sexta-feira, 16 de setembro de 2011

O inferno astral do neoliberalismo

Por Antonio Lassance, no sítio Carta Maior:

O neoliberalismo é uma ideologia, uma visão de mundo. Mais precisamente, é uma visão de mundo adepta do individualismo, da competição, do Estado mínimo e da primazia do mercado, o que justifica sua filiação ao velho liberalismo. O que havia de novo nesse liberalismo?

O velho liberalismo de Adam Smith reservava funções claras ao Estado, mesmo que sumárias, como a defesa do território, a proteção (que hoje preferimos chamar de segurança pública), o recolhimento de impostos e a política monetária. Mas nenhum liberal clássico, ao defender o indivíduo, deixava de olhar a sociedade como um todo. A liberdade individual supostamente promoveria o bem estar da sociedade. Smith externava preocupação com o [fato] de que seus concidadãos, que vestiam o mundo, estavam em farrapos.

Para o neoliberalismo, porém, não existe sociedade; o que existe são indivíduos (frase de Margareth Thatcher, ex-primeira ministra do Reino Unido). Não existe serviço público que não possa e não deva ser prestado por empresas privadas (frase de David Cameron, atual primeiro ministro do britânico).

Para o liberalismo clássico, as corporações eram um problema a ser atacado. “A riqueza das nações”, de Adam Smith, criticava a proteção estatal às companhias comerciais, que exerciam atividades mercantis de forma monopolística, financiadas e escoltadas com recursos públicos. Para o novo liberalismo, as corporações são “a firma” e são equiparadas aos indivíduos. São pessoas jurídicas e têm por trás de si acionistas (indivíduos). Ao contrário da versão original, para o neoliberalismo a riqueza dos indivíduos é apátrida, e não uma riqueza “das nações”.

Outro fator de novidade do neoliberalismo era a globalização, uma marcha tida como inexorável para o domínio absoluto do globo por essas grandes corporações (comerciais, industriais, mas sobretudo financeiras). Bem diferente da ideia de divisão internacional do trabalho, que tinha como base as nações, e não as empresas. Romanticamente, Smith apontava um caminho para cada país encontrar seu lugar ao sol, produzindo de acordo com sua vocação. Deve-se dar um desconto ao romantismo de Adam Smith, pois ele era contemporâneo da poesia de Lord Byron, da música de Beethoven, da pintura de Delacroix. O mundo respirava romantismo por todos os lados e parecia que o progresso salvaria a todos.

A visão do neoliberalismo não é nada romântica. Os neoliberais são realistas até o último fio de cabelo. Eles são herdeiros da mutação genética introduzida no velho liberalismo pelo darwinismo social de Herbert Spencer, na segunda metade do século XIX. Sua vinculação a Friedrich Hayek tem traços claros que os colocam mais como apóstolos da lei do mais forte do que da lei do livre mercado.

Ascensão e queda do neoliberalismo

A construção do neoliberalismo desenrolou-se aos soluços, com inúmeros sobressaltos. Ele sobreviveu em estado vegetativo por décadas, até ganhar uma dimensão política avassaladora com o tridente formado por Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha, nos anos 1980, personificado nas lideranças de Ronald Reagan, Margareth Thatcher e Helmut Kohl.

Sua força política empunhava um ideário econômico agressivo, cuja síntese mais propalada tornou-se conhecida como o “Consenso de Washington”.

O ciclo do neoliberalismo, quase como um ciclo biológico tradicional, durou cerca de vinte e cinco anos. É difícil encontrar hoje em dia algo que não traga sinais dessa herança. Mesmo com seus abalos, ao final dos anos 1990, ele ainda ganhou uma sobrevida por meio de governos da autointitulada “terceira via”. Sob esse guarda-chuvas está uma legião composta pelos democratas nos EUA (Bill Clinton), socialdemocratas da Europa (Tony Blair, no Reino Unido; Gerhard Schröder, na Alemanha; Lionel Jospin, na França; Massimo D’Alema, na Itália) e parte da América Latina (como Fernando Henrique Cardoso, no Brasil; Carlos Andrés Perez, na Venezuela; Carlos Menem, na Argentina; e todos os governos da Concertación chilena).

O inferno astral

O neoliberalismo sofreria um profundo abalo e entraria definitivamente em seu inferno astral a partir de 2008, quando se ouviu um dobre de finados não na periferia do sistema, mas na catedral do capitalismo, em Nova York. Era o enterro da Lehman Brothers Holdings Incorporated.

Mas uma das características do neoliberalismo, além da ousadia e do cinismo, é a teimosia. Ele insistia em disputar projetos políticos e em ganhar eleições com seus arautos. Neles residiam as últimas esperanças de dar a volta por cima, recobrar as energias e reinventar formas de acumulação que evitassem que o capitalismo carregasse a pecha de ser um grande prejuízo para a vida da maioria dos mortais.

Para a surpresa dos incautos, o neoliberalismo conseguiu eleger novos garotos-propaganda. Na pátria-mãe, o Reino Unido, David Cameron; no Chile, Sebastián Piñera; na Alemanha, Angela Merkel.

O Reino Unido é o exemplo mais retumbante do fracasso estrutural do neoliberalismo. Sua política econômica tem como eixo a redução de serviços públicos e a tentativa de desmonte de estruturas de Estado, uma retórica persistente, mas pouco efetiva. O inglês mantém um alto grau de prestação de serviços públicos estatais. Conjunturalmente, a inflação está em alta, com as projeções beirando os 5% - pois é, eles não vão cumprir a meta de inflação, que por lá está fixada em 2%. O desemprego não só está em alta, como é o maior dos últimos dois anos.

A Escócia de Adam Smith, em má homenagem ao credo neoliberal, ostenta um grande número de serviços públicos gratuitos à população. Seu Estado de bem-estar social faz inveja ao dos ingleses. Os escoceses já haviam conseguido um parlamento próprio e agora têm ganhado mais adeptos em favor de sua independência. A política de desmonte, do governo Cameron, tem ajudado em muito a aumentar a adesão à proposta de secessão. As receitas da Escócia são suficientes para mostrar que, se alguém pode sair perdendo com a separação, é a Inglaterra.

No País de Gales, a seção local do partido conservador cogita até trocar de nome e reclama de sua associação ao legado de Margareth Thatcher. A má fama do thatcherismo, segundo pesquisas, os prejudica eleitoralmente.

No Chile, Piñera enfrenta as maiores manifestações desde Pinochet. Além dos estudantes nas ruas, grande parte dos moradores das cidades do sul do país, dependentes do gás subsidiado para se proteger do frio, protesta contra o reajuste do produto e o encarecimento do custo de vida.

Na Alemanha, Merkel tem feito pouca coisa que pode ser considerada verdadeiramente neoliberal. Tanto que até seu companheiro de partido, Helmut Kohl, lhe faz críticas sistemáticas. Os socialdemocratas alemães parecem bem mais apegados ao neoliberalismo e dizem que a Alemanha vai pagar caro pelas “vacilações” de Merkel, que deveria ser mais dura em cobrar ajustes rigorosos em toda a zona do Euro.

O conservadorismo e seu contraponto

Mas a hora não é dada a comemorações. O que está ruim ainda tem a chance de ficar pior. A crise profunda do neoliberalismo tem tido como efeito político a ressurreição do conservadorismo. Se os novos liberais perderam força, os conservadores tomaram muito de seu espaço. A última vez em que isso aconteceu foi após a I Guerra Mundial, com o nazismo e do facismo.

O conservadorismo tem como bandeiras o combate aos imigrantes, o protecionismo, o militarismo e o gasto social seletivo. Quer reduzir a prestação de serviços públicos e trocá-los por cheques, “vouchers” e descontos de imposto de renda, mas não exatamente por razões privatistas. Há um duplo propósito. Torna possível financiar empresas privadas nacionais para prestar serviços públicos essenciais e fecha a porta aos imigrantes, que vivem na ilegalidade e não podem receber esses benefícios focalizados.

O conservadorismo que tem no “Tea Party”, dos EUA, seu movimento mais proeminente, é protecionista, nacionalista, militarista, xenófobo, intolerante Os neoliberais não são a fonte desses cacoetes. Seus vícios originais são outros, embora aceitem compartilhá-los, principalmente o militarismo, se isso justificar vantagens competitivas.

Neoliberais apóiam a imigração como forma de atrair talentos de qualquer parte do mundo e reduzir o custo da mão-de-obra, assim como para manter uma ampla parcela de trabalhadores apartada de direitos sociais. São a favor do direito de mulheres muçulmanas escolherem se querem ou não usar a burka, pois sua proibição desrespeita a liberdade individual. São cautelosos quanto ao militarismo, pois seus gastos são elevados. Henry Kissinger e James Baker escreveram, meses atrás, um artigo condenando a intervenção na guerra da Líbia, com base em um cálculo da relação custo-benefício para os Estados Unidos.

Na crise financeira de 2008, os neoliberais foram, em grande medida, “liquidacionistas”, como o velho Hayek pergava. Disseram que os bancos em dificuldades deveriam ser deixados à sua própria sorte e quebrarem, se preciso fosse.

Se há um contraponto político ao conservadorismo, ele ronda a América do Sul. Está pelo Brasil, pela Argentina, o Uruguai, o Paraguai, a Bolívia, a Venezuela, o Equador e o Peru. Com defeitos, limitações, tibiezas e inúmeros problemas. Na Europa e nos Estados Unidos, os movimentos de esquerda são de uma espontaneidade sem luxemburguismo (o da Rosa, não o do Vanderley). Dependem de associações civis pouco conectadas à luta política nacional e têm um profundo descrédito pelos partidos, inclusive os de ultraesquerda, afogados em sua própria retórica e empacados em sua falta de projeto.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Sair do círculo cego em direção à metapolítica

Giorgio di Capitani
Pároco na Diocese de Milão
Adital
 
Tradução: Pe. José Nacif Nicolau

Exatamente há 10 anos, 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos da América sofriam o maior atentado terrorista de sua história. Dois aviões golpearam sucessivamente as Torres Gêmeas, os dois mais altos arranha-céus de Manhattan, Nova York. Resultado: morreram 2.752 pessoas de 70 nacionalidades, entre eles 343 bombeiros e 60 agentes policiais. O presidente dos EUA era George W. Bush, um dos mais estúpidos presidentes americanos e, justamente por isso, era o amigo preferido do nosso Berlusconi. O que dizer?

1ª observação: quem se faz muito de prepotente antes ou depois paga, mas quem paga são, invariavelmente, os inocentes, como sempre.

2ª observação: Existe terrorismo e terrorismo. Existe o terror do imperialismo em nome da democracia e existe o terror do fundamentalismo por detrás de motivações também religiosas, verdadeiras ou presumivelmente verdadeiras. Ambos os terrorismos procuram vítimas: os mortos são mortos e, por isso, não existe distinção. Não sei se são mais numerosos os mortos por causa do terrorismo ou por causa do antiterrorismo!!

3ª observação: Não existe nenhum País, por mais superpotente que seja, que possa garantir segurança a seus cidadãos e, muito menos, mostrar-se garantidor da segurança do mundo. Não é o dinheiro e muito menos as armas que garantem a paz. Os equilíbrios fundados sobre a força das armas não produziram nunca a harmonia entre os povos. Dizer paz e dizer segurança não é a mesma coisa.

4ª observação: Quem tem meios inferiores para contra-atacar o inimigo recorre a uma particular estratégia de maneira a compensar as próprias carências quantitativas e qualitativas. Fala-se então de uma assimetria. Não é uma invenção de hoje: é a estratégia de Davi, que usou uma funda com um dardo entre as mãos para matar Golias, um gigante revestido de uma armadura de bronze. Tudo isso para dizer que basta pouco –a astúcia e poucos meios– para colocar em crise um império aparentemente intocável. Golias era forte; porém, estúpido. Não me parece que os países mais potentes sejam sempre guiados por pessoas sábias.

5ª observação: Depois de episódios dramáticos como aquele de Manhattan não se deve reagir com o instinto da força bélica. Um mês antes do atentado, Bush havia declarado guerra ao Afeganistão. Resultado? O Afeganistão, 10 anos depois, é ainda um campo de batalha que produz a cada dia vítimas inocentes. A história ensina que enganando chega-se a criar as ocasiões para se fazer guerra e, estejamos atentos, se faz a guerra não para libertar uma população das mãos de um tirano, mas para liberar poços de petróleo em próprio proveito. A Líbia é o último exemplo evidente.

Não entro na complexa hipótese se por detrás dos atentados de 11 de setembro estivesse o mesmo imperialismo ou capitalismo superliberal americano. No entanto, essa é uma tese que está crescendo apoiada em provas que parecem cada vez mais convincentes. O verdadeiro terrorismo é o de casa ou é produzido em casa. O engano é a arte do poder. E, por isso, é fácil fazer acreditar que o inimigo é aquele de fora; é o estranho, o estrangeiro. Nós somos os nossos verdadeiros inimigos. Os Estados Unidos da América sempre criaram inimigos para obter aquilo que queriam.

Não estou aqui, nesta homilia, a lhes dizer, com provas, o quanto se gastou em dinheiro para combater um presumido terrorismo. Dinheiro que depois provoca, como está acontecendo, crises financeiras. Cifras alucinantes. Débitos astronômicos que depois são despejados sobre países já endividados. Também isto é terrorismo.

6ª e última observação: Ainda hoje se teme o comunismo, mesmo que, na realidade, ele não se encontre em nenhum lugar do mundo. Nem mesmo as melhores ideias de Karl Marx sobreviveram ao progresso feroz de um capitalismo desenfreado. Mas, o capitalismo liberal ou superliberal, ou mais precisamente selvagem, não parece morrer jamais. Sobrevivemos ao comunismo mais criminoso, isto é, aquele soviético; mas, não sobreviveremos ao capitalismo que continua a semear vítimas, mesmo porque o capitalismo sabe assumir o rosto de benfeitor, daquele que não só dá alguma coisa para comer, mas nos oferece um mundo de prazeres mesmo que sejam somente desejos, necessidades que não se realizam plenamente. E mesmo que se realizem em parte, não nos satisfazem; mas, criam outros desejos, outras necessidades, e assim por diante. Também isto é terrorismo.

Exame de consciência! Mas, quem o deve fazer? Por que esperá-lo de quem se faz terrorista por vocação? Devemos ser nós, cidadãos, que devemos nos rebelar e não a chorar diante das duas torres gêmeas reduzidas a cinzas, como se por trás estivesse o diabo islâmico. As duas torres gêmeas representam a Torre de Babel: o poder que quer reunificar as várias línguas, os vários povos, sob o mesmo domínio. Não falo de punição de Deus, mas de punição da História.

A Humanidade a caminho tem as suas recuperações. Mais cedo ou mais tarde qualquer tipo de imperialismo é destinado a acabar, forçado pelo desafio de uma Humanidade que é convivência, mas convivência das diferenças.

O imperialismo é o verdadeiro inimigo da Humanidade. A luta será dura, porque o capitalismo, diferentemente do fundamentalismo ou do comunismo, se apresenta com rosto manso e suave.

O século, o secular, as estruturas espaço-temporais participam realmente da vida do mundo, e esta vida é sagrada, tem o valor do divino. A salvação do homem passa também pela dimensão pública, política.

Escutamos muito que o divino está dentro de nós; mas, na realidade, não acreditamos nisso.

A religião deve interessar-se pelo político; o político humano, imanente é também experiência do transcendente: protesto, rebelião, utopia, transformação, dedicação até a morte para defender os direitos dos oprimidos; tudo isto são presenças do transcendente na política.

Devemos ter a coragem de sair deste círculo cego...

Nós padres devemos ajudar as pessoas a compreender que há uma saída, que é possível romper o cerco...; uma alternativa existe... Sair... Ir ao encontro da alternativa que existe.

Agora, quero fazer um discurso sério, isto é, empenhativo. Mesmo porque não quero reduzir o problema a um aspecto puramente econômico, desejo falar da política usando um termo que aparentemente parece difícil: METAPOLÍTICA. Não é uma palavra inventada recentemente: ela foi usada nos inícios do século XIX. Inicialmente sabemos que a palavrinha ‘meta’, que significa ‘depois’; porém, é empregada no sentido de ‘além’, ‘mais para lá’, tal como quando dizemos ‘metafísica’: a metafísica vai além dos elementos contingentes da experiência sensível; se ocupa dos aspectos contidos mais autênticos e fundamentais da realidade, segundo a prospectiva mais ampla e universal possível.

Da mesma forma, a METAPOLÍTICA vai além do contingente, do banal, do aparente, do momentâneo: uma política que, sem se tornar metafísica, esteja aberta à transcendência. Assim sonhava Raimon Panikkar, filósofo e teólogo espanhol, nascido de mãe catalã e de pai indiano, que faleceu aos 90 anos no ano passado (2010). Um personagem interessante: pertencia a quatro religiões: a católica, a hinduísta, a budista e a secular. Foi um inimitável mestre do diálogo intercultural e do diálogo inter-religioso. Seu pensamento é um pouco complexo, embora muito fascinante pelas suas aberturas. Por ocasião de sua morte, Enrico Peyretti assim sintetizou seu pensamento a propósito da política: "há uma ligação indestrutível entre política e sentido profundo da vida; entre atividade política do homem e o seu destino final” (cada um é livre de pensar o que quiser sobre isto).

Na dimensão METAPOLÍTICA aparece uma alternativa à atual situação planetária, marcada por três agitações: 1. Crise ecológica; 2. Monetarização da economia; 3. Império tecnocrático. A estas três agitações se opõem três princípios positivos: A. Revelação ecosófica (sabedoria e espiritualidade da terra); B) Desmonetarização da economia; C) Emancipação da tecnologia.

A. Revelação eco-sófica: O homem não somente mora na terra; mas, somos terra; somos polis. Terra e polis somos nós. Esta é uma nova sabedoria, eco-sófica: a terra é sábia e o homem é portador de tal sabedoria, que é um dom e não um artifício.

B. Refutação da ideologia pan-econômica que impregnou a cultura, a política, a ética. Reconhecer os estragos que tal ideologia provocou a lógica do dinheiro que tudo pode. Isto não é utopia: pois não propõe a supressão do dinheiro e do mercado, mas sim a tutela dos valores humanos sobre o predomínio do dinheiro. Ações e valores gratuitos existem, devem ser reconhecidos e afirmados. ‘Eco-nomia’ quer dizer ‘regra para morar’, ‘lei da casa’; não quer dizer astúcia para explorar a humanidade e o mundo pelo gigantismo imperial do dinheiro e o domínio dos ricos (pluto-cracia).

C. Emancipação da tecnologia: é preciso se livrar de uma tecnologia que invade tudo, mas sem cair num ascetismo negativo regressivo ou anticientífico. Significa, sim, construir estruturas em que se possa exprimir a plenitude do humano.

A alternativa que Panikkar propõe não é um ‘sistema-antissistema’, mas porque ‘ser é ser junto’ é necessária uma ‘fecundação recíproca das culturas’. A fecundação recíproca supõe escuta e diálogo profundo com as culturas não dominantes, por muito tempo silenciadas. Portanto, uma nova convivialidade internacional, confederação de povos não achatada sob um único modelo.

A METAPOLÍTICA deve se dedicar a construir esta obra alternativa, que Panikkar chama ‘secularização sacra’, ou fusão indissolúvel do plano religioso e do político. Também Gandhi colocara em relação estreita o religioso e o político. O que é religioso é pensado mais como inspiração, interioridade e menos como instituição, como estrutura. A história europeia do Cristianismo constantiniano real-papal ( aliança entre trono e altar, mesmo nos países da Reforma Protestante) nos deixa basicamente suspeitos quanto a avizinhar a religião e a política, e isto nos deixa muitos motivos para temer a consagração do poder político e a politicatização do espírito religioso.

Panikkar quer dizer que o século, o secular, as estruturas espaço-temporais participam realmente da vida do mundo, e esta vida é sagrada, tem o valor do divino. A salvação do homem passa também pela dimensão pública, política; Escutamos muito que o divino está dentro de nós, mas na realidade não acreditamos nisso. A religião deve interessar-se pelo político; o político humano, imanente, é também experiência do transcendente: protesto, rebelião, utopia, transformação, dedicação até a morte para defender os direitos dos oprimidos, tudo isto são presenças do transcendente na política.

Devemos ter a coragem de sair deste cerco cego... As lideranças religiosas devem ajudar as pessoas a compreender que há uma saída, que é possível romper o cerco...; uma alternativa existe...; sair... encontrar a alternativa que existe.

No seu pequeno livro ‘ECOSOFIA: a nova sabedoria, por uma espiritualidade da terra’ (1993), encontramos uma síntese essencial do pensamento de Panikkar. Eis em síntese as suas propostas para uma nova projeção ética, social, política planetária:

1.Desmonetizar a cultura, contra a quantificação dos horizontes humanos pela sua qualificação.

2.Demolir a torre de Babel: toda cultura deve ter confiança em si mesma, não se deve ajustá-la aos modelos dominantes.

3.Superar a ideologia dos países nacionais; favorecer as autonomias menores e as relações multilaterais entre eles.

4.Recolocar a ciência em seus limites, porque ela não esgota o conhecimento do mundo.

5.Substituir a tecno-cracia por valores criativos da arte, do amor e da beleza, máximos valores em muitas culturas.

6.Superar a demo-cracia por uma nova cosmologia (kosmos: mundo, ordem, ordenamento).

7.Recuperar o animismo: a vida em comunhão com a natureza e com todo fragmento vivo.

8.Fazer paz com a terra, renunciando a dominá-la, sugá-la como objeto de conquista.

9.Recuperar a dimensão divina: ‘liberdade e infinitude que permeia tanto a matéria como o espírito tanto os sentidos como o intelecto’; dimensão mística ‘mystika’), isto é: interior, direta, não dependente de intermediários. "Este é o ‘espaço’ em que nos movemos, percebemos e pensamos, no qual vivemos e existimos”.

Panikkar trabalha, então, para desmontar a raiz de toda violência, que é a violência cultural.

O mundo ao revés: Brics discutem ajuda para Europa

Paco Ibánez cantava. Vocês se lembram? Um príncipe mau, uma bruxa formosa e um pirata honrado. O mundo ao revés com o qual sonhava o poeta José Augustín Goytisolo talvez exista. O ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, anunciou que o grupo Brics se reunirá na semana que vem em Washington para discutir as formas de ajudar a Europa. A rotina da crise mundial é cheia de surpresas. Cuidado com a rotina.

Brics é a sigla do grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Há dez anos, Jim O’Neill, do Goldman Sachs, descobriu que havia uma segunda linha por trás dos países mais ricos a chamou de Bric. A África do Sul, país chave que faltava, é uma incorporação recente.

Washington não é a capital de nenhuma das cinco nações, mas sim dos Estados Unidos. Os representantes dos cinco Brics estariam, então, de visita. Ou nem tanto. Washington é também a sede do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

Como fato em si mesmo, falar de uma ajuda a Europa supõe uma preocupação. Os Brics temem que a queda europeia e a estagnação norteamericana (ontem foi divulgada a cifra de 15% de pobres nos EUA, ou seja, 46 milhões de pessoas, em 2010) provoquem uma etapa de contração mundial que prejudique também a África do Sul, Ásia e África.

Como a Argentina sabe bem, não há ajuda sem condições. Entre 1982 (crise da dívida externa) e 2001 (default) o Fundo ajudava, se é que se pode usar essa palavra, em troca de estratégias de transferência de renda em favor dos mais ricos, de desregulação de Estados e mercados. Essa “ajuda” do FMI era parte do que, no último domingo, o pesquisador Alain Rouquié definiu como “financeirização da economia”.

Os Brics poderiam dizer que se a Europa aceitar sua ajuda, eles não imporão condições. Seria divertido que o dissessem. Mas também falso. As condições de um empréstimo não são só uma ideologia, mas uma consequência da natureza de quem empresta. Elas existem sempre. Com suas diferenças de regime político, China e Brasil baseiam sua política no estímulo à demanda interna e externa e não na flexibilização do trabalho e na eternização do trabalho temporário, como acaba de fazer, por exemplo, a Espanha. O ex-presidente do governo espanhol Felipe González (1982-1996) impulsionou essas medidas, mas ontem disse amargamente que os países da Europa “são como galgos que correm atrás de uma lebre mecânica que ninguém sabe quem move e que nunca conseguem alcançar”.

A amargura é porque a Europa estaria carecendo de política comum, mas segue sendo, em conjunto, a principal economia do mundo.

Segundo o jornal Valor, uma das ideias dos ministros de Economia ou Fazenda e dos presidentes dos bancos centrais seria o aumento da porcentagem das reservas dos cinco Brics em títulos lastreados em euros. Um modo de desafiar o dólar. A presidenta brasileira, Dilma Rousseff, tem reclamado que a guerra cambial mundial, impulsionada pelos Estados Unidos, obriga o resto dos países a armazenar reservas em um dólar cujo valor é fixado em Washington.

Dilma aproveitou ontem para fazer alguns ajustes na proposta de Mantega. Em Araçatuba, São Paulo, onde assinou convênios de ajuda financeira para fortalecer hidrovias de transporte de grãos, disse que “a melhor forma de resistir à crise no Brasil é continuar consumindo, produzindo, investindo em infraestrutura, plantando e colhendo, protegendo nossas indústrias e seu componente nacional”.

Ao falar sobre os países europeus, Dilma foi menos poética que Felipe e seus galgos. “Enquanto eles discutem o que ocorre com a crise da dívida de seus bancos, aqui nós gastamos nosso dinheiro em parcerias público-privadas, em sociedades entre o governo federal e o estadual, com o objetivo de criar desenvolvimento, emprego e renda para o país”, afirmou.

De acordo com os números da revista The Economist, as economias da União Europeia representam um pouco menos de 24% da economia global. Os Brics representam 21%. Mas os europeus têm 32% dos votos no FMI e os Brics só 11%.

Desafiar o dólar e a Europa sem apostar na sua quebra, e estabelecer outra correlação de forças no Fundo, é o que está por trás da oferta de ajuda lançada por Mantega em seu papel de Paco Ibáñez.

(*) Martin Granovsky é analista internacional argentino, colunista do jornal Página12.

Entrevista com Eric Hobsbawm: Trocando mitos por história

Eric Hobsbawm é um historiador merecedor de todo o respeito. Num tempo em que a atividade central da grande maioria dos historiadores burgueses consiste na reescrita da história de acordo com as conveniências da ideologia dominante, a sua fidelidade à matriz marxista na investigação e no método serve de exemplo, independentemente das discordâncias que este ou aquele aspecto da sua obra suscitem.


Discordâncias que ele próprio assume frontalmente: “O que busco é o entendimento da história, e não concordância, aprovação ou comiseração”. Esta interessante entrevista é um exemplo da importância da reflexão de alguém que conta 94 anos, ou seja, de alguém que nasceu no ano da grande revolução socialista de outubro.
Estadão:
No livro Globalização, Democracia e Terrorismo, de 2007, o senhor passa para os leitores certo pessimismo ao lhes colocar uma perspectiva crucial e ao mesmo tempo desconfortante: ''Não sabemos para onde estamos indo'', diz, referindo-se aos rumos mundiais. Olhando as últimas décadas pelo retrovisor da história esse sentimento parece ter se intensificado. Em que outros momentos a humanidade viveu períodos marcados por essa mesma sensação de falta de rumos?
Eric Hobsbawm: 
Embora existam diferenças entre os países, e também entre as gerações, sobre a percepção do futuro - por exemplo, hoje há visões mais otimistas na China ou no Brasil do que em países da União Europeia e nos Estados Unidos -, ainda assim acredito que, ao pensar seriamente na situação mundial, muita gente experimente esse pessimismo ao qual você se refere. Porque de fato atravessamos um tempo de rápidas transformações e não sabemos para onde estamos indo, mas isso não constitui um elemento novo em tempos críticos. Tempos que nos remetem ao mundo em ruínas depois de 1914, ou mesmo a vários lugares daquela Europa entre duas grandes guerras ou na expectativa de uma terceira.

Aqueles anos durante e após a 2ª Guerra foram catastróficos, ali ninguém poderia prever que formato o futuro teria ou mesmo se haveria algum futuro. Cruzamos também os anos da Guerra Fria, sempre assustadores pela possibilidade de uma guerra nuclear. E, mais recentemente, notamos a mesma sensação de desorientação ao vermos como os Estados Unidos mergulharam numa crise econômica que até parece ser o breakdown do capitalismo liberal.

Estadão: Nações saíram empobrecidas, arruinadas mesmo, das guerras mundiais, mas é adequado pensar que havia naqueles escombros o desenho de um futuro?
Eric Hobsbawm: Sim. Se de um lado o futuro nos era desconhecido e cada vez mais inesperado, havia por outro lado uma ideia mais nítida sobre as opções que se apresentavam. No entreguerras, a escolha principal de um modelo se dava entre o capitalismo reformado e o socialismo com forte planejamento econômico - supremacia de mercado sem controle era algo impensável. Havia ainda a opção entre uma democracia liberal, o fascismo ultranacionalista e o comunismo.

Depois de 1945, o mundo claramente se dividiu numa zona de democracia liberal e bem-estar social a partir de um capitalismo reformado, sob a égide dos EUA, e uma zona sob orientação comunista. E havia também uma zona de emancipação de colônias, que era algo indefinido e preocupante. Mas veja que os países poderiam encontrar modelos de desenvolvimento importados do Ocidente, do Leste e até mesmo resultante da combinação dos dois. Hoje esses marcos sinalizadores desapareceram e os "pilotos" que guiariam nossos destinos, também.

Estadão: Como o senhor avalia o poder das imagens de destruição nos ataques do 11/9 a Nova York, tão repetidas nos últimos dias? Tornaram-se o símbolo de uma guinada histórica, apontando novas relações entre Ocidente e Oriente? Por que imagens do cenário de morte de Bin Laden surtiram menos impacto?
Eric Hobsbawm: A queda das torres do World Trade Center foi certamente a mais abrangente experiência de catástrofe que se tem na história, inclusive por ter sido acompanhada em cada aparelho de televisão, nos dois hemisférios do planeta. Nunca houve algo assim. E sendo imagens tão dramáticas, não surpreende que ainda causem forte impressão e tenham se convertido em ícones.

Agora, elas representam uma guinada histórica? Não tenho dúvida de que os Estados Unidos tratam o 11/9 dessa forma, como um turning point, mas não vejo as coisas desse modo. A não ser pelo fato de que o ataque deu ao governo americano a ocasião perfeita para o país demonstrar sua supremacia militar ao mundo. E com sucesso bastante discutível, diga-se. Já o retrato de Bin Laden morto (que não foi divulgado) talvez fosse uma imagem menos icônica para nós, mas poderia se converter num ícone para o mundo islâmico. Da maneira deles, porque não é costume nesse mundo dar tanta importância a imagens, diferentemente do que fazemos no Ocidente, com nossas camisetas estampando o rosto de Che Guevara.

Estadão: Mas além da chance de demonstrar poderio militar, os Estados Unidos deram uma guinada na sua política externa a partir de 2001, ajustando o foco naquilo que George W. Bush batizou como "war on terror". Outro encaminhamento seria possível?
Eric Hobsbawm: Eu diria que a política externa americana, depois de 2001, foi parcialmente orientada para a guerra ao terror, e fundamentalmente orientada pela certeza de que o 11/9 trouxe para os EUA a primeira grande oportunidade, depois do colapso soviético, de estabelecer uma supremacia global, combinando poder político-econômico e poder militar.

Criou-se a situação propícia para espalhar e reforçar bases militares americanas na Ásia central, ainda uma região muito ligada à Rússia. Sob esse aspecto, houve uma confluência de objetivos - combate-se o inimigo ampliando enormemente a presença militar americana. Mas, sob outro aspecto, esses objetivos conflitaram. A guerra no Iraque, que no fundo nada tinha a ver com a Al-Qaeda, consumiu atenção e uma enormidade de recursos dos EUA, e ainda permitiu à organização liderada por Bin Laden criar bases não só no Iraque, mas no Paquistão e extensões pelo Oriente Médio.

Estadão: Os Estados Unidos lançaram-se nessa campanha sabendo o tamanho do inimigo?
Eric Hobsbawm: O perigo do terrorismo islâmico ficou exagerado, a meu ver. Ele matou milhares de pessoas, é certo, mas o risco para a vida e a sobrevivência da humanidade que ele possa representar é muito menor do que o que se estima. Exemplo disso são as importantes mudanças que ocorreram neste ano no mundo árabe, mudanças que nada devem ao terrorismo islâmico. E não só: elas o deixaram à margem.

Agora, o mais duradouro efeito da war on terror, aliás, uma expressão que os diplomatas americanos finalmente estão abandonando, terá sido permitir que os Estados Unidos revivessem a prática da tortura, bem como permitir que os cidadãos fossem alvo de vigilância oficial. Isso, claro, sem falar das medidas que fazem com que a vida das pessoas fique mais desconfortável, como ao viajar de avião.

Estadão
: Diante dos problemas econômicos que hoje afligem os Estados Unidos, ainda sem um horizonte de recuperação à vista, o senhor diria que seguimos em direção a um tempo de declínio da hegemonia americana?
Eric Hobsbawm: Nós de fato caminhamos em direção à Era do Declínio Americano. As guerras dos últimos dez anos demonstram como vem falhando a tentativa americana de consolidar sua solitária hegemonia mundial. Isso porque o mundo hoje é politicamente pluralista, e não monopolista. Junto com toda a região que alavancou a industrialização na passagem do século 19 para o século 20, hoje a América assiste à mudança do centro de gravidade econômica do Atlântico Norte para o Leste e o Sul.

Enquanto o Ocidente vive sua maior crise desde os anos 30, a economia global ainda assim continua a crescer, empurrada pela China e também pelos outros Brics. Ainda assim, não devemos subestimar os Estados Unidos. Qualquer que venha a ser a configuração do mundo no futuro, eles ainda se manterão como um grande país e não apenas porque são a terceira população do planeta. Ainda vão desfrutar, por um bom tempo, da notável acumulação científica que conseguiram fazer, além de todo o soft power global representado por sua indústria cultural, seus filmes, sua música, etc.

Estadão: Não só por desdobramentos político-militares do 11/9, mas também pela emergência de novos atores no mundo globalizado, criam-se situações bem desafiadoras. Por exemplo, o que o Ocidente sabe do Islã? E dos países árabes que hoje se levantam contra seus regimes? Qual é o grau de entendimento da China? Enfim, o Ocidente enfrenta dificuldades decorrentes de uma certa superioridade cultural ou arrogância histórica?
Eric Hobsbawm: Ao longo de toda uma era de dominação, o Ocidente não só assumiu que seus triunfos são maiores do que os de qualquer outra civilização, e que suas conquistas são superiores, como também que não haveria outro caminho a seguir. Portanto, ao Ocidente restaria unicamente ser imitado. Quando aconteciam falhas nesse processo de imitação, isso só reforçava nosso senso de superioridade cultural e arrogância histórica.

Assim, países consolidados em termos territoriais e políticos, monopolizando autoridade e poder, olharam de cima para baixo para países que aparentemente estavam falhando na busca de uma organização nas mesmas linhas. Países com instituições democráticas liberais também olharam de cima para baixo para países que não as tinham. Políticos do Ocidente passaram a pensar democracia como uma espécie de contabilidade de cidadãos em termos de maiorias e minorias, negando inclusive a essência histórica da democracia.

E os colonizadores europeus também se acharam no direito de olhar populações locais de cima para baixo, subjugando-as ou até erradicando-as, mesmo quando viam que aqueles modos de vida originais eram muito mais adequados ao meio ambiente das colônias do que os modos de vida trazidos de fora. Tudo isso fez com que o Ocidente realmente desenvolvesse essa dificuldade de entender e apreciar avanços que não fossem os próprios.

Estadão: Essa superioridade do Ocidente pode mudar com a emergência de uma potência como a China?
Eric Hobsbawm: Mas mesmo a China, que no passado remoto era tida como uma civilização superior, foi subestimada por longo tempo. Só depois da 2ª Guerra é que seus avanços em ciência e tecnologia começaram a ser reconhecidos. E só recentemente historiadores têm levantado as extraordinárias contribuições chinesas até o século 19.

Veja bem, ainda não sabemos em que medida a cultura, a língua e mesmo as práticas espirituais da Pérsia, hoje Irã, enfim, em que medida aquele fraco e frequentemente conquistado império influenciou uma grande parte da Ásia, do Império Otomano até as fronteiras da China. Sabemos? Temos grande dificuldade em compreender a natureza das sociedades nômades, bem como sua interação com sociedades agrícolas assentadas, e hoje a falta dessa compreensão torna quase impossível traduzir o que se passa em vastas áreas da África e da região do Saara, por exemplo, no Sudão e na Somália.

A política internacional fica completamente perdida quando confrontada por sociedades que rejeitam qualquer tipo de estado territorial ou poder superior ao do clã ou da tribo, como no Afeganistão e nas terras altas do sudoeste asiático. Hoje achamos que já sabemos muito sobre o Islã, sem nem sequer nos darmos conta de que o radicalismo xiita dos aiatolás iranianos e o sonho de restauração do califado por grupos sunitas não são expressões de um Islã tradicional, mas adaptações modernistas, processadas o longo século 20, de uma religião prismática e adaptável.

Estadão:
Com todos esses exemplos de ''mundos'' que se estranham, o senhor diria que a história corre o risco das distorções?
Eric Hobsbawn: Apesar de todos esses exemplos, sou forçado a admitir que a arrogância histórica ocidental inevitavelmente se enfraquece, exceto em alguns países, entre eles os EUA, cujo senso de identidade coletiva ainda consiste na crença de sua própria superioridade. Nos últimos dez anos, a história tomou outro curso, muito afetada pelas imigrações internacionais que permitem a mulheres e homens de outras culturas virem para os "nossos" países.

Dou um exemplo: hoje a informação municipal na região de Londres onde vivo está disponível não apenas em inglês, mas em albanês, chinês, somali e urdu. A questão preocupante é que, como reação a tudo isso, surge também uma xenofobia de caráter populista, que se propaga até nas camadas mais educadas da população. Mas, inegavelmente, numa cidade como Londres ou Nova York, onde a presença dos imigrantes de várias partes é forte, existe hoje um reconhecimento maior da diversidade do mundo do que se tinha no passado.

Turistas que buscam destinos na Ásia, África ou até mesmo no Caribe costumam não entender a natureza das sociedades que cercam seus hotéis, mas jovens mulheres e homens que hoje viajam, a trabalho ou estudos, para esses lugares, já criam outra compreensão. Em resumo, apesar da expansão de xenofobia, há motivos para otimismo porque a compreensão abrangente do nosso tempo complexo requer mais do que conhecimento ou admiração por outras culturas. Requer conhecimento, estudo e, não menos importante, imaginação.

Estadão: Imaginação?
Eric Hobsbawm: Sim, porque essa compreensão abrangente é frequentemente dificultada pelo persistente hábito de políticos e generais passarem por cima do passado. O Afeganistão é um clamoroso exemplo do que estou dizendo. Temo que não seja o único.

Estadão: Na sua opinião, estaríamos atravessando um momento regressivo da humanidade quando fundamentalismos religiosos impõem visões de mundo e modos de vida?
Eric Hobsbawm: O que vem a ser um momento regressivo? Esta é a pergunta que faço. Não acredito que nossa civilização esteja encarando séculos de regressão como ocorreu na Europa Ocidental depois da queda do Império Romano. Por outro lado, devemos abandonar a antiga crença de que o progresso moral e político seja tão inevitável quanto o progresso científico, técnico e material. Essa crença tinha alguma base no século 19.

Hoje o problema real que se coloca, o maior deles, é que o poder do progresso material e tecnocientífico, baseado em crescente e acelerado crescimento econômico, num sistema capitalista sem controle, gera uma crise global de meio ambiente que coloca a humanidade em risco. E, à falta de uma entidade internacional efetiva no plano da tomada de decisão, nem o conhecimento consolidado do que fazer, nem o desejo político de governos nacionais de fazer alguma coisa estão presentes.

Esse vazio decisório e de ação pode, sim, levar o nosso século para um momento regressivo. E certamente isso tem a ver com aquele "sentido de desorientação" que discutimos no início da entrevista.

Estadão:
 Apoiado na sua longa trajetória acadêmica, que conselhos o senhor daria aos jovens historiadores de hoje?
Eric Hobsbawn: Hoje pesquisar e escrever a história são atividades fundamentais, e a missão mais importante dos historiadores é combater mitos ideológicos, boa parte deles de feitio nacionalista e religioso. Combater mitos para substituí-los justamente por história, com o apoio e o estímulo de muitos governos, inclusive. Se eu fosse jovem o suficiente, gostaria de participar de um excitante projeto interdisciplinar que recorresse à moderna arqueologia e às técnicas de DNA para compor uma história global do desenvolvimento humano, desde quando os primeiros Homo sapiens tenham aparecido na África oriental e como elas se espalharam pelo globo.

Agora, se eu fosse um jovem historiador latino-americano, daí eu poderia ser tentado a investigar o impacto do meu continente sobre o resto do mundo. Isso, desde 1492, na era dos descobrimentos, passando pela contribuição material desse continente a tantos países, com metais preciosos, alimentos e remédios, até o efeito da América Latina sobre a cultura moderna e a compreensão do mundo, influenciando intelectuais como Montaigne, Humboldt, Darwin. E, evidentemente, eu pesquisaria a riqueza musical do continente, fosse eu um latino-americano. Isso é tudo o que eu quero dizer.

A Roda Bélica da História, por Hobsbawn

1ª Guerra, o banho de sangue

O tempo histórico era outro, avalia Hobsbawm. O mundo ficara quase um século sem um grande conflito e o conceito de "paz" fez-se sinômico de "antes de 1914", ano em que Francisco Ferdinando, da Áustria, foi morto. Detonava-se o conflito que iria sangrar a Europa.

2ª Guerra, o mistério

O mundo sabia o que era uma guerra maciça, mas não uma guerra global. Eis a amarga contribuição da 2ª Guerra, conflito sem limites. Hobsbawm indaga: por que Hitler, esgotado na Rússia, declarou guerra aos EUA, permitindo que se associassem à Grã-Bretanha?

Guerra Fria, o absurdo

Como explicar 40 anos de tensão pela crença de que o planeta poderia explodir a qualquer momento e, contra a destruição total, só haveria a chance da dissuasão mútua? Para Hobsbawm, a Guerra Fria dos tempos de Kruchev carregou a inconclusão da Era da Catástrofe.

Guerra do Golfo, o lucro

Ao findar da Guerra Fria, lembra o historiador, a hegemonia econômica americana já estava abalada. E sua superioridade militar teve que ser financiada por apoiadores de Washington. Na guerra contra o Iraque, em 1991, a potência presidida por Bush pai realizou lucros.

Fonte: O Estado de S.Paulo

Internet assusta os poderosos

Por Laurindo Lalo Leal Filho, na Revista do Brasil:

Numa noite de sábado o Jornal Nacional surpreendeu os telespectadores. Depois de um intervalo comercial, os apresentadores titulares do programa (que geralmente não trabalham aos sábados) passaram a ler o princípios editoriais das Organizações Globo. Muita gente ficou intrigada. Porque aquilo naquela hora? Não havia mais nenhuma notícia importante no mundo a ser dada? E porque só agora, depois de 86 anos de existência, a empresa resolveu divulgar na TV suas normas de trabalho?

Milhões de telespectadores em todo o Brasil ficaram sem respostas. Só quem tem acesso à internet soube do que se tratava. A explicação para o inusitado texto lido no Jornal Nacional estava no blogue “O Escrevinhador”, de Rodrigo Vianna. Nele eram reproduzidas informações de um jornalista da Globo sobre como a emissora pretendia cobrir a indicação do embaixador Celso Amorim para o Ministério da Defesa.

Durante os oito anos do governo Lula em que esteve à frente do Ministério das Relações Exteriores, Amorim sempre foi visto com desagrado pelas Organizações Globo. A empresa não engolia as posições do ministro em defesa da soberania nacional, principalmente quando elas não coincidiam com os interesses dos Estados Unidos.

A volta de Amorim ao primeiro escalão do governo foi uma afronta para a Globo. Segundo o jornalista mencionado no blogue a orientação da empresa era clara: “os pauteiros devem buscar entrevistados para o Jornal Nacional, Jornal da Globo e Bom dia Brasil que comprovem a tese de que a escolha de Celso Amorim vai gerar ‘turbulência’ no meio militar. Os repórteres já recebem a pauta assim, direcionada: o texto final das reportagens deve seguir essa linha. Não há escolha”.

Pena que só internautas atentos ficaram sabendo disso. Jornais e revistas não repercutiram o assunto e muita gente acabou achando que, finalmente, a Globo havia tomado a iniciativa magnânima de expor à sociedade seus princípios editoriais partindo de vontade própria.

Mas mesmo atingindo um público relativamente muito menor do que o da televisão, a internet prestou um bom serviço à sociedade. Inibiu um pouco a ação nefasta armada contra o novo ministro e mostrou que a poderosa organização não consegue mais fingir que denúncias e criticas não a atingem. A Globo sentiu o golpe e tentou responder recorrendo a princípios por ela violados várias vezes ao longo de sua história.

Esperava-se uma mudança de conduta a partir daquele momento. Não foi o que ocorreu. Na mesma edição a apresentadora do Jornal Nacional disse o seguinte: “está foragida a merendeira que pôs veneno de rato na comida de crianças e professores numa escola pública de Porto Alegre”, mostrando uma foto da moça de 23 anos.

Poderia até ser verdade, mas o Jornal Nacional baseava-se apenas numa versão da policia, negada pela acusada. Seu advogado havia divulgado a palavra dela, através da Rádio Guaíba, oito horas antes do JN ir ao ar. Mas para não perder uma notícia espetacular – envenenamento de crianças – nada disso foi levado em conta. Nem os tais princípios editoriais.

Se não fosse outra vez a internet, fatos como esse não estariam sendo contados aqui em detalhes. Foi o blogue do Mello que registrou a violação dos princípios editorais da Globo, na mesma edição em que eles foram divulgados, acompanhados da gravação do desmentido da merendeira feito através do rádio.

Dessa forma vão sendo levantados os véus de interesses que recobrem o noticiário divulgado por grandes meios de comunicação, não só no Brasil mas em várias outras partes do mundo. Parece ser um caminho sem volta.

A medida em que um número maior de pessoas vai tendo acesso à internet, fica cada vez mais difícil para os meios tradicionais de comunicação realizar desvios desse tipo.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Trabalhadores/as da VKR paralisam em Água Fria

Por Genaldo de Melo
Nos dias 13 e 14 de setembro cerca de 120 trabalhadores/as da empresa VKR - Matrizes e Aves, localizada no município de Água Fria, paralisaram seus trabalhos para reivindicar direitos trabalhistas que não são respeitados pelos proprietários da empresa. Os trabalhadores/as presentes a paralização organizados pela FETAG-BA e pelo Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais do município, cansados de tanto esperar pelas devidas respostas das pautas de reivindicações apresentadas, resolveram então realizar esse processo de pressão, considerando que se não for dessa forma naturalmente a empresa não vai de fato atender, pois eles estão se baseando nas experiências anteriores de tentativas de negociação.
Entre as principais reivindicações para que seja realizado o Acordo Coletivo entre os trabalhadores/as e a empresa VKR estão elementos básicos para que aqueles possam de fato ter condições de trabalho, bem uma melhor qualidade de vida. Entre as reivindicações apresentadas à empresa está o pagamento do salário unificado no valor de R$ 600,00, cesta básica no valor de R$ 50,00, água potável e gelada no local de trabalho, reforço alimentar, plano de saúde para todos, utilização de uniformes, bem como outros tópicos que são  considerados como fatores essenciais para a realização de um Trabalho Decente, como preconiza o Organização Internacional do Trabalho.
Coordenando o movimento de paralização esteve Inácio Ribeiro, Secretário de Assalariados da FETAG-BA, bem como Renilda Santos e Sueli Azevedo, respectivamente presidente e tesoureira do Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais de Água Fria. Segundo Inácio “já estava na hora dos trabalhadores/as da VKR paralisarem suas atividades para demonstrar o nível de organização em que estão e a capacidade de exigir seus direitos trabalhistas”. 

Dilma: país enfrentará crise com consumo e produção

A presidente Dilma Rousseff disse nesta terça-feira (13) que a crise econômica internacional não deve "atemorizar" o Brasil, e que o país enfrentará as turbulências mantendo o consumo e a produção. 


"Nós sabemos que a melhor forma de resistir à crise no Brasil é continuar consumindo, produzindo, investindo em infraestrutura, plantando e colhendo, e assegurando às nossas indústrias o seu componente nacional", disse Dilma durante evento em Araçatuba (SP).

A presidente foi ao interior paulista participar do lançamento da pedra fundamental do Estaleiro Rio Tietê, cujas primeiras embarcações devem ser entregues em 2012. Ela assinou ainda protocolo de intenções para investimentos em obras na hidrovia Tietê-Paraná, que conecta os cinco maiores estados produtores de grãos do país – Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Paraná. O aporte federal chega a R$ 900 milhões.

Confira a íntegra do pronunciamento da presidente Dilma Rousseff na cerimônia de lançamento do Estaleiro Rio Tietê:



Os investimentos são parte do objetivo de "reconstruir a matriz de transporte no país", segundo Dilma, e facilitar e baratear o escoamento da produção. "Nós também estamos dando um passo para tornar o nosso país mais forte para enfrentar a crise internacional", disse a presidente.

"Enquanto eles (países europeus) discutem como é que fica a crise da dívida dos seus bancos, nós estamos aqui gastando o nosso dinheiro em parcerias público-privadas, em parcerias entre o governo federal e o governo estadual para criar desenvolvimento, emprego e renda para o nosso país."

Ainda nesta terça (13), Dilma assinou termo que autoriza o início da construção do trecho norte do Rodoanel, em investimento de R$ 6,11 bilhões – R$ 1,75 bilhão em recursos federais. Na ocasião, afirmou que o Brasil pode, deve e enfrentará a crise financeira internacional.
Foto:  Roberto Stuckert Filho/PR


Mercado interno
Mais uma vez, a presidente trouxe para o mercado interno a responsabilidade de assegurar a resistência aos efeitos da crise que traz grandes impactos negativos aos mercados norte-americano e europeu. Ela disse que o governo tem como prioridade garantir que o país continue consumindo, investido, produzindo e assegurando as condições macroeconômicas para a continuidade do crescimento.

Dilma Rousseff lembrou que, ao contrário do resto do mundo, o Brasil não apresenta desequilíbrio orçamentário, possui uma relação dívida/PIB equilibrada, reservas internacionais e compulsórias suficientes, além de uma política clara de investimentos em habitação e no pré-sal e um setor industrial em condições de ampliar esses investimentos.

“Tenho certeza de que essa cerimônia hoje é uma das grandes formas de combater a crise. É afirmar a necessidade de o país continuar investindo em infraestrutura, é continuar tomando decisões (…) e fazer sistematicamente a sua parte. Nós podemos [enfrentar a crise], nós devemos e nós faremos”, afirmou a presidente.

Da redação do vermelho, com UOL e Blog do Planalto

Trabalhadores/as da VKR paralisam em Água Fria

Por Genaldo de Melo
Nos dias 13 agosto cerca de 120 trabalhadores/as da empresa VKR - Matrizes e Aves, localizada no município de Água Fria, paralisaram seus trabalhos para reivindicar direitos trabalhistas que não são respeitados pelos proprietários da empresa. Os trabalhadores/as presentes a paralização organizados pela FETAG-BA e pelo Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais do município, cansados de tanto esperar pelas devidas respostas das pautas de reivindicações apresentadas, resolveram então realizar esse processo de pressão, considerando que se não for dessa forma naturalmente a empresa não vai de fato atender, pois eles estão se baseando nas experiências anteriores de tentativas de negociação.
Entre as principais reivindicações para que seja realizado o Acordo Coletivo entre os trabalhadores/as e a empresa VKR estão elementos básicos para que aqueles possam de fato ter condições de trabalho, bem uma melhor qualidade de vida. Entre as reivindicações apresentadas à empresa está o pagamento do salário unificado no valor de R$ 600,00, cesta básica no valor de R$ 50,00, água potável e gelada no local de trabalho, reforço alimentar, plano de saúde para todos, utilização de uniformes, bem como outros tópicos que são  considerados como fatores essenciais para a realização de um Trabalho Decente, como preconiza o Organização Internacional do Trabalho.
Coordenando o movimento de paralização esteve Inácio Ribeiro, Secretário de Assalariados da FETAG-BA, bem como Renilda Santos e Sueli Azevedo, respectivamente presidente e tesoureira do Sindicato dos Trabalhadores/as Rurais de Água Fria. Segundo Inácio “já estava na hora dos trabalhadores/as da VKR paralisarem suas atividades para demonstrar o nível de organização em que estão e a capacidade de exigir seus direitos trabalhistas”. A paralisação dos funcionários da VKR continua também no dia 14 de agosto e segundo eles se necessários farão greve geral para que seus direitos básicos sejam atendidos.

Recursos Públicos: de onde vêm e de onde não vêm

Estudo realizado pelo Ipea intitulado “Equidade fiscal no Brasil: impactos distributivos da tributação e do gasto social” (de maio de 2011) mostrou que a carga tributária das famílias mais pobres do Brasil é de 32% da sua renda; enquanto a carga tributária das famílias mais ricas é de 21%.

Recursos públicos são arrecadados por intermédio do funcionamento de um sistema tributário que cobra impostos, taxas e contribuições. Um sistema tributário socialmente justo deve ter caráter distributivo, portanto, deve impor maior sacrifício àqueles que têm mais condições de suportá-lo e, ao mesmo tempo, estabelecer menores alíquotas, taxas e contribuições para aqueles que auferem rendas mais baixas e, em consequência, possuem menores estoques de riqueza.

Para tanto, é necessário que o Estado seja forte, isto é, seja bem aparelhado, com pessoal suficiente e de elevada qualidade técnica, possua equipamentos de alta tecnologia e estabeleça regras que facilitem a utilização do seu aparato de inteligência e arrecadação. Também deve possuir legislação que evite que grandes riquezas e as maiores rendas possam se evadir do país legal ou ilegalmente com o objetivo de se eximir de seu dever contributivo.

Um sistema tributário socialmente justo é aquele que possibilita, também, reduzir as desigualdades de riqueza/renda que são socialmente inaceitáveis, assim como possibilita ao Estado oferecer um sistema de gastos públicos que promova a igualdade de acesso e oportunidades.

No Brasil, se por um lado, os programas sociais de transferência de renda, o pagamento de benefícios da Previdência Social pública, a política de valorização real do salário mínimo e a geração de empregos têm tido um caráter fortemente distributivo; por outro, o sistema tributário brasileiro é injusto e regressivo. Em outras palavras, boa parte do gasto público é distributivo; já o sistema tributário sacrifica mais os “de abaixo” e alivia “os de cima”.

Uma análise da carga tributária por base de incidência revela a estrutura concentradora do sistema tributário brasileiro. Segundo dados da Receita Federal, mais que 47% da carga tributária advêm do “consumo”. E menos que 5% advêm de “transações financeiras” e da “propriedade”. E, da “renda”? Tem-se menos que 20% do total arrecadado. (ver abaixo)

CARGA TRIBUTÁRIA POR BASE DE INCIDÊNCIA, ANO 2009

Tipo de Base............Participação Relativa na Carga Tributária Total (%)

Consumo..............................................47,36
Renda..................................................19,88
Folha de salários..................................26,05
Propriedade e Transações Financeiras... 4,91


Fonte: Ministério da Fazenda; Receita Federal.

O imposto sobre o “consumo” é injusto porque trata os diferentes como se fossem iguais. Um bem de consumo adquirido por um rico ou por um pobre possui a mesma carga monetária de impostos. Logo, o esforço tributário do rico para pagar o imposto contido no seu ato de consumo é infinitamente menor que o esforço despendido pelo pobre para realizar o mesmo ato. Veja-se como uma cartilha intitulada “A progressividade na tributação brasileira: por maior justiça tributária e fiscal”(de 2011) lançada pelo Ipea, Dieese e Sindifisco sintetizam o problema:

“Quando um trabalhador assalariado, que ganha um salário mínimo, compra um pãozinho, ele paga os impostos indiretos que estão embutidos no preço do produto. O patrão dele, cuja renda é muito maior, também vai pagar o mesmo imposto! Com a agravante que o trabalhador gasta todo o salário com o consumo dos bens e serviços necessários à sobrevivência – pagando impostos em cada um deles; enquanto o patrão ainda tem dinheiro para investir em diversas modalidades financeiras com tributação baixa, ou mesmo isentas de impostos!”

Cidadãos somente são diferenciados em termos da renda que auferem e do patrimônio que acumularam quando pagam impostos sobre a “renda”, a “propriedade” e as “transações financeiras” que realizam – é exatamente o que não acontece no Brasil. Uma comparação internacional é ilustrativa da injustiça brasileira. Segunda a OCDE, nos Estados Unidos, Suiça e Canadá mais que 50% da carga tributária advêm dos impostos sobre a “renda” e a “propriedade”. No Brasil, a soma da arrecadação sobre a “renda”, a “propriedade” e as “transações financeiras” não ultrapassa 25% do total. Nesses mesmos países, o imposto sobre o “consumo” não alcança sequer 20% da arrecadação total.

É dito que a carga tributária no Brasil é alta e que “é preciso reduzi-la!”. Já inventaram até o impostômetro. Mas, deveriam ter inventado, também, o impostômetro dos pobres [e o jurômetro dos ricos? – para indicar quanto os ricos recebem de juros do Governo – algum milionário quer financiar essa invenção?]. A carga tributária brasileira está em torno de 35% do PIB. É verdade, a carga tributária brasileira não é baixa quando comparada com a carga de países em desenvolvimento. É uma carga assemelhada a dos países desenvolvidos. Entretanto, cabe uma análise mais precisa sobre a distribuição da carga tributária.

Estudo realizado pelo Ipea intitulado “Equidade fiscal no Brasil: impactos distributivos da tributação e do gasto social” (de maio de 2011) mostrou que a carga tributária das famílias mais pobres do Brasil é de 32% da sua renda; enquanto, a carga tributária das famílias mais ricas é de 21%. Os mais pobres pagam (desses 32%) 28% de impostos indiretos quando adquirem bens ou pagam por serviços. Os mais ricos pagam em impostos apenas 10% da sua renda para comprar mercadorias ou contratar serviços.

Para finalizar, valem a pena ser destacados os seguintes pontos (aliás, esquecidos por aqueles que bradam contra a cobrança de impostos no Brasil):

(a) No ano de 2010, do total da receita federal de R$ 826.065 milhões, o Imposto Territorial Rural (ITR) contribuiu com R$ 536 milhões, ou seja, 0,07% do total;

(b) O Imposto de Transmissão Causa Mortis e Doação (ITCD), ou seja, o imposto sobre heranças, cobra alíquotas em torno de 4%; nos países desenvolvidos, pode chegar a 40%;

(c) Lanchas, jatinhos e helicópteros são isentos de pagamento de impostos; um carro popular usado paga anualmente Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).

(*) Professor-Doutor do Instituto de Economia do Rio de Janeiro.

As consequências para o mundo do declínio dos Estados Unidos

Há uma década, quando eu e alguns outros falamos do declínio dos EUA no sistema-mundo, recebemos, no melhor caso, sorrisos condescendentes pela nossa ingenuidade. Não eram os Estados Unidos a única superpotência, com envolvimento em cada canto remoto do planeta, e impondo as suas posições na maior parte das vezes? Esta visão era partilhada por todo o espectro político. O artigo é de Immanuel Wallerstein.

Hoje, a opinião de que os Estados Unidos estão em declínio, em sério declínio, é uma banalidade. Todos o dizem, excepto uns poucos políticos norte-americanos que temem ser recriminados pelas más notícias da decadência se forem discuti-la. O fato é que hoje quase todos acreditam na realidade do declínio.

Mas o que se discute muito menos é quais têm sido e serão as consequências mundiais deste declínio. Este tem, evidentemente, raízes econômicas. Mas a perda de um quase-monopólio do poder geopolítico, que os Estados Unidos já exerceram, tem as mais importantes consequências políticas em todo o lado.

Comecemos com uma pequena história contada na secção de negócios do The New York Times de 7 de agosto. Um gerente financeiro de Atlanta “carregou no botão pânico” devido a dois clientes que lhe ordenaram que vendesse todas as suas ações e investisse o dinheiro num isolado fundo mútuo. O gerente disse que, em 22 anos como agente de negócios, nunca tinha recebido uma ordem como esta. “Isto não tinha precedentes”. O jornal observou que a ordem era o equivalente à “opção nuclear”. Ia contra o santificado conselho tradicional de uma “abordagem ponderada” às reviravoltas do mercado.

A Standard & Poor's reduziu o rating dos Estados Unidos de AAA para AA+, o que também é “sem precedentes”. Mas tratou-se de uma ação bastante suave. A agência equivalente na China, a Dagong, já tinha reduzido a notação financeira, em novembro passado, para A+, e agora reduziu-a para A-. O economista peruano Oscar Ugarteche declarou que os Estados Unidos são uma “República das bananas”. Disse que os EUA “optaram pela política da avestruz, esperando com isso não afugentar as esperanças [de melhoria].” Reunidos em Lima, os ministros das Finanças da América do Sul tiveram um debate urgente sobre como se protegerem melhor dos efeitos do declínio econômico dos EUA.

O problema de todos é que é muito difícil isolar-se destes efeitos. Apesar da severidade do seu declínio econômico e político, os Estados Unidos permanecem um gigante na cena mundial, e qualquer coisa que lá aconteça ainda provoca grandes ondas em todo o lado.

É certo que o maior impacto do declínio dos EUA é e continuará a ser sofrido nos próprios Estados Unidos. Políticos e jornalistas estão a falar abertamente da “desfuncionalidade” da situação política dos EUA. Mas o que mais poderia ser, além de desfuncional? O fato mais elementar é que os cidadãos dos EUA estão atordoados pela simples existência do declínio.

Não se trata apenas de os cidadãos dos EUA estarem sofrendo materialmente com o declínio, e terem um temor profundo de virem a sofrer ainda mais com o tempo. A questão é que acreditavam profundamente que os Estados Unidos são a “nação escolhida”, designada por Deus ou pela história para ser a nação modelo do mundo. Ainda estão a receber a garantia do presidente Obama de que os Estados Unidos são um país AAA.

O problema para Obama e para todos os políticos é que muito pouca gente ainda acredita nisso. O choque para o orgulho nacional e a auto-imagem é formidável, e também é muito abrupto. O país está lidando muito mal com esse choque. A população está à procura de bodes expiatórios e a fustigar feroz e não muito inteligentemente os presumíveis culpados. A última esperança parece ser a de alguém ser culpado, e o remédio mudar as pessoas que têm autoridade.

Em geral, as autoridades federais são vistas como as únicas responsáveis –o presidente, o Congresso, os dois maiores partidos. A tendência é muito forte no sentido de haver mais armas a nível individual e uma redução do envolvimento militar fora dos Estados Unidos. Culpar de tudo os políticos de Washington leva à volatilidade política e a lutas intestinas locais cada vez mais violentas. Eu diria que os Estados Unidos são hoje uma das menos estáveis entidades políticas no sistema-mundo.

Isso faz dos Estados Unidos não só uma nação cujas lutas políticas são desfuncionais, mas também um país incapaz de exercer muito poder real no cenário mundial. Assim, há uma grande queda na credibilidade dos Estados Unidos e do seu presidente por parte de tradicionais aliados externos, e por parte da base política doméstica do presidente. Os jornais estão cheios de análises dos erros políticos de Barack Obama. Quem pode contradizê-los? Eu poderia fazer facilmente uma lista de dezenas de decisões de Obama que, na minha opinião, estavam errados, foram covardes, e às vezes francamente imorais. Mas pergunto-me: se ele tivesse decidido de acordo com o que pensa a sua base, o resultado teria sido muito diferente?

O declínio dos Estados Unidos não é o resultado de más decisões do seu presidente, mas de realidades estruturais no sistema-mundo. Obama pode ser ainda o indivíduo mais poderoso do planeta, mas nenhum presidente dos Estados Unidos é ou poderia ser hoje tão poderoso quanto os presidentes do passado.

Entrámos numa era de agudas, constantes e rápidas flutuações – nas taxas de câmbio da moeda, nos índices de emprego, nas alianças geopolíticas, nas definições ideológicas da situação. A extensão e a rapidez destas flutuações leva à impossibilidade de previsões a curto prazo. E sem alguma estabilidade razoável das previsões de curto prazo (três anos ou mais), a economia-mundo paralisa-se. Todos terão de ser mais protecionistas e virados para dentro. E os padrões de vida vão cair. Não é uma imagem bonita. E, embora haja muitos, muitos aspectos positivos para muitos países devido ao declínio dos EUA, não é certo que, com o barco do mundo a balançar ferozmente, outros países sejam de facto capazes de lucrar aquilo que esperam desta nova situação.

É tempo de fazer análises de longo prazo muito mais sóbrias, de fazer julgamentos morais muito mais claros sobre o que a análise revela, e de realizar uma ação política muito mais eficaz no esforço de, nos próximos 20-30 anos, criar um sistema-mundo melhor do que aquele em que estamos todos enredados hoje.

(*) Tradução, revista pelo autor, de Luis Leiria para o
Esquerda.net

De que lado estão o jornalista?

Por Carlos Castilho, no Observatório da Imprensa:

Quase todo jornalista sente o seu ego inflar quando é apresentado em público como uma pessoa que está por dentro das coisas. Quando se trata de política, futebol e economia, é o especialista que sabe o que pensa e o quer o político, o cartola e o banqueiro. Um profissional nessas condições é chamado pelos norte-americanos de insider e goza de muito prestígio porque é quem supostamente sabe de coisas que os vis mortais ignoram.

O problema é que a própria definição de insider coloca o profissional num dos lados da informação, o lado de quem tem poder, de quem pode gerar notícias e influenciar a agenda pública. Mas este é o lado certo do jornalista? Se formos seguir os manuais, a resposta provavelmente será negativa, porque a função do jornalista é buscar, conferir, editar e publicar informações que permitam ao cidadão ter uma vida digna e inserir-se no convívio social.

Estamos, portanto, diante de um paradoxo. Para cumprir suas funções o jornalista deveria ter como preocupação principal “estar por dentro” do que pensa e quer o cidadão. Os tomadores de decisões também são cidadãos, mas não são eles que compõem a grande massa da população, que é quem vota e precisa de informações para poder participar na definição dos rumos de uma sociedade.

Mas a rotina das redações empurra os jornalistas na direção contrária. Eles, de maneira geral, acabam consultando mais o político, o empresário e o cartola do que as pessoas que compram jornal e, em última análise, pagam os salários da Redação. O paradoxo, por sua vez, alimenta um equivoco: o jornalista está se identificando com o lado errado da noticia.

Mas este não é o único problema na definição do papel do jornalista e do jornalismo na realidade contemporânea. A dinâmica da indústria dos jornais e da televisão torna compulsória da busca de audiências cada vez maiores, o que obriga os veículos de comunicação a serem cada vez mais generalistas, oferecendo um produto informativo padronizado para públicos diversos.

Com isso a informação foi se misturando cada vez mais com o entretenimento, uma associação que agrada os tomadores de decisões porque aguça seu ego competitivo, mas priva a grande massa de cidadãos dos elementos que afetam sua sobrevivência diária, como o simples ato de saber como evitar juros astronômicos numa compra a prazo.

A associação com o lado socialmente errado da notícia levou a imprensa a tratar a política como um jogo de especialistas — ou insiders. Neste jogo importa mais noticiar quem está ganhando, como e por que. O corolário inevitável dessa atitude é a valorização da esperteza porque esta é condição para evitar uma derrota. E se é indispensável ser esperto para vencer, a vitória acaba ofuscando os questionamentos morais.

O professor Jay Rosen, da Universidade de Nova York (CUNY), diz que a soma dessas três características desenvolveu entre os jornalistas o culto da perspicácia, ou seja, a capacidade de identificar protagonistas e estratégias do jogo do poder. A perspicácia seria uma combinação de habilidade e esperteza. Seria mais uma questão de mostrar performance do que cultura e preocupação com o interesse publico.

Não há nada de errado no fato de usar a perspicácia na cobertura eleitoral, por exemplo. O problema é quando essa habilidade deixa de ser usada em beneficio do cidadão para ser apenas um ingrediente no jogo do poder. Isso está acontecendo com uma frequência tão grande que a distorção já não é mais notada.

Muitos jornalistas e insiders afirmam, com alguma razão, que precisam seguir as regras do jogo para poder informar sobre política ou economia. A questão é que a convivência prolongada com o poder acabou desenvolvendo tendência à síndrome de Estocolmo [1] na maioria dos repórteres políticos. A convivência com os políticos, economistas e empresários acabou criando uma cumplicidade que hoje é responsável por grande parte do viés equivocado no noticiário, especialmente no político, econômico, policial e até no esportivo.

1- Síndrome de Estocolmo é uma expressão surgida após um longo sequestro num banco de Estocolmo, na Suécia, em 1973, quando os reféns desenvolveram uma atitude simpática em relação aos sequestradores.

O declínio da democracia nos EUA

Por Eliakim Araujo, no sítio Direto da Redação:

Não adianta Obama dizer que “dez anos depois os EUA estão muito mais seguros” porque verdadeiramente não estão. Os fatos estão aí para comprovar que a declaração do presidente não passa de uma frase de ocasião. Afinal, o que mais poderia dizer o inquilino da Casa Branca em um momento como este, em que a emoção toma conta do país de costa a costa, e a televisão não se cansa de rememorar passo a passo, sinistramente, os acontecimentos daquele Onze de Setembro, há dez anos?

É preciso dar uma injeção de ânimo numa sociedade que enfrenta hoje as maiores dificuldades econômicas desde a Grande Depressão dos anos trinta. Só assim se justifica a frase de Obama que está nas manchetes dos jornais deste domingo nos EUA.

O que aconteceu de imediato depois dos atentados de 2001 foi a entrada do país em duas guerras absolutamente desnecessárias e, sobejamente provado, declaradas com base em mentiras.

Guerras que, enquanto servem para enriquecer o complexo industrial-militar e as corporações ligadas à reconstrução dos países destruídos, levaram os EUA à (quase) bancarrota, como no recente episódio do aumento do teto do dívida, impagável, de, pasmem, mais de 14 trilhões de dólares, quando o governo declarou, para o mundo inteiro ouvir, que não teria dinheiro para pagar seus compromissos sociais e os juros da dívida.

Guerras que, além de perdas humanas (6.236 até este domingo, no Iraque e no Afeganistão), consomem recursos incalculáveis, que poderiam estar sendo empregados em setores deficientes como educação, pesquisa de energia limpa, combate ao desemprego e à pobreza, que atinge quase um sexto da população.

Mas, talvez, pior do que o colapso econômico, a queda das torres em NY há dez anos mostrou a vulnerabilidade da outrora maior potência do planeta, num item em que se auto-proclamavam campeões, o da democracia. Os acontecimentos posteriores aos atentados jogaram o país no fundo do poço nas questões dos direitos individuais e constitucionais.

A tão decantada democracia e o respeito aos direitos humanos foram substituídos pelas prisões ilegais, por tempo indeterminado, sem uma acusação formal contra suspeitos, cujos direitos constitucionais de ver um advogado ou parentes e amigos foram solenemente ignorados.

Na semana que passou, o site da CNN divulgou o artigo “Como o 11 de setembro deu início ao declínio de nossa democracia”, de Warren Vincent, diretor executivo do Centro de Direitos Constitucionais. Dele, transcrevo alguns trechos para a reflexão do leitor:
O 11 de setembro foi trágico de muitas maneiras, e marcou o início do declínio da democracia em nosso país...

Foi o dia em que começamos a deixar que o medo corroesse a nossa crença em nosso próprio sistema de governo, com todas as suas leis e tratados. Apostando no medo, nosso governo começou a operar fora da lei e, nesse processo, destruiu muito mais vidas do que aquelas perdidas nos ataques.

Nosso governo envolveu-se na vigilância e espionagem dos cidadãos, sem a aprovação judicial exigida por lei. A administração Bush fez mais do que isso, porém. Pouco depois de 11/09, autorizou a Agência de Segurança Nacional para escutar, sem um mandado, as chamadas telefônicas e outras comunicações eletrônicas de milhões de americanos, a maioria dos quais não eram suspeitos de praticar algum crime.

Depois de 11/09, o presidente Bush jogou pela janela os procedimentos legais, mantendo prisioneiros em Guantánamo sem acusação formal e sujeitando alguns deles a injustos tribunais militares. O presidente Obama alargou esse esses aspectos ilegais e injustos em Guantánamo. No início deste ano, ele assinou uma ordem executiva criando um sistema formal de detenção indefinida em Guantánamo e autorizou a formação de novos tribunais militares para os que lá estão detidos.

Nosso governo subcontratou corporações privadas, com pouca responsabilidade por suas ações, para conduzir interrogatórios e outros deveres exclusivos dos militares.

Escondeu os detidos em Abu Ghraib, em violação ao direito internacional e doméstico e os manteve afastados da Cruz Vermelha. E criou, na Baía de Guantánamo, um buraco negro legal que se tornou um símbolo mundial da maneira como o nosso país virou as costas aos direitos humanos e à lei.

No Centro de Direitos Constitucionais, vemos os rostos destas novas vítimas a cada dia. Nossos clientes são homens e mulheres apanhados em varreduras ilegais, de perfil racial definido, negociados por recompensas em aldeias distantes. Eles foram detidos indefinidamente, torturados e sofreram abusos. Suas vidas foram destruídas porque eles eram "os outros" e não merecem o nosso respeito, ou mesmo de nossas proteções.

Mas a democracia é a presunção de inocência. O direito ao devido processo legal e ao corpo de leis e acordos internacionais que foram cuidadosamente construídos ao longo dos séculos para proteger todas as pessoas da perseguição de autoridades arbitrárias.


E Warren Vincent assim conclui o artigo:

Talvez seja a hora de admitir que perdemos o nosso caminho e começar um novo.

Uma “nova” Líbia, desagregada e a serviço do imperialismo

Editorial do Vermelho

O filme que o mundo assiste na Líbia pós Kadafi e pró-Otan não é novo e pode ter um final trágico para o povo líbio. Ele já foi visto, por exemplo, nas últimas décadas da história afegã.

A intervenção dos EUA no Afeganistão desde meados da década de 1970, quando o país derrubou a monarquia e iniciou um regime laico e progressista, fortaleceu os mujahidin (“guerreiros de Deus”, que os americanos chamavam, então de “combatentes da liberdade”) e abriu uma guerra civil contra o governo afegão que indicava a intenção de iniciar a transição ao socialismo, com apoio soviético.

Intervenção estrangeira e pró-fundamentalista que se concluiu, em 1996, com a proclamação da “República Islâmica do Afeganistão”, com base da sharia, a severa lei islâmica, e dirigida pelo grupo fundamentalista Taleban, formado pelo extremismo estudantil (taleban, em pachto, significa “estudante”) que os EUA e o Ocidente haviam fortalecido na luta contra o comunismo e a república democrática e laica do Afeganistão. Esta é a raiz da instabilidade atual agravada pela agressão militar por tropas dos EUA (desde 2001) que alimenta um conflito sangrento que parece interminável .

Há um forte paralelo entre aqueles acontecimentos e a situação a que a Líbia foi reduzida após a interferência militar agressiva e ilegal dos EUA e da Otan, com bombardeios aéreos contra cidades líbias e apoio descarado a milícias anti-Kadafi.

Um forte sinal do desenrolar de um roteiro semelhante ao afegão no cenário líbio foi dado dia 12 por Mustafa Abdel Jalil, líder interino do chamado Conselho Nacional de Transição. Ele foi claro: a Líbia patrocinada pela Otan e pelos EUA deixará de ser um estado laico e passará a ser regida pela sharia. "Somos uma nação muçulmana, a favor de um islamismo moderado, e nos manteremos neste caminho", que será “a principal fonte de legislação”, disse. Intenção confirmada por outro dirigente da Líbia que emerge dos ataques dos EUA e da Otan, o xeque Abdel Ghani Abu Ghrass, para quem é "preciso destacar o caráter islâmico do novo Estado líbio" que será governado de acordo com a sharia.

O conflito na Líbia ainda não terminou, embora o apoio à situação de fato tenha sido ampliado com a decisão do governo chinês de reconhecer o Conselho Nacional de Transição (CNT) como novo governo do país. A China era o único membro permanente do Conselho de Segurança da ONU que não havia tomado essa decisão.

A instabilidade está escrita no horizonte, seja pela determinação de Muamar Kadafi e seus apoiadores de não desistirem e continuarem a luta contra os novos colonizadores, seja pela própria divisão entre os que se arrogam ao domínio do país mas, presos a divisões tribais que permanecem, não se entendem sobre o futuro.

O CNT, que fala em formar um governo de transição dentro de uma semana, mesmo havendo ainda inúmeros pontos de resistência, promete uma normalidade constitucional para 20 meses – quase dois anos! – depois que a Líbia for considerada “livre”.

Outro sinal da divisão e da intolerância são as denúncias que começam a surgir, chanceladas pela Anistia Internacional, da prática de tortura, espancamentos de adversários, perseguições políticas, assassinatos e crimes de guerra cometidos pelas tropas do CNT – justamente aquelas que foram apoiadas pelos EUA e Otan a pretexto de massacres semelhantes que teriam sido praticados pelas tropas de Kadafi.

Estes crimes são movidos inclusive pelo racismo e incluem o linchamento de combatentes negros suspeitos de lutarem ao lado das tropas de Kadafi.

A agressiva hipocrisia militarista dos EUA e da Otan prometeram ao mundo uma Líbia “democrática” mas o resultado de sua agressão e do apoio armado, logístico e financeiro às forças mais retrógadas da sociedade líbia acena com um futuro turbulento e instável. Mas favorável ao fortalecimento do controle pelas nações imperialistas do petróleo da região e a um regime reacionário. Da mesma forma como o Afeganistão, o Iraque, a Arábia Saudita, Israel e os outros governos que servem os interesses do imperialismo na região.

Monopólio da mídia dificulta saída para crise; debate virou farsa

“O problema da mídia no mundo inteiro é esse monopólio de algumas empresas que veiculam a visão dominante. Elas são a classe dominante. Nos anos 50 e 60 na Europa, por exemplo, você tinha uma mídia diversificada que expressava as posições políticas distintas. As pessoas liam o 'Avanti!', o 'La Unità'... Havia debate político. Hoje você não tem debate. O que você tem é uma farsa".


A constatação é do economista Luiz Gonzaga Belluzzo e foi apresentada durante o debate ‘Neoliberalismo, um colapso inconcluso', promovido pela Carta Maior. Acompanhe, a seguir, a íntegra do discurso de Belluzzo.

Ideias dominantes

"O consenso em torno de certas ideias de dominância financeira - ideias que estão na origem da atual crise - não seria possível sem a sua vocalização pela mídia.

Não se trata de uma teoria conspiratória, estou dizendo que isso se deu através de um processo social em que as camadas dominantes impõem as ideias dominantes. A gente nunca pode perder essa dimensão da luta social; como ela se desenvolve e como maneja os símbolos, os significados, as palavras.

Tome o exemplo da queda da taxa de juros brasileira. Isso produziu em certas pessoas (da mídia) uma estupefação; em algumas mais estupefação, em outras alguma indignação. As que ficaram mais estupefactas sempre ouviram o contrário, que era um perigo, era a ruína. As ideias, como dizia um autor do século XIX, tem uma força material enorme - a força material das idéias dominantes.
Wall Street no comando
Norberto Elias, o sociólogo, dizia que é muito difícil você desconstruir um consenso como este. Daí o papel crucial da luta social e política. Ou você acha que a crise vai se resolver mecanicamente, por ela mesma? Não vai. É necessário formular alternativas.

A solução dita ‘normal' é previsível, diz o economista americano Doug Henwood, que tem uma newsletter de nome muito interessante, 'Left Business Observer'. Henwood foi encarregado de escrever sobre Wall Street, antes e depois da crise. É muito fácil, asseverou. Antes da crise, Wall Street era o lócus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA. Depois da crise, Wall Street continua sendo o locus mais poderoso de interesses políticos, econômicos e sociais dos EUA.

Emprenhados pelo ouvido

Um repórter que te entrevista sobre política monetária e ouve algo contrário a esses interesses, daqui e de lá, hesita em publicar; se publica o faz cheio de ressalvas. Esse jornalista foi emprenhado pelo ouvido, durante anos, para perguntar e ouvir sempre a mesma coisa.

O problema da mídia no mundo inteiro é esse monopólio de algumas empresas que veiculam a visão dominante. Elas são a classe dominante. Nos anos 50 e 60 na Europa, por exemplo, você tinha uma mídia diversificada que expressava as posições políticas distintas. As pessoas liam o 'Avanti!', o 'La Unità'... Havia debate político. Hoje você não tem debate. O que você tem é uma farsa".

Fonte: Luiz Gonzaga Belluzzo, Carta Maior