Editorial edição 452 do Brasil de Fato
Após 8 meses enfrentando os intensos bombardeios promovidos pelas tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), o presidente da Líbia Muamar Kadafi foi preso e assassinado no dia 20 de outubro. O acontecimento é o ápice da trama feita pela França, Inglaterra e Estado Unidos para se apoderar das reservas petrolíferas em condições ainda mais favoráveis, lucrar com a indústria bélica, sempre acionada nas crises econômicas do capitalismo, e vislumbrar exorbitantes lucros com a reconstrução do país que eles destruíram.
Como homem e estadista, escreveu o jornalista lusitano Miguel Urbano no dia do seu assassinato, Muamar Kadafi foi uma personalidade complexa, cuja vida refletiu suas contradições. O seu governo, de 42 anos de existência, intercalou períodos de prosperidades socioeconômicas e de identidade com o pan-arabismo com um governo autocrático e, nas duas ultimas décadas, preocupado em abrir a economia e ser bem recebido pelas potências capitalistas do ocidente. De vilão, promotor do terrorismo mundial, assim retratado pela mídia burguesa até os anos de 1990, passou a ser fotografado de braços dados com os principais chefes de Estados do ocidente. Tornou-se um aliado importante na luta contra o terrorismo e, principalmente, contra a migração africana ao continente europeu.
A guerra liderada pela Otan para derrubá-lo do poder o obrigou a retornar às origens do seu governo, traído pelos aliados do ocidente. Com o tempo o povo líbio, livre das versões editadas pela mídia sediada nos países imperialistas, saberá situar na história o real significado do seu governo.
Mas, além do que foi o governo Kadafi , os acontecimentos que iniciaram em fevereiro e culminaram com o assassinato de um chefe de Estado que causou um jubiloso suspiro da Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, frente às câmeras de televisão, outros fatos merecem atenção.
Mais uma vez a ONU virou um joguete nas mãos das potências capitalistas. As primeiras mobilizações populares, na Líbia, surgiram em 15 de fevereiro. Um mês depois, em 17 de março, a ONU deu autorização para os países aliados à Otan intervirem e tomar todas as medidas necessárias para proteger a população civil. Foi a senha para que a Otan iniciasse o genocídio, bombardeando as principais cidades do país. Pode agora a ONU atestar, olhando para os escombros causados pelos bombardeios aéreos, que os milhares de mortos não eram civis? E, se ficar comprovado que a Otan extrapolou a autorização que recebeu, a ONU terá disposição e capacidade para julgar e puni-la? Na Síria, segundo a própria ONU, mais de 3 mil pessoas foram mortas pelo governo ditatorial daquele país. Em nenhum momento a ONU sinalizou adotar a mesma medida que foi fundamental para derrubar Kadafi . Continuar repetindo que seu objetivo era proteger os civis é um exercício de hipocrisia ou pensar que a população mundial é completamente desprovida de inteligência.
Tentar caracterizar essa agressão imperialista nos marcos das lutas populares que caracterizam a Primavera Árabe é outro acinte à inteligência humana. As revoltas populares que derrubaram os governos ditatoriais da Tunísia e do Egito, e que se espalharam por todo o Oriente Médio e norte da África, se caracterizaram por manifestações massivas e que primaram pela resistência pacífica. A Otan aproveitou-se das diferenças e conflitos existentes entre as etnias líbias para dar um caráter popular à sua ofensiva contra Kadafi . Os rebeldes antikadafistas mais pareciam personagens saídos do filme Mad Max, como escreveu o jornal britânico Daily Mail. Eram soldados e mercenários contratados, treinados e armados pela Otan. Hoje, fortemente armados. Esse contingente de mercenários será combustível para que o conflito, a violência, os assassinatos e o medo junto à população continuem existindo.
Agora, frente à reação da opinião pública mundial, a ONU pede que sejam investigadas as circunstâncias em que ocorreu o assassinato do presidente líbio. O governo provisório, o Conselho Nacional de Transição (CNT), afirma que fará a investigação. Há dúvidas se foi mesmo um assassinato, depois de estar preso, desarmado e imobilizado? Falta então encontrar os responsáveis. Para ambos, ONU e CNT, é necessário apenas um espelho e visitar Londres, Paris e Washington para encontrar os que estão com as mãos sujas de sangue do povo líbio.
Dois dias antes do assassinato, em Trípoli, Hillary Clinton disse aos estudantes líbios que esperava que Kadafi fosse logo preso ou morto. Ou seria o desejo de vê-lo preso e morto? Foi assim com o ex-aliado, agente da CIA Manuel Noriega, presidente do Panamá deposto e mantido preso incomunicável nos EUA desde 1990. Saddan Hussein, serviçal dos EUA nas guerras contra os curdos e o Irã, foi deposto da presidência do Iraque, julgado por funcionários estadunidenses, sem direito a defesa e enforcado de forma vil. Agora, foi a vez de Kadafi . Assim, não faltam exemplos recentes que atendem os desejos da atual Secretária de Estado dos Estados Unidos.
O desrespeito e agressão à soberania dos povos é são constantes na política externa dos EUA. Julgam-se a maior democracia do planeta porque a cada cinco anos trocam a bunda que senta na cadeira presidencial. No entanto, todos acabam declarando e perpetuando guerras para imporem seus interesses ao mundo. Que se envergonhem os que concederam o Prêmio Nobel da Paz aos que promovem genocídios. Certamente no futuro ficarão aprisionados em seus países, como é hoje o caso de Henry Kissinger, Nobel da Paz em 1973, temeroso de ser preso se vistar alguns países da Europa e da América do Sul.
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