segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Lugar de mulher é na política

Por Genaldo de Melo

Nos últimos tempos temos presenciado a participação da mulher na política, bem como observado que em sua grande maioria, existem mais seriedade e competência na condução dos processos que interessam a população, muito mais do que quando existem as mãos dos homens pelo meio. Lógico que não se pode generalizar, pois existem homens públicos ungidos também de seriedade na administração pública e nos parlamentos.
Mas o fato é que chegamos a um momento de nossa história, que é a vez da mulher na política, lembrando que não estamos aqui a defender pontos feministas, mas sim a participação propriamente dita da mulher na política como ser humano que é. Pois a mesma tem espaço e capacidade de representar politicamente as maiorias, as minorias, os segmentos e a diversidade.
Mas também existe ainda um paradigma cultural de formação totalmente patriarcal e anacrônica, inclusive de alguns formadores de opinião, que imbuído da cegueira do machismo, da insensibilidade humana e da incapacidade de olhar a mulher como ser humano, que pensa, sente e vive na sociedade e não fora dela, que acha que mulher não pode e não deve participar da política. Ora, já está comprovado retirando casos raros que ela pode muito mais do que alguns malandros que se locupletam do poder.
Esses são os fracos que ainda não compreenderam a roda da história, que não compreenderam que as mulheres fortes estão assumindo postos políticos, que eles mesmos não tiveram a competência necessária para está exatamente onde está a mulher, na história.
Temos orgulho de ter votado nas últimas eleições em mulheres, que ganharam as eleições e não estão a nos encher de vergonha. Na política hoje tem mulheres fortes e sérias, com mandatos e sem mandatos, como Dilma Rousseff, nossa presidente, como Lídice da Mata nossa senadora, como Alice Portugal nossa grande deputada federal, como Renilda Santos, Rita Miranda, Lúcia Moura e Rozete Evangelista lideranças no meio rural, como Marina Silva liderando um grande movimento em defesa do meio ambiente, como Heloisa Helena que tanto orgulha o povo alagoano, como Margarida Alves assassinada somente porque lutava, e tantas e tantas outras que nos orgulha exatamente por serem mulheres fortes, e ainda pertencerem ao mundo político.
Os únicos homens sérios na política hoje são exatamente aqueles que compreendem o papel da mulher como mãe, como coordenadora do lar, como ser humano atuante e participativa no mundo político. Não adianta ninguém querer dizer o contraditório, o mundo político de hoje tem espaço para a mulher e quem quiser passar um olhar mais analítico na realidade vai ver de fato que ela já está no lugar dela, na política.

Maluf e FHC: movimentações da direita contra as mudanças

Editorial do Vermelho

Duas celebrações de aniversários de lideranças políticas, tirante os aspectos de cordialidade nas relações intersubjetivas, de sociabilidade e folclóricos, são ilustrativas de um comportamento típico da vida política brasileira, que se acentua toda vez que ocorre uma transição: a movimentação das forças de direita e centro-direita para garantir posições-chave no poder político.

Referimo-nos às comemorações dos aniversários natalícios do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em junho último, e neste final de semana, do deputado federal Paulo Maluf.

No aniversário do ex-mandatário, até a presidente Dilma Rousseff exagerou no tom, fazendo-lhe elogios imerecidos. FHC fez todos os esforços para aparecer como grande líder e figura de proa da intelectualidade nacional. Extremamente vaidoso e com desmedidas ambições, ainda pretende liderar a oposição e arregimentar forças em torno do seu fracassado PSDB.

No aniversário de Maluf, comemorado no último sábado (3), os principais líderes da política paulista - o governador Alckmin, o vice-presidente da República, Michel Temer, e o prefeito da capital, Gilberto Kassab, procuraram ressaltar o papel do ex-alcaide e cortejá-lo tendo em vista capturar os votos da direita nas próximas eleições municipais e em eleições futuras. Este, oportunista como sempre, procura capitalizar os elogios e se posicionar “na crista da onda”.

Cada qual com sua trajetória e estilo, FHC e Maluf representam o que há de mais reacionário na vida política nacional. O ex-presidente da República liderou uma coalizão de forças de direita e centro-direita, da qual participou o próprio Maluf. Com tal aliança, realizou um governo conservador e neoliberal, um dos piores de toda a história nacional. Entreguismo, fisiologismo nas relações com o Congresso, corrupção desbragada, personalismo, repressão aos movimentos sociais foram as características do seu governo.

Já o ex-prefeito paulistano é filhote da ditadura, sob cuja sombra de corrupção e violência prosperou em negócios escusos e ascendeu na escala do poder. Lidera uma corrente política de direita, hoje em decadência, mas que ainda atua como força de reserva para aventuras golpistas, se eventualmente a ocasião se apresentar. Maluf é porta-voz de um discurso anticomunista, antipetista, antiprogressista, com tintas de misoginia e patriarcalismo.

As homenagens e paparicos em relação a essas duas figuras nefastas indica a movimentação dos grandes partidos das classes dominantes para consolidar posições conservadoras no quadro político e, desde a oposição como de dentro do governo, exercer freio sobre qualquer ímpeto tansformador. Não deixa de ser, no plano simbólico, uma jogada para pressionar, pela direita, a sucessão presidencial de 2014.

O Brasil precisa urgentemente de reformas democráticas estruturais, o que só será possível com a formação de um coerente e consistente núcleo de esquerda no governo e fora dele e com a mobilização do povo em torno de uma plataforma de lutas. A concertação ou a polarização entre forças e lideranças de direita e centro-direita não terá outro resultado senão a inflexão do curso político no sentido conservador. São movimentações estranhas e contrárias aos esforços para a união entre as forças de esquerda e do movimento popular.

CTB pede fim do veto do aumento para aposentados

Em debate nesta quinta-feira (1º) na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) do Senado, líderes sindicais conclamaram senadores e deputados a derrubarem o veto da Presidência da República ao dispositivo da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) que assegurava recursos para conceder reajustes acima da inflação para aposentadorias e pensões.


O senador Paulo Paim (PT-RS) abriu a audiência pública para debater restrições a reajustes das aposentadorias no Orçamento para 2011 e na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e o fim do fator previdenciário.

Participam do debate Warley Martins Gonçalles, presidente da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap); André Luiz Marques, presidente do Instituto dos Advogados Previdenciários (Iape); e Hélio Gustavo Alves, presidente de honra do Iape.

Também foram convidados dirigentes da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB); da Força Sindical; da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB); da Central Única dos Trabalhadores (CUT); da Nova Central Sindical de Trabalhadores (NSCT); e da União Geral dos Trabalhadores (UGT).

Representando a CTB, Joílson Cardoso, secretário de Política Sindical e Relações Inntitucionais, participou dos debates e confirmou o posicionamento da Central: “A CTB vê com ressalvas a desoneração da Folha de Pagamento, baseada na substituição dos 20% de recolhimento do INSS por 1,5% do faturamento das empresas, além do que quebra o pacto social com os trabalhadores e trabalhadoras”.

“Isso não vamos aceitar porque é grande o risco do esvaziamento do caixa da previdência”, e completou Joílson: "A CTB também apoia a derrubada do veto da presidenta Dilma ao aumento dos aposentados".

Lourenço Ferreira do Prado, coordenador do Fórum Sindical dos Trabalhadores, registrou inconformismo com o veto, o qual, segundo ele, não tem base técnica nem respaldo da sociedade.

Para Warley Martins Gonçalles, presidente da Confederação Brasileira de Aposentados e Pensionistas (Cobap), apenas a união de todos os trabalhadores, ativos e inativos, poderá conquistar a aprovação de uma política de ganhos reais para aposentadorias e pensões.

Warley Gonçalles lembra que a Previdência é a segunda maior arrecadação do país, abaixo apenas do Tesouro Nacional, e nega que o sistema esteja quebrado.

Passamos a vida toda pagando rigorosamente nossa aposentadoria e machuca ouvir que o trabalhador da ativa está sustentando os aposentados. Nós trabalhamos 30, 40 anos para pagar nossa aposentadoria, protestou Warley.

Joílson Cardoso afirmou ao fim dos debates: "A CTB não concorda que nenhuma alteração seja feita em cima de renúncias fiscais sem uma contrapartida para a classe trabalhadora"

Ao criticar decisão do governo em fazer superávit em detrimento dos direitos dos aposentados, os líderes sindicais disseram confiar na derrubada do veto à política sustentável de recomposição de aposentadorias e pensões.

Fonte: Portal CTB, por Celso Jardim

Galeano faz 71 anos. As veias permanecem abertas há pelo menos 40

No dia 18 de abril de 2009, o presidente Hugo Chávez presenteou seu colega americano, Barack Obama, com o livro As Veias Abertas da América Latina, clássico ensaio do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano. O exemplar estaria autografado pelo autor.


O livro fala basicamente sobre o saque dos recursos naturais sofrido pelo continente latino-americano do século XV até o fim do século XX e é citado frequentemente por Chávez. Tendo iniciado o dia 18 na 54.295ª posição entre os livros mais vendidos da megavendedora de livros Amazon, o livro amanheceu o dia 19 em 2º lugar. Atualmente, a avaliação dos leitores da Amazon demonstra uma curiosidade. Dos163 leitores que escreveram resenhas a respeito da obra, 86 dão-lhe nota 5, a máxima, enquanto 50 dão-lhe a nota mínima, 1. Dos 163, somente 27 não lhe dão as notas extremas.

Tais avaliações não chegam a ser surpreendentes. Afinal, As Veias Abertas não parece prestar-se a opiniões desapaixonadas. A direita costuma chamá-lo de um “anacrônico clássico da literatura esquerdista do continente”, o qual questiona o imperialismo americano e europeu na região. Já a esquerda:

"Depois do golpe de 1973 não pude levar muita coisa comigo: algumas roupas, fotos da família, um saquinho com barro do meu jardim e dois livros: uma velha edição de Odes, de Pablo Neruda, e o livro de capa amarela, As Veias Abertas da América Latina", conta Isabel Allende no prefácio da edição chilena

Neste sábado (3), Galeano completa 71 anos, enquanto sua principal obra — escrita anos antes, mas publicada em 1971 — completa 40.

Eduardo Galeano nasceu em Montevidéu em 3 de setembro de 1940. Começou sua carreira de jornalista no início dos anos 60, como editor do “Marcha”, um influente jornal semanal que tinha como colaboradores Mario Benedetti, Mario Vargas Llosa, Manuel Maldonado e Denis Fernández Retamar.

Durante o golpe de 27 de junho de 1973, Galeano foi preso e forçado a deixar o Uruguai. Foi para a Argentina, onde fundou a revista cultural “Crisis”. Em 1976, após seu livro As Veias Abertas da América Latina ser censurado pelos governos militares de Uruguai, Argentina e Chile, teve seu nome colocado na lista dos esquadrões da morte de Videla e, temendo por sua vida, exilou-se na Espanha, onde deu início à trilogia Memória do Fogo.

No início de 1985, retornou a Montevidéu. Em outubro do mesmo ano, juntamente com Mario Benedetti, Hugo Alfaro e outros jornalistas e escritores que haviam pertencido ao semanário “Marcha”, fundou o semanário “Brecha”, no qual segue até hoje como membro do Conselho Consultivo. Em 2010, Brecha instituiu o prêmio Memória do Fogo, entregue anualmente a um artista a cujos talentos se somem à luta pelos direitos humanos e sociais. O primeiro vencedor foi o cantor espanhol Joan Manuel Serrat, que o recebeu a 16 de dezembro de 2010 no Teatro Solís em Montevidéu.
Escritos que combinam ficção, jornalismo, análise política e história
Galeano tem mais de 30 livros publicados e, se pudéssemos caracterizá-los através de uma frase, talvez desta devesse constar o convite que o autor nos faz para olhar simultaneamente o passado e o futuro. Suas obras também buscam estabelecer uma frente comum contra a miséria moral e material do continente. Há um risco demagógico e piegas neste tipo de proposta, mas Galeano salva-se disto com um texto limpo e objetivo, às vezes duro. Com o tempo, amenizou seu estilo, chegando com naturalidade à prosa poética e mesmo à poesia. Seu projeto de refletir o drama da América Latina é abertamente de esquerda e, ao longo dos anos, o autor manteve um compromisso contínuo com suas ideias, rejeitando uma existência sem utopias.

Seus escritos combinam ficção, jornalismo, análise política e história. Ao lado de As Veias Abertas da América Latina, talvez seus livros mais importantes sejam a trilogia Memória do Fogo, dividida em Os Nascimentos (1982), As Caras e a Máscaras (1984) e O Século do Vento (1986). Trata-se de uma ousada e inclassificável mistura de gêneros unidas por onipresente espírito crítico. Os personagens são generais, artistas, revolucionários e operários, os quais são retratados em pequenos episódios que começam nos mitos dos povos pré-colombianos chegando até a década de 80 do século XX.

Como fã de futebol e hincha do Nacional de Montevidéu, Galeano escreveu O futebol ao sol e à sombra (1995), onde revisa a história do esporte. Sua paixão pelo jogo supera a paixão por uma camisa. O autor traça comparações com o teatro e a guerra, critica a presença das grandes corporações, de um lado, e, por outro, ataca sem tréguas os intelectuais de esquerda que rejeitam o jogo por motivos ideológicos. O formato escolhido é o da crônica, mas uma crônica de poesia derramada de paixão pelo futebol. “Aos descendentes dos rituais astecas, aos filhos do tango, do samba e da capoeira, da sombra da miséria e do sol dos sonhos de glória”: é a estes, a sua tradição de virtuosismo e a seus cultores, em todo o mundo e ao longo dos tempos, que o autor presta homenagem. Mas…

"Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau que já passou pelos campos do meu país (…) Os anos se passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico:

– Uma linda jogada, pelo amor de Deus!

E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre — sem me importar com o clube ou o país que o oferece."

No ano passado, a L&PM lançou uma nova tradução de As Veias Abertas da América Latina. O tradutor, a pedido do próprio autor, foi Sergio Faraco. “Fiz a tradução a pedido de Galeano e acompanhado por ele. Enviava diariamente e-mails com minhas dúvidas, os quais eram respondidos imediatamente. Demorei 3 meses para terminar as quase 400 páginas. A maior dificuldade não foi o texto original, foi a comparação com a outra tradução brasileira, de Galeno de Freitas, muito boa, feita em 1971. Era inevitável, acho que tudo ficou muito parecido”, conta Faraco.

Melhor que o original

Galeano elogiou a nova tradução, que teria ficado superior ao original em espanhol. “Minha obra hoje soa melhor em português”, disse, referindo-se ao fato de ter não apenas Faraco como tradutor de sua obra, mas também Eric Nepomuceno. Só aqui no Brasil já saíram 52 edições do livro. Faraco completa: “As Veias Abertas é um ensaio com altíssimo grau de informação. É inacreditável que ele tenha feito aquela imensa pesquisa histórica e escrito o livro na idade de aproximadamente 30 anos. O livro retrata uma realidade vergonhosa de surpreendente atualidade em nossos dias, pois nossa miséria e dependência permanecem. É curioso que alguns chamam o livro de anacrônico. Apesar de ter sido escrito há 40 anos, ele não tem nada de anacrônico, até porque revela de forma brilhante uma realidade incontestável – a realidade histórica”.

O professor do Instituto de Biociências da UFRGS, Paulo Brack, em entrevista à Rádio da UFRGS, rebate enfaticamente as acusações de anacronismo. “Vejam, por exemplo, a questão de Belo Monte. Ela confrontou o Brasil e a Comissão de Direitos Humanos da OEA, que questionou o tratamento que o governo brasileiro está dando ao problema. Também a aprovação do novo Código Florestal na Câmara demonstra a vitória de um sistema que há séculos está enraizado no país. O Código Florestal anterior era uma das legislações mais avançadas do mundo. Agora foi alterada em favor do agronegócio, cujo sistema de produção teve origem nos grandes latifúndios. Ou seja, muita coisa que Galeano fala em seu livro está ainda atual. Apenas mudou a cara de quem faz. Antes, havia a presença militar, agora não mais”.

Em As Veias Abertas, Galeano apresenta uma análise histórica sobre formação da América Latina desde sua ocupação pelos europeus até os dias de hoje, fundando sua crítica na espoliação econômica, na dilapidação dos recursos naturais do continente e na dominação política, primeiro pela Europa e depois pelos Estados Unidos. A professora de Geografia Ilana Freitas faz uma curiosa constatação. “Durante a ditadura, As Veias Abertas era muito usado por professores de segundo grau de História e Geografia. Eram pessoas que, de forma muito corajosa, preocupavam-se em marcar uma posição de esquerda ou de crítica à ditadura”.

Sem ser hostil, o jornalista e escritor Juremir Machado da Silva, também em entrevista à Rádio da UFRGS, faz ressalvas ao livro. “Galeano defendia que o fim da dependência da América Latina deveria ser baseado na implantação de modos modos de produção. O livro indica que a solução para a dependência latino-americana seria o socialismo. Este aspecto implícito ou explícito do livro, caducou”. Porém, Juremir concorda com Galeano no cerne: “É claro que o Brasil é um vendedor de commodities. Ou seja, vende matéria-prima barata e compra de volta o produto pronto daqueles países que agregam valor a eles. Vende para recomprar a preço maior o produto beneficiado. É uma questão não só de tecnologia, de capital, mas de mentalidade. Hoje, nada nos impede de mudar esta situação, só o fato de existir uma elite que está satisfeita como vendedora de commodities e que não deseja outro tipo de organização sócio-econômica”.

Atualmente, passados 40 anos, talvez a crítica que se possa fazer a Galeano seja a do tom indignado da narrativa, porém isto não anula ou diminui os fatos descritos e não retifica a história, pois é difícil negar que as colônias e nações latino-americanas têm sido, desde o início do século XVI, especialistas em prover o desenvolvimento das economias europeia e norte-americana, com seu consequente fortalecimento político.

Fonte: Rede Brasi Atual

PT convoca militância a defender financiamento público de campanha política

De acordo com a resolução política extraída do 4º Congresso Nacional do PT, que terminou neste domingo, o objetivo é acabar com o financiamento privado em campanhas políticas e com suas “nefastas consequência".

PT convoca militância a defender financiamento público de campanha política
Brasília – O PT convocou hoje (4) a militância do partido para um trabalho de convencimento dos parlamentares, em geral, da necessidade de uma reforma política que inclua o voto em lista, com indicação prévia dos candidatos, e o financiamento de campanha com recursos públicos.

De acordo com a resolução política extraída do 4º Congresso Nacional do PT, que terminou neste domingo, o objetivo é acabar com o financiamento privado em campanhas políticas e com suas “nefastas consequências”.

Com o financiamento público, o PT acredita que haverá melhor correlação de forças políticas nas eleições e, consequentemente, “consolidação da hegemonia” do partido no país.

A meta do PT para as eleições municipais do ano que vem é fazer o maior número possível de prefeitos e vereadores, embora admita coligações com os partidos da base de apoio ao governo federal. Para tanto, o Partido dos Trabalhadores reaviva algumas de suas tradicionais bandeiras, como a redução da jornada de trabalho, sem redução do salário, e o combate ao trabalho escravo.

A longa resolução política divulgada hoje inclui, em 24 páginas, comentários sobre o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e análises sobre as dificuldades econômicas e financeiras no Brasil e no mundo e defende apoio incondicional à presidenta Dilma Rousseff.

O PT defende ainda a luta por um sistema de saúde público, universal e de qualidade, que possa contar com novas fontes de financiamento, e a luta pela universalização e ampliação da educação, da creche e da pós-graduação, com destaque para o fortalecimento da educação pública em todos os níveis.

Fonte: VoteBrasil

E agora PT?


Por Emir Sader

O PT realizou os objetivos a que se propunha quando se fundou como partido: elegeu e reelegeu seu principal dirigente, Lula, como presidente e elegeu sua sucessora. Conseguiu recolher o Brasil numa profunda recessão, com as desigualdades acentuadas na sociedade um Estado reduzido à sua mínima expressão, o perfil internacional reduzido à sua mínima expressão. Chegou ao final do governo Lula com a diminuição sensível das desigualdades, com o desenvolvimento econômico retomado, o Estado recuperando seu papel de indutor do crescimento econômico e se projetando como nunca no plano internacional com uma política externa soberana.

Tudo foi feito no marco de um governo de alianças de centro esquerda, sem poder alterar elementos estruturais herdados, como a hegemonia do capital especulativo, o peso determinante do agronegocio no campo, a ditadura da mídia privada na formação da opinião pública, entre outros.
Como principal partido da esquerda brasileira, qual sua função no período político que se abre?

Como partido de esquerda, sua função essencial é lutar pela hegemonia da esquerda no marco dessas alianças de governo. Mas o que isso significa?

Parece haver um consenso geral no PT em torno de iniciativas importantes, como a diminuição substancial da taxa de juros, a aprovação de uma reforma política que inclua o financiamento público das campanhas e outras iniciativas democratizantes, a aprovação da Comissão da Verdade, a rejeição das reformas do Código Florestal com a anistia para o desmatamento, a aprovação do marco regulatório da mídia. Representa um conjunto importante de posições.

Mas qual o marco estratégico geral pelo qual lutamos? Qual o tipo de sociedade pela qual lutamos? Que tipo de Estado necessitamos para isso?

A característica fundamental do mundo contemporâneo é a hegemonia do modelo neoliberal no marco do capitalismo. Esse modelo transformou profundamente nossas sociedades. A América Latina foi vítima privilegiada desse modelo. Depois de ditaduras militares que quebraram a capacidade de resistência do movimento popular em alguns dos principais países do continente, da crise da dívida que atingiu a todo o continente, vieram os governos neoliberais que se generalizaram praticamente por toda a região.

As transformações regressivas acumuladas incluíram a fragmentação social, em particular do mundo do trabalho; a redução do Estado a suas mínimas proporções; a desproteção dos mercados inernos; a desnacionalização das economias, entre outras. Porém o modelo neoliberal se esgotou de forma mais ou menos rápida. A crise mexicana de 1994, a brasileira de 1999 e a argentina de 2002-03, decretaram sua falência. Foi nesse marco que foram surgindo os governos de reação contra o neoliberalismo, que receberam, no entanto, pesadas heranças.

O neoliberalismo tratou de mercantilizar todas as relações sociais, incluindo o próprio Estado. O objetivo da esquerda hoje é superar o neoliberalismo, gerando as condições de uma sociedade solidaria, integrada, democrática, soberana, uma sociedade pós-neoliberal.

A avaliação do período atual, do momento em que nos encontramos e das tarefas de um partido de esquerda decorrem da avaliação de quanto avancamos na superação do neoliberalismo, das conquistas, que são pontos de apoio para avançar, e dos obstáculos a superar.

Um elemento estratégico do modelo neoliberal é a hegemonia do capital financeiro. Ao promover a desregulamentação, o neoliberalismo favoreceu essa hegemonia, porque liberado de regulamentações, o capital não se dirigiu à produção – o capital não é feito para produzir, mas para acumular, já nos ensinava Marx -, mas à especulação, onde ganha mais, com menos impostos e liquidez praticamente total.

Quebrar essa hegemonia e impor uma dinâmica predominane de crescimento econômico com expansão do mercado interno de consumo popular, com a correspondente distribuição de renda é um objetivo estratégico da luta da esquerda hoje. O capital especulativo não produz bens, nem empregos, é essencialmente um capital parasitário, que vive as custas dos outros setores, fragiliza a soberania do Estado, chantageia a sociedade, induz os piores aspectos da globalização para dentro do país.

Combinar regulamentação da circulação do capital financeiro com taxações e uso de outros mecanismos é a forma de obter esse objetivo, ao lado da indução da expansão produtiva e do crescente fortalecimento das demandas do mercado interno de consumo popular. A obtenção da taxa de juros de 2% ao final do mandato – compromisso da Dilma – será o termômetro para medir o quanto avancamos nessa direção essencial.

O poder do agronegócio no campo, com todas suas consequências negativas em termos de concentração de terras, da sua deterioração, em detrimento da economia familiar, que produz alimentos para o mercado interno e gera empregos é outro dos elementos de um modelo que tem que ser superado. O que significa avançar na democratização do acesso à terra e de apoio à economia familiar em ritmo maior do que a demanda chinesa pela exportação da soja.

O marco regulatório da mídia pode permitir no avanço para a formação democrática – e não a monopólica atualmente existente – da opinião pública, sem a qual nunca haverá uma democracia real no Brasil.

Esses aspectos são alguns dos que representam superar o processo de mercantilização generalizada que o neoliberalismo buscou impor, fortalecendo a esfera dos direitos, aquela que busca estender os direitos da cidadania a todas as esferas da sociedade.

Para isso não precisamos apenas com uma reforma democrática do processo eleitoral. Preciso de um novo tipo de Estado. O Estado que temos foi construído para perpetuar o domínio das minorias, ele tem que ser radicalmente reconstruído, refundado, para dar lugar à construção de um Estado que reflita as novas relações de poder na sociedade, governos que expressam os interesses da maioria da sociedade, em um processo de democratização que tem que se estender a todos os rincões do país, incluído o próprio Estado.

Um partido de esquerda tem que centrar sua luta na superação do neoliberalismo, na construção de um tipo de sociedade não fundado na mercantilização na competição generalizada de todos contra todos, na subordinação aos interesses externos, mas na solidariedade, na fraternidade, na generalização dos direitos a todos, no humanismo.

Xingu: geopolítica e geoeconomia

Roberto Malvezzi (Gogó) - Brasil de Fato
Existe uma caixa-preta, comandada por uma espécie de máfia secreta, que efetivamente decide os rumos do país. Ela age em nome do “Estado”, sem que saibamos sequer exatamente quem é.

Sabemos apenas que é um núcleo de decisores que aglutina os chefes do Executivo, a associação empresarial nacional-transnacional e militares. As corporações técnicas apenas servem como intelectuais e operadores orgânicos do grupo decisor.

Quando realizamos eleições, decidimos apenas quem vai compor parte do grupo, no caso, a presidência da República. De resto, nosso voto decide apenas questões periféricas, subalternas, que em nada alteram a essência do rumo do país. Daí o papel ridículo ao qual foi relegada a classe política nacional.

Assim, o conjunto de infraestrutura a ser implantado no Brasil e na América Latina, sob o codinome de IIRSA (Iniciativa de Integração de Infraestrutura Regional Sul Americana), já está decidido. O PAC, já disseram isto antes de mim, é apenas o IIRSA brasileiro.

Quem decidiu a Transposição, que, segundo um tenente do Exército nos afirmou em Petrolândia esses dias, só terminará em 2025? Isso mesmo, além dos eixos Leste e Oeste semiparalisados, haverá um para a Bahia, outro para o Piauí e o que sairá do Tocantins em direção ao São Francisco ou diretamente ao Pecém, no Ceará.

Quem decidiu Belo Monte, Jirau, Santo Antônio? Esse ente metafísico que se chama Estado. Ele está acima de todos, acima de qualquer suspeita, além das eleições, além da vontade do povo brasileiro. Ele sabe e decide o que é bom para o país.

Fala em nome da geopolítica – defender os interesses nacionais – e da geoeconomia, isto é, criar a infraestrutura para escoar a produção latinoamericana (brasileira), a riqueza natural, mas também para escoar os produtos dos Estados Unidos e Europa, agora China, para dentro do território latinoamericano. Estradas, portos, aeroportos, ferrovias, etc, tudo em nome da integração, ainda que seja apenas a integração do capital. A energia para sustentar essa economia de rapina é astronômica.

O Brasil continua sem tecnologia, sem educação de nível, sem saneamento, mas quer ser a 5ª economia exportando produtos básicos. Basta olhar nossa pauta de exportação, cada vez mais dependente do agronegócio e mineradoras.

Como vemos, decidem por nós, comuns mortais, que temos que comer o pó da poeira, dizimar a natureza, varrer os índios e ainda agradecer por sermos dirigidos pelos deuses do Olimpo.

Dirceu, Veja e o tribunal midiático


Por Washington Araujo, no Observatório da Imprensa:

Espanto, perplexidade, surpresa. Alguém em sã consciência poderia dizer que teve uma destas reações ao deparar com a capa da revista Veja (nº 2232, de 31/8/2011)? Só se for a de um brasileiro residindo em Berlim ou em Nairobi. Veja pode ser acusada de práticas jornalísticas pouco usuais, politicamente destemperada, editorialmente desequilibrada, mas não pode ser acusada de incoerência. No caso atual, a eterna “bola da vez” é o combativo militante petista – e sempre combatido pela revista – José Dirceu. E quem apostar que está difícil nesses tempos de turbulência na economia internacional “emplacar” um escândalo com fortes cores nacionais apostará corretamente, pois nesses casos a revista da Abril lança mão de seu tema-de-escândalo-habitual: Zé Dirceu.

Uma rápida busca nos arquivos digitalizados da própria revista mostra nada menos que 49.587 resultados quando preenchemos o campo de pesquisa as palavras “José Dirceu”. E se formos pesquisar por edição, teremos que bisbilhotar – algo que a revista faz com maestria – nada menos do que em 91. Este é o número de vezes em que, no período 2002-2011, José Dirceu irá figurar na capa da revista, seja na manchete ou em chamadas secundárias.

Em uma breve retrospectiva vemos o vírus insidioso da intriga em seu nascedouro, como a farejar a proximidade inevitável do poder. E assim nasce a primeira chamada lateral de capa (25/9/2002): “José Dirceu: O homem que faz a cabeça de Lula”. E perfil mostra o guerrilheiro que treina em Cuba, participa ativamente da luta contra a ditadura brasileira e, foragido, se submete a uma cirurgia plástica no rosto.

A segunda “aparição”, ocorre na edição de 6/11/2002, quando Dirceu divide a capa-palco com dois outros ministros do primeiro governo Lula – Antonio Palocci e Luiz Gushiken. Os três vestidos a caráter para ilustrar a chamada que guarda certa nostalgia dos tempos do Brasil Império. Diz a manchete: “A cúpula da nova corte – Os três mosqueteiros com quem é preciso falar para ser ouvido no governo Lula”. O texto tem um único objetivo: mostrar quem tem poder real no novo governo e classificar as demais autoridades como meros figurantes, resultado de acertos de promessas a partidos políticos ao longo da campanha presidencial.

Escolhidos a dedo

Chega o ano de 2004 e Veja mostra a que veio, elegendo José Dirceu como representante-mor do “mal” que se apossa do corpo do Brasil, quase como uma entidade sobrenatural, não obstante a chamada lateral de sua capa de 3/3/2004 parecesse vender a imagem de um ex-ministro-todo-poderoso em franca desgraça: “José Dirceu: O ministro continua encolhendo”.

Para chegar à tese do encolhimento do detentor de poder político, a revista vinha desde 2003 lançando farpas e lanças, como par dividir de forma irremediável aqueles mesmos três que antes saudara como sucedâneos de Athos, Portus e Aramis. É o período em que escapa da artilharia pesada apenas o D’Artagnan redivivo em Luiz Inácio Lula da Silva. E escapa porque consegue se manter em crescente popularidade junto aos milhões de súditos, para usar a metáfora acolhida pela revista. Logo na semana seguinte a edição de Veja (10/3/2004) traz seu rosto tomando toda a capa e os dizeres simulando desabafo do retratado: “Dirceu: Não vou sair do governo”.

São muitas matérias, geralmente citando fontes em off, frases recolhidas fora do contexto em que foram ditas e reajuntadas a contextos mais atuais, mas tendo um único objetivo: manter com Dirceu a aura de malévolo, gângster, traficante de influência nato e outros epítetos nada lisonjeiros a alguém que tem claro protagonismo político e partidário, além de sagaz operador do governo que ajudou a eleger ao criar estratégias vitoriosas e reconhecidas mesmo por seus mais acerbos adversários. Esta abordagem que cada vez mais se enraíza no modo-Veja-de-fazer-jornalismo deságua em outra capa com o rosto do ex-ministro e a manchete premonitória e sombria (3/8/2005): “O Risco Dirceu”.

De 2005 a 2007, José Dirceu estará sempre relacionado com o que a grande imprensa optou por chamar de “Mensalão do PT”. Matérias e quase-reportagens no período esposarão teses fatalistas tendo como ponto de convergência o impeachment do presidente Lula, a desmoralização completa dos partidos de esquerda, em particular do Partido dos Trabalhadores. As “páginas amarelas”, aqueles que abrem as edições de Veja com “grandes entrevistas”, serão literalmente amareladas com entrevistados que desenvolvam qualquer tese, por mais estúpida que seja, para desmerecer ou se contrapor frontalmente a quaisquer das políticas públicas mais vistosas do governo Lula: o Bolsa Família, a transposição de águas do Rio São Francisco, o ProUni, a política de ações afirmativas (cotas para negros, índios nas universidades). Entrevistados mostrarão por a+b que o Bolsa Família é na realidade uma Bolsa-Esmola, que o programa tem apenas apelo eleitoral, é insustentável e só tem porta de entrada.

Lembram dessas histórias? Entrevistados escolhidos a dedo para prestar sua devoção incondicional aos cânones do neoliberalismo, ao papel mínimo do Estado, ao sacrossanto direito a extensões de terras para corar de inveja os faraós do antigo Egito. O acesso de afrodescendentes às universidades através de cotas receberá a cada semana um novo petardo onde tais luminares encontrarão apenas mazelas sociais no Brasil e nunca mazelas raciais.

Imprensa criminosa

Na edição de 19/9/2007 a chamada lateral na capa é um primor de síntese da atividade judiciária: “Caso MSI/Corinthians: A Polícia Federal descobre as pegadas de José Dirceu”. A criminalização de José Dirceu parece fazer parte do manual de redação da revista. É quando Veja levanta suspeitas, investiga, acusa, julga, condena, acompanha o cumprimento da pena e veta qualquer direito ao contraditório. O Tribunal Midiático parece ter mais poder destruidor que Tribunal regular, instância judiciária em uma sociedade democrática.

O Tribunal Midiático recebe o apoio não falado, não escrito, não reverberado, não consignado de seus pares, igualmente juízes e donos do mesmo poder de noticiar, informar, afirmar, acusar, julgar, condenar. Para integrar tal Corte basta ter jornal impresso com alta tiragem e ampla circulação diária, ter concessão pública de exploração de canal de tevê aberta e emissora de rádio com cobertura nacional em AM e FM, além de vistosos portais na internet e a propriedade de alguns canais de tevê a cabo.

Como um contrato de gaveta, sem legitimidade ou valor legal perante o Poder Público, os que integram o Tribunal Midiático agem à la James Bond, aquele velho personagem vivido por Sean Connery, cujo poder estava inscrito em sua identidade: “Licença para matar”. A verdade é que a maior concessão que um capo da mídia pode fazer em relação a um desafeto é lhe conceder, eventualmente, espaço para escrever algo, colocar de pé uma ideia. Mas nunca para se contrapor de maneira frontal e explícita contra o veículo de comunicação que assaque contra sua honra, invada sua privacidade, utilize de banditismo para fazer circular a “sua” verdade sobre um determinado assunto. Qualquer assunto.

Chega agosto, mês de desgosto para alguns, mês de tragédias nacionais na política brasileira (Getúlio Vargas, Jânio Quadros etc). E a revista Veja parece continuar impressionada com a saga de Mario Puzo, com o seu Don Corleone, de O Poderoso Chefão. A capa da edição de 31/8/2011 traz o rosto de José Dirceu, óculos escuros, meio-sorriso mafioso, bem versão Marlon Brando, vestindo o personagem de Puzo. O texto de capa é, muito provavelmente, o mais destoante entre uma chamada de capa e sua matéria interna: “O Poderoso Chefão / O ex-ministro José Dirceu mantém um ‘gabinete’ num hotel de Brasília, onde despacha com graúdos da República e conspira contra o governo da presidente Dilma”.

O que merecia mesmo uma ampla reportagem é a metodologia adotada pela revista para cumprir sua pauta. Repórter se passando por companheiro de quarto de hotel de José Dirceu. Repórter tentando conseguir a chave do apartamento de José Dirceu com a camareira. Imagens citadas/retratadas na revista como se houvessem sido cedidas pela segurança do hotel – aliás, e isso parece inacreditável, o mesmo hotel que lavrou boletim de ocorrência em delegacia de polícia dando conta de hóspede suspeito querendo invadir um quarto. Etc., etc., etc. Os crimes lançados na “reportagem” infelizmente, para a revista, não são tipificados no Código Penal brasileiro: receber visitas em seu quarto de hotel, visitas que tanto podem ser de entregadores de pizza ou comida chinesa, como de parlamentares ou mesmo ministros de Estado.

Não discorro mais sobre o assunto porque Ricardo Kotscho já disse tudo sobre esta última parte (ver “Repórter não é polícia; imprensa não é justiça”). A pulga que tenho na orelha é saber se, por algum acaso, repórteres de Veja estagiaram recentemente no jornal News of the World do realmente mafioso midiático Rupert Murdoch. Caso tenham estagiado, pelo jeito não aprenderam bem as lições que somente uma imprensa criminosa poderia ensinar.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A luta do povo não é “chapa branca”, mas pelas mudanças

A Marcha dos Estudantes, realizada em Brasília, que ontem (dia 31) encerrou o “Agosto Verde Amarelo” da UNE, é mais uma resposta aos pessimistas que não conseguem enxergar o crescimento da mobilização social no Brasil.

Ou aos que, de má fé, tentam desqualificar as manifestações populares atribuindo a elas um rótulo de “chapa branca” que as diferenciaria de outros movimentos, como os dos jovens chilenos, árabes ou europeus, que saem às ruas contra seus governos, exigindo democracia e lutando contra atentados aos direitos sociais ameaçados por políticas conservadoras.

Existem inclusive aqueles que, a partir de comparações desse tipo, recusam um caráter “de esquerda”, socialista e avançado às organizações populares (como a UNE, o MST e as centrais sindicais) e aos partidos (entre eles o PCdoB) que, participando e apoiando o governo de Dilma Rousseff, se juntam a estas manifestações populares.

São interpretações erradas que merecem reflexão. Em primeiro lugar, o Brasil vive uma efervescência popular crescente. Há mobilizações de amplos setores do povo em torno de um leque de reivindicações democráticas e populares.

Os trabalhadores e as centrais sindicais, como a CTB, ocupam as ruas contra a ortodoxia econômica e os altos juros, em defesa do crescimento econômico, do trabalho, emprego e valorização da renda, e se juntam aos estudantes na exigência de 10% do PIB e 50% do fundo social do pré-sal para a educação. Há uma acesa mobilização em torno da Conferência do Trabalho Decente, preparatória da Conferência Nacional do Emprego e Trabalho Decente, por mais e melhores empregos e também erradicação do trabalho escravo e infantil. Além, claro, da reivindicação da jornada de 40 horas semanais sem redução nos salários e da regulamentação das convenções 151 e 158 da OIT.

A luta pela reforma agrária é permanente e se traduz em ações que se multiplicam pelo país. É a bandeira do MST e da Marcha das Margaridas, das trabalhadoras e trabalhadores rurais; povos indígenas e quilombolas exigem a regularização fundiária e o reconhecimento e demarcação de suas terras.

Os estudantes, com a UNE à frente, anseiam mais verbas para a educação, contra os juros altos e pela educação pública e gratuita e pela regulamentação do ensino privado.

As mulheres vão à luta pela igualdade e contra a violência, sendo a Marcha das Vagabundas um exemplo da ousadia e irreverência contra a responsabilização da mulher em casos de agressão sexual.

Os professores exigem, pelo país afora, o cumprimento do piso salarial do magistério instituído pela Lei 11.738, e os policiais e bombeiros não abrem mão do piso salarial nacional para a categoria e lutam pela aprovação da PEC 300.

As ações dos sem teto se multiplicam e colocam na agenda o pleito pela reforma urbana e a defesa do Direito à Moradia e à Cidade.

Cresce também a indignação contra a homofobia e as agressões motivadas por ela, exigindo sua criminalização.

Há manifestações em defesa da banda larga e da democratização da internet rápida; o movimento pela democratização dos meios de comunicação se reforça e amplia.

Só por má fé ou miopia política alguém pode rotular este amplo e múltiplo movimento popular como “chapa branca”, corporativo ou ligado a interesses obscuros.

A lista apresentada acima é parcial, sendo apenas um exemplo da luta que os brasileiros retomam depois da década de retrocesso, desmobilização e criminalização do movimento social que foi o retrógrado período neoliberal comandado pelos tucanos e por Fernando Henrique Cardoso.

Há um florescimento da luta popular e ela é movida não só pelo apoio ao governo, como dizem seus detratores. Mas por uma agenda: o programa que levou o povo brasileiro a derrotar os tucanos e a elite conservadora e neoliberal nas eleições presidenciais de 2002, 2006 e 2010. E que, ao contrário do que ocorreu sob o predomínio conservador e neoliberal, encontra ressonância, apoio e boa vontade no Palácio do Planalto, num governo que não trata os movimentos sociais como criminosos, mas formas legítimas de pressão popular para alcançar novas conquistas e direitos.

O que define o caráter da luta do povo não é a adesão a um governo ou oposição a ele, mas a defesa de um programa de mudanças. O povo sai à rua justamente para, no quadro mutante que o país vive, exigir do governo federal coerência e compromisso com o programa de mudanças vitorioso na última eleição presidencial. É neste sentido que o movimento popular apoia o governo e quer mais, quer avançar.

A má fé tucana e conservadora mal esconde que só vê sentido num movimento popular de oposição ao governo, ressentia por não encontrar, nas ruas, eco para suas campanhas retrógradas, antipatrióticas e elitistas, contrárias às mudanças que o povo deseja e pelas quais luta.

Uma reflexão final e necessária impõe o reconhecimento de que, além das reivindicações específicas e próprias de cada segmento do movimento popular, há uma agenda comum, um núcleo compartilhado, de reivindicações que a permeiam: a exigência de mudanças na política econômica, de valorização do trabalho, do emprego e da renda, de ampliação e fortalecimento da democracia e dos direitos sociais, de mais verbas e ação pública em temas como a educação pública e gratuita para todos, as reformas agrária e urbana, moradia, saneamento, transportes públicos, defesa e fortalecimento do Sistema Único de Saúde, democratização dos meios de comunicação, defesa das riquezas nacionais (como o pré-sal) as reformas agrária e urbana.

É um programa comum aos vários segmentos do movimento social e que vai se consolidando. Ele precisa, agora, se desdobrar em um novo passo: a ação comum, unificada, do movimento social, das entidades do movimento popular e as centrais sindicais. Passo fundamental para o avanço do movimento e também para aumentar sua repercussão junto ao governo federal.

Fatos em foco

Hamilton Octavio de Souza - Brasil e Fato

Genocídio paulista
No primeiro semestre de 2011, a Polícia Militar do Estado de São Paulo matou 334 pessoas, das quais 241 ocorrências foram registradas como sendo “resistência seguida de morte”, que é a forma de “justificar” a violência policial, mesmo quando as vítimas são sumariamente executadas. Pior do que o quadro desse verdadeiro genocídio é o discurso cada vez mais fascistóide das autoridades diante do aumento da violência.

Revertério líbio
O belicismo e o terrorismo de Estado criam suas próprias contradições: a OTAN fez de tudo para derrubar o ditador líbio Muamar Kadafi. Depois se descobriu que entre os grupos rebeldes que detonaram o governo Kadafi existem alguns ligados diretamente com a organização Al Qaeda, que é considerada a grande inimiga dos governos ocidentais. E agora, o que vão fazer com os novos donos da Líbia?

Petróleo social
Depois de participarem de uma grande manifestação pública em Brasília, dia 24 de agosto, os militantes da campanha “O petróleo tem que ser nosso” lotaram a audiência realizada na Câmara dos Deputados. O movimento defende a Petrobras 100% estatal e o fim dos leilões que privatizam a exploração e o lucro do petróleo do pré-sal. Seu objetivo é estimular o debate na sociedade e conquistar o apoio do Congresso Nacional.

Luta popular
Empenhada na mobilização do Grito dos Excluídos – dia 7 de setembro –, o movimento Assembleia Popular está focado nas seguintes lutas: redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais; 10% do PIB para a Educação; contra o uso de agrotóxicos; defesa da reforma agrária; contra a reforma do Código Florestal; política de incentivo para a agricultura camponesa; defesa dos direitos humanos contra os megaprojetos e megaeventos.

Anticapitalismo
Em artigo veiculado dia 24 de agosto, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos relaciona vários pontos para a urgente reconstrução das esquerdas e “evitar a barbárie”. No seu terceiro ponto ele diz: “O capitalismo é amoral e não entende o conceito de dignidade humana; a defesa desta é uma luta contra o capitalismo e nunca com o capitalismo (no capitalismo, mesmo as esmolas só existem como relações públicas)”. Claríssimo!

Certidão negativa
O Tribunal Superior do Trabalho aprovou a criação do Banco Nacional de Devedores Trabalhistas, previsto na Lei 12.440/11, que tem por função expedir a Certidão Negativa de Débito Trabalhista, documento obrigatório para toda empresa participar de licitações e contratar com a administração pública. Quem tem dívida trabalhista transitada em julgado está fora do jogo. Resta saber se o Judiciário vai fiscalizar o cumprimento da nova lei!

Sem limite
Com o sugestivo nome de “Operação Mar de Lama”, a Polícia Federal já identificou 55 pessoas envolvidas em fraudes nos contratos de fornecimento da merenda escolar, em Pernambuco, com quase R$ 2 milhões desviados dos cofres públicos. A PF adianta que a mesma quadrilha que rouba o dinheiro da merenda em Pernambuco opera também em outros estados, inclusive em municípios de São Paulo. Até onde vai o “mar de lama”?

Grandes fortunas
Em seminário organizado pelo Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal, o diretor técnico do Dieese Clemente Ganz Lúcio deixou claro que a desoneração da folha de pagamento – proposta pelo governo para favorecer as empresas – vai fragilizar o financiamento da Previdência Social, com efeitos danosos na economia. Para ele, é preciso cobrar mais impostos de quem ganha mais. Tudo tão óbvio!

Crime bárbaro
Em nota sobre o assassinato de Valdemar Oliveira Barbosa, militante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Marabá, dia 25 de agosto, em plena luz do dia (às 10 horas), num bairro de Marabá, a Comissão Pastoral da Terra protestou contra a impunidade de vários crimes seguidos, nos quais “o comportamento da polícia civil do Pará tem sido de investigar as vítimas e não os responsáveis pelas mortes”. Até quando?

Se for crime, puna!

Editorial do jornal Brasil de Fato

Há poucos meses ficou provado que o tabloide News of the World, de propriedade do australiano Rupert Murdoch, um magnata das comunicações, há anos promovia escutas telefônicas ilegais de pessoas influentes na política britânica. Por causa da prática criminosa o seu proprietário teve que fechar o tabloide, prestar esclarecimentos no parlamento e viu alguns diretores e jornalistas da empresa serem presos. O pedido de desculpas do magnata e todo seu poderio econômico e político foram insuficientes para evitar sua condenação na opinião pública. O escândalo, com repercussão mundial, fez com que a população continuasse exigindo a punição dos responsáveis pelo crime e que o país promova um reexame amplo do papel e da regulamentação da mídia no Reino Unido.

Nessa semana, aqui no Brasil, a revista Veja, da Editora Abril, está nas bancas com uma matéria de capa acusando o ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, como sendo o poderoso chefão, dentro do PT e que conspira no governo Dilma. O conteúdo da reportagem não vai além do estilo panfletário e completamente dissociado da verdade, como costumeiramente a Veja trata todas as organizações que divergem da concepção político-ideológico da família Civita, proprietária da revista. A reportagem não tem um fiapo de informação, é só opinião, como afirma o jornalista Paulo Henrique Amorim. Não merece credibilidade uma vez que, como é sabido, a Veja mente.

Mas a forma como a reportagem foi construída merece sim a atenção da opinião pública brasileira. Como está registrado em Boletim de Ocorrência (BO) numa delegacia de polícia da Capital Federal, o repórter da revista tentou invadir o quarto do hotel onde Dirceu se hospeda.

Talvez agora a Veja saiba a diferença entre as ações de invadir e de ocupar. Tudo indica, ainda em investigações preliminares, que para ilustrar o que chama de reportagem, o jornalista instalou ilegalmente uma câmera para obter imagens dos hospedes e freqüentadores do hotel. Não há limites ao escárnio com que a semanal dos Civita trata o Estado de Direito. O sentimento de completa impunidade lhe permite praticar um jornalismo que confabula com a ilegalidade.

A mídia em geral, em colusão com a prática criminosa da revista, não dedicou uma linha para informar a opinião pública do fato ocorrido. Uma abismal diferença de quando houve a quebra do sigilo da declaração de imposto de renda de um político tucano. Essa é a liberdade de imprensa defendida pelos proprietários dos meios de comunicação. Liberdade para filtrar os acontecimentos, amplificando ou escondendo os fatos, de acordo com seus interesses próprios.

A ficha corrida da Veja é tão extensa quanto de longa data. Um grupo empresarial que cresceu sob a sombra protetora da ditadura militar, tanto aqui quanto na Argentina. Que não hesita em atacar a honra das pessoas, da forma mais vil, para atingir seus objetivos, como fez com o delegado da Policia Federal Paulo Lacerda, responsabilizado, nas páginas da revista, por ter grampeado os celulares do então presidente do STF Gilmar Mendes, e alguns parlamentares. Em momento algum apareceu o áudio dessa gravação ou qualquer outra prova de que havia ocorrido o grampo. Lacerda perdeu seu cargo na Policia Federal, a revista e seus capangas– usando palavras de um inflamado discurso do Ministro do STF Barbosa – da mentira montada permanecem completamente impunes.

O próprio presidente Lula foi vítima do exercício da mentira nas páginas da publicação do Grupo Abril. Hora o acusaram de ter vínculos econômicos com as Farcs, grupo revolucionário da Colômbia, hora de ter contas secretas em paraísos fiscais. Novamente, nada foi provado e repetiu-se a impunidade.

Até quando a população brasileira vai ser desrespeitada por essa forma de fazer jornalismo da família Civita? Quantas vezes ainda veremos essa revista abrir sua caixa de maldades, durante um processo eleitoral, às sextas-feiras, para abastecer o Jornal Nacional da Rede Globo e tentar influir determinantemente no resultado eleitoral, sem que as autoridades tomem quaisquer providências? A palavra está com quem tem o dever de apurar e, se comprovado, punir as práticas criminosas, inclusive as da mídia.

Bom seria se, seguindo o exemplo vindo do Reino Unido, o país aproveitasse para reexaminar o papel e regulamentação da mídia, visando fortalecer nossa democracia. Daquele país, em artigo de Martin Wolf publicado no Financial Times, vêm indicativos da necessidade de rever as leis de privacidade e difamação; regulamentação da imprensa; concentração da propriedade por veículos e sobre diferentes mídias; papel da mídia pública; financiamento público da mídia em geral e da produção de notícias em particular. Já seria um começo a ser seguido pelo nosso país. Se a distância ou a língua britânica servem de empecilho junto às autoridades, por que não seguir o exemplo da vizinha Argentina com sua Ley de Medios? Com a palavra o Ministro das Comunicações. Mas antes, com palavra o Ministro da Justiça, no caso da tentativa de invasão de um quarto de hotel na Capital Federal.

Informação e guerra: novo totalitarismo

Por Leonardo Severo:

“É como viver sob um exército de ocupação que se apoderou dos meios de comunicação” - Kurt Vonnegut, escritor estadunidense.

Terminei de ler “A ocupação – Informação e guerra, um novo totalitarismo mundial”, do jornalista e professor universitário argentino Osvaldo Tcherkaski. Publicado em 2003, o livro parece ter sido escrito nestes dias em que, sob a alegação da “ajuda humanitária”, a OTAN transforma a Líbia num inferno para impor seus mercenários como governo, saquear o petróleo do país norte-africano e minorar a violência da crise em que se vêem mergulhados os EUA e a Europa.

Com a “militarização da política e da economia”, a mídia entra em “sincronia com as mentiras do poder”, “colocando o cinismo como virtude”, adverte o autor, na ânsia de manter inalterada a “globalização financeira, a forma mais destrutiva e bárbara do capital”. Lógica que transforma em doutrina estratégica a ação militar “prioritária e preventiva” das grandes potências, já julgada e condenada pelo tribunal da história: “crime de guerra”, como apontaram os juízos de Nuremberg sobre o comportamento nazi-fascista.

Por isso, precisam praticar o “linchamento intelectual” dos que se opõem ao “sistema de extermínio à escala mundial”, aos seus desígnios de “banalização da violência, como espetáculo ou videojogo”.
Pelos filtros e manipulações as agências noticiosas “falam a língua das bombas” e trabalham com “freqüência tóxica” “inoculando informação” – “alugada ou vendida” - em função dos interesses do capital, tentando comercializar “o modelo exemplar do FMI, campeão das privatizações e da alienação das empresas nacionais como porta de entrada ao primeiro mundo”.

Como aponta Osvaldo Tcherkaski, tais meios foram conduzidos e reduzidos à mera arma de propaganda e alienação às ordens dos “serviços de inteligência, os maiores provedores de ficção”.

Tentando “naturalizar o horror”, a mídia internacional substituiu a confiança nela anteriormente depositada por uma “produção criminosa”, com notícias que nascem natimortas, de única direção e sentido: o respaldo às ações do governo dos EUA em sua tentativa de “sair da crise pela via da guerra permanente”.

É claro que da mesma forma como hoje demonizam Muamar Kadafi e inventaram “sangrentos confrontos” que só existiram nas “notícias” veiculadas pela rede Al-Jazeera - ligada ao governo do Catar - como bem denunciou o representante brasileiro em Trípoli, para justificar a intervenção, trabalharam com afinco em tom monocórdico para colar no presidente iraquiano Saddam Hussein a fabricação de “armas químicas” e nos palestinos a alcunha de “terroristas” por quererem libertar a sua pátria da colonização israelense.

Com o mundo em perigo, nada mais justo, portanto, que os xerifes do planeta entrassem em ação, como fizeram nas cidades líbias de Sirte e Trípoli, onde despejaram toneladas de bombas sobre escolas, creches e hospitais em nome da democracia e dos bons costumes.

Tal “modo de informar”, esclarece o autor, tem por objetivo “ajudarnos a esquecer, a relegar o mais rapidamente possível no passado as experiências históricas recentes”. Ao mesmo tempo, buscam dissimular a gravidade, a perversão e a irracionalidade da crise do sistema capitalista com apontamentos sobre “indícios de uma recuperação”, que nunca vem, convertendo “fatos em interrogação”.

Tamanha manipulação em função dos interesses belicistas do complexo militar-industrial, “com a venda da guerra” - como na agressão contra o Iraque -, adverte Osvaldo Tcherkask, pôs “em crise o caráter de bem social da informação”, com os meios de comunicação reduzidos a “ocultar, manipular ou inventar”. O livro escancara como um ex-diretor da CIA, James Woolsey, explicou na primeira página do The Washington Post, seis meses antes da invasão do Iraque, “o clima pré-carnavalesco”, “o entusiasmo que gerava nas companhias norte-americanas a decisão da ir à guerra”.

Qualquer semelhança com a alegria gerada pela reunião organizada pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, com os países do chamado Grupo de Contato – os que patrocinaram o bombardeio e o assalto da Líbia - que vai discutir por estes dias a pilhagem do país africano, não é mera coincidência.
Nos meses que antecederam a guerra do Iraque, recorda o autor, empresas como a norte-americana Kellog Brow & Root – subsidária da Halliburton Co – presidida pelo vice de Bush, Dick Cheney, entre 1995 e o ano 2000, ajudaram o Pentágono a preparar o assalto, desenhando o mapa da invasão para resguardar os campos petrolíferos. Entre os interessados, a secretária de Estado de Bush, Condoleeza Rice, diretora executiva da petroleira Chevron.

Um informe publicado posteriormente pelo norte-americano Instituto de Estudos do Sul, assinalou que “foram gastos bilhões de dólares em peças essenciais das plantas de infraestrutura elétrica do Iraque, de centrais telefônicas e sistemas de esgoto e saneamento, mas estes não foram consertados, ou foram tão mal-ajambrados que sequer chegam a funcionar”. E então os lucros destas empresas dispararam.

Como no país norte-africano, o petróleo foi o motor do genocídio praticado contra mais de um milhão de iraquianos. As razões são apontadas pelo livro A Ocupação: “com 5% da população mundial, os EUA só possuía 3% das reservas mundiais conhecidas de petróleo e consumia 19 milhões de barris por dia, quase um quarto do consumo mundial total, estimado ao redor de 76 milhões de barris diários”.

É claro que para encobrir tamanha infâmia e covardia, a mídia pró-império precisa apelar à falsificação e, para ludibriar incautos – e outros nem tanto – no caso da guerra do Iraque, conta Tchernaski, até mesmo a sala de imprensa foi montada por um desenhista dos estúdios de Walt Disney e da Metro Goldwin Mayer – a um custo de US$ 250 mil (duzentos e cinquenta mil dólares!).

Nos preparativos da operação “Tormenta no Deserto”, da primeira guerra do Iraque, em 1991, ganhou destaque o testemunho de uma jovem “banhada em lágrimas”, que relatou como havia visto as tropas iraquianas entrarem nos hospitais kuwaitianos “para tirar os bebês que se encontravam nas incubadoras e jogá-los nas ruas, onde a soldadesca invasora os triturava sob suas botas”.

“A história aterrorizou os leitores dos grandes diários norte-americanos e estremeceu a milhões de telespectadores, para quem o rosto da inconsolável mulher se transformou num símbolo e prova da crueldade satânica de Saddam Hussein. A jovem de 15 anos era na verdade a filha mais velha do embaixador do Kuwait em Washington e a cena foi inventada e organizada por uma firma de relações públicas contrata pelo governo do kuwait”.

Da mesma forma, esclarece o autor, o jornalista Robert Fisk, do diário britânico The Independent, testemunhou ante a Associação Mundial de Jornais que a fotografia que havia recorrido o mundo com a imagem de iraquianos ao redor da estátua de Saddam “tinha apagadas as cordas com as quais os tanques norte-americanos realizaram a derrubada”.

E a farsa se repete neste final de agosto de 2011. Os mercenários do auto-intitulado Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia, admitiram ter falsificado imagens da detenção do filho do presidente Muamar Kadafi, Seif el Islam, bem como da tomada da capital, Trípoli, para facilitar o “reconhecimento” dos agentes do imperialismo como “representantes legítimos da Líbia”. Conforme explicou Mahmoud Jibril, do CNT, a armação teve o papel chave de acelerar a capitulação diplomática, pois desde a veiculação da dita “informação”, 11 países avalizaram a “legitimidade” do Conselho de entreguistas.

“Eles precisavam mostrar as massas de ‘rebeldes’. Para isso construíram cenários no Catar duas semanas antes. Tínhamos esta informação, sabíamos que haviam construído cenários da Praça Verde em Trípoli. Contrataram atores profissionais. Omar Jali interpretou incrivelmente bem o papel do filho de Kadafi, Seif el Islam. Todo o mundo viu como detinham o filho do coronel”, conta Marat Musin, membro do Comitê de Solidariedade com os povos da Síria e da Líbia. Pondo por terra a versão prontamente reproduzida pelas “agências”, Seif apareceu são e salvo diante dos jornalistas estrangeiros para desmentir a “informação” e conclamar os líbios a resistirem à OTAN.

E volto ao livro de Tcherkaski e uma citação sobre a triste, trágica e célebre prisão de Auschwits, para demonstrar que “quando o público não pode ser mantido devidamente desinformado pela omissão” e “os estragos sociais e humanos não podem ser retirados totalmente de vista, são exibidos como espetáculo”.

“Em seu testemunho sobre este campo de extermínio, Primo Levi reproduz o relato de um prisioneiro que se dá conta de uma partida de futebol entre as SS e membros da esquadra de prisioneiros encarregada de atender o funcionamento das câmaras de gás e os crematórios, que os nazis chamavam Sonderkommando.

Giorgio Agambem recupera esta citação: Ao encontro assistem outros soldados das SS e o restante da esquadra; mostram suas preferências, apostam, aplaudem, animam os jogadores como se, em lugar das portas do inferno, a partida estivesse ocorrendo em um campo de várzea.
E diz que esta partida não acabou nunca, se reatualiza sempre, como se ainda durasse, sem haver sido interrompida”.

Até quando?

O mico de Álvaro Dias no Senado

Do blog Os amigos do presidente Lula:

Foi desastrosa a participação do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) na audiência pública do Senado Federal, realizada nesta terça-feira, 31, para ouvir o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, sobre o Plano Nacional de Banda Larga.

Disposto a confrontar Bernardo sobre o uso do avião “King Air” de propriedade da Sanches Tripoloni, empreiteira que executa o Contorno Norte de Maringá (PR), Álvaro Dias perguntou se no dia 10 de fevereiro de 2011 o ministro teria usado a aeronave para ir a Feira Agropecuária de Cascavel.

— Não, senador Álvaro, não estive na Feira de Cascavel neste ano, até me convidaram, lamentei muito não ter condições de ir — disse Bernardo, acrescentando que esteve lá no ano anterior.

— É isso, 2010, tentou emendar Álvaro Dias, mas Bernardo o interrompeu de novo:

— Em 2010, senador, eu estive lá em um avião da FAB, Força Aérea Brasileira, disse o ministro.

Visivelmente desapontado, o tucano afirmou que considera seu “direito fazer ilações, em seu papel de Oposição. O ministro retrucou: reconhece o papel da Oposição, mas não acha correto que se faça ilações para atacar a honra alheia.

"As pessoas tem de se ater aos fatos, falar a verdade”, disse Bernardo. Ele bateu duro naqueles que plantam notas anônimas nos jornais, valendo-se do chamado "off". Álvaro Dias apressou-se a dizer que não era o autor das notas passadas aos jornalistas, mesmo sem ter sido acusado disso.

O que mais surpreendeu os presentes, contudo, foi o fato de o tucano retirar-se antes de ouvir mais uma resposta do ministro à uma questão que ele havia formulado. Em gesto de má educação, o senador levantou-se e deixou a reunião sem sequer se despedir do ministro.

O “mico” sobre o uso do avião foi o segundo momento de constrangimento do senador. Antes, Bernardo havia mostrado cópia da emenda da bancada paranaense solicitando ao Poder Executivo a realização do Contorno da Rodovia de Maringá. O primeiro signatário da emenda, ou seja, o autor da proposta, é o senador Álvaro Dias.

Antes que a emenda, de 2007, fosse do conhecimento público, o senador tentava atribuir interesse na empreitada apenas a Bernardo para fazer ilações sobre sua honra. Bernardo era ministro do Planejamento quando os recursos orçamentários foram liberados e a rodovia foi incluída no PAC. Acontece que isso só ocorreu porque toda a bancada do Paraná pressionou o governo.

Álvaro Dias saiu desmoralizado da audiência. Bernardo o silenciou com a verdade. E a mídia que serviu de mensageira das falsas notícias? Será que os jornalistas que publicaram inverdades em “off” não deveriam perguntar a si mesmos se as baixas vendas de jornais não estarão relacionadas a essa persistente subserviência aos que usam o anonimato para sabotar os fatos? Afinal, das duas, uma: ou se está a serviço dos velhacos ou ao serviço dos leitores.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Mínimo de R$ 619,21 é a boa nova do orçamento para 2012

O valor do salário mínimo terá um reajuste gordo, de 13,62%, a partir de janeiro de 2012, atingindo R$ 619,21. Esta é a proposta que o governo incluiu no Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) que acaba de enviar ao Congresso Nacional.


A correção obedece aos critérios da política acordada entre as centrais sindicais e o governo Lula. Combina a variação da inflação e do PIB. Desta forma, soma o crescimento de 7,49% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2010 à estimativa de que a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), índice aplicado nas negociações salariais dos sindicatos, fechará o ano em 5,7%.
Vitória dos trabalhadores


O governo avalia que cada R$ 1 de avanço no mínimo gera despesas de R$ 306 milhões ao governo. Assim, o salário mínimo de R$ 619,21 causará um impacto de R$ 22,6 bilhões nos gastos do governo. O mínimo corrige dois terços dos benefícios previdenciários.

A valorização do salário mínimo é o ponto mais positivo do orçamento para a classe trabalhadora. Beneficia não só os milhões de trabalhadores e trabalhadoras que recebem o piso como também os assalariados com remuneração superior, que conseguem arrancar reajustes salariais mais generosos com base na correção do piso.

O novo valor anunciado pelo governo também constitui uma vitória contra o pensamento conservador e de direita, que não se cansa de apontar os supostos riscos do aumento do salário para as contas públicas e a inflação, ao mesmo tempo em que silencia sobre as consequências perversas dos juros altos, cujo pagamento consome mais de 5% do PIB.

Milagre

Dados do Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE) indicam que mais de 16 milhões de domicílios brasileiros é habitado por famílias que conseguem o milagre de sobreviver com renda per capita situada na faixa compreendida entre meio a um salário mínimo.

Afinal, embora em crescimento, o valor real do salário mínimo, expresso através do seu poder aquisitivo, é baixo, inferior ao verificado antes da ditadura militar (que o arrochou) e claramente insuficiente em relação aos objetivos estabelecidos na Constituição. Esta determina que o "salário mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado, [deve ser] capaz de atender às suas necessidades vitais básicas [do trabalhador] e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, reajustado periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo" (Constituição da República Federativa do Brasil, capítulo II, Dos Direitos Sociais, artigo 7º, inciso IV).

Constituição


Para cumprir o preceito constitucional, segundo cálculo do Dieese, o salário mínimo necessário seria de R$ 2.293,31 em junho deste ano, montante que corresponde a 4,20 vezes o salário mínimo em vigor, de R$ 545,00 (o órgão considera o maior valor da ração essencial das localidades pesquisadas e uma família de quatro membros, dois adultos e duas crianças, sendo que estas consomem o equivalente a um adulto. Ponderando-se o gasto familiar, chega-se ao salário mínimo necessário).

A política de valorização do mínimo iniciada no governo Lula e mantida por Dilma busca aproximar o salário mínimo real do necessário, ou seja, do valor que corresponde ao preceito constitucional. É uma aproximação da lei e, antes de tudo, uma questão de justiça para com a classe trabalhadora.

Impactos na economia


Todavia, ao contrário do que apregoa o pensamento conservador, os impactos dos aumentos reais do salário mínimo (que já elevaram em quase dois terços o poder aquisitivo dos trabalhadores mais pobres) sobre a economia nacional são amplamente positivos. Foram apontados com razão como a principal causa do fortalecimento do mercado interno, que em muito contribuiu para amenizar os efeitos da crise mundial do capitalismo.

Entre os beneficiários da nova política inaugurada por Lula destacam-se os aposentados, que em sua maioria (cerca de 80%) sobrevivem à base do salário mínimo e alimentam a economia de milhares de pequenos municípios no interior do vasto território brasileiro. A experiência mostra que a valorização do trabalho é o melhor caminho para a efetivação de um novo projeto nacional de desenvolvimento fundado na soberania e na distribuição mais justa da renda.

Da Redação do Vermelho, com agências

EUA mantêm mil bases no exterior

Por Durval de Noronha Goyos, no sítio Pátria Latina:

Ao mesmo tempo em que sua dívida atingiu um montante equivalente ao PIB (Produto Interno Bruto), de US$ 14 trilhões, os EUA (Estados Unidos da América) mantêm nada menos do que mil bases militares no exterior, incluindo 268 na Alemanha e 124 no Japão, após 66 anos do término da 2ª Guerra Mundial.

Outros países recipientes da infame e devastadora presença norte-americana são Cuba, Paraguai, Colômbia, Iraque (mais de 100), Afeganistão (cerca de 80), Coreia do Sul, Austrália, Egito, Bahrain, Grécia e Romênia, dentre cerca de 70 Estados.

O custo militar dos EUA para o ano 2010 foi de cerca de US$ 800 bilhões, acrescidos de despesas extraordinárias colocadas no orçamento daquele mesmo ano pelo presidente Barack Obama no valor de US$ 1 trilhão, o que, no total, equivale a aproximadamente 13% do PIB do país!

Os gastos militares dos EUA representaram cerca de 45% dos gastos globais em 2010. Seus aliados despenderam aproximadamente 28% dos aportes em defesa no mesmo ano. Assim, os EUA e aliados, que são normalmente Estados clientes, hoje igualmente em situação de insolvência, responderam por 73% dos dispêndios militares globais em 2010.

No final de 2008, os EUA mantinham aproximadamente 550 mil soldados no exterior, excluídos os serviços dos mercenários utilizados em alguns países como no Iraque. Esse número é 10% superior ao de 1985, no auge da chamada Guerra Fria, o que demonstra que o complexo industrial-militar norte-americano encontrou justificativas para a manutenção e mesmo expansão do poderio bélico do país, ainda que em fase de distensão do quadro político internacional.

Hoje, a organização de comando das Forças Armadas dos EUA contempla o PACOM (Comando do Pacífico), que é utilizado para ameaçar a China; o EUCOM (Comando da Europa), que é estruturado para ameaçar a Rússia e a África; o CENTCOM (Comando Central), que é usado para ameaçar e intervir no Oriente Médio; o SOUTHCOM (Comando do Sul), criado em julho de 2008, logo após o anúncio das grandes descobertas do pré-sal no Brasil, para nos ameaçar no Brasil e bem assim aos povos pacíficos da América do Sul e Central.

O historiador inglês Paul Kennedy, no livro The Rise and Fall of the Great Powers, escrito em 1986, afirmou que o grande teste da longevidade do poderio hegemônico no mundo seria no futuro igualmente aplicável aos EUA. Esse teste consiste em saber, de um lado, se o país em questão consegue manter um equilíbrio razoável entre suas necessidades percebidas e os meios dos quais dispõe para custeá-las. De outro lado, o teste é relacionado com a capacidade de preservação das bases tecnológicas e econômicas de seu poderio.

Parece claro que em 2011, os EUA não conseguem passar pelos dois quesitos do teste. De fato, com a capacidade de endividamento esgotada e constrangido a emitir moeda para comprar os títulos de sua própria emissão, os EUA hoje dependem financeiramente de países como a China, o Brasil e a Rússia, que não seus aliados. Até quando tais países aceitarão financiar a manutenção de um complexo militar que os ameaça?

Ao comentar a queda do império romano, o grande Edward Gibbon, em seu clássico The decline and Fall of the Roman Empire, observou, em tradução deste articulista, que “o declínio de Roma foi o efeito inevitável de grandiosidade imoderada.

A prosperidade amadureceu o princípio da decadência; as causas da destruição foram multiplicadas pela extensão da conquista; e assim que o tempo ou os acidentes removeram os sustentáculos artificiais, o tecido estupendo cedeu ao seu próprio peso”.

As observações de Gibbon ajustam-se como uma luva à situação em que presentemente se encontram os EUA.

Congresso convoca Otavinho, da Folha

Do blog Desculpe a Nossa Falha:

Foi aprovado por unanimidade na Comissão de Legislação Participativa a realização de Audiência Pública na Câmara dos Deputados sobre a censura da Folha contra o blog Falha de S.Paulo. Nenhum deputado federal se manifestou contra a iniciativa. O requerimento do deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) prevê convites para representantes da Falha e da Folha falarem.

Da Falha, Pimenta vai convidar os irmãos-criadores do blog (Mário e Lino Ito Bocchini) e, da parte do jornal serão chamados para explicar publicamente no Congresso Nacional a censura Otavio Frias Filho (vulgo Otavinho, dono do jornal), Sérgio Dávila (editor-executivo), Taís Gasparian (advogada-censora da Folha) e Vinícius Mota (secretário de Redação).

“Vamos também convidar a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), a FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) e outras entidades para participarem dessa audiência”, discursou Pimenta agora há pouco. “É grave, além da censura o jornal pede dinheiro aos irmãos”, completou.

O deputado Edivaldo Holanda Jr. (PTC-MA), que presidia a sessão, parabenizou o deputado pela iniciativa, e sugeriu: “Vamos convocar a CNJ [Conselho Nacional de Justiça] para participar também, já que esse é um assunto que está nos tribunais”.

O deputado federal Fernando Ferro (PT-PE) também discursou na aprovação. “Esse processo de censura revela a intolerância da Folha e como eles dizem defender a liberdade de expressão mas, quando chega na hora deles, não resistem ao desejo de censurar. E olha que o humor, a paródia, até tornam a política até mais suportável”.

Nos próximos dias será marcada a data da audiência, que vai acontecer no Congresso Nacional. E, claro, fica a dúvida: quase um ano após cometer um ato inédito de censura no Brasil – que pode abrir uma jurisprudência terrível para toda a internet brasileira –, será que a Folha pela primeira vez terá coragem de colocar uma pessoa para defender sua posição abertamente?

De nossa parte estaremos lá, como sempre mostrando a cara, defendendo a mesma posição que defendemos desde o primeiro dia, e prontos pra debater seja com dono do jornal ou com quem for.

Um banqueiro vai mandar na Veja

Por Altamiro Borges

Na semana passada, a Abril anunciou o seu novo presidente executivo – que tomará posse em 26 de setembro. Fábio Barbosa, que presidia o conselho do Banco Santander, terá enorme poder. Além de comandar a “reestruturação financeira” da empresa – que registrou em 2010 uma receita líquida de R$ 3,028 bilhões –, ele cuidará dos negócios da famiglia Civita nos setores de mídia, gráfica e distribuição. Também integrará o conselho editorial das publicações do Grupo Abril, entre elas, da criminosa revista Veja.

Fábio Barbosa gosta de trabalhos “pesados”. Em 2007, ele comandou a fusão do Real com o Santander, assumindo a presidência do banco espanhol no Brasil. Neste processo traumático, milhares de bancários foram demitidos. Como lembra Paulo Salvador, diretor do Sindicato dos Bancários de São Paulo e da Rede Brasil Atual, o novo executivo do Grupo Abril é bom de conversa:

“Sorriso de banqueiro”

“Muito além do sorriso de banqueiro feliz com a vida, Fábio Barbosa esforçava-se para pregar ética no meio dos banqueiros... [Na sua gestão no Santander] os espanhóis se aproveitaram da liquidez na economia brasileira para remeter alguns bilhões de euros para a matriz”. As credenciais de executivo “hábil e eficiente” foram citadas por Roberto Civita como motivos para a sua contratação.

Na verdade, ambos já se conheciam há muito tempo. Barbosa integrou o conselho de administração do Grupo Abril entre março de 2004 e fevereiro de 2007. Como ex-agente do sistema financeiro, ele é um especialista em mercado de ações e a famiglia Civita tem um projeto antigo de ofertar ações. Em 2006, ela entrou com pedido de abertura de capital, mas o processo foi interrompido com a venda de 30% das ações para a Nasper, grupo de mídia da África do Sul conhecido por seu histórico racista.

O espectro da “profissionalização”

Ainda não dá para saber quais serão os principais impactos da contratação do banqueiro para o comando do Grupo Abril. O dono da empresa, Roberto Civita, afirma que o objetivo é puramente gerencial. “A sua vinda fortalecerá a Abril em todos os sentidos, marca um passo importante na profissionalização do grupo e assegura a manutenção dos nossos valores”. No mesmo rumo, o jornal Valor, após citar várias alterações gerenciais na empresa, garante que “a mudança visa a profissionalização”.

Com base na experiência de Fábio Barbosa na direção do Santander, é bom os trabalhadores do Grupo Abril ficarem espertos. Já no que se refere à linha editorial das publicações da famiglia Civita, só a vida vai provar se o tal discurso “ético” do ex-banqueiro servirá para alguma coisa. Afinal, a revista Veja abandonou totalmente esse objetivo e está mais suja do que pau de galinheiro.

“Por que não nos indignamos?”

No seu último artigo como colunista da Folha, Barbosa deixou implícito que é adepto da partidarização da mídia. Após criticar a corrupção no Brasil, ele repetiu o recente bordão de setores da direita: “Por que não nos indignamos?”. Para o novo integrante do covil do conselho editorial da Veja, “a imprensa e a opinião púbica têm importante papel nessa jornada, mantendo a chama acesa e apontando novos caminhos”. Além dos trabalhadores da empresa, a sociedade também deve ficar esperta!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Murdoch em Oslo

Entre as explicações para a grande tragédia de Oslo –  anúncio sangrento de que o nazismo, com outros nomes, está de volta –, uma não mereceu maior atenção dos analistas: a influência dos grandes meios de comunicação, como os controlados por Rupert Murdoch, xenófobos, anti-islâmicos, defensores de uma “Europa limpa e pura”.

Não é difícil associar o processo de homogeneização dos meios de comunicação do mundo inteiro – na defesa de ideias como as de que há uma guerra de civilizações, entre o Islã e o Ocidente Cristão – e o crescimento global de organizações de extrema direita. Melanie Phillips, no Daily Mail, resumiu a situação: “Brejvik talvez seja um psicopata desequilibrado, mas o que emerge agora de seu ato atroz é o delírio de uma cultura ocidental que perdeu sua razão”.

Por mais voltas que dermos à inteligência, na busca de profundas e complexas interpretações para essa tendência ao suicídio da civilização contemporânea, sempre chegaremos à ideia mais simples: o capitalismo apodreceu o que restava de solidariedade no processo de civilização ocidental ao universalizar o american dream, fundado na competição e no êxito individual, de qualquer forma. Quando um líder chinês, Deng Xiaoping, proclama que é bom enriquecer, o calvinismo se une ao taoísmo para sepultar Mao Tsé-tung e execrar Marx.

O grande perigo da infecção que, sob a Alemanha de Hitler, se identificou no nazismo é a combinação do instinto das feras – que lutam pela supremacia em seu espaço de caça – com a aparente lógica científica. O racismo é o mais perfeito “apodrecimento da razão”, conforme a definição de Lukács. Investigações recentes sobre a inteligência revelam que não há a menor diferença da capacidade mental entre todas as etnias do mundo: um negro africano tem, em média, o mesmo QI de qualquer nórdico. O que pode diferenciá-los, como indivíduos, e não como grupos étnicos, é a educação, isto é, o treinamento intelectual.

Desde que as sociedades políticas se organizaram, a linguagem passou a servir como instrumento de convencimento a favor do poder e como arma na resistência contra os opressores. A retórica está a serviço do poder, legítimo ou não; a crítica serve à resistência libertária. Como em tudo o mais, o melhor exemplo é grego: os oradores se dividiam, na praça pública, em defesa dos governantes ou contra eles. E os outros meios de comunicação – textos literários, ensaios filosóficos e, sobretudo, o teatro – iam mais além, na crítica ou no elogio ao sistema político de então.

As coisas não mudaram muito em sua essência, mas a tecnologia ampliou a força da palavra – e da imagem. A maioria dos mais poderosos veículos é controlada pelo poder financeiro, e tem servido para submeter governantes aos seus interesses. A técnica é impor o pensamento único e exacerbar a violência, a fim de manter os povos submissos, reduzir os homens à condição de trabalhadores dóceis e consumidores vorazes.
Murdoch é hoje o símbolo da manipulação da verdade e das ideias, a serviço do fundamentalismo mercantil.

A crise política de 1929 fez com que o capitalismo alemão financiasse Hitler e seus criminosos. E mediante o controle dos meios de comunicação o nazismo envenenou parte do povo alemão com o mito da superioridade racial. A crise atual do capitalismo neoliberal financiou Murdoch e seus 200 jornais no mundo – mas ele não está só.

O ódio ao imigrante, um dos produtos desse jornalismo sórdido, deu origem a Brejvik, e alimenta a direita, da Alemanha à Inglaterra, dos Estados Unidos a São Paulo e ao Rio Grande do Sul. Os muçulmanos são os novos judeus da Europa, enquanto, para a extrema direita nacional, os negros, nordestinos e mestiços são os odiados “muçulmanos” do Brasil.

Fonte: Mauro Santayana - Revista do Brasil

A era do preconceito

Nesta era da internet a informação é instantânea. A desinformação também. A notícia sobre os trágicos atentados de Oslo chegou-me enquanto eu navegava pelos sites que costumo frequentar para me atualizar sobre o que ocorre no mundo. Pus-me imediatamente em busca dos detalhes. Abri a página de uma respeitada revista internacional.

Além de alguns pormenores, obtive também a primeira explicação, que veria em seguida nas versões eletrônicas dos jornais brasileiros, segundo a qual o perpetrador dos atos terríveis era alguém a serviço de um movimento fundamentalista islâmico. Dois dias depois do acontecido, quando ficou claro que, na verdade, se tratava de um extremista de direita que pertenceu a movimentos neonazistas, ainda é possível encontrar, mesmo com ressalvas (porque a internet comete essas “traições”), a mesma interpretação apressada, baseada no preconceito contra muçulmanos.

No caso da revista internacional, a interpretação não se limitou a essa caracterização genérica. Deu “nome e endereço” do facínora, que seria um iraquiano curdo ligado a sunitas fanáticos, vivendo no exílio desde 1991. O articulista foi mais longe. Apontou as possíveis motivações do crime hediondo, que estariam relacionadas com a presença de tropas norueguesas no Afeganistão e com a percepção, por parte dos tais fundamentalistas, da cumplicidade da imprensa norueguesa com caricaturas ofensivas ao Profeta.

Evidentemente, tudo isso era muito plausível, à luz do ocorrido no 11 de Setembro, descartando-se as hipóteses conspiratórias sobre aquele trágico episódio. Mas era igualmente plausível a hipótese, que acabou confirmada, de que se tratasse de outro tipo de fundamentalista, do gênero “supremacista branco”. O alvo do ataque era um governo da esquerda moderada, visto como tolerante em relação a imigrantes e aberto ao diálogo com as mais diversas facções em situações conflituosas, inclusive no Oriente Médio. Para sublinhar a natureza ideológico-religiosa do ato de violência, o terrorista visou também a juventude do partido, pacificamente acampada em uma ilha.

Algo semelhante havia ocorrido seis anos antes do atentado contra as Torres Gêmeas, quando outro fanático havia feito explodir um prédio público na cidade de Oklahoma, nos Estados Unidos. Daquela feita, o Estado – e tudo o que ele simboliza como limitação ao indivíduo, percebido como independente e antagônico em relação à sociedade – foi o objeto da ira destruidora. Também naquela época, quando a Al-Qaeda ainda não havia ganhado notoriedade, as primeiras análises apontaram para os movimentos islâmicos.

Não ponhamos, porém, a culpa na internet. Ela apenas faz com que visões baseadas em preconceitos, que não deixam de refletir certo tipo de fundamentalismo, se espalhem mais rapidamente, com o risco de gerarem “represálias” contra o suposto inimigo. Felizmente, neste caso, a eficiente ação da polícia norueguesa impediu que isso ocorresse. Mas o risco existe de que, em outras situações, as tragédias se multipliquem, por vezes com o apoio de movimentos marginais inconsequentes, que buscam tirar partido dos eventos, assumindo responsabilidade por algo que não fizeram.

Não é possível ignorar que, no caso da invasão do Iraque, o preconceito, e não apenas a manipulação deliberada (que também existiu), estava por trás de vinculações absurdas, usadas para justificar decisões que causaram centenas de milhares de vítimas (há quem fale em 1 milhão). O suposto elo entre Saddam Hussein e o terrorismo nunca se comprovou, da mesma forma que eram falsas as alegações quanto à posse por Bagdá de armas de destruição em massa. Num primeiro momento, contudo, essas justificativas foram aceitas pela maioria da população norte-americana.

Não sejamos inocentes. Interesses econômicos e políticos, e não apenas preconceitos, motivaram a decisão de atacar o Iraque. Mas o pano de fundo de uma visão particularista do mundo, em que “diferente” se torna sinônimo de “inimigo”, ajuda a criar o caldo de cultura de que se valem os líderes para obter, das populações que governam, o indispensável apoio às suas custosas aventuras bélicas.

A Noruega não corre esse risco. Como disse o primeiro-ministro Stoltenberg, o terrorismo insano não destruirá a democracia do país nórdico, que, ademais, se tem notabilizado por importantes iniciativas em favor da paz. Aliás, é o ódio às pessoas que promovem a paz e o entendimento, além da intolerância e do fanatismo, que está na raiz desse bárbaro atentado. Infelizmente, não só o orgulho, como queria a romancista inglesa, mas também o ódio costuma ser um companheiro inseparável do preconceito.