sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Turbulências mundias, Brasil e China

Wladimir Pomar - Brasil de Fato

Parece haver certo consenso de que o mundo está entrando numa era de turbulências agudas em todos os terrenos. Isto é, na volatilidade das finanças, nas taxas de câmbio e de juros, nos índices de emprego e de padrão de vida, nas insatisfações sociais e nacionais, nas tendências e nas alianças políticas, e nas apreciações ideológicas sobre esse conjunto de situações e sobre cada uma delas.

É verdade que, como mostrou a crise de 2008, essas turbulências não ocorrem na mesma extensão e gravidade em todos os países e regiões. Em 2008 concentraram-se principalmente nos Estados Unidos e, agora, concentram-se na Europa, a partir dos países de economias mais fracas.
Mas não há qualquer dúvida de que elas causam instabilidades globais que rebatem, de forma mais ou menos intensa, e mais ou menos graves, em todos os demais países.

Também é verdade que é impossível fazer previsões de curto prazo sobre como, e com que rapidez, tais turbulências evoluirão, não apenas nos países centrais, mas no resto do mundo. Em tais condições, basta isso para gerar uma série de ações desencontradas, em cada um dos países ou regiões. Alguns destes tendem a adotar medidas protecionistas, enquanto outros pensam tirar proveito máximo da crise dos outros. No entanto, nada garante que a situação crítica dos Estados Unidos e da Europa possa levar algum benefício a quem quer que seja, em especial no caso de se firmar a tendência de ascensão das correntes políticas de direita e para-fascistas.

No caso do Brasil, esse quadro recomenda uma avaliação estratégica mais consistente das relações do país, tanto com as regiões em crise, quanto com os BRICS, com a América Latina e com as regiões que ainda estão relativamente a salvo. Talvez seja mais conveniente ao Brasil se preparar para o pior, e tratar mais seriamente essa possibilidade.

Nesse sentido, é necessário tratar com especial atenção nossas relações com a China. No momento, parece predominar não só em certos setores empresariais, mas também em diversos setores governamentais e acadêmicos, uma visão negativa sobre tais relações, como se os chineses fossem única e exclusivamente uma ameaça.

Num quadro geral de crise, o predomínio dessa visão não só impedirá o Brasil de aproveitar as oportunidades oferecidas pelo desenvolvimento chinês, como também pode tornar o Brasil o único prejudicado, já que a China é um dos poucos países do mundo que possui um mercado doméstico suficientemente grande para suportar, em certa medida, uma crise realmente global.

Segundo dados conhecidos, a corrente de comércio bilateral Brasil-China saltou de 760 milhões de dólares, em 1989, para 56,8 bilhões de dólares, em 2010. Em outras palavras, a corrente de comércio do Brasil com o país asiático saltou de 1,5% para 15%. Esse aumento do comércio com a China contribuiu não só para reduzir os déficits das contas correntes brasileiras, mas também para manter a inflação brasileira sobre controle, tendo em conta os custos mais baixos dos bens importados daquele país.

Além disso, enquanto os investimentos diretos (IED) realizados pela China no Brasil somaram 250 milhões de dólares, entre 1990 e 2009, essa soma se elevou a 13,7 bilhões de dólares, em 2010. Ou seja, 28% de todos os investimentos estrangeiros no Brasil. As estimativas são de que, nos próximos anos, esses investimentos oriundos da China se elevem ainda mais, embora muitos temam que eles se dirijam unicamente à fabricação de produtos básicos exportáveis.

A maioria dos analistas considera que esse é o lado aparentemente bom das relações com a China. Mas essa maioria também considera que esse lado bom é apenas um canto de sereia, ou a re-edição do infausto acordo Inglaterra-Portugal, como escreveu Luis Nassif em seu blog. Para demonstrar essa tese, esses analistas apontam vários aspectos preocupantes do comércio externo brasileiro e das relações com a China.

Os produtos básicos e semi-manufaturados, que antes constituíam 43,5% das exportações brasileiras, saltaram para 58,6% em 2010. Em contrapartida, as exportações de manufaturados caíram de 54,3%, em 2006, para 39,4% em 2010. Para tornar ainda mais sombria essa situação
do Brasil, estima-se que 71,5% dos investimentos previstos entre 2011/2014 (não só chineses) estarão voltados para commodities, como petróleo, gás e mineração, enquanto os investimentos destinados aos setores de manufaturas exportáveis, como veículos, papel e celulose, e têxteis e confecções, cairão para 11,9%.

A participação da indústria no valor total da economia brasileira caiu de 19,2%, em 2004, para 14,8% em 2009. Teria ocorrido, portanto, uma desindustrialização. Os analistas supõem que essa situação é ainda mais grave porque tal desindustrialização não teria sido acompanhada
do surgimento de um setor de serviços dinâmico e sofisticado, como ocorreu nos Estados Unidos e em vários países da Europa. Só esquecem de dizer que isso não teria sido vantagem alguma, já que serviços dinâmicos e sofisticados não salvaram os Estados Unidos e a Europa da crise, colocando em xeque as vantagens da pretensa modernidade pós-industrial.

A partir desses dados, e do fato do comércio realizado entre as diversas indústrias brasileiras, destinado a fortalecer suas cadeias produtivas, ter caído de 57% para 50%, entre 2006 e meados de 2011, a maior parte dos analistas conclui que a China estaria contribuindo para agravar essa situação. Afinal, 83,6% das exportações brasileiras para ela são de produtos básicos, contra apenas 4,5% de produtos manufaturados. Em contrapartida, 85% das importações brasileiras da China são de produtos industriais e de altos componentes tecnológicos.

Esses críticos das relações atuais do Brasil com a China reconhecem que esta se tornou importante fonte de crédito externo para o Brasil. Mas não concordam que tais créditos estejam, em geral, vinculados a projetos de produção, logística ou comercialização de produtos brasileiros. E citam como exemplo o empréstimo de 10 bilhões de dólares, concedido em 2009, pelo China Development Bank (CDB) à Petrobras, em troca da exportação de 200 mil barris de petróleo/dia, durante 10 anos.

Isso comprovaria que as relações econômicas e comerciais com a China, incluindo os investimentos e os créditos, teriam contribuído para estimular a produção e a exportação de produtos básicos e fazer regredir a produção industrial. Por outro lado, os ínfimos 85,3 milhões de dólares (outros falam em 150 milhões de dólares) investidos pelo Brasil na China demonstrariam a existência de barreiras aos investimentos brasileiros naquele país.

Numa análise superficial, os números apresentados podem levar à conclusão de que tais assertivas sobre as relações Brasil-China estão corretas e que a China não passa mesmo de uma das sereias que tentou levar o grego Ulisses ao naufrágio, após a guerra de Tróia. No entanto, uma análise mais acurada, inclusive partindo da experiência industrial da China, pode indicar que tais analistas estão construindo mitos, que pouco tem a ver com a realidade de ambos os países, e que pouco ajudarão a construir uma estratégia de parceria e benefício mútuo de longo prazo. Mas isso é assunto para a próxima semana.

A VEZ DOS BRICS

Por Mauro Santayana,em seu Blog

A crise dos Estados Unidos e da Europa, a cada dia que passa, evidencia ainda mais, para o observador atento, os acertos alcançados pelo BRICS.
Na gênese do beco sem saída em que se meteram, os estados ocidentais cometeram dois erros fatais:
Permitiram que se instalasse e consolidasse, durante anos, uma situação de irrestrito laissez-faire, limpando o terreno para o surgimento de áreas nebulosas de especulação, como a do subprime e dos derivativos, e deixando que ali medrasse uma estéril e arriscada “economia de papel”, em detrimento da economia real, orientada para a geração de bens e produtos, renda e emprego, e para o atendimento das necessidades também reais, dos seres humanos.
Por outro lado, ao mesmo tempo, os Estados Unidos e a Europa se endividavam até o pescoço, para manter um status-quo historicamente insustentável, tanto do ponto de vista militar, como é o caso, principalmente, dos norte-americanos, quanto do ponto de vista de consumo, conservando artificialmente o padrão de vida – e, em conseqüência, a arrogância – de seus povos, em um patamar muito acima do restante da humanidade.
Enquanto isso, governos como o da Índia e o da China, seguindo o que a Coréia do Sul e o Japão haviam feito anteriormente, coordenavam sinergicamente todos os setores da sociedade para criar - sem a oposição, como acontece no Brasil, da imprensa conservadora e dos “agentes” do mercado - uma miríade de grandes empresas locais, no início com financiamento público e depois com participação privada, para fabricar automóveis, eletroeletrônicos, roupas, softwares e outros bens de consumo.
Fiscalizavam rigorosamente os bancos. E investiam na economia real, incorporando, nesse processo, pela criação de empregos e a melhoria das condições de educação e capacitação, dezenas de milhões de cidadãos ao mercado de consumo.
Na Rússia, na Índia e na China, o primeiro objetivo da sociedade é o fortalecimento do poder nacional e não de um ou de outro determinado grupo de interesse. É por isso que, nesses países, o Estado não se sente constrangido, como aqui, em mobilizar e induzir os agentes econômicos para a conquista do desenvolvimento.
Mas os BRICS não ficaram por aí. Enquanto a Europa e os Estados Unidos imprimiam bilhões de dólares em títulos sem lastro, Rússia, Índia, China, e o Brasil, que a partir de 2003, também adotou essa estratégia, economizavam parcimoniosamente os recursos obtidos com as exportações, liquidavam, praticamente, suas dívidas com o exterior, e aumentavam suas reservas internacionais, a ponto de elas triplicarem, hoje, as do G-7, emprestando, pela primeira vez na história, dinheiro para o FMI e para as grandes nações ocidentais.
Hoje, China e Brasil estão entre os quatro maiores credores dos Estados Unidos, e são seguidos de perto, nesse quesito, pelos russos e pelos indianos.
Se tiverem noção do excepcional momento histórico que estão vivendo, os países do BRIC aproveitarão a crise do Ocidente, para consolidar definitivamente, com a participação da África do Sul, recém admitida no Grupo, uma aliança estratégica global que está predestinada a mudar o panorama geopolítico do mundo no século XXI.
Para isso, no entanto, essas nações deverão aprofundar a sua percepção de que o que mais as une é a sua condição de ex-escravos, que assistem, agora, em uma posição cada vez mais forte, ao crepúsculo de seus antigos senhores.
Senhores que nunca vão jogar limpo, ou se empenhar, verdadeiramente, em fortalecer suas ex-colônias para mudar um equilíbrio de forças que os beneficiou, e muito, nos últimos séculos.
Por essa razão, é incompreensível, por exemplo, que o Brasil continue buscando fechar acordos na área de defesa com o Ocidente, quando poderia estar desenvolvendo, no âmbito do BRICS - no qual Rússia e China possuem uma inegável expertise - e mesmo a Índia e a África do Sul já têm muito a oferecer nessa área - toda uma nova geração de armamentos, capaz de assegurar nossa presença no Atlântico e a defesa efetiva de nossos recursos naturais, incluindo o pré-sal e a biodiversidade amazônica.
Rússia e índia estão desenvolvendo conjuntamente o novo Sukhoi T-50, caça-bombardeio de quinta geração. A índia já compra aviões-radar da Embraer. O novo bombardeio invisível chinês é baseado em tecnologia russa. O Brasil e a China já lançam satélites binacionais de sensoreamento remoto. Já desenvolvemos mísseis ligeiros em cooperação com a África do Sul.
Por que continuar – e isso foi um erro do Governo Lula induzido pelo então Ministro da Defesa, Nelson Jobim - comprando tecnologia obsoleta francesa ou norte-americana – os aviões que nos oferecem têm mais de 20 anos de desenvolvimento – quando podemos entrar direto no futuro desenhando um avião do zero com os nossos sócios do BRICS ?
Além disso – o caso líbio está aí para nos mostrar isso – temos que nos fortalecer ao militarmente ao máximo, como os outros BRIC, e até mesmo alterar a Constituição, se for preciso.
A OTAN e os Estados Unidos acham que podem interferir onde quiser.
Mas nunca fariam com a China, a Índia ou a Rússia o que fizeram com Kadhafi. Uma coisa é atacar um país pequeno e sem armas nucleares. Outra, muito diferente, é atacar três dos maiores países do mundo, que contam com armamento moderno e arsenais atômicos à disposição de suas Forças Armadas.
É preciso convergir não apenas do ponto de vista da aproximação comercial e de defesa com o BRICS, mas também com relação à condução da nossa economia.
O Brasil nunca será de fato um BRIC, se, no lugar de dar atenção aos reais interesses da nação, continuarmos tomando decisões que afetam toda a sociedade com base na opinião de meia dúzia de “analistas” ouvidos todas as semanas pelo Boletim Focus, do Banco Central, empenhados, como raposas no galinheiro, em manter gordas para o mercado financeiro, de onde tiram seu generoso sustento, as saborosas galinhas da SELIC.
O Brasil precisa de menos economistas, que cresceram sob a falsa premissa da existência do “livre” mercado, e de mais estrategistas, prontos para estabelecer um projeto nacional – que nos falta mais do que tudo – para a era do capitalismo de estado do século XXI, na qual os países abandonarão, de vez, a máscara de uma livre concorrência que na verdade nunca existiu, para assumirem aguerridamente suas posições na franca e feroz disputa das grandes nações, pelos mercados e fontes de matérias-primas de todo o mundo.
Para muitos, no entanto, está cada vez mais claro que parte da elite brasileira quer que o Brasil continue no andar de baixo e não participe dessa batalha, ou prefere que o país suba ao ringue de olhos vendados, com correntes nos pés e de mãos amarradas.
Não podem ser vistas de outra maneira as furibundas críticas ao BNDES, por exemplo, quando nosso maior banco de fomento tenta fortalecer grandes empresas brasileiras para que elas não sejam engolidas por suas concorrentes estrangeiras, ou para que movam, compreensivelmente seus peões para ocupar posições no intrincado tabuleiro de xadrez dos mercados internacionais.
Compreende-se que o Financial Times, The Economist ou o Wall Street Journal ataquem a política industrial brasileira, afinal, esse é o papel deles, de amplificar o velho discurso ocidental e anglo-saxão do “façam o que eu digo, mas não façam o que eu faço”.
Mas é impossível ficar indiferente quando essas posições são radicalmente defendidas dentro do nosso próprio país, quando estamos cansados de saber que sem apoio público e juros subsidiados de seus governos, empresas de países especializados em salgar bacalhau e azeitonas não teriam se assenhoreado – inclusive com financiamento, pasmem, do próprio BNDES - de segmentos estratégicos de nossa economia durante a tragédia da desnacionalização promovida pelo neoliberalismo dos anos 1990.
Quer dizer, o BNDES pode financiar a compra de empresas brasileiras por estrangeiros. Mas na hora de financiar a compra de empresas estrangeiras por brasileiros, a diretoria do Banco tem que ir ao Congresso se explicar.
O mesmo esforço, ou tendência, para manter as nossas empresas relativamente pequenas e impedir a criação de grandes players brasileiros para a disputa dos mercados internacionais pode ser visto também na atuação das agências “reguladoras” e nos órgãos de fiscalização da concorrência.
A quem interessa, por exemplo, que o Brasil não possa contar com uma empresa do porte do que seria a Brasil Foods sem a intervenção do CADE, em um mundo que é amplamente dominado, no mercado de alimentação, por gigantescos grupos europeus e norte-americanos, como a Nestlé, a Pepsico, a Kraft Foods ou a Danone ?
Por que temos que perder o último grande grupo brasileiro no mercado varejista de alimentos, e entregar definitivamente uma área estratégica, do ponto de vista do combate à inflação, para multinacionais estrangeiras?
Por que não ter uma forte posição em um grupo varejista de porte mundial para colocar, finalmente, nossos produtos nas gôndolas de supermercados estrangeiros?
Ou vamos continuar condenados a vender café em grão quando a Alemanha, sem ter sequer um pé plantado, é a maior exportadora de café solúvel do mundo?
Mas o Brasil não está amarrado apenas pela contínua manipulação da opinião pública com histórias da carochinha sobre cavalos com chifres, mulas sem cabeça, livre concorrência e livre mercado, em um planeta no qual a China caminha para se transformar na maior economia do mundo, justamente por nunca ter dado ouvidos a esse tipo de balela.
Em decorrência desse discurso, estamos impedidos de entrar nessa briga de cachorro grande com um mínimo de perspectiva de enfrentá-la, ou em igualdade de condições com os outros BRICS, por outra forte e poderosa algema: a contínua sangria de nossos recursos, da qual já falamos aqui antes, derivada da estúpida insistência em manter as taxas de juros nos mais altos patamares do mundo.
Nos últimos 12 meses, o Brasil seqüestrou dos impostos pagos pela sociedade 210 bilhões de reais para o pagamento de juros, que estão em mais de 12% ao ano, quando os juros de nossos sócios do BRIC, Rússia, Índia e China estão entre os mais baixos do mundo.
De tudo o que foi recebido dos governos anteriores, os juros da taxa SELIC, que estavam em mais de 24% no final do governo FHC, são o componente mais letal e corrosivo. Eles representam a pílula de veneno dentro do copo de vinagre. Um vírus dentro do sistema operacional nacional. Um câncer que drena a energia e os recursos da sociedade brasileira. Uma auto-imposta e masoquista desvantagem que nos impede de crescer como poderíamos, em um momento no qual sócios do BRIC como a China, que estão livres dessa amarra, estão cada vez mais fortes.
Se quiser, o Governo Dilma Roussef, se não houver outras razões, já tem como garantir o seu lugar na história, libertando nossa gente da escravidão dos juros, que seqüestra boa parte da renda de milhões de famílias brasileiras, e fazendo com que essas centenas de bilhões de reais que desaparecerem pelo ralo todos os anos se transformem em mais consumo, em mais empregos, em mais produtos.
O Brasil não pode continuar a ser refém do “mercado” e dos prepostos que com ele colaboram, em jornais e emissoras de televisão, no permanente logro e manipulação da opinião pública.
Não se pode falar em desoneração da Folha de Salários, quando o maior ônus que as empresas enfrentam, e o maior componente do Custo Brasil está justamente nos juros que transferem boa parte dos ganhos obtidos pelo setor produtivo para o mercado financeiro.
Poderíamos começar revertendo as expectativas, tão falsas como incorretas, do “mercado”, deixando, simplesmente, de emitir o Boletim Focus do Banco Central. O “mercado” precisa saber o que a autoridade monetária está decidindo e não o contrário.
Mesmo com cortes automáticos mensais de 0,5% na taxa de juros da taxa SELIC, ainda assim levaríamos 20 meses para chegar a um patamar civilizado de juros ao final do atual governo. Um tempo precioso na corrida que disputamos com as grandes nações. E ninguém poderia ser acusado de ser imprevisível ou de não dar tempo às instituições financeiras para se adaptarem.
Essa é a vez dos BRICS. O Brasil pode crescer junto com eles, e com eles mudar o planeta no Século XXI.
Ou continuar vivendo no anacrônico mundo de faz-de-conta que nos foi impingido, do ponto de vista econômico, pela Europa e os Estados Unidos no Século XX, perdendo, mais uma vez, o bonde da história.

Veja mentiu sobre relação Farc/PT

Por Thaís Romanelli, no sítio Opera Mundi:

No dia 16 de março de 2005, a revista semanal Veja publicou a matéria "Os Tentáculos das FARC no Brasil", em que detalhava uma possível relação entre membros do PT (Partido dos Trabalhadores) com a guerrilha colombiana. O caso, porém, foi relatado pela embaixada dos Estados Unidos em Brasília como um exagero, além de uma tentativa de "manobra política". O documento da embaixada com o relato foi divulgado pelo Wikileaks.

Segundo a matéria, candidatos petistas teriam recebido 5 milhões de dólares da guerrilha durante uma reunião no ano de 2002, em uma fazenda próxima a Brasília. Na ocasião, membros do PT teriam se encontrado com o representante da organização colombiana no país, Francisco Antonio Cadenas, e acertado os detalhes. O objetivo seria financiar a campanha de reeleição do ex-presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).

O partido, porém, negou as acusações e a Veja não conseguiu provas documentais sobre a transferência de dinheiro.

Para embaixada norte-americana, a revista "exagerou o real nível das relações entre as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o PT", segundo o documento datado de março de 2005. Isso porque, após as acusações, membros da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) em Brasília, que de acordo com a revista, estavam infiltrados no encontro, não obtiveram provas concretas sobre o recebimento de dinheiro.

Citado pela embaixada norte-americana, o general Jorge Armando Felix, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Abin e que acompanhou a investigação, afirmou que os documentos internos da agência citados pela Veja como provas foram "forjados", já que não estavam nas formatações da agência.

"O que foi publicado é uma mistura de meias verdades e meias mentiras. Nós não temos qualquer documento oficial que prove que o encontro ocorreu", afirmou o delegado e chefe da Abin, Mauro Marcelo, também citado no despacho.

No documento, fica explícito o estranhamento do embaixador norte-americano em relação a demora de três anos para divulgação do possível financiamento. "A história mais parece uma manobra política. O que é incontestável é que os membros do PT e representantes das FARC estiveram juntos em um encontro, mas não há provas de colaboração financeira", disse.

Para ele, o que deveria ser uma denúncia importante tornou-se uma ferramenta arquitetada pela Veja para minar a candidatura de Lula ao segundo mandato. "Enquanto os opositores e a outros veículos de comunicação estão notavelmente desinteressados em prosseguir com as acusações e investigações, parece que a Veja está exagerando os fatos", conclui o embaixador.

Miriam Leitão faz o jogo do império

Por José Reinaldo Carvalho, no sítio Vermelho:

A mídia brasileira vendida aos monopólios e em absoluto conluio com os agressores imperialistas dos Estados Unidos e União Europeia, que através da Otan estão massacrando o povo líbio, está em ruidosa campanha para “provar” que o Brasil tomou uma posição “decepcionante” ao não reconhecer o Conselho Nacional de Transição da Líbia, acompanhando a posição tomada em maio pelos Estados Unidos e a União Europeia.

Com a evolução dos acontecimentos dos últimos dias, a campanha passou a ser para que o Brasil reconheça logo o “novo governo” do país norte-africano.

Para isso, mobilizou todo o seu arsenal propagandístico, entrevistou professores de relações internacionais, alguns dos quais, para sua decepção concordaram com a prudência do governo brasileiro. A CBN redistribuiu tarefas e por dois dias livrou o distinto público das diatribes de Miriam Leitão, “analista” sobre política macro-econômica. O que resultou num desastre, pois ao promover a jornalista a comentarista de política externa, fez remexer a ossada do Barão.

Para repetir o mantra de que o Brasil já devia ter reconhecido o “novo” governo da Líbia, porque os Estados Unidos e a União Europeia já o fizeram antes, a moça desancou a instituição fundada pelo velho Rio Branco. “O Brasil tem uma posição completamente equivocada quanto à Líbia e a Síria. Errou cem por cento do tempo”, sentenciou, confundindo o distinto público, que por um átimo foi levado a pensar que escutava uma catedrática do Department of State ou do Foreign Office. Pois com tanta sapiência, não creio que a moça quisesse passar por uma professora do Instituto Rio Branco ou da Fundação Alexandre de Gusmão.

A jornalista do sistema Globo falou barbaridades do Lula, cuja visita como chefe de Estado à Líbia, ela estigmatizou como “horrorosa”. E numa demonstração de que os “princípios editoriais” recentemente anunciados pelos herdeiros do Dr. Marinho não passam de uma farsa, mentiu desabridamente ao dizer que à época Kadafi “já era um pária internacional” . Não era, senhora jornalista. Na verdade tinha deixado de ser, pois então o dirigente líbio privava de amizade com líderes ocidentais como Berlusconi e Sarkozy, este último inclusive um mal-agradecido pois o “ditador” líbio financiou sua campanha eleitoral, como é notório, e o italiano fez com o país norte-africano bilionários negócios.

Durante os pouco mais de cinco minutos que durou a entrevista na CBN, a nova comentarista de política externa das organizações Globo bateu na tecla de que “a cúpula do Itamaraty” foi incapaz de interpretar os fatos e de entender “para onde os ventos sopram”.

E para evidenciar o contraste da orientação da Casa de Rio Branco com a que já adotou em outras épocas, a jornalista recorreu em apoio ao seu argumento à muleta de uma citação de fato histórico. Ela contou aos atentos ouvintes da emissora que na independência de Angola, “em 1974”, o governo militar brasileiro foi o primeiro a reconhecer o “governo comunista” do MPLA.

Fosse afirmação feita numa prova de admissão do concurso de formação de diplomatas do Instituto Rio Branco, ela teria sido reprovada. A independência de Angola se deu em novembro de 1975. E o governo do MPLA, embora alinhado com a União Soviética e com muitos comunistas desempenhando nele papel de destaque, não era propriamente um “governo comunista”, mas patriótico, de libertação nacional.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

A mídia e a escandalização dos jatinhos

Por Luis Nassif, em seu blog:

Como se opera o jogo político na mídia?

Identifique no adversário alguma prática que possa ser caracterizada como irregular. Se a mesma prática for exercitada por aliados, seja seletivo: aliados não podem ser criticados. Se a prática se configurar como uma infração menor, escandalize.


Há inúmeros exemplos desse jogo na política, o campeão dos quais foi o "escândalo da tapioca" - a extraordinária denúncia de que o Ministro dos Esportes pagara uma tapioca com cartão corporativo.

No governo Itamar, o ministro Eliseu Rezende foi demitido depois de um "escândalo" decorrente do fato de ter viajado a Washington em avião de carreira, mas tendo como vizinho de banco o lobista de uma empreiteira.

Pouco antes, Rezende tinha sido o autor de um dos maiores feitos fiscais da década, fundamental para o futuro Plano Real: o encontro de contas do setor elétrico. De pouco adiantou.

No mesmo período o então Consultor Geral da República, José de Castro, desarquivou um pedido de indenização do estaleiro Ishikawagina – que havia sido arquivado no governo Figueiredo – e quase obrigaria o Tesouro a pagar mais de R$ 300 milhões de indenização.

Informado por um procurador da Fazenda, denunciei a manobra. Castro foi convocado para uma sessão em uma das comissões da Câmara. Blindou-se usando principalmente o senador Gilberto Miranda – com ampla influência no meio jornalístico. Não deu em nada. Todas as matérias lhe foram favoráveis. Saiu da consultoria para assumir a Telerj.

Agora tenta-se usar caronas em jatinhos particulares para produzir demissões de ministros.

Trata-se de uma prática disseminada nas administrações públicas:. Exemplos:

1. José Serra fez sua campanha eleitoral no jatinho de Ronaldo César Coelho. Como governador de São Paulo, fez pior. O antecessor Geraldo Alckmin havia privatiado a CTEEP (a companhia de transmissão elétrica) e, junto com ela, o jatinho da empresa. Serra refez o contrato de privatização e ofereceu benesses aos compradores em troca da volta do jatinho ao Estado.

2. A Bertin cansou de oferecer jatinhos para secretários do governo paulista.

3. O acidente da Bahia revelou as viagens do governador Sérgio Cabral Filho.

Se fosse relacionar outros casos de governantes em situações análogas, ocuparia uma página de blog.

Nenhum desses casos deve servir de álibi para cassações. No máximo, para recomendação para que autoridades evitem esse tipo de comprometimento.

Os jornalistas espiões

Na direção oposta, alguns jornalistas foram apontados como "espiões" dos Estados Unidos por aparecerem nos relatos diplomáticos da embaixada, como interlocutores de diplomatas.

Trata-se de uma prática corriqueira, das embaixadas conversarem com diversos atores – políticos, ministros, empresários e jornalistas.

Em 1994 tive uma longa conversa com o embaixador norte-americano em que o tema principal foi a falta de vontade política, o acomodamento do futuro presidente FHC – opinião compartilhada por mim, pelo embaixador e pelo Departamento de Estado.

Ontem, conversava com um colega jornalista, de atuação de esquerda, que almoça periodicamente com o embaixador de um país europeu. Certamente suas conversas resultam em informes do embaixador para seu país. E não tem nada de espionagem.

A escravidão na Zara e a defesa da CLT

Editorial Vermelho

O noticiário está recheado de denúncias contra o uso de trabalho escravo em confecções do estado de São Paulo que produzem roupas voltadas a consumidores de classe média, como as da espanhola Zara. Ao mesmo tempo, avolumam-se os sinais de ataques aos direitos trabalhistas no Congresso, particularmente na Comissão do Trabalho da Câmara dos Deputados, cujo presidente é deputado Sílvio Costa (PTB-PE), criticado por sua atuação nociva aos interesses dos trabalhadores e favorável aos patrões.

Na semana passada, a fiscalização do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) flagrou, em oficinas de costura das cidades de São Paulo e Americana, no interior do estado, a exploração de trabalhadores em situação de escravidão: eram obrigados a morar na própria oficina; tinham jornadas de trabalho superiores a 12 horas diárias, chegando até a 16 horas; recebiam salários de 458 reais, abaixo do mínimo legal; não podiam sair da casa onde moravam em condições sub-humanas, e por aí vai.

Além da Zara, estão sendo investigadas outras 35 grifes, nacionais e estrangeiras. A lista de crimes e iniquidades parece infindável. Nos últimos anos, as denúncias se multiplicam, envolvendo marcas famosas como a C&A, Nike, Marisa, Collins, Ecko, Gregory, Billabong, Brooksfield, Cobra d'Água, Tyrol e Pernambucanas em ilegalidades semelhantes para alavancar seus lucros superexplorando migrantes principalmente sul-americanos, sobretudo bolivianos e peruanos.

A frequente repetição destes casos escabrosos indica que denúncias, processos, adesão pelas empresas a códigos de conduta, cobrança de multas milionárias, não coíbem a ganância e a superexploração. É nesse quadro extremo que urge a defesa e reforço da proteção da legislação trabalhista e o endurecimento da punição a seu descumprimento.

Não é este contudo o sentido da ação da maioria dos deputados federais ligados aos patrões; são 273 na Câmara dos Deputados, contra apenas 91 sindicalistas. Esta maioria de deputados patronais alimenta a ameaça contra os direitos dos trabalhadores e coloca na linha de tiro conquistas registradas na CLT, como a estabilidade dos dirigentes sindicais, a contribuição sindical (ameaçada inclusive por algumas decisões do Ministério Público do Trabalho), a aprovação do relatório da terceirização de autoria do deputado empresário Sandro Mabel (PR-GO) e que favorece as empresas, a rejeição da regulamentação da Convenção 158 da OIT, e a ameaça de aumento do tempo mínimo de contribuição para as aposentadorias (que iria a 35 anos para as mulheres e 42 anos para os homens).

A maioria esmagadora de empresários deputados, que inclusive ocupam posições estratégicas na Comissão de Trabalho da Câmara, é também o principal obstáculo à redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais sem diminuição dos salários.

Esta é a espada que paira sobre os direitos sindicais e trabalhistas e é contra esta ameaça que o Fórum Sindical dos Trabalhadores (FST) vai percorrer o Brasil em defesa da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) que, em 1º de maio de 2013, completará 70 anos. Ela é a verdadeira Constituição dos trabalhadores, diz o coordenador da FST, Lourenço Ferreira do Prado, e os trabalhadores vão ocupar as ruas em sua defesa, das conquistas nela consignadas e pela obtenção de novos avanços na legislação trabalhista.

O exemplo da terceirização, defendida pelos parlamentares empresários, indica a urgência da luta dos trabalhadores: é a mera existência desta maneira de subcontratação que permite a existência de aberrações como os casos envolvendo a Zara e demais grifes da moda.

A união, mobilização e luta dos trabalhadores se impõe para manter e ampliar a legislação trabalhista. Esta é uma agenda que precisa ocupar as ruas de todo o país; a pressão sobre os parlamentares é decisiva e ela só será sentida pelos legisladores quando milhares elevarem suas vozes em defesa da lei atual e da conquista de novos direitos.

"O povo de quem fui escravo não será mais escravo de ninguém"

Por Emir Sader

A polarização na crise que desembocou no suicídio do Getulio foi a que comandou a história brasileira desde 1930 e, de certa forma, continua a polarizá-la ate hoje. Getulio foi o estadista que colocou as bases da construção de um Brasil nacional, popular, democrático, quebrando a espinha dorsal das oligarquias agrário-exportadoras, que mandavam no pais ha séculos. E isto nao lhe perdoaram nem essa direita radicada aqui, nem os EUA.

A crise de 1954 se deu em torno de denúncias de corrupção atribuídas ao governo, mas nao era preciso olhar muito a fundo a situação para saber que o elemento estratégico fundamental do segundo governo do Getulio foi a insistência na existência de petróleo no Brasil – contra a posição de Rockfeller e dos EUA – e a fundação da Petrobras, no bojo da campanha “O petróleo e’ nosso”, levada a cabo pelas forcas populares, especialmente sindicatos e movimento estudantil.

Com tantos ditadores corruptos vinculados aos EUA, se concentraram na luta contra o Brasil e a Argentina, pelas lideranças nacionalistas desses países e pelo potencial econômico e politico dos dois países.

A direita – o tucanato da época – se concentrava no tema da corrupção agregando setores de classe media do centro e sul do país, tentando se contrapor ao enorme apoio popular que as políticas econômicas nacionalistas e sociais populares do governo. Por isso a direita perdia todas as eleições. Apelava então para os quarteis, buscando, desde 1945, quando fundaram a Escola Superior de Guerra – Golbery e Castello Branco entre eles – e foram os representantes aqui da Doutrina de Seguranca Nacional, promovendo tentativas de golpe ao longo de toda a década de 1950 até conseguirem em 1964.

Em 1954, Getulio impediu, num dia como hoje, 24 de agosto, que trinfassem entregando sua vida e revertendo uma situação armada para derrubá-lo e instalar governos repressivos e entreguistas, como os da ditadura militar.

A releitura de 1954 ajuda a pensar a historia brasileira desde então. As bandeiras da direita e da esquerda seguem similares. O denuncismo moralista e golpista de um lado, a defesa dos interesses nacionais e sociais, de outro. Setores conservadores de um lado, setores populares de outro.

Vale a pena a releitura da Carta Testamento do Getulio. Ela dá sentido à continuidade da história do movimento popular brasileiro desde 1930 até hoje, 80 anos depois, e projetado no futuro do Brasil no novo século. A grandeza que Lula conseguiu ter como presidente veio, em boa medida, dessa compreensão.

EUA armam os "rebeldes" na Líbia

Por Manlio Dinucci, no sítio português da Rede Voltaire:

Em 60 dias de "Proteção unificada", os aviões da NATO efetuaram, segundo dados oficiais, mais de 9.000 missões na Líbia, entre as quais 3.500 ataques com bombas e mísseis. A maior parte é levada a cabo pelas forças aéreas dos EUA, Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá. Aviões italianos (Tornado, Eurofighter 2000, F-16 e outros) efetuaram, segundo uma estimativa, cerca de 900 missões. Com eles participam igualmente Suécia, Espanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Dinamarca, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Qatar e Turquia.


No total, mais de 300 aviões estão envolvidos, isto porque esta guerra permite igualmente testar em condições reais novas armas, como o caça francês Rafale. A aeronáutica italiana está a experimentar o avião Boeing KC767-A, que acabou de receber e que efetua operações de aprovisionamento em pleno voo de caças-bombardeiros e também transportes aéreos estratégicos.

No seu batismo no aeroporto de Pratica di Mare, este foi apresentado como "o pilar para uma única e excepcional capacidade de projeção da componente aérea não só a nível nacional mas também de toda a NATO". Assim, um novo sistema de armas é testado na guerra da Líbia para potencializar a capacidade d NATO na projecção de forças aéreas e terrestres noutras guerras.

A operação "proteção unificada" revela, no entanto, algumas deficiências. Com o incessante bombardeio, as bombas esgotam-se. No entanto não há problema, sendo que o Pentágono continua a fornecer. O coronel Dave Lapan, porta-voz do departamento de Defesa afirma que "desde que a ANTO tem liderado a campanha aérea, temos fornecido um apoio material, munições inclusive, aos aliados e aos parceiros participantes nas operações na Líbia".

Lapan precisa que este fornecimento, cujo valor ascende agora a 24,3 milhões de dólares, inclui "bombas inteligentes teleguiadas de extrema precisão". Na Itália, estas bombas estão estocadas em enormes quantidades em Camp Darby, a base logística (estadunidense) que aprovisiona as forças aéreas dos EUA na zona mediterrânea e africana.

De Camp Darby as bombas e outros materiais de guerra podem depois ser enviados às zonas de ação através do aeroporto de Pisa. A nossa situação, declara um dos comandantes dessa base EUA, oferece-nos "capacidades logísticas únicas porque o nosso depósito está a 30 minutos do aeroporto (italiano)".

Este aeroporto de onde surgirá o Hub aéreo nacional (italiano, NdT), a interligação aeroportuária de todas as missões militares no estrangeiro, será "colocado á disposição da NATO". Desde que a guerra na Líbia começou, C-130’s e outros aviões, com certeza carregados de bombas e mísseis fornecidos por Camp Darby, têm sobrevoado Pisa a baixas altitudes. Á cerca de um ano e meio atrás, um C-130 despenhou-se depois de descolagem, sem provocar nenhuma tragédia, por suposta sorte.

As autoridades estabeleceram então uma "zona de segurança" quando, durante obras a decorrer no aeroporto fora encontrado uma bomba não explodida datando da Segunda Guerra mundial. Depois de ter desarmado o engenho, tudo voltou à normalidade : aviões militares retomaram os voos por cima da cidade, carregados de bombas made in USA que aliados irão largar sobre a Líbia.

Deputado quer debater censura da Folha

Por Paulo Pimenta, em seu sítio:

O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) propôs na Comissão de Legislação Participativa da Câmara dos Deputados (da qual faz parte) a realização de uma audiência pública para debater o que ele chamou de “silêncio da mídia no caso de censura imposta pelo Jornal Folha de São Paulo ao site Falha de S. Paulo”. Pimenta apresentou o requerimento aos demais deputados da comissão e aguarda agora sua avaliação para que, em caso de aprovação, se marque uma data e seja feito os convite para os debatedores.

Do lado da Falha o deputado propõe convidar os dois irmãos criadores do site, Lino e Mario Ito Bocchini. Do lado da Folha, ele quer chamar para debater a censura em Brasília Otávio Frias Filho (dono da Folha ao lado de seu irmão Luís), Sérgio Dávila (diretor de redação do jornal), Taís Gasparian (advogada que criou e assina a peça de censura) e Vinicius Mota (Secretário de Redação da Folha.

Confira abaixo a íntegra do requerimento:
Requeiro, nos termos do Art. 24, Inciso III, combinado com o Art. 255, do Regimento Interno da Câmara dos Deputados, sejam convidados: Lino Boccchini; Mario Ito Bocchini, Otávio Frias Filho, proprietário do Jornal Folha de São Paulo; Sérgio Dávila, diretor de redação do Jornal Folha de São Paulo; Taís Gasparian, advogada do Jornal Folha de São Paulo; Vinicius Mota, secretário de redação da Folha de São Paulo.

JUSTIFICATIVA

Em setembro de 2010, os irmãos Mário e Lino Ito Bocchini criaram o blog Falha de S.Paulo, uma paródia ao maior jornal do Brasil, a Folha de São Paulo. O site fazia críticas ácidas ao noticiário da Folha. Após um mês no ar, o jornal entrou na Justiça para censurar o blog, e conseguiu. Além de cassar o endereço na web, a Folha abriu um processo contra os criadores do site, pedindo indenização em dinheiro por danos morais.

O jornal alega “uso indevido de marca”, por causa da semelhança entre os nomes Folha e Falha e porque o logotipo do site era inspirado no do jornal. A censura de um blog, ainda mais seguida de um pedido de indenização, é uma ação judicial inédita no Brasil. Por conta disso, os irmãos Bocchini estão recebendo muita solidariedade de blogueiros e ativistas em defesa da liberdade de expressão de todo país, figuras públicas como o ex-ministro Gilberto Gil gravaram depoimentos condenando a censura e o processo da Folha.

No exterior, Julian Assange (criador do Wikileaks), e a organização Repórteres sem Fronteiras, entre outras, já condenaram publicamente a censura. Mesmo assim, no Brasil o assunto continua sendo boicotado por jornais, rádios, TVs e revistas. A própria Folha só noticiou o caso após 4 meses, e mesmo assim porque foi duramente cobrada por sua ombudsman, que por sua vez estava sendo duramente cobrada pela blogosfera há meses.

Portanto, propomos a realização deste debate para, em primeiro lugar, sendo o parlamento um ambiente de participação social e democrático, oportunizarmos que sejam colocados nessa discussão a versão dessas pessoas que não tem acesso à grande mídia, por imposição editoriais, pessoais e econômicas. Além disso, nossa intenção é avançar em direção à discussão de uma prática que vem se constituindo em meio recorrente de alguns grupos de comunicação no Brasil, que é a utilização de mecanismos, que outrora condenavam, de modelos de censura, hoje, praticados justamente pelas mãos de quem diz viver da liberdade de expressão.

Sala da Comissão, em... de agosto de 2011.

Deputado Paulo Pimenta – PT/RS”.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Wagner: partidos têm legitimidade para lançar candidaturas

A mais de um ano das eleições municipais, a disputa pela prefeitura de Salvador continua como centros das discussões políticas na Bahia. O debate sobre tema foi retomado nesta segunda-feira (22/8) com a entrevista do governador Jaques Wagner, publicada no site Bahianotícias, em que ele reafirma o desejo de unir a base aliada em torno de um único nome, mas reconhece a legitimidade das candidaturas apresentadas até o momento, como a do PCdoB, já que eleição tem dois turnos.


“Defendo que em abril do ano que vem a gente construa a maior unidade possível dentro da base. Não só na capital como nas 417 cidades da Bahia. Quanto mais estivermos juntos agora, mais vamos trabalhar para estar juntos em 2014, onde se tem um embate de Governo do Estado e da Presidência. Agora eu não vou amarrar pé e mãos das forças políticas que estão na base. Os partidos têm legitimidade de apresentar. Como pesa a palavra do governador, eu não vou antecipar minha palavra porque é a hora das energias partidárias serem colocadas nas ruas e cada um poder ter o direito de se colocar”, declarou Jaques Wagner aos jornalistas Uziel Bueno e Evilásio Júnior.

O governador afirmou ainda que não tem a intenção de impor uma candidatura. “Não vou impor uma candidatura única, a não ser que a conjuntura de 2012 faça-se necessária. Eu não sei como a oposição vem de lá para cá. O lado de lá ainda não tem se vai ser uma candidatura só, se são duas, se três. A depender de com que tática vierem de lá, a gente também tem que montar a nossa de cá. Agora é claro que não vou querer entrar em uma eleição com 6 candidaturas. Entramos com três na última vez, mas como o governador atualmente não é o mandão, eu vou colocar minhas idéias. Como aqui tem dois turnos, todo mundo quer colocar-se para se juntar no segundo. O jogo da política é de muita paciência. A gente daqui até março tem como ir apurando isso e restringindo o número de candidatos, se possível concentrando em um só”, concluiu.

Candidatura do PCdoB

Primeiro partido da base aliada a apresentar pré-candidatura a prefeito de Salvador, o PCdoB mantém a disposição de levar o nome da deputada federal Alice Portugal para disputa das eleições de 2012, levando em conta exatamente o critério de dois turnos do pleito. “A nossa democracia está amadurecendo e, portanto é importante que as forças políticas se apresentem à sociedade. Salvador é uma cidade que precisa constituir-se com uma gestão que esteja à altura de sua dimensão histórica, econômica e social. Por isso, é muito democrático dar o direito ao povo da cidade de escolher entre as diversas forças políticas”, declarou Alice para o Portal Vermelho.

A parlamentar ressaltou ainda que respeita o desejo do governador de unificar toda a sua base aliada. “Eu respeito o desejo do governador de nos ter todos juntos desde o primeiro turno, mas acho que nós vamos ter que caminhar neste período e observar a vontade da cidade. Nós temos que construir uma análise do que seria melhor para a cidade, por isso nós do PCdoB nos julgamos legitimamente com direito de lançarmos um nome que vá para as ruas e a cidade diga quem ela prefere”, disse.

Alice lembrou ainda que a pré-candidatura do PCdoB não alterou em nada a relação do partido com o governo. “Depois do lançamento da nossa pré-candidatura nós já tivemos diversos contatos com o governador, todos da maior qualidade, com o mais alto nível de receptividade. O lançamento da nossa pré-candidatura não abalou em nada nossa relação com o governador, nem com o governo”, garantiu.

De Salvador,
Eliane Costa

Charge: Real interesse da OTAN na Líbia

Precisamos de profetas

Marcelo Barros
Monge beneditino e escritor
Adital
 
Quem passa por um edifício em construção, pode ver placas dizendo: "Precisamos de pedreiros”. Lojas de comércio alternam: "Precisamos de vendedores”. Infelizmente não podemos colocar nas portas das Igrejas: "Precisamos de profetas e profetizas”. Entretanto, é bom espalhar por aí que isso é uma necessidade urgente e que se apresentem os/as candidatos/as. Não estranhem o fato de que, diferentemente de outros ofícios, a missão de profeta quase nunca é bem aceita e reconhecida. Muitas vezes, gera até incompreensões e rejeições injustas. No tempo em que viveu no sertão do Nordeste, o padre Alfredo Kunz dizia: "Aqui, os urubus é que fazem o serviço de limpeza pública, já que as prefeituras não assumem. Todo mundo sabe disso. Entretanto, eu já vi gente criando todo tipo de pássaros, mas nunca vi ninguém criar urubu. Os urubus são necessários, mas ninguém os quer perto. Urubus me lembram os profetas de Deus, necessários, mas frequentemente rejeitados”.

Não é difícil celebrar a memória de profetas mortos. O evangelho denuncia que os fariseus e mestres da lei matam os profetas e depois erguem para eles belos túmulos, contanto que continuem mortos (Mt 23). Atualmente, em certos ambientes eclesiásticos, quando alguém fala em profetas como Mons. Oscar Romero, arcebispo de El Salvador, assassinado por militares da ditadura salvadorenha e, aqui no Brasil, Dom Hélder Câmara, ex-arcebispo de Olinda e Recife, há quem os elogie, mas conclua com certo cinismo: "o tempo deles era outro. Hoje não pode mais ser assim”. E assim, estes religiosos dos tempos novos se recolhem em seu mundinho de paramentos, ritos paroquiais e segredos de cúria.

Para quem a espiritualidade significa caminho de amor e solidariedade universal, o mês de agosto recorda a memória de vários mártires da justiça do reino divino. No dia 10 de agosto de 1974, frei Tito Alencar, terrivelmente torturado em seu corpo e sua alma, procurava a paz na morte. No 12 de agosto de 1983, na Paraíba, era assassinada Margarida Alves, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande. Além de vários homens e mulheres que deram a vida pela causa do reino, em agosto, partiram deste mundo três bispos católicos que marcaram muito a caminhada da Igreja no Brasil como profetas da paz e da justiça: Dom Antônio Fragoso, bispo emérito de Crateús, no Ceará e um dos primeiros bispos ligados à Teologia da Libertação; Dom Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana, MG, e ex-presidente da CNBB que, em 2006, partiu no dia 27 de agosto, mesma data em que, sete anos antes, no Recife, nos tinha deixado Dom Hélder Câmara.

A missão de uma pessoa religiosa é ser testemunha da presença divina no mundo e atuar para que a sociedade se transforme de acordo com o projeto divino de paz e justiça para todos. Por isso, é bom recordarmos a profecia de pastores como Hélder Câmara, Antônio Fragoso e Luciano Mendes de Almeida. Todos os três, cada qual em sua área de atuação e do seu modo, conduziram a Igreja do Brasil pelo caminho da profecia.

Na memória destes três profetas da Igreja, nos damos conta da herança profética que recebemos e, junto com cristãos, pessoas de outras confissões e todos os homens e mulheres que acreditam no amor e na justiça, renovamos nosso compromisso de serviço aos irmãos e luta pacífica para transformarmos este mundo.

Em 1994, Dom Helder mandava esta mensagem ao movimento italiano Mani Tesi (Mãos Estendidas): "Não estamos sós. Por isso, não aceito nunca a resignação nem o desespero. Um dia, a fome será vencida e haverá paz para todos. A última palavra neste mundo não pode ser a morte, mas a vida! Nunca pode ser o ódio, mas o amor! Precisamos fazer com que não haja mais desespero e sim esperança. Nunca mais vençam as mãos enrijecidas contra o outro e sim o que o movimento de vocês valoriza: Mãos estendidas! Unidas na solidariedade e no amor para com todos”.

[Autor de 40 livros, dos quais o mais recente é "Para onde vai Nuestra América” (Espiritualidade socialista para o século XXI). São Paulo, Ed. Nhanduti, 2011. Email: irmarcelobarros@uol.com.br].

Fatos em foco

Em Brasília, ato unificado dos servidores federais em defesa de reajustes de salários e contra projetos de lei que retiram direitos e conquistas das diversas categorias profissionais

Hamilton Octavio de Souza - Brasil de Fato

Perspectivas
Oito entre dez economistas sérios acreditam agora que os Estados Unidos devem entrar em recessão no prazo de um ano. Uma boa pista disso saiu no estudo da agência Bloomberg, na última semana, segundo o qual os 50 maiores bancos do mundo – inclusive os estadunidenses – planejam demitir 110 mil trabalhadores até o final deste ano. Aqui no Brasil o discurso dominante é de que o país será pouco afetado pela crise do capitalismo.

Lucro máximo
Com ou sem crise, os bancos privados que operam no Brasil continuam a obter lucros muito acima de quaisquer outras atividades econômicas. O atual modelo favorece acintosamente o capital financeiro. No primeiro semestre deste ano, até o Banco do Brasil, que é estatal e deveria servir de referência para uma sociedade mais equilibrada, teve aumento de lucro de 23% em relação ao mesmo período do ano passado. Novo recorde!

Assalto legal
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) tem denunciado, há anos, os abusivos preços da energia elétrica no Brasil, que está entre os mais caros do mundo. Agora a poderosa Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) resolveu botar a boca no trombone e lançar a campanha “Energia a preço justo”. Quem sabe o governo e a Aneel decidem defender a sociedade contra o assalto praticado pelas concessionárias de energia!

Incomodados
Os poderosos, no Brasil, duradouros ou eventuais, reproduzem sempre a mesma postura diante da ação policial: quando as polícias militares torturam e matam os pobres, aos montes pelo país afora, não esboçam a menor reação; mas quando a polícia federal algema algum meliante dos quadros da estrutura dominante, reclamam do abuso e ameaçam com a apuração da responsabilidade. O tratamento discriminador é muito acintoso!

Luta federal
Acontece dia 24 de agosto, em Brasília, o ato unificado dos servidores federais em defesa de reajustes de salários e contra projetos de lei – em tramitação no Congresso Nacional – que retiram direitos e conquistas das diversas categorias profissionais. A pauta de reivindicações de sindicatos e federações foi entregue ao Ministério do Planejamento em abril, mas até agora o governo não deu nenhuma resposta. O ato vai agitar a Esplanada dos Ministérios!

Desmatamento
De acordo com o Centro de Monitoramento de Agrocombustíveis da ONG Repórter Brasil, “diretor de Proteção Ambiental do Ibama Luciano Evaristo esclareceu que doze das treze frentes de desmatamento fiscalizadas pelo órgão no Mato Grosso, no primeiro semestre de 2011, seriam destinadas à produção de grãos, e apenas uma à pecuária”. Ou seja, os reis da soja continuam desmatando a todo vapor!

Impunidade
No dia 12 de agosto completaram-se 28 anos do brutal assassinato de Margarida Maria Alves, presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande, na Paraíba, praticado por um pistoleiro a mando dos usineiros da região. Dos cinco acusados pelo crime, dois foram julgados e absolvidos, um já faleceu, e dois continuam foragidos até hoje. Ninguém foi punido. Afinal, o que mudou no Brasil?

Exemplo chileno
Iniciadas e lideradas pelos estudantes, as manifestações de protesto no Chile questionam principalmente o processo de privatização da educação, que seguiu a cartilha neoliberal e é muito parecido com o que aconteceu no Brasil. Lá, os estudantes do ensino médio ocuparam 700 colégios no país, sendo 200 em Santiago. A reivindicação número um: investimento na Educação, ensino público e gratuito para todos. As marchas continuam!

Repressão inglesa
O escritor Tari Ali, em artigo veiculado pelo site esquerda.net, afirma que o governo inglês quer que os juízes punam severamente os jovens que participaram dos protestos em Londres e outras cidades britânicas, recentemente. Mas, diz ele, “nunca questionaram seriamente o fato de não haver acusações às mais de mil mortes de cidadãos sob a custódia policial, desde 1990”. Os pobres da Inglaterra também perderam a paciência!

Mídia prega ruptura entre Dilma e Lula

Por Luiz Carlos Azenha, no blog Viomundo:

Às vezes é preciso relembrar mesmo o passado recente para avaliar a conjuntura política brasileira.

Vocês ainda se lembram de Dilma Rousseff, a guerrilheira?

Vocês ainda se lembram de Dilma Rousseff, o poste de Lula?


Vocês ainda se lembram de Dilma Rousseff, a mentirosa que encontrou Lina Vieira?

É só consultar as edições dos jornais de 2010 para ler os copiosos textos e análises definitivas sobre a incapacidade política de Lula e de sua “criatura”.

Bem, Dilma Rousseff venceu a eleição.

Sem corar de vergonha, os analistas que produziram os textos supra-citados passaram a pregar o rompimento entre Lula e Dilma.

As teorias são crescentemente sofisticadas.

Uma delas sugere que, ao combater a corrupção, Dilma estaria carimbando negativamente o governo anterior.

É uma teoria estúpida, já que Dilma foi um quadro importante do governo anterior.

Mas os jornais não só insistem na teoria, como “repercutem” as próprias besteiras que escrevem.

É a ficção 2.0, turbinada. Mentira sobre mentira, com a esperança de que a repetição tenha algum impacto na realidade.

A realidade é que, gostem ou não, Lula continua o principal personagem da política brasileira. Não só elegeu a sucessora, como pode voltar ao poder pelo voto, em 2018 (o único risco para Dilma em 2014 é a crise econômica atropelar o Brasil).

Peço a quem tiver tempo que consulte os arquivos e aponte, nos comentários, os copiosos exemplos de textos que falavam sobre o fracasso de Lula e de Dilma, a — na linguagem deles — “criatura” que até recentemente diziam ser um zero à esquerda.

“Estadão” crava a espada em Dilma

Por Rodrigo Vianna, no blog Escrevinhador:

A foto está na página A-7, na edição impressa do Estadão. Dilma surge levemente arqueada, e a espada de um cadete parece trespassar o corpo da presidenta. Abaixo da foto, o título “Honras Militares” – e um texto anódino, sobre a participação de Dilma numa cerimônia militar.


Faço a descrição minuciosa da foto porque a princípio só contava com uma reprodução de má qualidade (tive que fotografar a página do jornal com uma máquina amadora). Mas um amigo acaba de me mandar a imagem por email – e essa está um pouco mais nítida. Estranhamente, não encontro a foto no site do Estadão. Talvez apareça naquela versão digital para assinantes…

O editor deve ter achado genial mostrar a presidenta como se estivese sendo golpeada pelas costas. É a chamada metáfora de imagem. Mas, expliquem-me: qual a metáfora nesse caso? O que a foto tinha a ver com a solenidade de que fala o jornal? Há, no meio militar, quem queira golpear Dilma pelas costas? O jornal sabe e não vai dizer?

Ou, quem sabe, a turma do “Estadão” tenha achado graça em “brincar” com a imagem. No mínimo, um tremendo mau gosto com uma mulher que já passou por tortura na mão de militares, e hoje é a presidenta de todos os brasileiros.

Sintomático que a foto não apareça ao lado da mesma notícia na edição digital. Alguém deve ter pensado melhor e concluído: não vai pegar bem.

Por isso tudo, sou levado a pensar que Freud talvez explique a escolha da foto: a mão militar, na imagem, cumpre a função de eliminar a presidenta. E, com isso, talvez agrade a certa parcela dos leitores do jornal. Passeando pelo site do Estadão, é comum ver a presidenta chamada de “terrorista”. Exemplo, aqui:

*****
Walter BenedetteComentado em: Dilma participa de solenidade em escola de oficiais

20 de Agosto de 2011 | 20h52

A Dilminha tá fazendo certinho, adulando um pouco os milicos, ai eles se derretem todos e se dobram ficando de quatro para a ex-terrorista.


*****

Volto eu. Para essa gente, terroristas não foram os que mataram, torturaram e impediram o país de viver em regime democrático. Não. Para eles, “terroristas” são os que lutaram contra a ditadura.

A foto da página A-7 cumpre o papel de agradar essa gente.

Fidel em seus 85

Fidel, lúcido como sempre e mais sábio do que nunca. O passar dos anos, acompanhado por uma notável capacidade para refletir sobre as vicissitudes de sua vida e do mundo, o enriqueceram extraordinariamente.

Por Atílio Borón*, em seu blog


Seu olhar, que sempre teve o privilégio de internar-se no horizonte histórico-universal, tornou-se mais agudo: Fidel vê onde os demais não veem; e o que vê são as essências e não as aparências. Tinha razão García Márquez, quando disse que ele é "incapaz de conceber qualquer ideia que não seja descomunal”.

Retirado de todos os seus cargos à frente da revolução cubana, continua sendo, sem a menor dúvida, "o Comandante”. Não somente do glorioso "Movimento 26 de Julho” ou das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas, mas de um exército mundial de mulheres e homens que lutam por sua vida, por sua dignidade e pela sobrevivência do gênero humano, hoje ameaçada por um arsenal nuclear de incalculáveis proporções, uma pequeníssima parte do qual sobraria para arrasar toda forma de vida no planeta Terra. Sobrevivência também comprometida pela fúria predatória de um sistema – o capitalista –, que converte tudo o que toca em mercadoria, em um simples objeto, cuja excludente finalidade é produzir lucro.

A favor dessa visão de águia que, em seu momento, Lênin reconhecera em Rosa Luxemburgo, pode denunciar, quase solitário, a crise ecológica que hoje nos abruma, bem como os perigos da demente corrida armamentista desencadeada pelo imperialismo estadunidense.

Alguns, certamente, recordarão sua intervenção na I Cúpula da Terra, no Rio de Janeiro, em 1992, quando o Comandante alertou sobre o risco ecológico no qual o planeta se encontrava. Enquanto o presidente dos Estados Unidos, George Bush, negava-se a assinar os protocolos do Rio, Fidel denunciava que "uma importante espécie biológica está em risco de desaparecer devido à rápida e progressiva liquidação de suas condições naturais de vida: o ser humano”.

E prosseguia sua análise, dizendo que o consumismo desenfreado e o desperdício irracional que a economia capitalista propicia são os responsáveis fundamentais por essa situação: "com somente 20% da população mundial... (os capitalismos metropolitanos) consomem as duas terças partes da energia produzida no mundo. Envenenaram o ar; debilitaram e perfuraram a camada de ozônio; saturaram a atmosfera de gases que alteram as condições climáticas com efeitos catastróficos que já começamos a padecer. Os bosques desaparecem; os desertos se estendem; milhões de toneladas de terra fértil vão parar, anualmente, no mar. Inúmeras espécies se extinguem. A pressão populacional e a pobreza conduzem a esforços desesperados para sobreviver, mesmo à custa da natureza. Não é possível culpar os países do Terceiro Mundo por essa situação; colônias ontem, nações exploradas e saqueadas hoje por uma ordem econômica mundial injusta”.

Com certeza, suas palavras não foram escutadas pela quase totalidade dos chefes de Estado lá convocados – quem, agora, recorda agora seus nomes? – e que continuaram bailando desprevenidos no deck do Titanic.

Sábio como poucos, Fidel se perguntava nesse mesmo discurso: "Quando as supostas ameaças do Comunismo desapareceram e já não restam pretextos para guerras frias, corridas armamentistas e gastos militares, o que impede dedicar, imediatamente, esses recursos para promover o desenvolvimento do Terceiro Mundo e combater a ameaça de destruição ecológica do planeta?”. Ele sabia perfeitamente bem a resposta, tal como a expusera em milhares de ocasiões: o impedimento radica na própria essência do capitalismo como sistema e no imperialismo como sua forma atual.

Lúcido e valoroso combatente desse flagelo, na prática, porém também no plano das ideias, Fidel denunciou seus horrores desde antes do assalto ao Moncada e em seu extraordinário alegado em defesa própria.

Testemunha e, ao mesmo tempo, excepcional protagonista da lenta, porém inexorável decadência do imperialismo estadunidense, suas iniciativas práticas bem como suas didáticas reflexões oferecem aos povos um riquíssimo arsenal de ideias e informações, recolhidas com a minuciosidade própria de um Darwin, sabedor de que para mudar a complexa realidade de nosso tempo, de nada valem esquemas preconcebidos ou rotundas simplificações.

Retirado de seus cargos oficiais, o infatigável soldado continua lutando sem quartel na crucial "batalha de ideias”, uma frente que, lamentavelmente, a esquerda descuidou durante muito tempo; porém, agora, conta com inúmeros combatentes. E desde lá, ilumina o esperançado caminho que conduz rumo à emancipação humana e social. Como diz a canção popular mexicana, Fidel, "feliz em teu dia, e que vivas muitos anos mais”.


* Atilio Borón é doutor em Ciência Política pela Harvard University e professor titular de Filosofia Política da Universidade de B. Aires, Argentina.

Guerra à Líbia revela a agressividade do imperialismo

Editorial Vermelho

Depois de cinco meses de intensos bombardeios sobre a Líbia, eis que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pacto militar agressivo a serviço das estratégias de dominação global do imperialismo norte-americano, conseguiu fazer com que as forças da oposição armada vencessem batalhas militares decisivas e ocupassem a capital, deixando o líder do país, Muamar Kadafi, entrincheirado em seu quartel-general. As notícias dão conta de uma encarniçada resistência, mas tudo indica que o país norte-africano caiu nas mãos do chamado Conselho Nacional da Resistência e dos seus patrões da Otan.

À ofensiva militar correspondeu uma propaganda midiática pró-imperialista. Tal como em episódios anteriores em que as grandes potências, principalmente os Estados Unidos, empreenderam guerras contra países soberanos, a mídia preparou o terreno, diabolizando a direção do país, encobrindo cinicamente os verdadeiros objetivos do ataque, que passam anos luz à distância da propalada defesa dos direitos humanos, mas têm tudo a ver com interesses econômicos e geopolíticos das grandes potências imperialistas, especialmente o controle das riquezas naturais, no caso em tela o petróleo. Chama a atenção em particular a posição da mídia brasileira, para a qual o “Brasil ficou do lado errado” e faz pressão para que o nosso país se envolva na aventura belicista imperial.

Não temos dúvidas quanto ao caráter do governo líbio e de sua superação histórica. Muamar Kadafi foi a seu tempo um líder nacionalista e anti-imperialista e, nas condições de profundo atraso econômico-social herdadas do colonialismo, fez louváveis esforços para construir uma nação soberana e dar proteção social a seu povo. Em circunstâncias históricas adversas, a liderança de Kadafi tornou-se caricata, ele próprio fez alianças com o inimigo e seu governo já não reunia condições de defender a independência do país e promover o progresso social.

Embora distantes ideológica e politicamente do governo de Kadafi, condenamos energicamente a agressão de que foi vítima. Às forças de esquerda e revolucionárias não é permitido vacilar quando se trata de tomar posição quanto à ofensiva global do imperialismo para dominar o mundo. É preciso condenar tais planos, em nome da defesa dos interesses dos povos, de seus direitos e da soberania nacional.

A guerra contra a Líbia é reveladora da fragilidade das instituições internacionais e da hipocrisia do discurso sobre o “multilateralismo”, tão caro às potências dominantes quanto falso. Sob esse disfarce, essas potências dão seguimento e concretude aos planos do imperialismo de “democratizar” o mundo árabe e o Oriente Médio. Sob Bush, essa “democratização” deu passos com as guerras ao Iraque e ao Afeganistão, a guerra israelense contra o Líbano e o massacre e tentativa de genocídio contra os palestinos. Agora, sob Obama e os atuais governantes europeus, foi a vez da Líbia. Está claro que a ofensiva prosseguirá contra a Síria e o Irã, países contra os quais também se levanta com desfaçatez a bandeira da democracia e dos “direitos humanos”.

O direito internacional e o verdadeiro multilateralismo têm como pressupostos a independência nacional e a autodeterminação das nações e povos, antíopodas do direito de ingerência, de intervenção e da guerra de agressão.

Tudo isto faz parte de uma brutal ofensiva do imperialismo, o que serve de alerta e desafio às forças de esquerda. Toda e qualquer ilusão quanto à evolução e transformação pacífica do quadro internacional desarma os povos. Cada vez mais é preciso despertar sua consciência anti-imperialista e atuar no sentido de combater os tenebrosos planos de dominação das potências lideradas pelos Estados Unidos.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A força política das mulheres brasileiras

Por Genaldo de Melo
 
 
Um dos movimentos políticos mais extraordinários do últimos tempos que tivemos a alegria de ver e participar foi a Marcha das Margaridas – 2011, que aconteceu em Brasília, entre os dias 16 e 17 de agosto último. Sem falsa modéstia, foi extraordinário mesmo, você ver cerca de 70 mil mulheres, além da participação de vários milhares de homens, de todo o Brasil, marchando juntos nas ruas da Capital Federal rumo a Praça dos Três Poderes, para exigir do poder constituído Políticas Publicas que acabem de uma vez por todas as disparidades nas relações de poder entre homens e mulheres no Brasil.

Essas mulheres de todas as cores, de todas as crenças, de todas as vozes, rurais e urbanas, vieram de todas as partes do Brasil. Faltam palavras para definir o acontecimento e sobram naturalmente emoções virulentas em nossa alma, ao ver que a luta de mulheres que morreram na luta pelos direitos das próprias mulheres, agora tem um eco de um grito que parou Brasília para começarem de fato a “viver o sonho sonhado”, como disse Letícia Sabatella, grande atriz participante do evento.

Pela primeira vez na vida eu senti a força espiritual das mulheres brasileiras, do mesmo modo vi a força política das mesmas e a capacidade de assumir uma certeza, que lugar de mulher é também na política. Também pela primeira vez eu vi a autoridade máxima de nossa nação, hoje representada por uma mulher, Dilma Rousseff, participar diretamente da maior mobilização social que aconteceu no Brasil nas ultimas décadas. Dilma foi pessoalmente a “Cidade das Margaridas”, no Parque de Exposições de Brasília, para dizer as mulheres presentes que uma das principais prioridades desses próximos anos será a mulher brasileira.

As mulheres do Nordeste foram naturalmente maioria. Deram uma demonstração de que agora elas querem um basta em todo tipo de discriminação, um basta na violência nua e covarde de homens insensatos, querem trabalhar e gozar dos mesmos direitos, porque o sangue é vermelho em todo mundo.

Segundo o Presidente da FETAG-BA, o jovem Claudio Bastos, a Bahia que é o maior Estado do Nordeste, tem na FETAG-BA o instrumento para fazer com que as mulheres trabalhadoras rurais não mais se calem diante de nenhum tipo de discriminação imprimida pela nossa formação cultural, baseada nos meandros do machismo doentio e anacrônico. Para ele a Entidade que sempre teve como bandeira de luta acabar com as disparidades quando o tema é gênero, agora mais do que nunca devemos todos os homens e mulheres aproveitar que temos uma mulher no poder para exigir o que é de direito, o espaço da mulher no mercado de trabalho e na política.

As fotos não mentem.