sexta-feira, 20 de maio de 2011

ARTIGOS

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Gilberto Carvalho: é difícil fixar metas de reforma agrária em 2011
Interlocutor principal dos movimentos sociais, ministro da Secretaria Geral da Presidência diz que o governo não tem dinheiro para fixar metas de assentamento este ano. Em entrevista exclusiva à Carta Maior, Carvalho fala sobre a reforma agrária possível para um governo com aliados ruralistas, a 'disputa de rumos' da gestão Dilma, a necessidade de os movimentos 'não se apelegarem' e a diferença de Dilma e Lula na área de direitos humanos.

BRASÍLIA – A Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) realiza nesta semana (dias 17/05 e 18/05) o Grito da Terra 2011, mobilização de camponeses em Brasília que reivindica reforma agrária, entre outras coisas. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) já havia cobrado, no mês passado, mais desapropriações, com seu Abril Vermelho. No começo de maio, em coluna que publica toda semana em jornais brasileiros, a presidenta Dilma Rousseff disse que “acredita na reforma agrária, que democratiza o acesso à terra”.

Mas, embora pretenda continuar com a política de desapropriações, como afirma a presidenta, o foco das ações do governo no campo este ano será apoiar assentados e acampados. Interlocutor de Dilma com os movimentos sociais, o chefe da Secretaria Geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, diz que, depois do cortes de R$ 50 bilhões no orçamento deste ano, falta dinheiro para o Planalto comprometer-se a assentar sem terra em 2011. “O governo ainda não tem uma posição firmada de metas de reforma agrária”, declara.

Nesta segunda parte de entrevista exclusiva à Carta Maior, o ministro fala sobre a reforma agrária possível para uma administração que conta com aliados ruralistas; os rumos de um governo considerado “em disputa” por entidades como a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e a União Nacional dos Estudantes (UNE); e a diferença que as biografias de Dilma e do ex-presidente Lula impõem ao governo na área de direitos humanos.

Você aponta a experiência sindical do ex-presidente Lula como algo que leva o Planalto da gestão Dilma a ter uma relação diferente com os movimentos sociais. O que mais que você diria que a diferença de estilo entre os dois faz com que o governo também seja outro?


Gilberto Carvalho – É o apreço fortíssimo à questão dos direitos humanos. O presidente Lula vinha do movimento sindical, vinha de uma disputa pela partilha dos bens. Eu sempre digo que a cabeça do Lula é a cabeça de um metalúrgico que se ampliou muito na dimensão do mundo. Mas o núcleo central permanece assim: a felicidade do Lula é quando o país tem crescimento com distribuição de renda. Outros temas entraram na cabeça dele, mas não são o núcleo central. Enquanto que a Dilma tem uma outra história. Se, para ela, é importante manter essa linha, também são importantes temas que a vida dela evidenciou como importantes, como os direitos humanos. Ela tem uma sensibilidade para esse tema, que já foi mostrada, que é muito forte forte, muito explítica.

Dentro da sua clientela de movimentos sociais, temos dois atores, CUT e UNE, que acham que o governo Dilma, a exemplo do governo Lula, é um governo de disputa de rumos. Concorda? Estamos vendo o governo ir para que rumo?
Gilberto Carvalho
– O rumo do coração e da cabeça da presidenta não está em disputa. Se tem alguém com convicções nesse mundo, chama-se Dilma Rousseff. Ela tem impresisonante nitidez do que deseja e persegue esses objetivos. Claro que num governo de uma frente, que fez alianças, é natural que haja disputas de espaços. E aí eu diria que essa disputa não está concluída ainda. O governo não está montado na sua totalidade. Desse ponto de vista, concordo que há disputas. Agora, o rumo central é muito claro: consolidar o processo de crescimento do país com consistência e com distribuição de renda. E essa bandeira inequívoca que a presidenta abraçou, do combate à miséria, que está expresso inclusive no slogan do governo (País rico é país sem pobreza), ele dá muito conforto ético para a gente, de que não se titubeará na perseguição desse objetivo.

Outro segmento importante dos movimentos que dialogam com a Secretaria Geral são os sem terra. Qual a pauta o governo para eles? Vai haver mesa permanente de negociação também?
Gilberto Carvalho – Hoje acontece uma coisa estranha. Você consegue juntar na mesma mesa as seis, sete centrais urbanas para discutir, ainda que haja divergências. Mas, no caso do campo, não. Você tem o MST, a Contag, o MLST, a Fetraf, a Via Campesina, e a relação entre eles é um pouco dificíl, por histórias, por divergências. Não temos conseguido fazer reuniões conjuntas. Por isso, nos comprometemos com cada entidade a fazer pelo menos uma reunião a cada dois meses. Eles já apresentaram pautas agora em abril, porque a Contag tem o Grito da Terra, o MST teve o Abril Vermelho, a Fetraf também já nos trouxe a pauta dela. Nesse momento, estamos negociando questões como reforma agrária, apoio à agricultura familiar, temas ambientais que eles hoje batem fortemente, financiamento da pequena produção e do escoamento da produção, formas cooperativadas. Vai ser tenso porque, evidentemente, não vamos conseguir atender tudo.

É possível fazer reforma agrária levando em conta que a bancada ruralista continua tendo peso, como mostra na votação do Código Florestal, e parece agora estar aglutinada em torno do PMDB, que tem o ministro da Agricultura e o vice-presidente da República?
Gilberto Carvalho – Para todo mundo que senta nessa mesa, tenho dito que esse governo é aberto para conversa, que não quer ficar só na conversa, não adianta ficar só na conversa, tem que ter resultado. Então, a nossa relação tem que ser muito fraterna, franca e transparente mas, ao mesmo tempo, não tem como não ser tensa. Porque governo é datado, governo começa e termina, governo tem limites da correlação de forças no parlamento, da correlação de forças na aliança que compôs, limitações institucionas, questões que não podemos ultrapassar, por exemplo, quando se ocupa uma sede do Incra, não tem o que negociar, a legalidade nós temos que manter. E o movimento não tem data, tem utopia, não pode se apelegar, não pode conceder, tem que brigar pelos seus objtetivos. Então, essa relação não tem como não ser tensa. Mas tem que ser madura. O movimento tem que compreender o que o governo pode fazer. E o governo tem compreender que tem se empenhar ao máximo para vencer a bucrocarcia e um monte de coisas para as coisas acontecerem. Com o campo é assim.

O que o governo vai fazer na reforma agrária, então?

Gilberto Carvalho – Para ser bem transparente, nós não temos no governo ainda uma posição firmada de metas da reforma agrária. É evidente que o governo vai continuar o processo. A presidenta Dilma tem clareza na cabeça de que é fundamental evitar a favelização rural nos assentamentos, então, ela encomendou ao MDA (ministério do Desenvolvimento Agrário) e à ministra Tereza (Campelo, do Desenvolvimento Social), no programa de combate à miséria, medidas muito fortes nesse aspecto, para viabilizar os assentamentos já realizados e impedir que eles se tornem contrapropaganda da reforma agrária. O que não significa que não haverá aquisição de terra. Mas nós ainda estamos definindo esse orçamento.

Os sem-terra reivindicam cem mil assentamentos por ano...

Gilberto Carvalho - Acho difícil que a gente atenda, pelo menos nesse primeiro ano, essa reinvindicação. No entanto, posso dizer que há uma grande sensibilidade do governo para com os acampados. Então, eu diria que se a gente conseguisse estabelecer um acordo para atender essas famílias que estão embaixo da lona há tanto tempo - claro, com a devida análise e qualificação de cada família dessa -, seria eticamente uma coisa muito interessante para o governo. Eu, internamente, quero batalhar por isso. Agora, não posso assumir como uma bandeira definida, por causa da questão orçamentária. Mas sinto na presidenta muita sensibilidade para essas questões.
André Barrocal - Carta maior

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Dez transnacionais secretas controlam matérias-primas

Como é possível que no século 21 ainda existam empresas "secretas" e/ou piratas, que se dão ao luxo de não ter ações nas bolsas de valores, mas que gozam de todas as vantagens do "livre mercado", incluindo operações suspeitas em paraísos fiscais. Pode manter-se "secreta" a atividade dessas dez transnacionais "gigantes" que controlam os alimentos e a energia, usados como "armas de destruição maciça" contra a maioria do gênero humano? O jornal The Daily Telegraph revelou a identidade oculta das principais 10 transacionadoras globais de petróleo e matérias primas.
Zheng Fengtian, professor da Escola de Economia Agrária da Universidade Renmin, na China (Global Times, 13/4/11), fustiga "o monopólio dos cereais que o Ocidente exerce" e a "manipulação deliberada dos preços pelos especuladores internacionais" graças à desregulação de que gozam em Wall Street e na City, assim como nos paraísos fiscais (nomeadamente a Suíça): "não podemos depender apenas dos Estados Unidos (EUA) para resolver a crise alimentar global" nem das "quatro (sic) gigantes (sic) transnacionais".

Não especifica quais, mas os leitores podem consultar os meus artigos sobre o "cartel anglo-saxão da guerra alimentar" e o seu "meganegócio" (Radar Geopolítico; Contralínea, 30/1/11).
Fengtian adota a velha tese de Bajo la Lupa sobre a "guerra alimentar" que trava Washington para submeter o mundo: "no passado (sic), os EUA aproveitaram as vantagens do seu papel dominante no mercado global de alimentos para adotá-los como arma (¡supersic!) política".

Atos
O mundo anglo-saxão cacareja vaziamente sobre a transparência e a prestação de contas, enquanto oculta simultaneamente as suas "10 gigantes (sic) transnacionais secretas (¡supersic!)" que "controlam a comercialização dos hidrocarbonetos e das matérias primas", segundo The Daily Telegraph (15/4/11). Como se não bastassem as depredadoras transnacionais (BP, Tepco, Schlumberger/Transocean, etc.) que estabelecem suas cotações desapiedadamente na bolsa!

Para além dos tenebrosos grupos da plutocracia – como o grupo texano Carlyle (ligado ao nepotismo dos Bush) e o inimputável Blackstone Group (controlado por Peter G. Petersen e Stephen A. Schwarzman, cujas façanhas remontam ao macabro recebimento dos seguros das Torres Gémeas do 11/9) – The Daily Telegraph revela a identidade oculta das "principais 10 transacionadoras globais de petróleo e matérias primas":

1. Vitol Group: sede em Genebra e Roterdan, com resultados de 195 mil milhões de dólares na comercialização de hidrocarbonetos; a primeira petrolífera a exportar com pontualidade da região controlada pelos rebeldes na Líbia.

2. Glencore Intl.: sede em Baar (Suíça), com resultados por 145 bilhões de dólares em metais, minerais, produtos agrícolas e de energia; fundada pelo israelo-belga-espanhol Marc Rich; acusada pela CIA (¡supersic!) de subornar governantes; controla 34 por cento da mineira global suíço-britânica Xstrata; apostou na subida do trigo durante a seca russa (The Financial Times, 24/4/11); o banqueiro Nat Rothschild "recomendou" o seu polêmico novo director Simon Murray (The Daily Telegraph, 23/4/11); destaca a circularidade financeira do binômio Rotshchild-Rich.

3. Cargill: sede em Minneapolis, Minnesota, com resultados por 108 bilhões de dólares em agronegócios, carnes, biocombustíveis, aço e sal; severamente criticada pela desflorestação, contaminação de todo o gênero (incluindo a alimentar) e abusos contra os direitos humanos.

4. Koch Industries: sede em Wichita, Kansas, com resultados por 100 bilhões de dólares em refinação e transporte de petróleo, petroquímicos, papel, etc.; empresa familiar (a segunda mais importante nos EUA depois da Cargill) manejada pelos irmãos ultraconservadores David e Charles Koch, que financiam o Tea Party.

5. Trafigura: sede em Genebra, com resultados por 79,200 bilhões de dólares em petróleo cru, comercialização de metais; depredadora tóxica em África; provém da separação de várias empresas do israelo-belga-espanhol Marc Rich.

6. Gunvor Intl.: sede em Amsterdã e Genebra, com resultados por 65 bilhões de dólares em petróleo, eletricidade e carvão.

7. Archer Daniels Midland Co.: sede em Decatur, Illinois, com resultados por 62 bilhões de dólares em milho, trigo, cacau; listada na Bolsa de Nova Iorque; atuação escandalosa e processada por contaminação reiterada; beneficiou com os subsídios agrícolas do governo dos EUA.

8. Noble Group: sede em Hong Kong, com resultados por 56 700 bilhões de dólares em açúcar brasileiro e carvão australiano; sólidos laços com a HSBC e a polêmica empresa contabilística Pricewaterhouse Coopers; cotada no Índice Strait Times (Singapura).

9. Mercuria Energy Group: sede em Genebra, com resultados de 46 bilhões de dólares em petróleo e gás.

10. Bunge: sede em White Plains, Nova Iorque, com resultados de 45,7 bilhões de dólares em cereais, soja, açúcar, etanol e fertilizantes; multada nos EUA por emissões contaminantes.

The Daily Telegraph adiciona surpreendentemente como "menção especial" a Phibro, hoje subsidiária da Occidental Petroleum Corporation (Oxy): sede em Westport (Connecticut), com 10 por cento dos resultados do banco Citigroup em 2007 em petróleo, gás, metais e cereais, onde iniciou a sua "aprendizagem" o israelo-belga-espanhol Marc Rich.

Das 11 transnacionais piratas, cinco pertencem aos EUA, três à Suíça (notável paraíso fiscal bancário), duas são suíço-holandesas e uma é de Hong Kong (ligada à Grã-Bretanha). Se as 11 fossem cotadas na bolsa colocar-se-iam da posição sete até à 156 na classificação da Fortune Global 500. Sem penetrar na genealogia dos seus testa-de-ferro e verdadeiros donos, destaca-se a nefasta sombra do israelo-belga-espanhol Marc Rich em três empresas piratas: Glencore Intl., Trafigura e Phibro.

O israelo-belga-espanhol Marc Rich merece uma menção honrosa e com uma biografia mafiosa revela quiçá uma das razões do hermetismo das "gigantes" transnacionais que não estão cotadas nas bolsas e que movimentam nocivamente verdadeiras fortunas sem o menor escrutínio governamental ou cidadão. Será mera causalidade que Rich apareça em três das "secretas" 11 empresas "gigantes" que especulam na penumbra com os preços dos alimentos, hidrocarbonetos e metais?

Marc Rich, perseguido por evasão fiscal nos EUA (logo perdoado, polemicamente, por Clinton), foi denunciado como "espião da Mossad israelense" (Niles Latham, New York Post, 5/2/01) e "lavador de dinheiro" das mafias (The Washington Times, 21/6/02).

O investigador William Engdahl expôs há 15 anos "a rede financeira secreta (¡supersic!)" por trás dos banqueiros escravagistas Rothschild, o megaespeculador "filantropo" George Soros e Marc Rich. Cada vez se afirma mais o papel determinante de Israel na lavagem de dinheiro global (ver Bajo la Lupa, 20/4/11).

Conclusão
Como pode uma transnacional "gigante" passar sem ser detectada na época da antiterrorista "segurança interna"? Será possível que no século 21 ainda existam empresas "secretas" e/ou piratas, que se dão ao luxo de não se cotar nas bolsas, mas que gozam de todas as vantagens do "livre mercado", incluindo operações suspeitas em paraísos fiscais.

São "gigantes secretos" e/ou "clandestinos" tolerados pelo sistema anglo-saxão e seus mafiosos paraísos fiscais? Pode manter-se "secreta" a atividade dessas transnacionais "gigantes" que controlam os alimentos e a energia, usados como "armas de destruição maciça" contra a maioria do gênero humano?

Por Alfredo Jalife-Rahme
Do La Jornada

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Cobertura internacional, novos desafios
Como as novas tecnologias como a internet, o celular, a câmera de vídeo ou as redes sociais estão afetando a cobertura internacional e as rotinas de trabalho dos correspondentes? E as agências internacionais de notícias? Elas ainda controlam ou "manipulam" as notícias que recebemos sobre o mundo? E por que os latino-americanos preferem notícias de fora da região, cobrem pouco a América Latina e ignoram o Brasil?
Estas foram algumas das questões levantadas no seminário "A cobertura internacional e seus novos desafios" que ocorreu na terça-feira (10/5) na Universidade Metodista do Estado de São Pulo. O evento teve a presença do professor Oliver Boyd-Barret, do editor internacional do Jornal da Globo Pedro Aguiar, do correspondente da Globo Roberto Bournier e contou com a mediação do professor Sebastião Squirra, professor da Metodista e referência brasileira nos estudos sobre telejornalismo.
Afinal, quais são os tais novos desafios para o noticiário internacional? As novas tecnologias digitais estariam conseguindo mudar um cenário de hegemonia e controle das agências internacionais a serviço do velho imperialismo?
Para buscar respostas, viajei de ônibus durante duas noites, de Florianópolis para São Paulo. Foram 12 horas para ir e mais 12 horas para voltar sem pausa ou descanso. Não é só o jornalismo internacional que enfrenta períodos de "vacas magras". Isso me fez lembrar de outros tempos, trabalhando para a Globo na Europa. Alguns jovens e inexperientes jornalistas, com orçamento de alguns poucos dólares, se propunham a cobrir o mundo para os nossos telejornais. O que não fazemos e enfrentamos para entender um mundo que muda? Mas valeu a pena.
Perguntas e respostas
Para quem não conhece alguns dos principais participantes do seminário, o professor Boyd-Barret, por exemplo, é a maior autoridade mundial sobre o tema "agências de notícias". Ele escreveu um livro em 1980 que até hoje ainda é considerado o "estado da arte", a referência acadêmica sobre o poder das Big Four, as quatro grandes agências internacionais: The International News Agencies (ed. Sage, Londres, 1980). Leitura indispensável para quem deseja entender por que o fluxo de notícias internacionais se concentra no primeiro mundo. Ou para analisar como o controle do noticiário internacional pelas grandes agências de notícia ainda é fundamental para a manutenção do "poder" nos EUA e na Europa. Afinal, quem controla as notícias sobre o mundo controla o mundo.
Além de discutir os novos desafios para a cobertura internacional, o professor Boyd-Barett também apresentou suas pesquisas mais recentes sobre canais de notícias 24 horas e os contrafluxos hegemônicos. Ou seja, como alguns veículos noticiosos estariam tentando quebrar o monopólio das grandes agências internacionais. O professor britânico discutiu o papel da rede al-Jazira no contexto da globalização midiática e apresentou os últimos resultados de estudos comparativos sobre o conteúdo dos canais de notícias CNN em espanhol, Telesur (Venezuela) e NTN24 (Colômbia).
E este foi o momento mais significativo do seminário. Segundo a pesquisa do professor Boyd-Barret, a América Latina ainda prefere notícias sobre o que acontece fora da América Latina. Os canais pesquisados transmitem algumas notícias sobre a região, mas praticamente "ignoram" o Brasil. Todos os presentes ficaram incomodados, mas ninguém parecia realmente surpreso. Há muitos anos, apesar dos milhões gastos pelo governo para construir e divulgar a imagem do Brasil como potência internacional emergente, os latino-americanos insistem em nos ignorar.
O professor Squirra fez levantou algumas hipóteses durante as discussões: seria por causa da nossa língua, do nosso histórico isolamento, ou seria devido ao controle do fluxo de notícias pelas agências internacionais? Seria por preconceito ou por alguma outra razão ainda desconhecida? As respostas são importantes, necessárias e demandam novas pesquisas, novos seminários.
Um cenário centralizado e desigual
A origem das agências de notícias remonta ao período de expansão do capitalismo, o auge dos Estados-nação na Europa, o consumo crescente da imprensa e a inclusão das novas tecnologias de comunicação da época. Não por acaso, as primeiras agências apareceram em países com interesses coloniais. Mas, assim como a utilização de novas tecnologias pelas grandes empresas jornalísticas de hoje, as agências nasceram para "reduzir" custos.
As agências surgiram em meados do século 19, com a fundação da primeira agência, a Havas, em 1835. Sediada em Paris, a Havas enviava as principais informações e notícias do exterior por telegramas para os jornais, que pagavam por esse serviço. Em 1851, um sócio de Havas, o alemão naturalizado britânico Julius Reuter, deixou a empresa para fundar uma nova agência em Londres, a Reuters. A Reuters existe até hoje, enquanto a Havas acabaria se tornando a atual Agence France-Presse (AFP).
Nos EUA, durante a guerra civil americana, os maiores jornais de Nova York se juntaram para formar a Associated Press e enviar correspondentes para o campo de batalha. A AP manteve um monopólio nos EUA por mais de meio século, até que em 1907 foi fundada a agência United Press. Dois anos depois, criou-se a International News Service. Estas duas se fundiram em 1958 para criar a United Press International (UPI), também existente até hoje.
Durante muitos anos, trabalhei para algumas das principais agências de notícias para TV, como a UPITN e a WTN, como correspondente no Brasil. Conheço de perto as rotinas profissionais e, principalmente, o poder dessas empresas para controlar o fluxo de notícias internacionais. Até hoje, não é fácil incluir notícias sobre o nosso país em uma cobertura internacional dominada pelos eventos no primeiro mundo, no Oriente Médio e, cada vez mais, na Ásia (China e Japão). Como dizia um editor da WTN direto do seu assento de poder em Nova York: "Notícias do Brasil? É sempre a mesma coisa. Quando não é seca, é enchente!"
É difícil escapar de um controle jornalístico que privilegia o desastre e as más notícias do Terceiro Mundo. O cenário da cobertura internacional é centralizado e desigual e foi construído através dos anos para manter essa centralização e desigualdade. Enquanto isso, não recebemos notícias da África ou da América Latina e qualquer show de Lady Gaga (sic) tem repercussão mundial.
América Latina para brasileiros
Coube ao jovem jornalista Pedro Aguiar, mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e editor internacional do Jornal da Globo, explicar e comentar casos específicos de agências que ousaram desafiar a hegemonia no fluxo de informações. Ele relatou suas pesquisas sobre o projeto da Unesco com os países não-alinhados durante os anos 1970, quando tentaram quebrar o monopólio das agências internacionais e o processo de centralização de notícias em Londres e Nova York.
Não é necessário dizer que o projeto, apesar de sua importância e relevância, não deu certo. Os países hegemônicos ameaçaram se retirar da Unesco, o projeto morreu e as agências continuam poderosas. Pedro aproveitou para relembrar aos participantes do seminário que, apesar de todas as suas promessas e benefícios, as novas tecnologias não têm o potencial libertador necessário para reverter esse cenário de controle e poder. "Mas podemos, sim, fazer uma apropriação contra-hegemônica dessas tecnologias", concluiu.
A excelente apresentação de Pedro Aguiar foi um dos melhores momentos do seminário. Aproveito para recomendar o seu livro Jornalismo Internacional em Redes, editado pela Secretaria Especial de Comunicação Social da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro em 2008 (ver aqui).
Mas nem todas as apresentações e discussões durante o seminário foram sobre o poder das agências de notícias. Roberto Bournier, jornalista experiente com longa trajetória na Globo, relatou em detalhes suas próprias experiências na América Latina. Em fevereiro de 2004, Bournier tornou-se o primeiro correspondente fixo da TV Globo em Buenos Aires. Ele enfrentou o grande desafio de mostrar a América Latina para os brasileiros. Como vimos, isto não é tarefa fácil.
Vale a pena
Ele cobriu diversos eventos ocorridos na América Latina, como o plebiscito de revogação do mandato do presidente venezuelano Hugo Chávez, em dezembro de 2004, e a eleição do presidente boliviano Evo Morales, em dezembro de 2005. Mais recentemente, participou do dramático resgate dos mineiros chilenos ao vivo, via internet, diretamente do deserto de Atacama, no Chile. Seu relato sobre as dificuldades que teve de enfrentar foi impressionante. Centenas de correspondentes de todo o mundo aglomerados no meio do nada tendo que enviar notícias o tempo todo. Seu relato foi um bom exemplo dos novos desafios da cobertura internacional em tempos de muitas notícias e poucos recursos.
Mas, além de tentar convencer os telespectadores da importância dos temas latino-americanos, o grande desafio de Burnier durante seu período como correspondente em Buenos Aires foi colocar em prática um projeto inovador da Rede Globo. Trata-se de um programa que permite o envio de reportagens pela internet sem necessidade de aluguel de satélite. Uma verdadeira revolução que auxilia os correspondentes a cobertura internacional em um novo cenário de competitividade, dificuldades e "vacas cada vez mais magras".
Para cobrir o resgate de mineiros para a Globo, Bournier não teve que andar de ônibus durante 24 horas quase seguidas. Mas as dificuldades também eram enormes. Ou seja, não é por falta de recursos, de tecnologia, de pautas ou, o mais importante, falta de interesse do público que a cobertura internacional enfrenta tantos problemas e desafios. O que falta mesmo é garra, vontade de mostrar o mundo, apesar de toda as dificuldades. Ou seja, deixe de sonhar com a profissão de correspondente internacional e comece a agir.
Pare de ler este artigo, pegue um ônibus, ou de preferência um avião, e tente ser você mesmo um correspondente da era digital.
Sinceramente? Apesar dos desafios e dificuldades, vale a pena.
Fonte: Alberto Brasil - OI

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Cantanhêde atiça a “massa cheirosa”

Eliane Cantanhêde, uma das principais colunistas da FSP (Folha Serra Presidente), sempre teve “laços afetivos” com o alto tucanato. Durante a chamada crise do “mensalão do PT”, em 2005/2006, ela foi uma das vozes mais estridentes contra o presidente Lula. Já na campanha eleitoral do ano passado, ela mostrou todo o seu entusiasmo militante com a candidatura de José Serra ao estrelar um vídeo, toda faceira, no qual elogiava a “massa cheirosa” do PSDB.

Confirmada a vitória de Dilma Rousseff, a “calunista” da Folha parecia que havia abandonado seu ativismo tucano. Até andou elogiando a presidenta, tentando colocar uma cunha entre ela, agora uma “estadista”, e o ex-presidente Lula, “o populista”. Mas a trégua durou pouco. Com o episódio envolvendo o ministro Antonio Palocci, que exige rigorosa apuração sobre o seu acelerado enriquecimento, Cantanhêde voltou à carga com o seu oposicionismo.

“Fim da lua de mel”

O alvo dos seus ataques não é nem Palocci, que continua sendo um homem de confiança do “deus-mercado” e dos barões da mídia. O alvo, sem meias palavras, é a própria presidenta Dilma Rousseff. Na sua coluna de ontem (18), ela não esconde sua paixão oposicionista. Já no título, ela é taxativa: “Fim da lua de mel”. Para ela, acabou-se a trégua – que tinha objetivos marotos - e é hora da oposição demotucana intensificar as críticas ao novo governo.

“Apesar de haver, sim, boa vontade com o início do governo e reconhecimento à discrição e à seriedade da nova presidente, ninguém pode ignorar que o aumento vertiginoso do patrimônio de Antonio Palocci é de deixar qualquer um tonto, principalmente a própria Dilma, já que ele é, nada mais nada menos, chefe da Casa Civil e o ministro mais importante do governo”, afirma Cantanhêde. Para ela, o episódio atinge todo o governo e não apenas o ministro!

Nova líder da oposição

Diante do escândalo, Cantanhêde só lamenta que os “dois principais nomes nacionais tucanos ficam, ora, ora, em cima do muro. José Serra, candidato derrotado por Dilma em 2010, minimizou o boom imobiliário de Palocci, meio na linha ‘deixem o homem trabalhar’. Aécio Neves, provável candidato contra Dilma (ou Lula) em 2014, pede ‘serenidade" em tom ostensivamente governista e diz que não entra em processos de ‘desestabilização do governo’… Cá pra nós, com uma oposição como essa, para que Dilma precisa de uma base aliada tão robusta?”

Deste jeito, Cantanhêde deixará de escrever suas colunas diárias na Folha e vai virar líder da oposição demotucana. Seu discurso inflamado visa exatamente animar e atiçar a “massa cheirosa” do PSDB e também do DEM e do PPS – partidos que andam meio caidinhos, com desfiliações massivas e violentas brigas internas.

Altamiro Borges

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Mudanças no seguro-desemprego

No final do ano passado, a Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 4ª Região - Amatra IV foi surpreendida por novas normas anunciadas pelo Ministério do Trabalho contra o que seriam “pagamentos indevidos” de seguro-desemprego.
Acima de tudo devemos destacar que o seguro-desemprego é um direito do trabalhador assegurado na Constituição Federal, para minimizar os efeitos do desemprego involuntário.
Pois bem, me parece louvável que haja uma fiscalização para que não seja pago a quem, de fato, não teria direito a recebê-lo. No entanto, a exigência de que o trabalhador submeta-se a vaga que lhe é indicada sob pena de perder o direito ao recebimento das parcelas é uma condicionante que não encontra respaldo legal.
Para que serve o seguro-desemprego? São cinco – no máximo seis – parcelas que têm por objetivo dar tempo para que trabalhador tenha tranquilidade de buscar um novo espaço no mercado, sendo-lhe permitida sua subsistência e de quem dele dependa economicamente.
A criação do benefício já veio acompanhada de critérios para sua liberação
que, por si só, contribuem para que não haja abuso nas suas liberações: o empregado deve ter sido dispensado sem justa causa; tem que estar desempregado, quando do requerimento do benefício; ter recebido salários consecutivos no período de 6 meses anteriores à data de demissão. A sociedade ocidental avançou ao Estado de bem-estar social. No Brasil, essa concepção ainda não alcançou os níveis de países do hemisfério norte. Tanto é assim, que o seguro-desemprego existe em toda a Europa Ocidental em condições bem mais vantajosas ao trabalhador.
A questão do desemprego e do retorno do trabalhador ao mercado de trabalho
é um debate que não deve ser feito prioritariamente pela óptica da culpa do trabalhador, como assim querem fazer crer os neoconservadores, pós crise de setembro de 2008. Os gastos estatais com as salvaguardas ao mercado financeiro e imobiliário não podem ser compensados com a supressão de
direitos já incorporados no patrimônio jurídico do trabalhador. Devem ser cobrados a quem os deu causa. O Estado brasileiro sequer chegou ao Estado de bem-estar social e já pretende-se ombrear ao conservadorismo lógico-pragmático.
Falando abertamente. Se a burocracia estatal se dá ao direito de duvidar da idoneidade do trabalhador e achar que ele está se aproveitando do benefício para “tirar umas férias remuneradas”, nos cabe o direito de duvidar das intenções das novas medidas. Não seriam elas, uma forma de reduzir o acesso ao benefício, “para fazer caixa”? Afinal, pressionado por uma oferta de trabalho sob a pena de perder o seguro-desemprego e ainda ficar desempregado, o trabalhador pode acabar aceitando uma vaga, mesmo que sem o perfil para a atividade. Nesse caso, pode acontecer dele não passar no período de experiência no novo emprego. Na prática, o Ministério do Trabalho fez a sua parte e lava as mãos se o trabalhador não teve “capacidade” de garantir a vaga que lhe foi indicada. Livra-se de pagar o seguro-desemprego.
O melhor seria que houvesse uma política estatal de incentivo à formalização do emprego e de regulamentação da garantia contra a despedida imotivada. Tais medidas aumentariam as fontes de custeio dos programas sociais e diminuiria sobremaneira a rotatividade de trabalhadores no mercado de trabalho.

Por Marcos fagundes Salamão - Agência Sindical

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Interesses corporativos de megaempresas radicalizam o cerco sobre o Rio

O senso comum, moldado por uma campanha midiática envolvendo governos, meios de comunicação e instituições privadas com diferentes interesses, acredita que o Rio de Janeiro esteja passando por um momento auspicioso de sua história.
A escolha da cidade como palco de megaeventos como as Olimpíadas de 2016, dentre outros, permitiu que uma campanha de promoção da cidade ganhasse corpo e respaldou o poder público a assumir um conjunto de obras públicas e intervenções urbanas, com o objetivo de preparar a cidade para o que seria uma nova era.
Além dos Jogos Olímpicos, a cidade do Rio irá sediar, a partir desse ano de 2011, os Jogos Mundiais Militares; a Conferência Mundial do Meio Ambiente – a Rio +20 (em 2012); a Copa das Confederações (2013); e jogos, incluindo a partida final, da Copa do Mundo de 2014. Neste ano de 2011 haverá também a realização de mais uma edição do Rock in Rio.
Este cronograma de megaeventos tem sido usado pelos poderes públicos para uma série de mudanças urbanísticas e a execução de obras e projetos de enorme impacto sócio-econômico. Justifica-se todo e qualquer plano a partir da necessidade emergencial de atendimento às exigências de órgãos como a FIFA ou o COI (Comitê Olímpico Internacional), ou também pela necessidade de respostas a um processo de estagnação ou esvaziamento econômico, que teria predominado na região metropolitana do Rio desde meados dos anos 70.
Uma dessas respostas, com grande repercussão midiática, foi, por exemplo, a ocupação militar, com tropas das Forças Armadas, de regiões de moradia popular, conhecidas como integrantes do chamado Complexo do Alemão. Conjunto variado de favelas que se estendem por vários bairros da zona norte da cidade, essas áreas teriam se transformado em "territórios livres", sob comando do crime organizado. Visão simplória que abstrai que esse processo jamais poderia ter se dado sem a omissão do Estado e por uma absoluta conivência e/ou ação direta de integrantes da Polícia Militar do Rio de Janeiro e de outros segmentos do que deveria ser a estrutura de segurança pública.
Para quem conhece a cidade do Rio, esta é uma verdade insofismável: não há um ponto sequer de venda de drogas ilícitas, em áreas populares, que não funcione sem o conhecimento e algum tipo de relação com policiais, inclusive no abastecimento do incrível arsenal de armas e munição existente nesses locais. Esta resposta no campo da segurança pública é vista como medida preliminar às demais iniciativas previstas como essenciais à transformação da cidade em palco de megaeventos e oportunidades de negócios, sob o comando de corporações internacionais.
Outro exemplo dessas iniciativas foi a criação do Projeto Porto Maravilha, conjunto de ações urbanísticas e financeiras que formalmente visam promover a requalificação urbana e o desenvolvimento da região portuária da cidade, através de uma PPP – Parceria Público-Privada - entre a prefeitura e um consórcio de construtoras. Trata-se de uma terceirização de parte do território urbano, com o consórcio passando a administrar e explorar economicamente a região, situada no centro da cidade e com muitas áreas de moradia popular, que hoje vivem as incertezas de um projeto que pretende transformar essa área sob um ponto de vista estritamente empresarial.
Mas o mais grave vai se dando em torno das questionáveis obras exigidas pela FIFA e pelo COI. Somente na dita reforma do Maracanã, que havia recentemente passado por outra abrangente reforma, para a realização dos Jogos Pan-Americanos, há uma previsão, inicial, de gastos de R$ 700 milhões. A referência ao Pan, neste aspecto, deve ser lembrada como um alerta. Com uma estimativa inicial de gastos de R$ 400 milhões, incluindo os Jogos Parapan-Americanos, ao final da história a fatura chegou à astronômica cifra de R$ 4 bilhões. Ah, e as últimas informações dão conta de que a reforma do ex-maior do mundo deve chegar ao bilhão de reais.
Essas cifras financeiras procuram ser justificadas pela possibilidade de vantagens, o dito legado, deixadas por esses eventos para as cidades que os sediem. No caso do Pan, no Rio, além de um conjunto de elefantes brancos – equipamentos esportivos em total ociosidade –, talvez uma das poucas heranças positivas deixadas para a cidade fora justamente a reforma do Maracanã, agora em escombros...
O Rio experimenta, também, polêmicos projetos, desvinculados dos megaeventos, mas, paradoxalmente, em flagrante contradição com as ditas vocações da cidade e com o próprio simbolismo de qualquer atividade ou preocupação vinculada ao esporte ou ao meio ambiente.
O principal desses projetos, junto com a instalação do pólo petroquímico, em Itaboraí, é a implantação e funcionamento da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), no bairro de Santa Cruz, na zona oeste da cidade, e junto à baía de Sepetiba, santuário ecológico e região de turismo.
A CSA é uma unidade siderúrgica de uma cadeia produtiva que começa no Brasil e vai se concluir na Alemanha e nos EUA. Produz placas de aço plano, exportadas diretamente para duas outras unidades situadas nesses países, onde são produzidos os chamados laminados, de maior valor agregado. A parte da produção sabidamente de maior impacto energético e ambiental fica, portanto, por aqui, enquanto o filé mignon da produção – e do faturamento da cadeia – vai para os americanos e alemães.
Já em funcionamento, a siderúrgica foi multada por mais de uma vez, por conta das emissões de fuligem e outras agressões ao meio-ambiente e à saúde da população. Com um processo de licenciamento provisório, o Ministério Público Estadual recomenda a não concessão da licença ambiental definitiva. O pleno funcionamento da usina irá elevar em quase 80% as emissões totais de gás carbônico na região metropolitana do Rio.
A CSA é uma associação da Vale com a ThissenKrupp alemã. A Vale, por sua vez, tem como principais controladores fundos de pensão – à frente a Previ, dos trabalhadores do Banco do Brasil – e o BNDESPar. O BNDES financiou o projeto, rejeitado anteriormente pelo Chile e pelo estado do Maranhão, com R$ 1,5 bilhão e juros subsidiados. Estado e município garantiram isenções fiscais e, desse modo, evidencia-se como o propalado sucesso da privatização dependeu, na sua origem, e depende no seu presente, dos capitais estatais e paraestatais.
A Previ também - junto com a Funcef, dos trabalhadores da Caixa Econômica Federal, a Petros, dos funcionários da Petrobrás, e a construtora OAS - controla a Invepar, hoje concessionária do Metrô do Rio.
Do serviço atual do Metrô, não se pode falar que é o pior da cidade, por conta da concorrência desleal dos péssimos serviços de trens e barcas. Mas, mais uma vez, acena-se que com a realização dos megaeventos... "O Rio dará a volta por cima".
O problema é responder "para cima de quem?"
Os moradores de Santa Cruz, por exemplo, que já sofrem diretamente a violência diária da CSA, nesta semana foram informados que o governo do estado, a prefeitura do Rio e a CEDAE acertaram a privatização dos serviços de esgoto de uma região de 21 bairros, onde eles se incluem. Envolve uma população predominantemente de baixa renda, correspondendo a cerca de 30% da população da cidade. A justificativa, incrivelmente, é a falta de recursos para os investimentos necessários para a ampliação da rede de tratamento, no contexto do esbanjamento de recursos públicos nos questionáveis projetos para a Copa e para as Olimpíadas. E o anúncio dessa medida foi feito no mesmo dia em que era divulgado que a prefeitura da cidade financiaria, com R$ 2 milhões, show do ex-beatle Paul McCartney.
Mas, para fechar o cerco oficial da cidade pelos interesses corporativos das megaempresas, acaba de ser concluída – ao menos ao gosto das autoridades competentes – a tentativa de desestruturação de um dos trabalhos mais importantes de questionamento legal ao Estado, e apoio político e jurídico à população atingida em seus direitos.
Com a onda de desapropriações e remoções existentes na cidade, por conta das intervenções sempre justificadas pela relevância e urgência de obras, o Núcleo de Terras e Habitação da Defensoria Pública do Estado se transformou em uma trincheira de resistência legal de milhares de cidadãos que lá encontravam amparo. Com uma atuação em permanente diálogo com as comunidades sob risco, o Núcleo nos últimos anos ganhou experiência de trabalho na luta contra a exclusão social, e credibilidade e confiança da população. Contudo, justamente por essas razões, mudanças foram operadas pela direção geral da Defensoria, com o afastamento dos defensores que nesse tempo deram consistência ao trabalho desenvolvido pelo Núcleo, e, para finalizar o desmonte, com a demissão sumária de todos os estagiários que lá trabalhavam.
Com o controle absoluto da situação, a aliança que une FIFA, COI, governos federal, estadual e municipal, construtoras, multinacionais e oportunistas de toda a sorte – do mundo empresarial ao partidário - vê o seu caminho aberto. O objetivo maior é a radicalização dos propósitos de privatização, em larga escala, do poder público, de espaços públicos e dos recursos públicos. Em um curto espaço de tempo. É o Rio sob ataque. E o Rio, lembramos, é a expressão, para o mundo, do Brasil.
Ao final dessa história, como já ocorrido com os Jogos Pan-Americanos, e com o que acontece na Grécia, após a badalação das Olimpíadas em Atenas, a conta a ser paga ficará nas costas do povo, hoje excluído, mal tratado e desrespeitado em seus elementares direitos.
Por Paulo Passarinho
Economista e membro do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro
Correiro da Cidadania

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Morte de Bin Laden incita inúmeros questionamentos ignorados pela mídia brasileira

Após 10 anos de espera mundial, os EUA anunciaram o desfecho da caça ao terrorista mais célebre do século, Osama Bin Laden. Depois da comoção e festejo nacionais dos americanos, que imediatamente após a confirmação da morte do ex-líder da Al-Qaeda ocuparam a frente da Casa Branca, não faltaram desencontros nas versões que descreviam como a missão havia sido cumprida.
Os próprios algozes do saudita chegaram a contar a mesma história com distintos desdobramentos. E mais uma vez podemos testemunhar outro deprimente espetáculo de subserviência da mídia brasileira, que volta a reverberar tudo que sai de Washington com pouco ou nenhum questionamento, transformando opiniões de agentes de governo e da CIA em manchetes definitivas – a Folha de S. Paulo desta sexta, 6, é exemplar disso.
Questionar e desconfiar, sinônimos de jornalismo
Após o mundo se dar conta da produção de mentiras em escala industrial do governo Bush para invadir e saquear o Iraque, o que já significou cerca de 1 milhão de mortes, aqueles que praticam o jornalismo com a exigida ética da profissão não têm sequer o direito de reproduzir acriticamente o que diz o departamento de Estado e o aparato militar estadunidenses.
Mas infelizmente é esse o tipo de análise que continua a predominar nos principais e mais lidos jornais do país. Numa guerra ao terror empreendida por um governo belicista como poucos na história, repleta de obscuridades e ilegalidades que se revelaram ao longo do tempo (como as prisões clandestinas em Guantánamo e Abu Ghraib, locais em que o Direito Internacional passou ao largo), enormes interrogações do público permanecem longe de qualquer elucidação.
Aliás, nossos monopólios midiáticos chegaram ao cúmulo de publicar que as informações do paradeiro de Bin Laden teriam sido obtidas em Guantánamo, uma (pouco) sutil justificação das brutalidades estadunidenses nessas intoleráveis masmorras.
Mas o ponto fácil de atacar é outro e não faltam acusações de acobertamento do serviço de inteligência e setores do governo paquistanês a Bin Laden, algo evidente demais diante do fato de que o ex-líder da Al-Qaeda estava instalado em uma toda peculiar fortaleza, a escassos 50 quilômetros da capital Islamabad e a menos de cinco de uma base militar.
E como os próprios americanos já acusam seus ‘parceiros’ abertamente dessa traição, o país sul-asiático já é o alvo preferido, o que serve para justificar mais "combate ao terror" à moda e métodos americanos, além de operações que violam a soberania territorial dos países. Tal exemplo se verifica na Líbia, onde os ataques da OTAN estão claramente indo além da orientação da resolução 1973 da ONU, que estabelece apenas uma zona de exclusão aérea, e não a licença para matar a esmo, atingindo inclusive objetivos não militares.
Basta olhar para a própria operação, que segundo os americanos não podia ser informada aos paquistaneses, pois estes tratariam de alertar Osama, para já se ter ciência da rede de mentiras construída pelos ianques, que escolhem a dedo quem são os parceiros e inimigos na "guerra ao terror", permitindo que regimes ultra-corruptos, como o paquistanês, mantenham tranquilamente seu arsenal nuclear e tentem vaga no Conselho de Segurança da ONU, enquanto outro, como o Irã, onde os grupos extremistas não são relevantes, não podem nem pensar nisso.
Justo agora?
Há muitas outras perguntas que insistem em não calar a respeito do fim de Osama Bin Laden. A mídia deliberadamente produtora de mentiras, capitaneada por Veja e Globo, não pensa assim, claro. Para eles, o que sai da boca da Casa Branca é palavra definitiva e não se questiona absolutamente nada, tanto em relação à legalidade da operação como às nada paranóicas teorias de que a existência do mentor do 11 de setembro chegava a ser conveniente.
Fica difícil defender o Direito Internacional numa operação de caça a quem comandou um bárbaro atentado que vitimou 3 mil inocentes, basicamente trabalhadores comuns. No entanto, o mesmo tem ocorrido na Líbia, além de o serviço secreto israelense burlar a soberania de diversos países para praticar seu terrorismo de Estado, como se viu ano passado em Dubai, no assassinato de um líder do Hamas, perpetrado por agentes israelenses com passaportes falsos de outras nações.
E aí se encontra o primeiro nó. Estados Unidos e Israel são exatamente os dois únicos países de relevância internacional a não reconhecerem a legitimidade do Tribunal Penal Internacional, cuja incumbência principal é investigar, julgar e punir crimes de guerra, constante e inegavelmente praticados em profusão por ambos nas últimas décadas.
Assim continuam, e pelo jeito continuarão, violando livremente a soberania alheia, o que pode provocar injustiças gritantes – que o digam os massacrados palestinos, sob ocupação de cunho nazista. Além disso, beira o ridículo não emparedar os ianques a respeito da negação de imagens cabais, sob a risível desculpa de sepultamento marítimo em respeito à liturgia islâmica da morte. Fora o fato mencionado pela jornalista Elaine Tavares: a perigosíssima legalização do crime de vingança, de faroeste.
Política interna
É evidente que Obama, farsesco Prêmio Nobel da paz em uma semana de mandato, busca capitalizar a façanha entre o público interno, visando às imprevisíveis eleições do ano que vem, quando os fundamentalistas de mercado do Partido Republicano e seus asseclas reacionários do Tea Party podem retomar o poder e voltar a espalhar o medo por todos os quadrantes com seus discursos raivosos.
Mergulhados numa pobreza social que não se via desde a Grande Depressão, a maioria da população norte-americana já se encontra em estado de franca desilusão com o primeiro mandatário negro de Washington. Com o sucesso na captura e assassinato de Osama, a população carente de empregos e saúde, além de endividada, pode dar novo voto de confiança ao presidente, que após concluir a missão iniciada por Bush poderia canalizar recursos que têm servido às guerras para as necessidades internas.
E a partir disso fica impossível não fazer outra indagação, que se refere diretamente à prometida retirada das tropas do Afeganistão. A única justificativa contrária à retirada era encontrar o dono da montanha Tora Bora, localizada em Jalalabad, que, no entanto, foi finalmente abatido no "parceiro" Paquistão – ao que tudo indica, lar de Bin Laden há alguns anos.
Dessa forma, iniciar-se-á a tão propalada volta para casa das tropas estadunidenses? Ou como bem lembra o jornalista ocidental mais especializado em Oriente Médio e Ásia, Robert Fisk, "a morte de Bin Laden no Paquistão é irrelevante diante da primavera árabe de revoltas e lutas por democracia"? Afinal, é muito claro que os levantes desses países não ocorrem sob a égide do terrorismo ou fundamentalismo.
Política externa
Será que os americanos não podem pensar exatamente o mesmo e começarem a preparar o terreno para novos empreendimentos militares? Já está claro que o complexo industrial-militar do maior império já constituído pela humanidade tem a guerra em sua agenda econômica e dela até dependem as contas nacionais. Estima-se que os gastos militares dos EUA já estejam na casa do trilhão de dólares anuais, o que evidencia a necessidade de muitos negócios e empreitadas militares para dar vazão a tamanha produção e estoque armamentistas.
No mais, sabe-se que o Afeganistão é um território instável, tribal, conflagrado, cujo governo tem níveis de confiabilidade similares ao paquistanês. Devastado e sem infra-estrutura, não é exatamente o que se pode chamar de poço de riquezas a serem extraídas. Apesar da recente descoberta de reservas minerais prodigiosas, como de lítio e nióbio, sua exploração lucrativa demandaria no mínimo mais 10 anos de ocupação, para que se desenvolva a inexistente capacidade de exploração de tais recursos.
Enquanto isso, uma onda de revoltas populares com potencial e encaminhamento imprevisíveis explode por todo o Oriente Médio, arrastando-se por um cordão que envolve mais de 20 países, uma região que tem um peso geoestratégico incomparavelmente superior ao afegão. Além de ser fonte da maior parte do petróleo consumido pelas grandes potências, que em troca sustentam e financiam dezenas de ditaduras na região. Como se não bastasse, teme-se profundamente uma configuração política que isole Israel.
Perguntas que não calarão
Dessa forma, diante dos custos cada vez mais exorbitantes dos empreendimentos militares, não terão os americanos calculado que Bin Laden já não era mais uma muleta necessária? Que talvez agora seja mais conveniente começar a abandonar o Afeganistão sob desculpas de que "não foi possível implantar a democracia, pois são muito selvagens", tal como rotulam o mundo islâmico desde sempre? E a partir disso, quem sabe, não será o caso de concentrar esforços nos países médio-orientais e norte-africanos em chamas? Não será também conveniente voltar a levantar a lebre do terrorismo e associá-lo às revoltas de alguns desses países?
São todas perguntas óbvias diante da dimensão global que a última década concedeu à doutrina Bush-Dick Cheney de ‘guerra ao terror’ e também do ritmo incessante com que os Estados Unidos criam pré-condições de marginalização de governos inimigos, de modo a iniciar a justificação de sanções internacionais, nova ocupação e conflito armado. E são todas perguntas que o jornalismo brasileiro parece ter preguiça de fazer.
Mas isso já acontece na Líbia, onde as tropas da OTAN estão em nova operação de suposta libertação de povo oprimido, quando na verdade sabemos, como destacou o jornalista Milton Temer, que "onde países como França, Inglaterra e EUA põem os pés, não se pode estar tramando uma revolução popular e realmente democrática".
Outros governos instáveis, de povos divididos, também estão cada vez mais na berlinda, por sinal, cometendo atrocidades muito maiores que os últimos integrantes da lista negra ianque, como, por exemplo, a intocável Arábia Saudita, o Bahrein, a Jordânia, o Iêmen, todos beneficiários de bilionárias ajudas militares dos países centrais, tal como eram (são), aliás, Egito e Tunísia.
Não teria chegado a hora de se livrar de uma vez por todas de Bin Laden e escrever novos roteiros para a famigerada "guerra ao terror"? Por outro lado, nunca irá se questionar quem é mais terrorista e assassino?
Gabriel Brito - CC



quarta-feira, 18 de maio de 2011

Operação Jerônimo

Por que a ação militar que teria matado Bin Laden mereceu o nome de Operação Jerônimo? Prescott Bush integrava, em 1918, a associação estudantil Skull & Bones (Crânio e Osso). Desafiado pelos colegas, invadiu um cemitério apache e roubou o escalpo do lendário cacique Jerônimo.

Dono de terras no Texas, Prescott tornou-se um exitoso empresário do ramo de petróleo e amigo íntimo de John Foster Dulles, que comandava a CIA por ocasião do assassinato de John Kennedy, em 1963. Dulles convenceu o amigo a fazer um gesto magnânimo e devolver aos apaches o escalpo de Jerônimo. Bush o atendeu, mas não tardou para os indígenas descobrirem que a relíquia restituída era falsa…

A amizade com Dulles garantiu ao filho mais velho de Prescott, George H. Bush, o emprego de agente da CIA. George destacou- se a ponto de, em 1961, coordenar a invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, para tentar derrubar o regime implantado pela guerrilha de Sierra Maestra. Malgrado a derrota, tornou-se diretor da CIA em 1976.

Triste com o mau desempenho de seu primogênito como 007, Prescott Bush consolava-se com o êxito dele nos negócios de petróleo. E aplaudiu o faro empresarial do filho quando George, em meados dos anos 60, tornou-se amigo de um empreiteiro árabe que viajava com frequência ao Texas: Muhammad Bin Laden. Em 1968, ao sobrevoar os poços de petróleo de Bush, Bin Laden morreu em acidente aéreo no Texas. Os laços de família, no entanto, estavam criados.

George Bush não pranteou a morte do amigo. Andava mais preocupado com as dificuldades escolares de seu filho George W. Bush, que só obtinha média C. A guerra do Vietnã acirrou-se e, para evitar que o filho fosse convocado, George tratou de alistá-lo na força aérea da Guarda Nacional.

Papai George incentivou o filho a fundar, em meados dos anos 70, sua própria empresa petrolífera, a Arbusto (bush, em inglês) Energy. Gracas aos contatos internacionais que o pai mantinha desde os tempos da CIA, George filho buscou os investimentos de Khaled Bin Mafouz e Salem Bin Laden, o mais velho dos 52 filhos gerados pelo falecido Muhammad. Mafouz era banqueiro da família real saudita e casara com uma das irmãs de Salem. Esses vínculos familiares permitiram que Mafouz se tornasse presidente da Blessed Relief, a ONG árabe na qual trabalhava um dos irmãos de Salem, Osama Bin Laden.

Em dezembro de 1979, George H. Bush viajou a Paris para um encontro entre republicanos e partidários moderados de Khomeini, no qual trataram da libertação dos 64 reféns estadunidenses sequestrados, em novembro, na embaixada dos EUA, em Teerã. Buscava-se evitar que o presidente Jimmy Carter se valesse do episódio e prejudicasse as pretensões presidenciais de Ronald Reagan. Papai George fez o percurso até a capital francesa a bordo do jatinho de Salem Bin Laden, que lhe facilitava o contato com o mundo islâmico. (Em 1988, Salem faleceu, como o pai, num desastre de avião).

Naquele mesmo ano, os soviéticos invadiram o Afeganistão. Papai George, que coordenava operações da CIA, recorreu a Osama, um dos irmãos de Salem, que aceitou infiltrar-se no Afeganistão para, monitorado pela CIA, fortalecer a resistência afegã contra os invasores comunistas.

Os dados acima são do analista italiano Francesco Piccioni. Mais detalhes no livro A fortunate son: George W. Bush and the making of na American President, de Steve Hatfield.

Em 1979, a pedido de George Bush pai, então diretor da CIA, Osama, já com 23 anos, transferiu-se para o Afeganistão para administrar os recursos financeiros destinados às operações secretas da agência contra a invasão soviética àquele país. Preocupado com a ofensiva de Moscou, o governo dos EUA havia liberado a mais alta soma que a CIA recebeu, em toda a sua história, para atuar em um só país: US$ 2 bilhões.

Quando o presidente George W. Bush, após 11 de setembro, enquadrou, como crime anexo ao terrorismo o “aproveitamento ilícito de informações privilegiadas”, sabia do que falava. Tudo indica que, graças a essas informações, Osama Bin Laden montou a sua rede terrorista mundo afora, movimentando recursos através de paraísos fiscais.

Talvez Freud pudesse explicar um detalhe das armas escolhidas pelos terroristas de 11 de setembro: aviões. O pai e o irmão mais velho de Osama Bin Laden morreram em acidentes aéreos, ambos nos EUA.

Se o escalpe de Jerônimo era falso, quem garante que Bin Laden foi mesmo morto na mansão paquistanesa?
Não seria mais útil ao combate ao terrorismo agarrá-lo vivo e obrigá-lo a revelar tudo sobre a Al-Qaeda? Não duvido que, em algum porta-aviões dos EUA, Bin Laden esteja sendo torturado para dizer o que sabe. Depois, basta adotar a “solução argentina”: atirar o corpo ao mar. Caso o encontrem boiando em alguma praia, ficam por conta dos afiados dentes dos peixes as marcas profundas.

Frei Betto - Brasil de Fato

Caso Palocci e seletividade da mídia


Leigos costumam achar que jornalismo é profissão sem rotina. Ledo engano. Todo ano tem Carnaval, Campeonato Brasileiro, enchentes em São Paulo e em cidades do Nordeste; a cada dois, eleições e bienais; de dois em dois ou Copa do Mundo ou Olimpíada; todos os dias, fofocas políticas e denúncias de corrupção. As pautas estão sempre pré-montadas à espera de repórter que lhe acentue os contornos e que tenha disposição para cobri-las com imagens candentes, com frases bombásticas, com depoimentos indignados de cidadãos.

E na falta disso tudo temos sempre de plantão articulistas indignados com o excesso de ação do governo ou, então, com a inação deste. É este o tipo de jornalismo que temos. Cabe aqui a pergunta do plantonista, do observador assíduo da imprensa: mas será este o tipo de jornalismo que gostaríamos de ter?

Perguntas sem respostas

A função do quarto poder é, sem dúvida, controlar e criticar os outros poderes tradicionais, e só pode fazê-lo em país em que vigore o estado de direito e a liberdade de expressão plena, isto porque sua crítica não tem conteúdo repressivo. Portanto, o Brasil atende a esses requisitos. O que não falta é liberdade para opinar e, no caso de se possuir algum veículo de comunicação, a liberdade inclui o direito de alçar à condição de notícia o que em condições normais de temperatura e pressão não passariam de meras suposições.

É corrente a percepção que os meios de comunicação podem influenciar a vida política do país por meio da criação de opinião. Cria-se, então, a opinião e busca-se logo em seguida quem a assine e se disponha a defendê-la publicamente. Umberto Eco foi feliz quando afirmou que os poderes tradicionais não podem controlar os meios de comunicação a não ser através deles mesmos, pois de outra maneira qualquer intervenção sua se converteria em sanção de natureza executiva, legislativa ou judiciária, algo que só pode ocorrer se os meios gerarem situações de desequilíbrio político e institucional.

Mas, surge outra questão – para muitos considerada impertinente! – sobre as reais possibilidades de existir um controle de um meio sobre o outro quando todos estão tão interligados pela preservação de sua própria influência e poderio ostensivo. A idéia monopolista veta este curso de ação e a imprensa se vê isolada, imune a qualquer marco regulatório, uma vez que o dispositivo constitucional não foi regulamentado e que qualquer tentativa nesse sentido terá ampla possibilidade de ser solapada por interesses tacanhos, quando não apenas escusos.

Com o objetivo de movimentar um pouco o noticiário é de se esperar que alguns veículos de comunicação, observando o impressionante estoque de tintas de escândalo armazenadas em suas redações cada vez mais virtuais e menos físicas, sintam-se tentados a cavar uma história em busca de indícios de corrupção. Não apenas de corrupção, mas de grossa corrupção.

Foi o que ocorreu nos últimos dias com as investigações do jornal Folha de S.Paulo sobre o enriquecimento do ministro-chefe da casa Civil Antonio Palocci: seu patrimônio teria aumentado em 20 vezes nos últimos anos. Há que se perguntar o porquê da seletividade: por que apenas Palocci teve esquadrinhada a evolução de seu patrimônio? Não seria interessante levar à mesma alça de tiro duas outras personalidades públicas, por exemplo, um grão-oposicionista e alguma vistosa autoridade do Poder Judiciário?

Obviamente esse é o tipo de pergunta que se formula com absoluta certeza de que não é para valer porque jamais será respondida. Obviamente existem interesses envolvidos, dentre os quais aqueles que se comprazem em ver sombras de suspeição pairando por sobre a Casa Civil do governo Dilma Rousseff.

Defesa vigorosa

É bem difícil para a grande imprensa assistir impávida ao autodesmoronamento da oposição no país, uma oposição tratada nos últimos oito anos a pão de ló, recebendo amplo noticiário para qualquer de suas teses, quer estivessem bem fincadas na realidade quer não. A experiência manda que tenhamos sempre um pé atrás quando, assim do nada ou do "quase nada", surge denúncia de enriquecimento ilícito envolvendo um figurão da República. Por trás da "história" pode existir lista em ordem alfabética de interesses a atender, de beneficiários a contemplar, ainda mais quando o procedimento padrão de investigação parece tão exato e preciso quanto a previsão da ocorrência concomitante de terremotos e de imensas ondas a varrer do mapa cidades e usinas nucleares.

Uma pista àqueles que têm um pendor por acompanhar as idas e vindas da imprensa brasileira é observar a forma como se dá a repercussão: que colunistas impedem que o tema morra por inanição ou por completa ausência de novos fatos; que personagens públicos são chamados a opinar; em que sequência midiática ocorre a repercussão propriamente dita. E também que assuntos que pareciam mortos e enterrados voltam como toque de mágica à superfície dos acontecimentos para abastecer quadros pretensamente explicativos e que levam o prosaico título "para entender o caso". Na pior das hipóteses, é já recorrente o expediente de oferecer bandeiras a quem, na falta delas e na falta de votação expressiva advinda das urnas, precisa de um generoso tempo de sobrevida.

Acompanhemos os desdobramentos. Nestes, encontraremos o vigor com que a imprensa defende de qualquer forma de controle constitucional e democrático a sua liberdade de expressão e de imprensa, de impressão e de pressão.

Por Washington Araújo - Observatório de imprensa

Material explosivo na zona euro

A quebra da zona euro não pode ser evitada com outros bilhões de resgate e novas imposições de austeridade. A população geme sob medidas de austeridade rígidas e responsabiliza a União Europeia por isso. Tendências nacionalistas propagam-se. Mas também em países que se vêem como o caixa da Europa o descontetamento cresce. Nos Países Baixos o “Partido pela Liberdade” quer ter de volta o florim e a retórica anti-euro presenteou ao partido “Finlandeses Verdadeiros” quase 20 por cento nas últimas eleições na Finlândia. Na França, o direitista “Front National” troveja contra o euro. O artigo é de Christa Luft.

Estaria Milton Friedman, o pai do monetarismo, certo? O igualmente influente e polêmico economista norte-americano vaticinou em 2002 que a Eurolândia colapsaria entre cinco e quinze anos. O desenvolvimento dos participantes seria muito desigual, e a ausência da moeda própria impediria uma melhoria de sua capacidade de competição internacional por meio da desvalorização. Uma moeda unificada sem uma política econômica comum e sem uma união fiscal condenaria o projeto de integração ao fracasso.

Uma década transcorreu desde o ridicularizado prognóstico. A críse da dívida do Estado ameaça inflamar o material explosivo na zona euro. Ela compreende, nesse meio tempo, 17 países com 17 diferentes títulos de governo e distintos juros, cotações e rendimentos. Um paraíso para malabaristas financeiros! Esses tomam emprestado barato em países com boa notação de crédito e investem o dinheiro em países apertados por juros mais elevados. Bancos compram títulos do governo dos países em crise, depositam-nos como segurança junto ao Banco Central Europeu, e recebem por isso notas de euro recém impressas a uma taxa de juros baixa. Mercados financeiros decidem pelo destino de Estados democráticos e de milhões de pessoas.

Guarda-chuvas de resgate já foram abertos várias vezes para salvar países da zona euro excessivamente endividados diante da bancarrota ameaçadora. Irlanda, Portugal e Grécia buscaram proteção sob ele. A preocupação cresce de que também a Espanha precisaria estar sob o guarda-chuvas. Especula-se sobre uma saída dos helenos da zona euro ou o refinanciamento.

Aos países carentes de ajuda são prescritas as mais fortes ataduras. Isso estrangula a força de suas economias. A população geme sob medidas de austeridade rígidas e responsabiliza a União Europeia por isso. Tendências nacionalistas propagam-se. Mas também em países que se vêem como o caixa da Europa o descontetamento cresce. Nos Países Baixos o “Partido pela Liberdade” quer ter de volta o florim e a retórica anti-euro presenteou ao partido “Finlandeses Verdadeiros” quase 20 por cento nas últimas eleições na Finlândia. Na França, o direitista “Front National” troveja contra o euro.

Um renovado aumento do guarda-chuvas de resgate – mesmo com referência às vantagens desse – dificilmente será intercedido nos países doadores junto à grande população, pois o principal lucrador é a economia de exportação. Um retorno à moeda nacional deixaria o país em crise afetado afogar-se em suas antigas dívidas em euro. Um refinanciamento poderia ser para a Grécia atualmemte um desafogo. Capitalistas precisariam renunciar a uma parte de suas exigências e aumentar o prazo dos títulos gregos. O problema: atingidos não seriam apenas os investidores privados como seguradoras, fundos de pensão e bancos, mas também os contribuintes. Na Alemanha, o WestLB e o estatizado Hypo Real Estate seriam forçados porventura a amortizações, e o governo federal teria de injetar capital novo.

A quebra da zona euro não pode ser evitada com outros bilhões de resgate e novas imposições de austeridades. Derrubados seriam também juros de usura de bancos privados para créditos a países em dificuldades, enquanto a Eurolândia emite títulos, cujos prêmios de risco seriam reduzidos através da boa notação de crédito de alguns membros da União. A consolidação econômica de países altamente endividados também exige, além de fortes esforços próprios, um programa de investimento europeu de promoção de crescimento.

Fonte: Christa Luft - CM

Quatro frases que fazem o nariz de Pinóquio crescer

1 – Somos todos culpados pela ruína do planeta

A saúde do mundo está feito um caco. ‘Somos todos responsáveis’, clamam as vozes do alarme universal, e a generalização absolve: se somos todos responsáveis, ninguém é. Como coelhos, reproduzem-se os novos tecnocratas do meio ambiente. É a maior taxa de natalidade do mundo: os experts geram experts e mais experts que se ocupam de envolver o tema com o papel celofane da ambiguidade. Eles fabricam a brumosa linguagem das exortações ao ‘sacrifício de todos’ nas declarações dos governos e nos solenes acordos internacionais que ninguém cumpre.

Estas cataratas de palavras – inundação que ameaça se converter em uma catástrofe ecológica comparável ao buraco na camada de ozônio – não se desencadeiam gratuitamente. A linguagem oficial asfixia a realidade para outorgar impunidade à sociedade de consumo, que é imposta como modelo em nome do desenvolvimento, e às grandes empresas que tiram proveito dele. Mas, as estatísticas confessam..

Os dados ocultos sob o palavreado revelam que 20 por cento da humanidade cometem 80 por cento das agressões contra a natureza, crime que os assassinos chamam de suicídio, e é a humanidade inteira que paga as consequências da degradação da terra, da intoxicação do ar, do envenenamento da água, do enlouquecimento do clima e da dilapidação dos recursos naturais não-renováveis.

A senhora Harlem Bruntland, que encabeça o governo da Noruega, comprovou recentemente que, se os 7 bilhões de habitantes do planeta consumissem o mesmo que os países desenvolvidos do Ocidente, “faltariam 10 planetas como o nosso para satisfazerem todas as suas necessidades.” Uma experiência impossível.

Mas, os governantes dos países do Sul que prometem o ingresso no Primeiro Mundo, mágico passaporte que nos fará, a todos, ricos e felizes, não deveriam ser só processados por calote. Não estão só pegando em nosso pé, não: esses governantes estão, além disso, cometendo o delito de apologia do crime. Porque este sistema de vida que se oferece como paraíso, fundado na exploração do próximo e na aniquilação da natureza, é o que está fazendo adoecer nosso corpo,  está envenenando nossa alma e está deixando-nos sem mundo.

2 – É verde aquilo que se pinta de verde

Agora, os gigantes da indústria química fazem sua publicidade na cor verde, e o Banco Mundial lava sua imagem, repetindo a palavra ecologia em cada página de seus informes e tingindo de verde seus empréstimos. “Nas condições de nossos empréstimos há normas ambientais estritas”, esclarece o presidente da suprema instituição bancária do mundo. Somos todos ecologistas, até que alguma medida concreta limite a liberdade de contaminação.

Quando se aprovou, no Parlamento do Uruguai, uma tímida lei de defesa do meio-ambiente, as empresas que lançam veneno no ar e poluem as águas sacaram, subitamente, da recém-comprada máscara verde e gritaram sua verdade em termos que poderiam ser resumidos assim: “os defensores da natureza são advogados da pobreza, dedicados a sabotarem o desenvolvimento econômico e a espantarem o investimento estrangeiro.”

O Banco Mundial, ao contrário, é o principal promotor da riqueza, do desenvolvimento e do investimento estrangeiro. Talvez, por reunir tantas virtudes, o Banco manipulará, junto à ONU, o recém-criado Fundo para o Meio-Ambiente Mundial. Este imposto à má consciência disporá de pouco dinheiro, 100 vezes menos do que haviam pedido os ecologistas, para financiar projetos que não destruam a natureza. Intenção inatacável, conclusão inevitável: se esses projetos requerem um fundo especial, o Banco Mundial está admitindo, de fato, que todos os seus demais projetos fazem um fraco favor ao meio-ambiente.

O Banco se chama Mundial, da mesma forma que o Fundo Monetário se chama Internacional, mas estes irmãos gêmeos vivem, cobram e decidem em Washington. Quem paga, manda, e a numerosa tecnocracia jamais cospe no prato em que come. Sendo, como é, o principal credor do chamado Terceiro Mundo, o Banco Mundial governa nossos escravizados países que, a título de serviço da dívida, pagam a seus credores externos 250 mil dólares por minuto, e lhes impõe sua política econômica, em função do dinheiro que concede ou promete.

A divinização do mercado, que compra cada vez menos e paga cada vez pior, permite abarrotar de mágicas bugigangas as grandes cidades do sul do mundo, drogadas pela religião do consumo, enquanto os campos se esgotam, poluem-se as águas que os alimentam, e uma crosta seca cobre os desertos que antes foram bosques.

3 – Entre o capital e o trabalho, a ecologia é neutra

Poder-se-á dizer qualquer coisa de Al Capone, mas ele era um cavalheiro: o bondoso Al sempre enviava flores aos velórios de suas vítimas... As empresas gigantes da indústria química, petroleira e automobilística pagaram boa parte dos gastos da Eco 92: a conferência internacional que se ocupou, no Rio de Janeiro, da agonia do planeta. E essa conferência, chamada de Reunião de Cúpula da Terra, não condenou as transnacionais que produzem contaminação e vivem dela, e nem sequer pronunciou uma palavra contra a ilimitada liberdade de comércio que torna possível a venda de veneno.

No grande baile de máscaras do fim do milênio, até a indústria química se veste de verde. A angústia ecológica perturba o sono dos maiores laboratórios do mundo que, para ajudarem a natureza, estão inventando novos cultivos biotecnológicos. Mas, esses desvelos científicos não se propõem encontrar plantas mais resistentes às pragas sem ajuda química, mas sim buscam novas plantas capazes de resistir aos praguicidas e herbicidas que esses mesmos laboratórios produzem. Das 10 maiores empresas do mundo produtoras de sementes, seis fabricam pesticidas (Sandoz-Ciba-Geigy, Dekalb, Pfizer, Upjohn, Shell, ICI). A indústria química não tem tendências masoquistas.

A recuperação do planeta ou daquilo que nos sobre dele implica na denúncia da impunidade do dinheiro e da liberdade humana. A ecologia neutra, que mais se parece com a jardinagem, torna-se cúmplice da injustiça de um mundo, onde a comida sadia, a água limpa, o ar puro e o silêncio não são direitos de todos, mas sim privilégios dos poucos que podem pagar por eles. Chico Mendes, trabalhador da borracha, tombou assassinado em fins de 1988, na Amazônia brasileira, por acreditar no que acreditava: que a militância ecológica não pode divorciar-se da luta social. Chico acreditava que a floresta amazônica não será salva enquanto não se fizer uma reforma agrária no Brasil. Cinco anos depois do crime, os bispos brasileiros denunciaram que mais de 100 trabalhadores rurais morrem assassinados, a cada ano, na luta pela terra, e calcularam que quatro milhões de camponeses sem trabalho vão às cidades deixando as plantações do interior. Adaptando as cifras de cada país, a declaração dos bispos retrata toda a América Latina. As grandes cidades latino-americanas, inchadas até arrebentarem pela incessante invasão de exilados do campo, são uma catástrofe ecológica: uma catástrofe que não se pode entender nem alterar dentro dos limites da ecologia, surda ante o clamor social e cega ante o compromisso político.

4 – A natureza está fora de nós

Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, quando a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria.

A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre.

A natureza, que era eterna, nos devia escravidão. Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu.

16 de maio de 2011
Por Eduardo Galeano
Escritor e Jornalista urugaio

Com presença de Lula, Foro de SP debate novos rumos da esquerda

Desafios para a esquerda na América Latina, crise do capitalismo, guerra na Líbia, crescimento econômico da China e imperialismo dos Estados Unidos são alguns dos temas que serão abordados na 17ª edição do Foro de São Paulo. O encontro começa nesta quarta-feira (18) em Manágua, Nicarágua, e vai até sexta (20).


Um dos principais assuntos discutidos será a integração latino-americana e caribenha, já que o encontro está programado para as vésperas da criação e consolidação da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), em Caracas, na Venezuela.

A reunião aproveitará o ano em que o país comemora o 32º aniversário da Revolução Sandinista – quando a oposição organizou constantes protestos contra a ditadura de Anastácio Somoza. A campanha, liderada pela Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), levou à derrota militar da ditadura em 1979. Com isso, os esforços da FSLN, que governou de 1979 até 1990, levaram a sociedade a uma reforma econômica, fazendo o país adotar diretrizes de esquerda no governo.

Haverá, dentro da programação, exposições de representantes do governo nicaraguense e exibição de documentários da Frente Sandinista de Libertação Nacional. Está prevista uma exposição de Iván Acosta, vice-ministro da Fazenda da Nicarágua e de Paul Oquist Kelley, secretário privado para Políticas Nacionais da Nicarágua sobre as realizações do governo de Reconstrução e Unidade Nacional.

 No evento de três dias, que terá a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se discutirá também a crise internacional do capitalismo, o "contra-ataque" da direita na América Latina e no Caribe, e os desafios atuais das esquerdas populares na região. As informações constam no documento de base elaborado pelo Grupo de Trabalho do Foro de São Paulo.

"Em relação à Líbia, embora existam diferentes opiniões sobre o conteúdo do governo (de Muamar) Kadafi, é fundamental uma rejeição categórica contra a ingerência externa, intervenção militar e contra os riscos à soberania nacional líbia", indicou o documento.

Além disso, serão discutidas as manifestações populares na Tunísia, Egito, Bahrein, Omã, Iêmen e Marrocos, que "dificultam o exercício da hegemonia dos Estados Unidos e Israel na região" e "afetam os preços do petróleo", de acordo com o documento oficial.

Outro aspecto do debate será a crescente participação chinesa na economia europeia, africana e latino-americana, e inclusive na norte-americana. O documento de trabalho indica que o crescimento da China constitui não só um fenômeno econômico, mas tem "projeções políticas e militares que o Foro deve debater com muita atenção".

A crise internacional do capitalismo e a deterioração da política norte-americana que procura enfrentá-la "lançando mão de sua hegemonia monetária e militar" será outro tema de discussão no encontro da esquerda continental. Além disso, serão analisados os desafios das esquerdas populares, democráticas, nacionalistas, socialistas e comunistas na América Latina, entre eles, o de "manter os espaços conquistados", assinala o texto base do Foro.

Espera-se a presença de mais de 80 partidos e organizações de 50 países, segundo o coordenador de evento, Jacinto Suárez, secretário de Relações Internacionais da legenda governista na Nicarágua, FSLN (Frente Sandinista de Libertação Naciona). O encontro lembra o 50º aniversário da FSLN e o 116º aniversário de nascimento do herói nacionalista Augusto César Sandino, que inspirou a Revolução Sandinista.

Entre os integrantes do foro estão partidos socialistas e comunistas de diversos países, movimentos como Frente Ampla (Uruguai e Costa Rica) e a Frente Grande (Argentina), Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (El Salvador), Polo Democrático Alternativo (Colômbia), a Frente Nacional de Resistencia Popular de Honduras, Frente Sandinista de Liberación Nacional da Nicarágua e o Partido Comunista Cubano. Do Brasil participam o PT, o PCdoB, o PCB, o PDT, o PSB.

No dia 20, na maior plenária do encontro, o debate girará em torno do tema "Construindo uma mudança de era: o projeto alternativo dos setores populares, progressistas e de esquerda latino-americana". E na plenária final, serão apresentadas as conclusões de todos os grupos de trabalho.

Antes do evento, três secretarias regionais deverão estar reunidas para discussão, entre elas, a Andino-Amazônica, Cone Sul e Centroamérica-Caribe. Durante o evento, os participantes assistirão ao documentário sobre a história da Frente Sandinista de Liberação Nacional, de acordo com a agenda divulgada.

Vermelho, com agências.

terça-feira, 17 de maio de 2011

ANÁLISE SUPERFICIAL DE 2012 EM FEIRA DE SANTANA

Feira de Santana, a Princesa do Sertão, tem deixado muita gente do mundo político de olhos arregalados de paixão, para poder decidir os rumos políticos-administrativos, dessa que é a mais bela e está encravada na entrada do Semiárido baiano. Alguns com projetos para o município, outros ainda querendo construir projetos, e mais outros que não têm e não vão construir esses projetos que o povo tanto precisa da administração pública. Mas todos querendo a todo custo ganhar as eleições de 2012.
Feira de Santana hoje se constitui como um dos maiores centros comerciais, e maior entroncamento rodoviário do interior do Norte-Nordeste Brasileiro, com cerca de 600 mil habitantes, cadastrado pelo IBGE, e com todas as demandas sociais, culturais, ambientais, econômicas e humanas dos grandes centros urbanos de nosso país. No município uma grande batalha já se iniciou entre os mais diversos atores do mundo político em movimento. Todos querem vencer em 2012. Mas analisar isso não é tarefa fácil, porém não é totalmente impossível fazer alguns comentários.
Entre aqueles que se deve conversar sobre o cargo de prefeito de Feira de Santana, estão diversos quadros políticos representando as mais variadas matizes políticas e ideológicas. Entre eles destacam-se o Senador João Durval (PDT), o Deputado Estadual Zé Neto (PT), o ex-Prefeito Zé Ronaldo (DEM), o atual Prefeito Tarcísio Pimenta (DEM), o ex-Vereador Messias Gonzaga (PCdoB), o ex-Deputado Federal Colbert Martins (PMDB), o Deputado Federal Sérgio Carneiro (PT), a ex-Deputada Estadual Eliana Boaventura (PP), o ex-Deputado Federal Jairo Carneiro (PP), o Vereador Roberto Tourinho (PSB), o Deputado Federal Fernando Torres (DEM), bem como os Deputados Estaduais Targino Machado (PSC), Carlos Geilson (PTN), Graça Pimenta (PR) e José de Arimatéia (PRB).
Existem lógico, os outros da Casa da Cidadania feirense e lideranças expressivas do meio empresarial e da sociedade civil, mas naturalmente quase todos em seu conjunto estão liderados por alguns dos principais expoentes da política feirense.
O atual Prefeito Tarcísio Pimenta (DEM), foi eleito num grupo que nos últimos tempos foi coordenado politicamente pelo seu antecessor na cadeira que ocupa. Ele é candidato natural ao cargo, porque pode se quiser e tem direito a reeleição, porém precisa combinar com o DEM, partido do qual faz parte e é presidido exatamente por Zé Ronaldo. Este tem em seus fiéis correligionários a capacidade de colocar seu nome no páreo de forma discreta, porém preocupante para Tarcísio. Na opinião de muitos será difícil Tarcísio obter a legenda para continuar como Prefeito. Se for assim, deverá até setembro próximo definir seu rumo, obedecendo a legislação eleitoral em vigor. As opções não lhe faltam, porque tem em mãos a capacidade do próprio cargo que ocupa e do poder que exerce. Para bom entendedor ou já sabe o que vai fazer ou está numa encruzilhada.
O problema também do atual Prefeito, segundo vozes correntes, é que se Zé Ronaldo (DEM) colocar seu nome no páreo, tira-lhe os votos necessários para o bom combate. Formadores de opinião e blogueiros locais, nas entrelinhas veem os adversários de Zé Ronaldo sendo outros e não Tarcísio, dada a grande votação que o mesmo teve para o Senado e a influência que exerce sobre grupos de vários setores no município.
Falando do mesmo grupo, elegeu apenas um Deputado Federal, Fernando Torres (DEM), que nos últimos dias lançou a pedra inicial do novo partido, o PSD. Segundo fontes de blogs locais ele nunca deixou de sonhar em governar Feira de Santana. Se a eleição dele para Brasília dependeu dele mesmo, vai incomodar muita gente do grupo, que, aliás, apresenta para a sociedade feirense muita confusão aparente, pois não podemos acreditar em teatro nos fatos reais do mundo político. Como não existe espaço vazio na política e não pode haver mais de um candidato do mesmo partido ou grupo, alguma coisa vai acontecer até setembro próximo. Vamos esperar prá ver o que acontece.
Nessa mesma seara três políticos bons de voto que perderam a ultima eleição são também importantes no processo eleitoral do ano que vem. A primeira é Eliana Boaventura, que na última legislatura obteve mandato, apesar de ter ficado na suplência. Detentora em todas as eleições de grande quantidade de votos não tem obtido sucesso próprio em pleitos eleitorais. Apesar disso, sabendo do seu capital eleitoral no município, a algum tempo atrás andou expondo a ideia de que seu nome estaria para avaliação, considerando também que a mesma e seu partido hoje são da base do Governo Estadual, e pelo visto ainda mantém pessoas suas no Governo de Tarcísio. Algumas pessoas dizem que esse fato é somente para barganhar posições no Governo. O segundo nome dessa seara é Jairo Carneiro (PP), que nos últimos anos perdeu suas bases eleitorais capazes de lhe alçar a Brasília, mas não deixou de ter votos para ser respeitado também, tanto que hoje é Chefe de Gabinete da Secretaria da Agricultura, coordenada pelo seu partido.
O terceiro nome que perdeu a eleição foi o ex-Deputado Federal Colbert Martins (PMDB). Candidato em várias eleições ao cargo de Prefeito, mas nunca logrou êxito. No Congresso sempre se colocou em favor dos interesses do povo baiano e especialmente de Feira de Santana. Hoje é Secretário Nacional de Turismo, cargo de extrema importância, dado o grande volume de recursos que passam no Ministério do Turismo, principalmente de emendas de parlamentares no Orçamento. Seu partido definiu prioridade de candidaturas e não deve ser diferente com Feira de Santana.
Nesse teatro hobbiano, duas personalidades da mesma família e em partidos diferentes jamais ficarão de fora do debate, dada a importância que exercem com seus mandatos em favor de Feira de Santana. O primeiro deles é o Senador João Durval (PDT), duas vezes prefeito do município, ex-Governador do Estado e na sua carreira política assumiu vários cargos de importância para nosso Estado. Nas últimas semanas rumores dão conta de ele pode sim ser candidato de seu partido no município. Se for mesmo vai incomodar muita gente, pois apesar de sua idade, ele é Senador da República e sabe fazer política, tanto que poucas vezes foi derrotado.
Da mesma família o Deputado Sérgio Carneiro (PT), que tem um histórico de competência parlamentar e principalmente política. Recentemente disse que seu nome também está a disposição, pois tem responsabilidade com Feira de Santana. Foi candidato nas últimas eleições ao cargo principal de Feira de Santana, numa ampla coligação de partidos, porém também não logrou êxito eleitoral. Porém é nome de destaque municipal, estadual e federal, e pelo visto não vai ficar olhando a roda da história pela janela.
Do mesmo modo, o Deputado Estadual Zé Neto (PT), o mais votado no município na última eleição, abertamente já colocou seu nome como candidato. Zé Neto (PT) é insistente, candidato várias vezes sem conhecer a vitória para Prefeito, mas uma vez coloca seu nome numa condição privilegiada. Como Deputado bem votado é detentor do cargo de líder do Governo na Assembleia Legislativa e coordena vários processos políticos-administrativos do Estado em nosso município. Sendo candidato pode fazer um “calo de sangue” em muita gente que tem histórico na política feirense.
Outro político que jamais vai deixar de ser ouvido é Messias Gonzaga (PCdoB), considerado uma reserva moral da política feirense e num partido de extrema importância no contexto estadual. Vereador por cinco mandatos consecutivos, e reconhecido como um dos melhores parlamentares que  Feira de Santana já teve. Foi candidato a vice-prefeito em 2008. Seu partido também apresenta no próximo pleito eleitoral candidaturas em todos os municípios mais populosos e de importância econômica para o Estado. Outro nome de importância também é o Vereador Roberto Tourinho (PSB), o mais polêmico Vereador da Casa da Cidadania feirense, que usando a Tribuna da Casa consegue formar opinião política no município.
Além desses nomes que representam agremiações e grupos políticos no município temos hoje outros quatro deputados estaduais que representam o município no Parlamento estadual. Targino Machado (PSC) eleito com boa expressão de votos no município, a algum tempo atrás andou soltando farpas contra o atual gestor, numa clara atitude política. Graça Pimenta (PR), eleita com apoio do marido não deve jamais ser contra ele, já é carta marcada. Carlos Geilson (PTN), apesar de fazer uma oposição rigorosa ao Governo de Wagner, vai ficar numa situação para se pensar se seu partido aderir de fato ao Governo. José de Arimatéia (PRB), representante da Igreja Universal no Parlamento, que resolveu desistir de dois nomes que já tinha e ficar apenas com ele, faz parte de um partido da base do Governo, mas era da base de Tarcísio antes de eleger.
Além desses nomes aqui avaliados superficialmente, em Feira de Santana existem vários líderes empresariais e da sociedade civil que tem importância e influência política que vai além do que os “olhos nus” e a vã filosofia possam imaginar. Na Câmara de Vereadores, dos 21 edís poucos podem dizer que são independentes, pois quase todos são liderados pelos nomes e grupos aqui elencados.
Não se pode avaliar o quadro político feirense de modo mais aprofundado, pois ainda faltam vários meses para a realização das convenções partidária do ano vem que definirão quem são os candidatos e alianças. Muito jogo de xadrez vai acontecer nos escritórios e gabinetes, bem como muita gente aqui elencada não vai ter condições de se manter como o “Rei” do tabuleiro, pois o cargo de Prefeito é um só e não existe histórico em Feira de Santana de eleição com dezenas de candidatos.
O que o povo feirense precisa é que os nomes que se coloquem para avaliação de outubro do ano que vem, tenham projetos e compromisso com este grande centro urbano que é Feira de Santana. Muitos amam a política, mas são poucos de fato que podem dentro de um programa de governo adequado administrar os interesses dos quase 600 mil habitantes. Aqui no município começaram de fato os preparativos da guerra eleitoral de 2012.
Aqui apenas uma pequena e superficial base de informações para alguns amigos que pensam de fato nossa cidade.
Genaldo de Melo

Deixem a Agricultura Familiar falar

O novo Código Florestal já teve sua votação adiada por três vezes, apesar do relator da matéria, Deputado Aldo Rebelo, ter feito várias alterações no texto original de seu relatório em busca de um acordo, entre as partes interessadas, para assegurar a votação da matéria. Não foi possível. O tema está extremamente radicalizado, muito mais pelo que se diz dele e muito menos pelo que efetivamente ele contem de novidades.

Mas, como tenho insistido, não é possível consenso entre posições antagônicas, especialmente entre produtivistas e santuaristas ou (cornocupianos e neomalthusianos, como outros autores preferem). É um debate de surdos, no qual ninguém tem o menor interesse em ouvir as ponderações do interlocutor.

De um lado os produtivistas argumentam que necessitam crescentemente dos recursos naturais, sem o que não haverá o desenvolvimento econômico. Não dizem explicitamente, mas desejariam que não houvesse qualquer regra ambiental disciplinando a atividade produtiva no Brasil. Usam a seu favor o exemplo de países como os Estados Unidos, onde apenas 4% da floresta original está preservada, e da própria Holanda, sede do Greenpeace, onde simplesmente não há reserva legal.

De seu lado os santuaristas recorrem à ameaça de uma tragédia ambiental global para sustentar a necessidade de se tornar ainda mais rigoroso as regas de licenciamento ambiental atualmente existente. Assim como os produtivistas, não verbalizam com clareza o que pensam. O que eles desejariam seria precisamente o congelamento de toda atividade produtiva na Amazônia. Boa parte da mídia repercute essa tese e às vezes endossa esse posicionamento.

No meio de tudo isso, assistindo a esse diálogo de surdos, estão milhões de trabalhadores da agricultura familiar que necessitam urgentemente de regras claras e flexíveis não apenas para continuarem trabalhando, sustentando suas famílias, mas igualmente assegurando alimentos na mesa de cada um de nós. Aprenderam a manejar a terra com racionalidade e produzem com reduzido impacto ambiental. São sustentabilistas (ou eco-desenvolvimentistas para outros autores) mesmo sem conhecer essas teorias e muito menos os reais interesses de cada um desses grupos. Mas sabem que precisam da terra e que dela dependerão para sobreviver. Estes estão sem voz, assim como boa parte dos cientistas que reclamam de não terem sido suficientemente ouvidos. É urgente e imprescindível que esses atores se expressem com mais clareza, verbalizando o que efetivamente pensam e querem desse novo pacto que o código florestal sinaliza.

Vamos dar voz a quem efetivamente é o grande interessado numa solução adequada para esse impasse que ameaça transformar milhares de trabalhadores rurais em “sem terra e sem teto”, uma vez que suas propriedades estão ameaçadas de confisco pela aplicação de multas – as quais não reconhecem – e que jamais poderão pagar porque, em muitos casos, o valor da multa é muito superior ao valor de toda a sua propriedade.

Esse impasse que opõe, numa falsa contradição, produção e preservação precisa ser superado a luz da ciência, não de concepções reacionárias que negam a possibilidade de desenvolvimento das forças produtivas e o acesso da parcela mais pobre da população aos bens materiais que a sociedade contemporânea proporciona.

Marx já sustentava que tudo que nasce deve morrer, evidenciando que não há ação que não provoque impacto ambiental; dizia, igualmente, que o uso irracional dos recursos naturais na sociedade capitalista levaria à sua exaustão. Mas Marx também sustentava que o desenvolvimento das ciências naturais e da agronomia representava uma garantia de recuperação desses recursos e de prolongamento de seu uso, porque a humanidade não se põe problema que não possa resolver. (Eron Bezerra -V)

Crédito a produtor familiar avança mas perde espaço em uma década

De 2000 a 2010, financiamento do governo à agricultura familiar quadruplicou mas fatia no crédito a todo setor rural caiu pela metade. Avanço do agronegócio 'primarizou' pauta de exportações brasileiras durante a década, diz estudo. Em marcha por Brasília, Contag muda o foco, abre mão de cobrar ampliação do crédito e agora quer 'turbinar' garantia de renda.
BRASÍLIA – O financiamento oficial à agricultura familiar quadruplicou em uma década mas, desde 2008, perde espaço no orçamento federal e, hoje, dentro da política de crédito do governo para todo o setor rural, representa menos da metade do que representava há dez anos. E a tendência é que essa proporção caia, quando o governo anunciar o plano safra 2011-2012, nas próximas semanas.

Maior sindicato do setor, a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) realiza a partir desta terça-feira (17/05) sua marcha anual de reinvindicações, o Grito da Terra, pedindo que o financiamento à agricultura familiar seja igual ao da última safra. A entidade acredita que, agora, é mais importante cobrar recursos para "garantir renda ao produtor" do que exigir ampliação de uma linha de crédito que o segmento não consegue aproveitar na totalidade.

No ano passado, o governo reservou R$ 16 bilhões para a agricultura familiar no plano 2010-2011. A agricultura comercial ficou com R$ 100 bilhões. A fatia "familiar" correspondeu a 14% do total de R$ 116 bilhões destinados à agropecuária. Na safra 2000-2001, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) levara 33% dos recursos. Foram R$ 4 bilhões, de um total de R$ 12 bilhões, de acordo com o ministério da Agricultura.

A queda na proporção da agricultura familiar dentro dos financiamentos oficiais ao setor rural, ao longo da década passada, ocorreu mesmo que os pequenos tenham sempre recebido mais dinheiro do que no ano anterior. O orçamento do Pronaf aumentou quatro vezes (de R$ 4 bilhões, em 2000-2001, para R$ 16 bilhões) em dez anos. Já a verba dirigida à agricultura comercial cresceu a uma velocidade duas vezes superior. Passou de R$ 12 bilhões para R$ 100 bilhões.

“Enxergamos essa realidade como o avanço do agronegócio no Brasil. Nos últimos anos, o governo tem dado prioridade ao superávit na balança comercial e depende das exportações de commodities para isso”, diz o secretário de Política Agrícola da Contag, Antoninho Rovaris.

Exportações de commodities

Durante a década passada, as vendas ao exterior de produtos primários, as commodities de que fala Rovaris, como carne ou soja, ampliaram o peso nas exportações brasileiras. Respondiam por 37% em 2000 e tornaram-se majoritárias em 2010 (51%), segundo estudo divulgado dia 10 de maio pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que aponta “primarização” da pauta exportadora do país. Para o Ipea, a "primarização" seria um problema que o país deveria debater.

Para a Contag, há outros fatores que também explicam a perda de espaço da agricultura familiar no financiamento ao setor rural. Por exemplo: a impossibilidade de os produtores pegarem empréstimos por não quitarem dívidas passadas, não terem renda suficiente, nem título de regularização fundiária. Por isso que o Grito da Terra 2011 estará satisfeito se o governo repetir para a agricultura familiar, na safra 2011-2012, a linha de crédito de R$ 16 bilhões. “Em outros anos, pedimos mais dinheiro mas não conseguimos aplicar. Agora, resolvemos mudar o foco das reivindicações”, afirma Rovaris.

Dados do ministério da Agricultura mostram que, de fato, é mais difícil para a agricultura familiar usar todo o dinheiro que o governo federal lhe reserva. Entre a safra 2000/2001 e a 2008/2009, a verba efetivamente repassada ao segmento variou de 52% a 75% do total separado em cada plano. No caso dos grandes produtores, o repasse oscilou de 92% a 135% e só em dois anos ficou abaixo do previsto – nos demais, foi sempre preciso completar o que estava disponível inicialmente.

Diante disso, a Contag acredita que faz uma aposta melhor para seus associados ao enfatizar, na negociação com o governo em 2011, o reforço de políticas que não oferecem os entraves legais do Pronaf. É o caso do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), pelo qual o governo compra a produção familiar. A Contag cobra R$ 2 bilhões para o PAA de 2011. É um pleito ambicioso. Supera tudo aquilo que foi aplicado entre 2003, quando foi criado, e 2010: R$ 1,7 bilhão, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), operadora do PAA. “A grande questão para nós, hoje, é como turbinar a garantia de renda”, diz Rovaris. (André Barrocal - CM)

Reforma política: partidos de esquerda discutem proposta conjunta


Os principais partidos de esquerda se reuniram nesta segunda-feira (16), em São Paulo, com o ex-presidente Luis Inácio Lula da Silva para discutir a estratégia conjunta para a votação de uma proposta de consenso de reforma política pelo Congresso Nacional. No encontro, estavam representantes de quatro legendas da base aliada ao governo Dilma – PT, PDT, PCdoB e PSB.

Após duas horas de reunião, os partidos concordaram em apresentar ao Congresso um documento conjunto com suas propostas, que incluirão também sugestões da sociedade civil. Ainda haverá novas reuniões para fechar um projeto unitário.

"Temos em comum a defesa do sistema proporcional, do voto obrigatório, da fidelidade partidária e do financiamento público exclusivo das campanhas", registrou o presidente nacional do PCdoB, Renato Rabelo. Segundo ele, "há um consenso de que o financiamento responde a uma série de anseios para controle das campanhas e tem um sentido democrático mais forte que leva a disputa a um nível de igualdade maior".

Renato enalteceu a iniciativa de reunir PT, PDT, PCdoB e PSB em busca de uma unidade programática. "Esse tipo de reunião não existia, e agora vamos realizar periodicamente", afirmou o dirigente comunista. "Por sugestão de Lula, iremos buscar tornar este encontro dos quatro partidos um fórum permanente, com o objetivo de discutir uma proposta unificada para a reforma política e também um espaço para a troca de ideias."

De acordo com o deputado Rui Falcão, presidente nacional do PT, a união entre as quatro legendas em torno da proposta de reforma política já é "um avanço" e pode ajudar a pressionar o Congresso a pôr o tema em votação ainda neste ano. Segundo Falcão, além dos quatro partidos da base, outros partidos também devem ser procurados.

Lula foi escolhido recentemente pela Executiva do PT como uma espécie de embaixador da legenda, que busca o consenso entre os partidos para uma proposta de reforma política. O ex-presidente deixou a reunião desta tarde sem falar com os jornalistas.

Outro ponto que os partidos devem aprofundar é a data única para eleições nas três esferas de governo – município, estado e federação. "Tem muita gente defendendo a coincidências das eleições", disse o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que preside o PSB. De acordo com representantes dos partidos, a proposta de sistema de voto em lista não foi discutida neste primeiro encontro porque não há consenso sobre ela. "Isso vai ficar para o futuro", afirmou Falcão.

Outro tema que foi consenso entre os partidos foi a ampliação da participação popular na apresentação de projetos de lei ao Congresso, com a redução das assinaturas necessárias. Hoje, para ser aceito, um projeto precisa reunir 1 milhão de assinaturas.

O isolamento de Serra


Mais tarde, depois da reunião, o ex-governador paulista José Serra promoveu um encontro inusitado na Assembleia Legislativa de São Paulo. Em campanha pelo voto distrital, partiu dele a iniciativa para uma reunião com Rui Falcão para debater a reforma política e o novo sistema eleitoral. Na saída, prevaleceu a cordialidade, mas, apesar dos acenos de ambas as partes, praticamente não houve convergências.

Enquanto Serra defendia o voto distrital puro já para as eleições municipais do ano que vem, Rui Falcão demonstrou ser pequena a margem de manobra para demover o PT de sua posição pela manutenção do voto proporcional. "Temos posições coincidentes em relação à necessidade de uma reforma política no país – mas não temos coincidência em uma proposta específica que ele está discutindo", disse o petista, em referência ao voto distrital.

Nas últimas semanas, Serra tem participado de eventos e encontros políticos com o objetivo de promover o voto distrital já em 2012 nas cidades com mais de 200 mil habitantes. A proposta de Serra, essencialmente conservadora, é rechaçada por todos os partidos de esquerda e até por lideranças de seu partido.

Segundo o tucano, com o sistema distrital o eleitor passaria a ter maior controle sobre o eleito – o que, em sua opinião, baratearia as campanhas e fortaleceria os partidos. Esse modelo, porém, não prosperou em nenhuma das grandes democracias ocidentais. (Vermelho com agências)

Democracia e pesquisas de opinião

O jogo político em sociedades democráticas passa pela formação da opinião pública. Ideias, concepções e valores fazem parte do contexto de lutas públicas, partidárias ou não, em que diferentes propostas se confrontam. Começam, dessa maneira, a se formar determinados apoios majoritários ou mesmo consensuais a certas ideias, que passam, então, a ser consideradas "normais" - precisamente por serem tidas por mais usuais, como se sua frequência fosse indicativa de sua "normalidade".

Eis por que surgem distintas maneiras de legitimar decisões, recorrendo aos mais diferentes instrumentos, tendo como objetivo ganhar a adesão dos cidadãos. Decisões que não passem por esse "ritual" correm o risco de ser ineficazes. Pesquisas de opinião, dos mais distintos tipos, cumprem, também, essa função.

Observe-se que muitas notícias e manchetes de jornais e revistas estampam que teria havido uma mudança de comportamento dos brasileiros em relação a determinados hábitos, sem que sejam expostas as condições mínimas a partir das quais tais pesquisas foram realizadas. Qual foi a margem de erro dessas pesquisas? Qual o rigor de sua amostragem ou do uso de sistemas de cotas, como gênero e região do País, e modo de entrevistas? Surge, simplesmente, a notícia como se ela retratasse a realidade, sem que indagações ou precauções mínimas sejam tomadas.

Há pouco tempo, o Ministério da Saúde divulgou uma pesquisa com 55 mil pessoas, feita por telefone, sobre os hábitos de brasileiros referentes a fumo, bebidas alcoólicas e obesidade. Imediatamente foram divulgados os resultados, a partir de certas correlações com pesquisas anteriores que indicariam aumento ou queda de certos comportamentos. A margem era tão estreita entre uma e outra que nem se poderia falar de uma mudança de hábito. Qual a sua credibilidade?

Algumas perguntas deveriam impor-se. Qual era a margem de erro dessas pesquisas? Qual a confiabilidade de uma pesquisa desse tipo, na medida em que não há uma listagem pública de telefones celulares no País? Quem não tem telefone fixo não poderia, por princípio, ser entrevistado? Não convém esquecer que o número de celulares no País ultrapassa atualmente o de convencionais.

Notícias, no entanto, foram apresentadas como se esses comportamentos, já tidos valorativamente como nocivos, devessem ser ainda mais controlados. Era evidente o propósito de que tais "pesquisas" servissem de antessala para novas medidas restritivas. Para que elas possam ser tomadas, porém, torna-se necessária uma preparação preliminar, que seria preenchida precisamente pela pesquisa de opinião. O objetivo reside no convencimento, e não numa radiografia fiel da realidade. O mais surpreendente ainda é que outras pesquisas não sejam feitas justamente para contestar ou ao menos equilibrar, do ponto de vista da formação pública, tal tipo de expediente.

Outro caso bastante em voga, e que se acentuará nos próximos meses, é o da campanha do desarmamento. As pesquisas aqui em pauta têm igualmente um forte componente retórico, feito para o convencimento dos cidadãos. Depois do referendo que terminou com a acachapante vitória do não, em inequívoca decisão favorável à liberdade de escolha, toda a política governamental consistiu em desconsiderar o resultado da vontade do povo. O povo, em eleições livres, decidiu pela liberdade de escolha. O que fez o governo? Decidiu estabelecer tal número de restrições à compra de armas que acabou por inviabilizá-la. Se tal tivesse sido o resultado da consulta, nada haveria a objetar. Como não o foi, a pergunta concerne ao próprio respeito a procedimentos democráticos.

Com o intuito de dar legitimidade a esse desrespeito a uma decisão democrática, o subterfúgio usado consistiu em produzir supostos estudos que estabelecem correlações estatísticas tendo como pressuposto que o "povo decidiu mal". A pesquisa visaria, então, a corrigir tal "anomalia". Assim, estudos são produzidos dizendo que a violência diminuiu graças ao desarmamento da população civil. Ora, correlações estatísticas podem ser feitas entre os mais distintos fatores, não indicando necessariamente uma relação causal. Por exemplo, a violência pode ter diminuído por outras causas, como maior eficiência da polícia, decisões judiciais, maior apreensão de armas de bandidos, políticas sociais para populações de baixa renda, unidades pacificadores em morros e favelas, e assim por diante. Privilegiar o desarmamento de pessoas de bem carece de qualquer base científica. No entanto, é essa aparência que procura ser "vendida" à sociedade, em nome de uma suposta "cientificidade" do estudo ou de uma pesquisa.

Outro caso que já povoa as páginas de jornais é o de pesquisas de opinião eleitoral relativas à apreciação dos graus de satisfação com os atuais governadores e prefeitos, além de outras ainda que já procuram medir o potencial dos candidatos às eleições municipais do próximo ano.

A margem estimada de erro de pesquisas de opinião se faz segundo o universo dos entrevistados. Assim, se uma pesquisa de opinião pública for feita com mil entrevistas, sua margem de erro é de 3 pontos porcentuais para mais ou para menos (total de 6 pontos). Se for com 600 entrevistas, a margem de erro sobe para 4 pontos para mais ou para menos (total de 8 pontos). Neste último caso, se se analisar apenas o comportamento das mulheres, metade aproximada da amostra por gênero, o problema se agrava. A margem de erro sobe, então, para 6 pontos para cima ou para baixo (total de 12 pontos).

Eis por que se deve ter o maior cuidado na leitura de certas notícias, pois pode acontecer que seu objetivo seja meramente retórico, o convencimento do outro, e não um retrato, embora momentâneo, da realidade. Contudo esse é, do ponto de vista público, o processo mesmo de formação da opinião pública.

Fonte: Denis Lerrer rosenfiel - O Estado de São Paulo

Representatividade subvertida

Aprovada pela Câmara dos Deputados com apoio de líderes governistas e oposicionistas, a autorização para a realização de plebiscitos no Pará para a criação dos Estados de Carajás e Tapajós é financeira e institucionalmente prejudicial ao País.

O fracionamento do Pará obrigaria o Tesouro Nacional a arcar com a construção de novos palácios governamentais, a contratação do funcionalismo e os investimentos na infraestrutura dos novos Estados. Como não disporiam de base econômica, os dois novos Estados não teriam receita fiscal suficiente para bancar despesas de custeio. Em estudo de 2008, o Ipea estima o custo fixo inicial mínimo de manutenção de qualquer novo Estado em R$ 832 milhões (o custo de instalação dos dois novos Estados foi estimado pelo órgão em cerca R$ 2,2 bilhões).

No plano institucional, a criação de novos Estados desorganiza a Federação e subverte a representatividade do Congresso. Em vigor desde a Constituição de 1891, o federalismo brasileiro foi inspirado no federalismo americano, onde a Câmara representa a sociedade e o Senado representa os Estados. Assim, a Câmara é uma casa legislativa onde prevalecem os representantes dos Estados mais populosos, enquanto a função do Senado é compensar esse predomínio, assegurando igualdade representativa entre os maiores e os menores Estados. Por isso, na Câmara, o tamanho das bancadas de cada Estado varia conforme seu número de habitantes, enquanto no Senado todos os Estados têm o mesmo número de representantes, independentemente do tamanho das suas populações.

Entre nós, esse modelo começou a ser desfigurado pela ditadura varguista, após a derrota de São Paulo na Revolução Constitucionalista. Para Vargas, os Estados economicamente fortes deviam ser politicamente fracos - e, inversamente, os Estados economicamente fracos deviam ser politicamente fortes. Segundo ele, só assim o País asseguraria sua unidade, deixando de ser um comboio com vários vagões vazios puxados por uma locomotiva - São Paulo.

Nos anos 1970, essa concepção do Estado começou a ser institucionalizada, com a fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro e a divisão de Mato Grosso. A fusão reduziu o peso parlamentar do Sudeste no Congresso e aumentou o poder representativo do Centro-Oeste, com o ingresso das bancadas de Mato Grosso do Sul no Senado e na Câmara. Além disso, com o Pacote de Abril, do presidente Geisel, que alterou o sistema de representação proporcional, a ditadura compensou as derrotas eleitorais que vinha sofrendo no Sudeste, mas desfigurou o sistema federativo. Essa situação perdura, porque a Constituinte de 88 consagrou a representação desequilibrada e ainda converteu o Amapá e Roraima em Estados - o que deu mais seis senadores para a Região Norte -, criou o Estado de Tocantins e permitiu a representação do Distrito Federal no Congresso, o que deu mais seis senadores para o Centro-Oeste. Além disso, desprezando o princípio democrático de "cada cidadão um voto", a Constituinte fixou um teto de 70 deputados para os Estados populosos e um piso de 8 para os novos Estados. Isso agravou a sub-representação de São Paulo e dos Estados desenvolvidos e a sobrerrepresentação do Norte e Nordeste na Câmara.

Por causa dessa distorção, o Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com 38% do eleitorado nacional, detêm 52% das cadeiras na Câmara e 74% das do Senado. Com 62% do eleitorado, o Sul e o Sudeste têm 48% da Câmara e 26% no Senado. Com 4,8% do eleitorado, o Norte tem 22,3% da representação no Congresso - ante 33,6% do Sudeste.

Além da criação dos Estados de Tapajós e Carajás, tramitam no Congresso 14 projetos criando Estados pelo processo de "cissiparidade politicamente induzida". Um deles - que só aguarda autorização para plebiscito - prevê a criação do Maranhão do Sul. De autoria do senador Edison Lobão (PMDB-MA), ele circunscreve esse Estado às cidades que compõem o reduto eleitoral da família Sarney.

O fracionamento do Pará servirá de estímulo para a tramitação desses projetos. O efeito prático será a criação de mais buracos negros nas finanças da União, além da ulterior desfiguração da Federação. (AE)

Quatro novas legendas devem ser criadas ou ressuscitadas



O Brasil conta com 27 partidos políticos regulares e, ainda assim, há motivação suficiente para tentar emplacar mais quatro. Além do neogovernista PSD, outros três grupos tentam ultrapassar a barreira das 500 mil assinaturas para conseguirem o direito de nascer (ou renascer). Isso porque um dos partidos em vias de ocupar a cena política nacional é um velho conhecido do eleitor: o PL. Além do esforço por ressuscitar o partido ligado ao escândalo do mensalão, os militares também pretendem voltar oficialmente à vida política pelo Partido Militar do Brasil (PMB). Ao mesmo tempo, uma parcela de executivos de multinacionais se articula para criar uma legenda com proposta insólita. O Partido Novo pretende ser uma legenda política sem políticos — pelo menos até o momento do registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Todas as quatro legendas trabalham com prazo curto para consolidar o surgimento, ou ressurgimento: setembro. A pressa tem uma razão muito simples. Neófitas, integrantes dos três partidos acreditam que as eleições municipais de 2012 são a porta de entrada para tentarem eleger uma bancada mínima na Câmara dos Deputados dois anos depois. No campo das projeções, as perspectivas são distintas. O PSD se prepara para aderir à bancada governista — pelo menos onde for conveniente — e sonha com 50 deputados federais a partir de 2015. Mais modesto, o PL tenta renascer sem a parcela do antigo partido que migrou para o atual PR e de olho no dinheiro do fundo partidário e no tempo de televisão. Legendas sem deputados federais têm direito a R$ 550 mil anuais, mais dois minutos semestrais em rede nacional de tevê e rádio. Se tiver parlamentares, o tempo sobe para um programa nacional por semestre, com duração de 10 minutos. Já o PMB, pretende empunhar as bandeiras militares — entre elas a aprovação do projeto que institui piso salarial para a categoria. (Blog do Jair)


segunda-feira, 16 de maio de 2011

Salvador: Prefeituráveis são destaque

O
evento também marcou o primeiro encontro público de quatro pré-candidatos ao Palácio Thomé de Souza. Na mesa principal, junto ao anfitrião Edvaldo Brito, estavam os deputados federais Antônio Imbassahy (PSDB), Alice Portugal (PCdoB) e Nelson Pelegrino (PT), que não perderam a oportunidade de discursar para o público que lotou o auditório do Hotel Fiesta. Os quatro, embora com propostas diferenciadas para Salvador, concordaram que a pluralidade de candidatos é o caminho mais acertado para fortalecer a democracia.

A primeira a pegar o microfone, a comunista Alice Portugal, ao saudar a senadora Lídice da Mata, que também estava na mesa, lembrou o fato de a socialista ter sido primeira prefeita de Salvador. "E que essa cidade possa vir a ter a segunda", disse numa referência clara ao seu nome.

O petista Nelson Pelegrino preferiu saudar o anfitrião da
festa, mas sem deixar o seu partido de lado. "Vejo com muita alegria o nome de Edvaldo Brito. O PTB, juntamente com o PT, herdou a tradição trabalhista no Brasil de lutar pelos interesses das classes menos favorecidas", disse, complementando "ter orgulho" de ter sido aluno do vice-prefeito.

Por fim, não perdeu a
oportunidade de reforçar a importância de o PTB, que faz parte da base aliada do governo federal desde o primeiro mandato de Lula, discutir com o PT e com os outros partidos aliados uma alternativa para a cidade ao final do atual ciclo de poder.

Já Imbassahy saudou a iniciativa do vice-prefeito e elogiou a história de vida de "seu professor". (FC)