quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
História da intervenção da Cablevisión está mal contada
Fatos em foco
Hamilton Octavio de Souza - BF
Comissão paulista
Por iniciativa do deputado Adriano Diogo (PT), a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou a constituição de uma Comissão da Verdade para apurar os casos de tortura, morte e desaparecimento no Estado e contribuir com a Comissão Nacional da Verdade. A comissão paulista será composta por cinco deputados, vai funcionar a partir de março de 2012 e terá dois anos para apresentar suas conclusões. Uma importante conquista!
Cadeia lotada
O ex-presidente da França, Jacques Chirac, de 79 anos, foi condenado a dois anos de prisão pela Justiça francesa. Crime: quando era prefeito de Paris, nos anos 1990, criou 21 empregos fictícios, pagos com o dinheiro público, para remunerar funcionários do seu partido político. Imagine se a Justiça daqui fosse mandar para a cadeia todos os vereadores, prefeitos, governadores, deputados e senadores que fazem a mesma coisa no Brasil!
Concentração
A fusão de dois gigantes do suco de laranja, Citrovita e Citrosuco, aumenta ainda mais a força do oligopólio nesse setor industrial sobre os produtores de laranja e o mercado consumidor. A nova empresa passa a controlar 45% da produção de suco. É cada vez mais acintosa a omissão do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e a ausência de políticas públicas para promover a desconcentração empresarial. Quem paga é o trabalhador!
Invasão bárbara
No dia 15 de dezembro os Estados Unidos declararam formalmente o fi m da guerra contra o Iraque e a retirada de seus últimos soldados. Após oito anos e oito meses desde a invasão, eles deixaram um saldo de quase 119 mil mortos, a grande maioria de civis iraquianos (104 mil), além de 4,4 mil soldados estadunidenses. Uma agressão com justificativa falsa e brutal destruição. Uma tragédia para milhares de pessoas que perderam familiares e amigos.
Lucro fácil
As fábricas de diplomas universitários do Brasil estão em acelerado processo de concentração empresarial, especialmente porque a liberação do ensino à distância potencializou as margens de lucro muito acima dos ganhos obtidos no ensino presencial. A fusão dos grupos Kroton e Unopar dará um faturamento acima de R$ 1 bilhão em 2011, a maior parte proveniente dos 228 mil alunos do ensino à distância. O MEC assiste de camarote!
Direitos humanos
Importante documento para quem se interessa em acompanhar as violações e as lutas em defesa dos direitos humanos, no Brasil, o relatório anual produzido pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos já está disponível no site www.social.org.br – com análises sobre a situação nas mais diferentes áreas de atividades, desde as mortes no campo até a exploração do trabalho infantil. Um documento necessário!
Comunistas
No dia 16 de dezembro completaram-se 35 anos do episódio conhecido como a Chacina da Lapa, quando agentes da repressão, no governo Geisel, assassinaram três dirigentes do PCdoB – Pedro Pomar, Angelo Arroyo e João Batista Drummond – durante reunião do comitê central do partido, na Lapa, em São Paulo. Por iniciativa do vereador Jamil Murad, a Câmara Municipal de São Paulo rendeu homenagem aos mártires comunistas.
Privatização
O governo Dilma, além de continuar firme no processo de privatização dos aeroportos, contra a vontade dos trabalhadores, agora introduziu uma cláusula bastante questionável no edital de licitação: a exigência de participação do capital estrangeiro, sob a alegação de experiência na gestão de grandes aeroportos. A estatal brasileira Infraero, que tem essa capacidade operacional, ficará com apenas 49% de participação.
Desemprego
Pesquisa divulgada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo indica que o setor industrial fechou 46,5 mil postos de trabalho no mês de novembro e que deverá ter no mês de dezembro uma variação negativa de 2% em relação ao ano passado. Agora em dezembro foram registradas demissões em massa também no setor bancário e de professores de escolas privadas. A crise do emprego avança para 2012!
A Privataria Tucana
Editorial da edição 460 do Brasil de Fato
Dia 15 de dezembro, o ex-presidente francês Jacques Chirac foi condenado a dois anos de prisão, culpado por “desvio de fundos públicos, abuso de confiança e aquisição ilícita de interesses”. Aos 79 anos, é o primeiro presidente francês condenado por um tribunal correcional.
Nessa mesma semana, em menos de 48 horas após o lançamento, esgotaram- se as 15 mil cópias do livro A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr. O livro está sendo considerado a mais completa investigação jornalística sobre as privatizações ocorridas no governo de Fernando Henrique Cardoso (1995- 2002) e, especialmente, a roubalheira promovida por um grupo de familiares e de pessoas que circulam em torno do então ministro José Serra (PSDB).
Após doze anos de pesquisas, o autor conseguiu provas documentais, e abundantes, sobre as roubalheiras ocorridas com as privatizações. Um saque do patrimônio público que, no cenário internacional, deve ter perdido apenas para a máfia russa, após o desmonte da URSS.
De forma clara e com incomum habilidade o jornalista expõe os complexos e tortuosos caminhos que a riqueza surrupiada do povo brasileiro percorreu até os chamados paraísos fiscais e, depois, retornou ao país legalizada. Ou melhor, lavada e cheirosa, como quis aparecer a elite tucana nas ultimas eleições presidenciais. As conexões de um governo que dilapidou o patrimônio público com os grupos privados que foram beneficiados, juntamente com a complacência da mídia e do conluio com os que operam a lavagem de dinheiro, ficam completamente expostas no livro.
Mas, além da roubalheira, A Privataria Tucana escancara o jeito de fazer política de José Serra. A elaboração de dossiês para chantagear seus inimigos, tanto os do seu partido quanto os adversários de outros partidos, se constitui num dos alicerces de fazer política desse tucano. Enquanto, com apoio da mídia, cultivava a imagem de austero e competente nos cargos públicos que ocupava, seus arapongas se encarregavam da fazer com que os interesses e objetivos do Capo fossem alcançados. O caso Lanus que fez a Roseana Sarney (PFL) desistir da campanha presidencial de 2002, exemplifica a prática desse conluio.
Além de documentar a roubalheira ocorrida nas privatizações, o livro arrasta para o olho de furacão o parlamento, a mídia e o Ministério Público. Onde estão aqueles parlamentares que, desde 2003 quando apearam do governo federal, ficaram apenas brandindo a espada da moralidade pública e contra a corrupção? Os parlamentares, como o senador Álvaro Dias (PSDB) e o deputado federal Roberto Freire (PPS), que a cada mentira publicada pela revista Veja pediam a instauração de uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) contra os movimentos populares, sindicais e ONGs, irão agora apoiar a CPI das privatizações? O jargão que mais usavam, “quem não deve não teme”, não vale mais? E os tucanos, continuarão reféns da ala que chafurda na lama e idealizou a campanha presidencial do ano passado, e que confabula com a extrema direita e com os setores mais reacionários da sociedade brasileira?
É hora do Parlamento brasileiro tentar, ao menos, diminuir a nódoa que criou ao sepultar – com ajuda do PT, de acordo com o livro – a CPMI do Banestado. Ela foi instalada no governo Lula, em 2003, e concluída sem punir os responsáveis pela evasão de mais de 84 bilhões de dólares do país para os paraísos fiscais, entre 1996 e 2002.
É instigante ver, frente ao sucesso de vendas do livro, como a imprensa burguesa toma partido e não hesita em enlodar-se. Primeiro, com um ruidoso silêncio sobre o livro e seu sucesso. Depois, ensaiando uma defesa dos acusados e acusando o autor do livro. Agora retirando o livro das listas dos mais vendidos na semana. O PIG (Partido da Imprensa Golpista), capitaneado pelos jornais O Globo, Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e pela revista Veja, acreditam que ao esconder a realidade ela deixa de existir. A Rede Globo tentou o mesmo no início da Campanha das Diretas Já, em 1984. Deu no que deu.
O livro escondido pelo PIG continua sendo um sucesso de vendagem e atesta a necessidade de democratizar a comunicação em nosso país. É hora do governo Dilma atender aos anseios da população e fazer a lei que democratize a comunicação brasileira.
Preocupante é o silencio do Procurador- Geral da República, e chefe do Ministério Público Federal, Roberto Gurgel, sobre as denúncias do livro. O livro apresenta provas documentais de crimes cometidos e que exigem do representante da sociedade civil, o Ministério Público, um posicionamento sobre os fatos ali apresentados.
No governo de FHC, Geraldo Brindeiro, que ocupava o cargo que hoje é de Roberto Gurgel, ficou conhecido com o apropriado apelido de “Engavetador Geral da República”. Esperamos que o governo Dilma, que dá mostras de não pactuar com qualquer forma de corrupção, não deixe essa figura ressuscitar.
A França acaba de dar uma amostra de que o acerto de contas com as praticas condenáveis, exercidas por quem quer que seja, fazem bem à democracia e ao país. O livro escondido pelo PIG certamente nos ajudará a trilhar um caminho que abale a impunidade, já histórica, dos crimes cometidos contra o país e o povo brasileiro.
Maia vai instalar CPI da Privataria?
Dia desses, debatia com alguns tuiteiros a possibilidade de a CPI da Privataria Tucana ser enterrada num grande acordo entre tucanos e petistas. Internautas que defendem o governo de forma incondicional ficaram ofendidos. Aí, lembrei o episódio (narrado no livro de Amaury Ribeiro Jr.) do acordo entre parlamentares do PT e do PSDB pra encerrar a CPI do Banestado sem alardes e sem escândalos, em 2003.
Não acho impossível que um outro acordo desses seja costurado ou desejado por alguns “pragmáticos” do PT. Mas tenho certeza que, se fizer isso, o partido pagará um preço muito alto. Talvez, mais alto do que na Reforma da Previdêcia no início do governo Lula ou mesmo na “Crise do Mensalão” em 2005. Naqueles dois episódios, o PT e o governo sofreram desgaste, houve defecções de parlamentares que seguiram para o PSOL. Mas boa parte da ”base organizada” petista e lulista (falo de sindicatos, movimentos sociais e partidos) seguiu a apoiar o governo. Viu nos episódios fatos graves, mas deu o desconto: era o preço a se pagar (será?) para obter “governabilidade”. As concessões (e os erros) de Lula foram compensados por resultados concretos que melhoraram a vida de milhões de brasileiros.
Agora, é diferente. O livro de Amaury traz à tona denúncias graves contra os maiores adversários do lulismo. Não são críticas no vazio. Mas fatos e documentos, a mostrar o percurso suspeito de dinheiro rumo a contas em paraísos fiscais. A filha de Serra e amigos muito próximos do tucano estão citados no livro. Serra recusa-se a falar sobre os fatos. Tenta desqualificar o livro (“lixo, lixo, lixo”, balbuciou para as câmeras de TV).
A imprensa serrista também se recusa a falar sobre o livro. De forma didática, nas duas últimas semanas, ficou desmonstrada a hipocrisia da mídia que cobra “moralidade pública” desde que isso não inclua o Serra… O PT também não fez muito alarde. Até porque parte do partido não sai bem da história (Amaury narra a guerra interna no comitê petista em 2010, que teria incluído parceria de petistas com a “Veja”, para atingir outros petistas).
Coube ao deputado Protógenes Queiroz (PCdoB/SP), um franco atirador com fama de “doido”, botar o livro debaixo do braço e sair pedindo assinaturas para uma CPI da Privataria. Mais de duzentos deputados assinaram. A ‘Veja”, a “Folha”, os mervais e outros bossais tentaram desqualificar Amaury. Ainda assim, mais de 200 deputados assinaram. É a força da internet: dos blogs “sujos” e das redes sociais… Por isso, falei que a CPI é uma vitória dos “sujos” e “doidos”.
Nessa quarta-feira, Protógenes entregou o pedido de CPI ao presidente da Câmara. Marco Maia (PT-RS) diz que é preciso conferir as assinaturas e, lá por fevereiro de 2012, quem sabe, pode ser instalada a CPI.
Hum…
Natal, Reveillon e férias de janeiro. Os tucanos ganharam 45 dias para negociar o enterro da CPI. Emissários de banqueiros, políticos e empresários vão conversar muito nos próximos dias… Dilma já disse que CPI só se faz “em casos extremos”. Governo não quer marola nem confusão. Quer administrar a economia e gerar emprego. Isso até se compreende.
Milícias no campo miram nas lideranças
Os gastos públicos são uma ameaça? Para quem?
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
ADPREV finalmente em Feira de Santana
Terceira carta às esquerdas
Por Boaventura de Sousa Santos
Fonte: Agência carta Maior
As novas mobilizações e militâncias políticas por causas historicamente pertencentes às esquerdas estão sendo feitas sem qualquer referência a elas (salvo talvez à tradição anarquista) e muitas vezes em oposição a elas. Isto não pode deixar de suscitar uma profunda reflexão. Essa reflexão está sendo feita? Tenho razões para crer que não
Quando estão no poder, as esquerdas não têm tempo para refletir sobre as transformações que ocorrem nas sociedades e quando o fazem é sempre por reação a qualquer acontecimento que perturbe o exercício do poder. A resposta é sempre defensiva. Quando não estão no poder, dividem-se internamente para definir quem vai ser o líder nas próximas eleições, e as reflexões e análises ficam vinculadas a esse objetivo.
Esta indisponibilidade para reflexão, se foi sempre perniciosa, é agora suicida. Por duas razões. A direita tem à sua disposição todos os intelectuais orgânicos do capital financeiro, das associações empresariais, das instituições multilaterais, dos think tanks, dos lobbistas, os quais lhe fornecem diariamente dados e interpretações que não são sempre faltos de rigor e sempre interpretam a realidade de modo a levar a água ao seu moinho. Pelo contrário, as esquerdas estão desprovidas de instrumentos de reflexão abertos aos não militantes e, internamente, a reflexão segue a linha estéril das facções.
Circula hoje no mundo uma imensidão de informações e análises que poderiam ter uma importância decisiva para repensar e refundar as esquerdas depois do duplo colapso da social-democracia e do socialismo real. O desequílibrio entre as esquerdas e a direita no que respeita ao conhecimento estratégico do mundo é hoje maior que nunca.
A segunda razão é que as novas mobilizações e militâncias políticas por causas historicamente pertencentes às esquerdas estão sendo feitas sem qualquer referência a elas (salvo talvez à tradição anarquista) e muitas vezes em oposição a elas. Isto não pode deixar de suscitar uma profunda reflexão. Essa reflexão está sendo feita? Tenho razões para crer que não e a prova está nas tentativas de cooptar, ensinar, minimizar, ignorar a nova militância.
Proponho algumas linhas de reflexão. A primeira diz respeito à polarização social que está a emergir das enormes desigualdades sociais. Vivemos um tempo que tem algumas semelhanças com o das revoluções democráticas que avassalaram a Europa em 1848. A polarização social era enorme porque o operariado (então uma classe jovem) dependia do trabalho para sobreviver mas (ao contrário dos pais e avós) o trabalho não dependia dele, dependia de quem o dava ou retirava a seu belprazer, o patrão; se trabalhasse, os salários eram tão baixos e a jornada tão longa que a saúde perigava e a família vivia sempre à beira da fome; se fosse despedido, não tinha qualquer suporte exceto o de alguma economia solidária ou do recurso ao crime. Não admira que, nessas revoluções, as duas bandeiras de luta tenham sido o direito ao trabalho e o direito a uma jornada de trabalho mais curta. 150 anos depois, a situação não é totalmente a mesma mas as bandeiras continuam a ser atuais.
E talvez o sejam hoje mais do que o eram há 30 anos. As revoluções foram sangrentas e falharam, mas os próprios governos conservadores que se seguiram tiveram de fazer concessões para que a questão social não descambasse em catástrofe. A que distância estamos nós da catástrofe? Por enquanto, a mobilização contra a escandalosa desigualdade social (semelhante à de 1848) é pacífica e tem um forte pendor moralista denunciador.
Não mete medo ao sistema financeiro-democrático. Quem pode garantir que assim continue? A direita está preparada para a resposta repressiva a qualquer alteração que se torne ameaçadora. Quais são os planos das esquerdas? Vão voltar a dividir-se como no passado, umas tomando a posição da repressão e outras, a da luta contra a repressão?
A segunda linha de reflexão tem igualmente muito a ver com as revoluções de 1848 e consiste em como voltar a conectar a democracia com as aspirações e as decisões dos cidadãos. Das palavras de ordem de 1848, sobressaíam liberalismo e democracia. Liberalismo significava governo republicano, separação ente estado e religião, liberdade de imprensa; democracia significava sufrágio “universal” para os homens. Neste domínio, muito se avançou nos últimos 150 anos. No entanto, as conquistas têm vindo a ser postas em causa nos últimos 30 anos e nos últimos tempos a democracia mais parece uma casa fechada ocupada por um grupo de extraterrestres que decide democraticamente pelos seus interesses e ditatorialmente pelos interesses das grandes maiorias. Um regime misto, uma democradura.
O movimento dos indignados e do occupy recusam a expropriação da democracia e optam por tomar decisões por consenso nas sua assembleias. São loucos ou são um sinal das exigências que vêm aí? As esquerdas já terão pensado que se não se sentirem confortáveis com formas de democracia de alta intensidade (no interior dos partidos e na república) esse será o sinal de que devem retirar-se ou refundar-se?
Amauri criou uma CPI em 06 dias
Brasil 2012
Perspectivas políticas e uma crise econômica no meio do caminho. Que venha 2012, um ano que bem poderia entrar para a história como aquele que encerrou uma década de transição da eterna agenda de estabilização para uma nova agenda de mudanças e desenvolvimento.
Antonio Lassance - Carta Maior
A crise, a política e as políticas públicas
O que será do ano de 2012?
Reverter os impactos da crise internacional que têm feito a economia empacar será a questão número um da agenda de 2012. Os riscos advindos dessa crise abrem uma oportunidade para a atual presidência: há condições objetivas para uma transição da eterna agenda de estabilização para uma nova agenda de mudanças e desenvolvimento.
No Congresso, debates e decisões importantes podem levar o Brasil a um novo patamar de financiamento da provisão de suas políticas públicas fundamentais. Ou seja, pode vir mais dinheiro para a educação, a saúde, a segurança pública, a previdência e a assistência social.
A disputa eleitoral para as prefeituras pode premiar os partidos da base governista, mas fragmentará sua coalizão nacional.
A oposição tentará sobreviver a mais uma estação do longo inverno a que foi submetida, há uma década, desde que perdeu as eleições presidenciais de 2002.
O enfrentamento à crise e uma nova fase para o governo
O governo deve fazer as contas para viabilizar um esforço concentrado, turbinando o investimento em programas de infraestrutura e abastecendo melhor as políticas sociais.
Concretamente, no primeiro trimestre se deve ver um aprofundamento da inflexão da política macroeconômica, para livrar o país de uma recessão. Entre suas opções estão a redução dos encargos da dívida e os pacotes de estímulo à produção e ao consumo.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o “Minha Casa, Minha Vida” são apostas líquidas e certas. Significam injeção na veia da economia, com uma estrutura de implementação já organizada.
A depender do nível e da rapidez com que isso ocorra, será possível criar uma folga fiscal também para garantir recursos extra que subsidiem uma pauta ousada de compromissos com políticas fundamentais que estão em pleno processo de redefinição (no Congresso) de suas fontes de financiamento.
Como é comum aos mandatos presidenciais, enquanto o primeiro ano é dedicado a arrumar a casa, o segundo é quando precisam mostrar a que vieram.
Em 2012, ficarão claros os programas que deram certo e podem deslanchar, os que patinaram e precisarão ser ajustados e os que não se sustentam e serão abandonados em favor de outras prioridades.
O Brasil Sem Miséria, que mostrou avanços substantivos em 2011, trará dados ainda mais palpáveis e em maior volume, consolidando também quase uma década de Bolsa Família na estrutura de políticas públicas do Estado.
Eleições municipais: governo, oposição e coalizões
Muitas das ações de enfrentamento à crise têm interface com questões municipais que serão alvo prioritário das campanhas para prefeito e vereador. É o caso das obras da Copa, das políticas de mobilidade urbana, saneamento, gestão de resíduos sólidos, habitação, transporte e apoio à agricultura familiar.
Com a popularidade da presidenta em alta, a campanha de 2012 tende a ser o desfile de candidatos que se insinuam, diante dos eleitores, como as melhores opções para trazer políticas federais, seus programas e recursos para cada município.
Um cenário de crescimento com estabilidade tende a fazer com que os partidos da coalizão governista estejam melhor preparados para enfrentar as eleições, mas em um quadro de total fragmentação de sua coalizão, cada vez mais um mosaico.
A oposição continuará mergulhada em sua crise ao cubo: crise de projeto (sem discurso para as eleições), crise de sua coalizão estilhaçada e crise de lideranças nacionais. A oposição se tornou um projeto de passado, e não uma proposta de futuro. Vive da nostalgia de uma época da qual a maioria do povo brasileiro não sente nenhuma saudade.
DEM e PPS agora vivem às turras com os tucanos. Reclamam de serem tratados como primos pobres, sócios menores de uma empresa incapaz de ganhar eleições presidenciais há uma década.
Tanto a sangria que levou ao racha do DEM, com a formação do PSD, quanto os flertes entre os partidos da oposição e os da base (inclusive com o PT) nas eleições municipais de 2012 indicam que a principal disputa não será entre governo e oposição, mas dos partidos da base entre si. Cada qual quer sair maior das eleições para prefeito e se cacifar para a coalizão de 2014. Principalmente as eleições nas capitais devem retratar o fenômeno.
Para sobreviver, a oposição buscará aproveitar as rebarbas dessa fragmentação. Onde não tiver chances de liderar, fará de tudo para decidir o resultado dessas brigas. Com fôlego menor a cada pleito, deverá priorizar as cidades em que disputa a reeleição.
Mensalão versus privataria tucana
A crise de longo prazo dos partidos de oposição reforçará outro aspecto de nossa política: o que reserva à velha mídia o papel de principal partido de oposição no Brasil - função aliás já assumida publicamente por dirigentes de suas associações. Se há um lugar onde a oposição é forte, é no setor que detém concessões públicas de rádio e TV, feitas décadas atrás, quando os dinossauros dominavam a terra.
O ano de 2012, que marcará 10 anos da eleição de Lula e do fim do governo FHC, será o momento do embate de duas narrativas contrapostas: a do mensalão, de um lado, e a da “privataria tucana”, de outro.
É claro e cristalino que a velha mídia usará o calendário de julgamento do processo do Mensalão, no Supremo Tribunal Federal (STF), como bigorna para malhar o PT e também como troco às denúncias elucidadas no livro “A Privataria Tucana”.
O mais importante ainda está por vir
Todas essas questões são de grande importância. Mas o fundamental, muitas vezes, passa ao largo das questões mais palpitantes e das manchetes mais escandalosas, como a da ciranda de ministros sucessivamente alvejados e derrubados por denúncias.
Entre março e junho, Executivo e Congresso podem decidir cinco grandes batalhas decisivas para a vida de todos os brasileiros. São elas a partilha dos recursos do pré-sal, a regulamentação da Emenda 29 (que estabelece os recursos da saúde), a aprovação do Plano Nacional de Educação, o novo marco legal da política ambiental (Código Florestal) e a definição das novas regras de cálculo do Fundo de Participação dos Estados.
Todas dizem respeito a algumas perguntas essenciais: para que e para quem serve o Estado? Quão desiguais nós somos e o que fazer para deixarmos de sê-lo?
Hora de fechar pra balanço
O cenário tendencial de 2012 conspira para uma inversão de prioridades em relação a 2011.
diminuição dos encargos com a dívida, requisito para a travessia da crise, pode levar a uma mudança de peso: a transição de uma agenda de estabilização para uma agenda de mudanças orientadas por um novo padrão de desenvolvimento. Transição que na presidência Lula demorou do primeiro para o segundo mandato para ter início, mas poderia ser abreviada na presidência Dilma entre o primeiro e o segundo ano de governo.
Basta que se perceba que as condições objetivas estão dadas e que se aguente com paciência a gritaria de setores rentistas e seus agregados, minoritários, elitistas, mas muito barulhentos. É fácil identificá-los. São os que acham que investimento em assistência social é clientelismo; que mais dinheiro para a saúde é gastança; que prioridade para a educação deve ser na base de muito discurso e pouco recurso. Esse pessoal tem ultimamente patrocinado editoriais dizendo que a desaceleração da economia é algo benéfico.
Mesmo que uns não queiram, o governo pode se ver forçado a cumprir o programa pelo qual foi eleito em 2010. Tanto por força das circunstâncias, por ter em mãos argumentos que justifiquem a transição sem que sequer pareça ousadia demais, quanto por pressão de setores sociais com ressonância política.
Que venha 2012, um ano difícil, mas que bem poderia entrar para a história como aquele que encerrou uma década de transição e virou definitivamente a página do Brasil do Real, que vivia em função de sua moeda, para o Brasil de todos, que passou a viver em função dos brasileiros.
Disputado a tapa: 120 mil exemplares
terça-feira, 20 de dezembro de 2011
CELAC e o jornalismo
Por Beto Almeida - Brasil de Fato
Quando Vargas assinava a lei da Petrobras, a imprensa brasileira dizia ser absurdo criar empresa de petróleo num país que, segundo os EUA, não tinha petróleo.
Agora, quando presidentes de 33 países, em Caracas, decidem criar a Comunidade dos Estados da América Latina e do Caribe (Celac) sem a presença dos EUA e enterrando a OEA, a mídia brasileira sonegou a informação objetiva aos brasileiros.
A Celac nasce lastreada no diálogo e na busca do desenvolvimento e da integração de países historicamente submetidos à exploração imperial. Dos 100 anos de solidão, começamos a construir os 100 anos de cooperação.
Muitas medidas que fomentam a integração já estão em marcha há anos. A Alba, a Petrosul, a Telesur, o Banco do Sul, a Unasur. O Brasil deu também sua contribuição ao criar a Universidade da Integração Latino Americana (Unila), que irá receber 500 professores e 5 mil estudantes hermanos, um investimento público nosso. Ajuda a reduzir assimetrias. A política externa de Lula-Amorim, com o seu bordão “temos que crescer todos”, espalhou investimentos públicos, via BNDES, na construção de obras indispensáveis na região. O porto de Mariel em Cuba, uma hidrelétrica na Nicarágua, recursos de Itaipu para industrializar o Paraguai, metrô e estaleiro na Venezuela são apenas alguns dos exemplos. Tudo alicerça a Celac.
EUA, os grandes derrotados, sonegam a informação: está em marcha a integração soberana e solidária. Na agenda, buscam-se soluções democráticas para questões históricas: a saída ao mar para a Bolívia, o fim do bloqueio contra Cuba, tirar a Colômbia da agenda bélica dos EUA, recuperar as Malvinas Argentinas. A caminhada será dura. Haverá sabotagens imperiais. Por isso, falta impulsionar também a integração informativo-cultural, encorajando-se a TV Brasil a retratar mais os rumos assumidos pelo Itamaraty. Afinal, 33 presidentes criam uma Celac, rejeitam a OEA e criam rumo novo para o continente. E isto não é notícia? É o conhecido jornalismo da desintegração. Que a Celac traga também teoria e prática de um jornalismo de integração.
América Latina 2011
Aécio:"estágio na oposição". Bebeu?
Termina, no Iraque, outra guerra que os EUA não vençeram
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Direitos, humanos
É natal: Esquerda e consumismo. por Pasolini
(Carta Maior;2ª feira; 19/12/ 2011)
Hora de rever as privações
Mauro Santayana - Carta Maior
Se outros efeitos não causar à vida nacional o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., suas acusações reclamam o reexame profundo do processo de privatizações e suas razões. Ao decidir por aquele caminho, o governo Collor estava sendo coerente com sua essencial natureza, que era a de restabelecer o poder econômico e político das oligarquias nordestinas e, com elas, dominar o país. A estratégia era a de buscar aliança internacional, aceitando os novos postulados de um projetado governo mundial, estabelecido pela Comissão Trilateral e pelo Clube de Bielderbeg. Foi assim que Collor formou a sua equipe econômica, e escolheu o Sr. Eduardo Modiano para presidir ao BNDES - e, ali, cuidar das privatizações.
Jabor, Josias, Kramer... Cadê vocês?
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Tem alguém fedendo aí?
O jornalismo político no Brasil imita a própria política em sua essência. A dinâmica dos fatos sobrepuja os denominadores comuns do jornalismo comum, principalmente no fenômeno recente das redes sociais na internet. No momento o principal fato que vem causando verdadeiro rebuliço, suscitando inclusive opiniões variadas, foi o lançamento do livro do jornalista Amauri Ribeiro Jr. (bastante conhecido da mídia impressa brasileira), “A Privataria Tucana”. Ele já foi colunista de grandes jornais e revistas de renome.
Não é comum no Brasil um livro ser lançado e em menos de 72 horas ter vendido mais de 30 mil exemplares. Isso na linguagem do mercado editorial se configura num best-seller. São raros os casos no mundo da literatura tal fato, e isso suscita naturalmente uma análise mais aprofundada porque as opiniões de jornalistas e blogueiros sérios de todos os matizes ideológicos são variadas. Algumas apaixonadas e outras carregadas de teor explosivo.
Confesso que não li o livro completamente ainda, apenas alguns detalhes e capítulos, porque estou a fazer outras leituras no momento. Mas confesso que vou devorá-lo na primeira oportunidade que tiver, em breve. É uma necessidade natural de quem gosta de jornalismo político ler uma obra dessa natureza, porque é um fenômeno editorial. Ninguém vende tantos livros em tão pouco tempo se não estiver dizendo a verdade, ou plagiando a mesma.
A grande mídia calou. Apenas o jornalismo dos textos pequenos colocou pequenas notas sobre o assunto. Os grandes colunistas do jornalismo da obediência se emudeceram como se mortos estivessem. Nos últimos dias somente vi um colunista baiano falar do tema, mas mesmo assim insinuando que o livro é verdadeiro “cala a boca”, por causa das denúncias contras os ministros do Governo de Dilma. Ou seja, segundo ele o livro foi lançado agora para ocupar as mentes dos jornalistas da obediência. Como leio diariamente esse colunista, mesmo não concordando com as opiniões dele, o sujeito é bom no que faz, e além disso, foi colega de redação de um amigo nosso. Na Rua Djalma Dutra onde morei muitos anos, Jânio Lopo primeiro lia, depois opinava.
Como é mesmo que se pode explicar os fatos do livro de Amauri Ribeiro? Não vejo motivos para incriminá-lo de mentiroso, pois ele sempre foi respeitado e considerado pelos grandes conglomerados midiáticos como grande profissional do jornalismo brasileiro. Aliás, esteve sempre do lado contrário àqueles que hoje coordenam o projeto de poder no Brasil. Ele não é petista.
Vejam só o que está no livro. O primo mais esperto de Serra, um espanhol abrasileirado, teve abatimento de dívida com o Banco do Brasil de 109 vezes, ou seja, devendo R$ 448 milhões foi para irrisórios R$ 4,1 milhões, depois que pegou financiamento em nome das empresas Gremafer Comercial e Aceto Vidros e Cristais Ltda, na agência Rudge em São Bernardo do Campo, em agosto de 1993; depois quase falido, o primo do senhor eterno candidato dos tucanos à Presidência da República, representa a empresa espanhola Iberdrola e vai às compras, monta o consórcio Guaraniana e adquire milagrosamente três grandes estatais de energia elétrica, a Coelba da Bahia, a Corsen do Rio Grande do Norte e a Celpe de Pernambuco. Isso tudo também com R$ 2 bilhôes da Previ (fundo de previdência do Banco do Brasil). Olhe aí, tudo às olhos nus dos tucanos que governavam o Brasil. Será que Amauri Ribeiro está mesmo mentindo para vender livros? Ou será mesmo que estamos a ver a cortina de fumaça querendo esconder de fato que a Privataria existiu?
Quase esqueço de falar da Ilha do Urubu, paraíso dos mais caros da costa baiana, que os carlistas presentearam ao bom rapaz, primo rico do eterno candidato a Presidência da República, que vendeu por apenas R$ 5 milhões a Bella Vista Empreendimentos Imobiliários, controlada pela Dovyalis Participações S.A., presidida pelo especulador belga Philippe Ghislain Mees, deixando Pataxós e Martins à ver navios.
Caros leitores, o que aconteceu mesmo no Brasil com as privatizações financiadas pelo próprio Brasil? Cadê o dinheiro...?