sua expressa violação, mas nunca, segundo os liberais, na consecução da política e na reestruturação das relações de poder e da sociedade. Daí nasceria a corrupção, da imposição externa, heterônoma do Estado e de seus “tentáculos” sobre o espaço natural da troca de interesses e de produtos organizado em torno do mercado, como, aliás, predicam os neoliberais da Casa das Garças no Brasil em Seminário recente tendo a frente seus ideólogo maior, Fernando Henrique Cardoso.

Contudo, tal retórica contra a corrupção tem evidentes fragilidades, sérios problemas de credibilidade, pois é da essência da ordem capitalista a violação sistemática da vida, da uniformização massificadora do indivíduo e da mercantilização de tudo em nome do grande Moloch, o dinheiro. Daí a insustentabilidade do discurso da ética reivindicado pelos liberais e autoritários da direita, dada sua intrínseca desumanidade, especialmente, na América Latina e no Brasil, onde a direta patrocinou por décadas políticas de subalternização colonial e de desigualação social, política e cultural das maiorias trabalhadoras. Um breve exame de nossa história do período monárquico, passando pela República Velha até os dias de hoje nos revelam a ação concentradora de renda, de poder, além das inúmeras iniquidades, fisiologismos e corrupção geradas pelo nosso modelo de capitalismo periférico e dependente. Das chagas do escravismo às dores lancinantes de um assalariamento precarizado o que assistimos em nossa história é a quase omnipresença de relações de subcidadania em relação ao povo brasileiro em dissonância a qualidade de sobrecidadania imputado aos ricos desse país.

A fúria inquisitória da oposição liberal-conservadora liderada pela grande mídia (principal partido de oposição), pelo PSDB, DEM e PPS tem óbvios pés-de-barro, afinal de contas foram estes segmentos os responsáveis pela imposição de uma nova Era Neoliberal de castração de direitos fundamentais, da criminalização dos movimentos sociais e pelo estabelecimento de relações incestuosas, francamente promíscuas entre setor privado – nacional e internacional - e o aparato do Estado. Aceitar passivamente o discurso desses segmentos sem opor um amplo movimento de contestação de seus pressupostos é um imperdoável erro da esquerda brasileira, mais precisamente do Partido dos Trabalhadores como a mais importante organização de esquerda da América Latina.

Erro do PT que decorre da sua assimilação gradativa à ordem, à lógica eleitoralista da “pequena política”, à aritmética da governabilidade que transforma nosso projeto estratégico socialista em um conjunto de movimentos táticos esparsos de obtenção de maiorias eventuais para votar ou aprovar medidas isoladas de nosso governo. Claro que a governabilidade é importante, inegável, mas não pode circunscrever nossa ação mais longa, de perspectiva histórica, de transformação profunda, radical das relações sociais, políticas e culturais a que nos propomos quando da fundação do Partido dos Trabalhadores na década de 80. Além do nosso encapsulamento posterior ao episódio denominado de “Mensalão” e seu tratamento insatisfatório pelas instâncias dirigentes do PT do sério problema da absorção de muitos de nossos quadros ao pragmatismo do sistema.

Precisamos urgentemente sair da defensiva, assumir protagonismo no debate sobre a corrupção, suas causas e motivações, revelando que sua gênese deflui da captura do Estado pelas tendências privatistas inscritas no capitalismo, assim como, do processo concentracionário de renda e poder historicamente produzido pela direita e suas políticas anti-sociais. Com que autoridade a direita tucana e seus sócios podem protestar contra corrupção, se foram exatamente eles que entregaram o Estado e suas instituições a sanha mafiosa das corporações empresariais? Como falar de corrupção quem desprezou a vida de milhões, ignorando as políticas de combate à fome, às desigualdades sociais e regionais? Como ser favorável a moralidade quando esses partidos transformaram a política, a educação e a cultura em um mercado persa, onde tudo vale? Como serem consequentes com a corrupção se colocaram o Brasil genuflexo perante os EUA e os demais centros imperialistas?

O discurso consequente da anticorrupção só pode ser feito por quem esteve do lado da transparência do poder, da descentralização política, do fornecimento de meios de fiscalização do Estado e de suas políticas, do fortalecimento das instituições como a Receita e a Polícia Federal através do qual se encetou um sólido combate a elisão fiscal e ao crime organizado- dentro e fora do Estado – e, principalmente, por quem buscou reconstruir os fundamentos cívicos da sociabilidade, apostando na participação da Sociedade Civil, dos movimentos sociais, das ONGs, da intelectualidade, etc. Daí a importância da apropriação pelo Partido dos Trabalhadores e da esquerda brasileira de nossa história mediata e imediata para deflagrar um debate sério e indispensável sobre a corrupção no Brasil. Em que mostremos pedagogicamente os responsáveis pela mesma, o que fizemos, os limites do sistema capitalista e de sua inerente falta de ética, e de como a radicalização da democracia tende ao socialismo, única alternativa universalista frente aos desafios de uma ética política generosa e emancipatória porquê radicalmente humanista e desalienadora. Uma abordagem da corrupção que a exemplo do proposto por Gramsci a vincule a disputa contra-hegemônica de valores com o capitalismo brasileiro e seus representantes liberais-conservadores no marco da construção de novos fundamentos ético-políticos.

Newton de Menezes Albuquerque Doutor em Direito, leciona na Universidade Federal do Ceará (UFC) e na Universidade de Fortaleza (Unifor). É procurador administrativo do município de Fortaleza e é membro do Conselho Curador da Fundação Perseu Abramo

O companheiro FMI, quem diria...

A Zona do Euro foi com sede ao pote do G-20, munida da euforia despertada pelo acordo em torno do montante e da função do Fundo de Estabilidade, da redução da dívida grega e da re-capitalização dos bancos europeus.

A imagem não podia ser mais acachapante: quando os líderes europeus, Ângela Merkel e Nicolas Sarkozy à frente, passaram pela platéia sacudindo a latinha de moedas, esperando captar mais din-din, ninguém pingou... A imagem não é minha, pertence a Larry Eliot, do The Guardian (“G-20 was a lesson in disunity and the markets passed judgement”, 04/11). Mas descreve bem a situação.

Quando a latinha passou, os chineses olharam para cima, para baixo, para os lados, fizeram que não era com eles. Claro: os chineses jamais negociariam na moldura de um fórum multilateral como o G-20. Com todos os seus problemas, eles estão com a faca (a moeda controlada) e o queijo (as reservas trilionárias) na mão. Obama manifestou “simpatia”. Caramba! Menos que isso, só se pedisse que os pedintes se afastassem porque estavam atrapalhando a paisagem.

Acho que de todos, só a presidenta Dilma foi meridianamente clara. Disse que pingaria sim, mas... Somente através do FMI! Quem diria, o agora companheiro FMI! Por quê? Porque, disse Dilma, o FMI dá garantias sobre como o dinheiro vai ser utilizado. Não foi um tapa com luva de pelica. Foi sem luva nenhuma. Claro: pode ter sido um mero tapa nas costas, daqueles que procura fazer o pobre diabo que tosse desengasgar. Quem sabe... mas duvido. A pílula rece(depre)ssiva como terapia está demasiadamente entranhada no DNA do Consenso de Bruxelas.

Dilma tem razão. A Zona do Euro foi com sede ao pote do G-20, munida da euforia despertada pelo acordo em torno do montante e da função do Fundo de Estabilidade, da redução da dívida grega e da re-capitalização dos bancos europeus. Bastou o primeiro ministro grego, Georges Papandreou, acenar com uma superdose de democracia, um referendo para aceitar ou não o programa de austeridade e a permanência na Zona do Euro, para a euforia revelar-se uma bolha efêmera e tudo voltar não à estaca zero, mas à menos um: a Itália entrou na dança também, e esperemos que dessa vez, pelo menos, Berlusconi dance de fato.

Mas toda a correria até agora despertada, se refere mais a socorrer os bancos do que a população e a economia. O programa europeu é claramente recessivo, e isso não interessa nem a China nem ao Brasil nem a ninguém mais. O dinheiro, que sai do “bolso do contribuinte” (essa imagem a direita gosta), apenas passa pela contabilidade dos países em insolvência e vai parar – em torno de 80 a 90 % - na dos bancos credores, que se tornaram devedores em relação a seus créditos (!) porque se os devedores não pagarem eles não terão cash para honrar os saques que virão aos montes. Essa é a situação real.

Por que a presidente Dilma foi tão clara onde outros tergiversaram? Devido a seu temperamento? Pode ser. Mas também devido ao fato de que o Brasil age de modo diametralmente oposto ao da China, embora possa ter interesses em comum. O Brasil, que não é potência militar (graças a Deus!) nem monetária, se interessa em negociar na moldura de fóruns multilaterais. Essa é a aposta brasileira, e está certa.

Alerta! O poder militar prevalece

A tutela do poder militar é revelada pelo fato de a Comissão da Verdade, aprovada na Câmara, não passar de uma Comissão “para inglês ver”

Por Anita Leocadia Prestes - Brasil de Fato

Durante toda a década de 1980 e, em particular por ocasião dos trabalhos da Constituinte e, posteriormente, com a promulgação da Constituição de 1988, Luiz Carlos Prestes denunciou à Nação a tutela exercida pelas Forças Armadas – um verdadeiro poder militar– sobre os três poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário).  

Às vésperas da promulgação da Constituição, Prestes assinalava que no Artigo 142 da Constituição é concedida às Forças Armadas, (quer dizer, aos generais) a atribuição constitucional de “garantirem... a lei e a ordem”. A seguir, afirmava: “Atribuição constitucional que nem ao presidente da República ou aos outros dois poderes do Estado é tão expressamente concedida”. Ressaltava, contudo, que a inclusão da afirmação de que “aquela atribuição dependerá da ‘iniciativa’ de um dos poderes de Estado” não passava de uma “reserva evidentemente apenas formal, já que será sempre fácil aos donos dos tanques e metralhadoras imporem a ‘um dos poderes do Estado’ que tome a referida iniciativa”. Prestes escrevia que o Artigo 142 contraria “conhecido preceito da tradição constitucional de nosso país, que sempre afirmou serem os três Poderes do Estado autônomos, mas harmônicos entre si, não podendo, portanto, nenhum deles tomar qualquer iniciativa isoladamente”.  

A seguir Prestes tratava de não deixar dúvidas quanto à essência do Artigo 142 da Constituição de 1988: 
“Em nome da salvaguarda da lei e da ordem pública, ou de sua ‘garantia’, estarão as Forças Armadas colocadas acima dos três Poderes do Estado. Com a nova Constituição, prosseguirá, assim, o predomínio das Forças Armadas na direção política da Nação, podendo, constitucionalmente, tanto depor o presidente da República, como os três Poderes do Estado, como também intervir no movimento sindical, destituindo seus dirigentes, ou intervindo abertamente em qualquer movimento grevista, como vem se fazendo desde os decretos de Getúlio Vargas, de 1931, ou mesmo, voltando aos tempos anteriores, em que a questão social era considerada uma questão de polícia, segundo o senhor Washington Luís.(grifos meus).  

Concluindo, Prestes escrevia: “Muito ainda precisaremos lutar (...) para nos livrarmos dessa interferência indébita e nefasta dos generais, para conquistarmos um regime efetivamente democrático.” Na realidade, o Artigo 142 da Constituição de 1988 continua vigente. Confirma-se a tese defendida por Prestes do poder militar e de sua tutela sobre a Nação. É lembrado pelo diretor do Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado (IEVE), professor Edson Teles, “na Constituição de 1988, seu artigo 142 aponta a ingerência militar nos assuntos civis”, questionando a seguir: “Como podem os militares se submeterem aos ‘poderes constitucionais’ (Executivo, Legislativo e Judiciário) e ao mesmo tempo garanti-los?” Edson Teles assinala que, na Constituição atual, “a relação entre militares e civis ficaram quase idênticos (sic) à Constituição outorgada de 1967”, concluindo: 

Na realidade, o Artigo 142 da Constituição de 1988 continua vigente. Confirma-se a tese defendida por Prestes do poder militar e de sua tutela sobre a Nação. É lembrado pelo diretor do Instituto de Estudos sobre a Violência do Estado (IEVE), professor Edson Teles, “na Constituição de 1988, seu artigo 142 aponta a ingerência militar nos assuntos civis”, questionando a seguir: “Como podem os militares se submeterem aos ‘poderes constitucionais’ (Executivo, Legislativo e Judiciário) e ao mesmo tempo garanti-los?” Edson Teles assinala que, na Constituição atual, “a relação entre militares e civis ficaram quase idênticos (sic) à Constituição outorgada de 1967”, concluindo:

“Em uma democracia plena o poder não pode ser garantido por quem empunha armas, mas pelo conjunto da sociedade, por meio de eleições, da participação das entidades representativas da sociedade e dos partidos políticos. Ao instituir as Forças Armadas como garantidoras da lei e da ordem, acaba-se por estabelecê-las como um dos poderes políticos da sociedade.”  

A tutela do poder militar sobre a Nação evidencia-se hoje com a existência de documento produzido pelo Estado Maior do Exército, intitulado Manual de Campanha – Contra-Inteligência, do qual nem o atual ministro da Defesa tinha conhecimento. Segundo a revista Carta Capital, trata-se de um conjunto de normas e orientações que reúne “todas as paranoias de segurança herdadas da Guerra Fria”, a começar pela prática dos generais de “espionar a vida dos cidadãos comuns”. O manual lista “como potenciais inimigos” praticamente “toda a população não fardada do País e os estrangeiros”, incluindo “movimentos sociais, ONGs e os demais órgãos governamentais”, de “cunho ideológico ou não”.  

Da mesma maneira a tutela do poder militar é revelada pelo fato de a Comissão da Verdade, aprovada na Câmara, não passar de uma Comissão “para inglês ver”, ou seja, para dar uma satisfação à opinião pública mundial, expressa através das exigências apresentadas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA. Como diz a deputada Luiza Erundina, “o objetivo expresso do texto do projeto é resgatar a memória para ver a verdade histórica e fazer a reconciliação nacional. Sem tocar em justiça. É incrível, pois todos os países que sofreram ditaduras tiveram comissões da verdade com perspectiva de fazer justiça: Argentina, Uruguai, África do Sul, Alemanha”. Na realidade, o poder militar continua impedindo a apuração dos crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura e a punição dos torturadores.  

Como era sempre lembrado por L.C. Prestes, tal situação só poderá ser modificada com a mobilização dos setores populares. É necessário, pois, alertar esses setores para o perigo a que todos continuamos submetidos sob a tutela do poder militar!

* Anita Leocadia Prestes é professora do Programa de Pós-graduação em História Comparada da UFRJ e presidente do Instituto Luiz Carlos Prestes

A chantagem cotidiana

Lúcio Flávio Pinto
Jornalista paraense. Publica o Jornal Pessoal (JP)
Adital
 
Uma turma da limpeza municipal atuava na minha rua quando saí de casa, apressado, no início da noite do dia 21. Um dos trabalhadores, em tom impositivo, me pediu dinheiro. Pela pressão e pelo tom, não dei. Pressenti na hora o que encontraria na minha volta: o lixo foi deixado à porta de casa. E retirado da frente das residências que compareceram à coleta.

É essa a regra da relação do cidadão com prestadores de serviço das mais diversas (e até esdrúxulas) condições. O flanelinha aborda os motoristas deixando implícito que, se não pagarem, seus carros sofrerão as consequências. Alguns deles se preocupam em suavizar a chantagem com um tratamento cordial e a simpatia que torna atraentes até os canalhas (ou principalmente eles). Outros se tornaram tão cínicos que provocam a reação daqueles que ainda não se sujeitaram por completo ao império do medo (sazonalmente conclamado a decidir em ocasiões mais solenes e importantes, como as eleições).

O vendedor varejista dentro de ônibus, com sua liturgia religiosa e seus modos aparentemente humildes, começa sua oração advertindo a todos que poderia estar roubando ou fazendo pior. Prefere, no entanto, tirar do suor do trabalho sua sobrevivência e a dos seus dependentes. É justo esperar desse altruísmo que os passageiros comprem chicletes, balas, bombons, livros de palavras cruzadas e quetais.

Acho necessária a misericórdia e a solidariedade, justamente quando elas se demonstram necessárias. Dou o dinheiro pedido quando o pedinte se me apresenta com uma narrativa coerente e é convincente o tom da sua voz. Podemos nos enganar na nossa avaliação e a tendência é de que nos enganemos cada vez mais diante do aprimoramento desses personagens, multiplicados pelas ruas. O erro faz parte do aprendizado.

O grave se revela quando o pedido de ajuda ou mesmo a cobrança de um adicional pelo serviço prestado tem amparo mais forte – ou na própria força, em crescente evolução para a violência, ou em alguma instituição. O "por fora”, que podia até ser admitido como eventualidade da exceção, se tornou regra. Praticada de cima a baixo na pirâmide desse monstro chamado Estado. Do burocrata-mor, com ou sem mandato, ao lixeiro.

Não podemos nos tornar insensíveis aos variados e multifacetados dramas humanos. Mas, não podemos ser coniventes com o abuso. A omissão, a par da intervenção ativíssima, aduba o terreno do abuso, da impunidade, da violência. A renúncia à cidadania, a uma relação civilizada entre as partes que compõem o todo da vida social gera diferentes camadas de vilanias. Daquela que dói individualmente, como a de ser vítima de lixeiros, sem a mais remota ideia do que seja o servidor público (e sem ter reconhecido o direito ao tratamento que a administração superior lhe devia dar), até àquelas que vão se tornando chagas sociais, num grau tão avançado de deterioração moral que já parecem incuráveis.

O mais remoto vislumbre de esperança, contudo, nos deve estimular a não ceder à ameaça, à chantagem. Parta de quem partir. O lixeiro, sem exemplos dignos a seguir e; no topo, o gestor, que cria condições para que o lixeiro, ao invés de prestar o serviço público devido ao cidadão recolhedor de impostos para pagá-lo, coaja para obter uma fração microscópica do "por fora” que vê circular no topo da estrutura do poder público.

Veja ataca novamente. Ninguém reage!

Por Altamiro Borges

Em meados deste ano, a sociedade britânica descobriu que Rupert Murdoch, o mafioso imperador da mídia, comandava o país. Seu grupo de comunicação não fazia apenas escutas ilegais e distribuía propinas. Ele pautava a política nacional, “nomeava” e derrubava ministros, mandava e desmandava no Reino Unido. Até o primeiro-ministro conservador, David Cameron, foi apontado como seu fiel capacho!

Parece que Roberto Civita, dono do Grupo Abril, sonha em ter o mesmo poder no Brasil. Nos três últimos meses, a revista Veja, o principal veículo da famiglia mafiosa, conseguiu agendar a política interna. Ela produz escândalos e logo é seguida pelas TVs e jornalões, que amplificam suas denúncias. Embalada, ela até se jacta de ter derrubado ministros e de acuar a presidenta Dilma Rousseff!

Jagunços midiáticos e denuncismo fascista

Nesta ofensiva frenética, Veja não vacila em usar os métodos mais criminosos, que causariam inveja ao próprio Murdoch. Os seus colunistas mais se parecem com jagunços midiáticos, que caluniam a sangue frio – sem medo de processos ou cadeia. Suas capas e reportagens são carregadas de denúncias vazias, num processo tipicamente fascista de escandalização da política.

Um de seus “repórteres”, um fedelho ambicioso, tentou invadir o apartamento do ex-ministro José Dirceu num hotel de Brasília. Depois de uma capa mercenária sobre um remédio, que rendeu protestos formais da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Veja usou como fonte de suas calúnias um policial acusado e preso por corrupção para derrubar o ministro Orlando Silva.

Carlos Lupi, a próxima vítima

Agora, a revista promove o linchamento do ministro Carlos Lupi. Mira no presidente licenciado do PDT com o nítido objetivo de atingir a base de apoio da presidenta Dilma. Ela seria a maior culpada pela “corrupção sistêmica”, como esbraveja o “ético” FHC, o queridinho da famiglia Civita. Só os ingênuos e os míopes pela disputa política amesquinhada não enxergam a tramóia da Veja.

O objetivo não é corrigir as distorções denunciadas nos milhares de convênios firmados pelo Ministério do Trabalho. Durante o reinado de FHC, por exemplo, vários casos de desvio dos recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) foram apontados pelo próprio movimento sindical, sem que a mídia demotucana tenha feito qualquer escarcéu. Nada foi apurado, para a alegria dos demotucanos!

Chega de chorar o leite derramado!

O triste nesta história toda é que a Veja está ganhando! Ela denuncia, mesmo sem apresentar provas concretas, o governo cede e a esquerda política e social chora o leite derramado. A cada queda de ministro – e Carlos Lupi parece ser a próxima vítima – fica a sensação de que o governo Dilma é o mais corrupto da história do Brasil e de que a revista Veja é o baluarte de ética no país.

A esquerda social/política não consegue se unir para dar uma resposta contundente ao “tribunal de exceção”, fascista, da famiglia Civita. Ela manda e desmanda - “investiga”, julga e fuzila -, a exemplo do mafioso Rupert Murdoch. A cada semana, ela promove o linchamento de um partido ou movimento social. Fragmentado, atordoado e acovardado, ninguém dá resposta. Até quando?

O desafio está lançado

Diante da ofensiva fascistóide da Veja, é urgente dar uma resposta unitária e incisiva. Que tal um “tribunal” para julgar os crimes da revista? Seria interessante analisar as origens alienígenas do Grupo Abril, os subsídios milionários do regime militar à famiglia Civita, os empréstimos do BNDES que duram até hoje, os anúncios publicitários sem licitação dos governos demotucanos, os seus vínculos com grupos racistas da África do Sul e com as corporações financeiras do EUA.

Todos os que sofreram o linchamento midiático da Veja poderiam se pronunciar. Os sem-terra do MST que são demonizados em suas lutas; os sindicalistas que são estigmatizados em suas greves e protestos; os jornalistas que conhecem as manipulações e as negociatas do Grupo Abril; os partidos de esquerda que são alvos de suas calúnias e difamações. O "tribunal" poderia até resultar num protesto de rua diante do bunker da famiglia Civita, em São Paulo, que já serviu de quartel-general de candidatos tucanos.

Chega de ouvir passivamente os ataques desta mafiosa famiglia, fascista e golpistas! A proposta está lançada. Quem topa?